Capítulo Vinte (último)
- Dax? – ouvi um sussurro ao meu ouvido. Antes que eu pudesse reclamar, senti carícias na minha bochecha direita. Ouvi um riso suave quando soltei um pequeno grunhido e mexi a cara para o lado. – Dax, tens que acordar.
- Tenho?
- Sim, brutamontes. Não queres ficar nesta maca para sempre, ou queres?
- Ava. – abri os olhos imediatamente, encontrando duas pérolas de safira à minha espera.
Ava estava sentada numa cadeira, com os braços pousados nos pequenos ferros que me prendiam à maca. Quando viu que eu estava completamente acordado, puxou os ferros para baixo e aproximou-se de mim, beijando-me suavemente na testa. Queria beijar os seus lábios, mas tinha medo de esticar o meu pescoço e sentir dor, porque sentia dor em todo o meu corpo. Ava, por outro lado, apenas tinha uma pequena ferida na sua bochecha, algo que me deixou feliz. O pânico que eu senti quando ouvi aquele tiro...o silêncio mortífero, assustador... Nunca mais queria voltar a passar por aquilo.
Irónico como vivera um terço da minha vida a proteger os outros, a proteger pessoas que nem conhecia - os meus clientes - mas me era tão difícil não ceder ao pânico quando alguém de quem eu gostava estava no meio da confusão. A ideia de perder Ava para uma situação como aquelas era horrível; a ideia de a perder de todo apertava-me o coração.
- Como é que estás? – perguntou-me, numa voz delicada e sorridente. Quando voltei a olhar para os seus olhos, percebi que ela chorava.
- Ava...
- Chiu. Deixa-me preocupar por uma única vez, Daxon Tyler. – soltei um breve riso, sentindo-me contente quando notei que não doeu muito.
- Tive tanto medo de te perder, Ava.
- De me perder? Seu idiota, eu vi-te a ser esfaqueado. – encolhi os ombros, abanando igualmente a cabeça. – O Nate foi preso, Dax. Ele e o Dan. Mas o Nate...tantas queixas contra ele, segundo o meu irmão.
- Quanto tempo é que passou?
- Um dia. Tu acordaste de manhã mas, quando o médico chegou, tinhas adormecido outra vez. Ele preferiu falar com a tua mãe e pronto. Estamos todos aqui desde ontem à noite.
- Todos?
- Eu, o Max, a tua mãe, a Mia, o Asher, o Deke e o Steve. – arregalei os olhos. – É o que eu te digo, Dax. Eles adoram-te, já fazes parte da família. Tu e o Max.
Assenti, mas não respondi verbalmente. Ela sorriu-me e esticou o seu pescoço para me dar mais um beijo na testa. Fechei os olhos, ouvindo-a explicar que a minha mãe tinha ido a casa tomar um duche, com a boleia de Max. Fiquei feliz, porque sabia quanto a minha mãe odiava hospitais – com toda a razão, na verdade – e pedi para ela me contar tudo o que tinha acontecido. Ela recusou, no entanto, dizendo que só o faria quando todos tivessem uma oportunidade de me ver. Depois de mandar uma mensagem pelo seu telemóvel, agarrou a minha mão e acariciou-a em silêncio, até as vozes distintas de Mia e de Deke aparecerem.
- Então foi por isto que ele não conseguiu ir ver o meu jogo. Pronto, aceito.
Assim que vi o rapaz mais novo, comecei a rir. Mia limpou os cantos dos seus olhos e, num pulo, estava do outro lado da minha maca a abraçar-me com todo o carinho que conseguia. Ava sorriu-me quando eu olhei para ela, encolhendo os ombros como se não quisesse nem tentar explicar a reação da sua irmã. Deke, por outro lado, permaneceu no fundo da minha maca e, para o ver melhor, pedi a Ava que me ajudasse a dobrar a maca. Finalmente sentado, cumprimentei o rapaz decentemente e agradeci aos dois a visita. Mia bateu-me suavemente no braço.
- Nunca agradeças a alguém por fazer o que é suposto.
Repeti a sua frase na minha mente várias vezes até perceber que, de facto, ela tinha razão. Ainda assim, naquele caso, não calculava que fosse suposto o irmão do namorado da irmã da minha namorada ter que me vir visitar. Só quando ele me olhou atentamente e me disse, em palavras que pingavam sinceridade, que estava feliz por eu estar bem é que eu percebi o que Ava realmente quis dizer. De alguma forma, eu tinha entrado naquela família que eles tinham formado entre eles. Ainda não tinha conhecido os tais amigos de Asher que andavam a viajar pelo mundo mas, do que as gémeas me tinham falado deles, iria gostar de os conhecer. E, embora eu não estivesse habituado a estar rodeado de pessoas como eles, sabia que me iria fazer bem.
Estava na hora de eu ter mais amigos que apenas o Max, apesar de o meu melhor-amigo ser completamente insubstituível.
A certo ponto, eles os três começaram a falar entre eles, deixando-me para trás na conversa. Não o fizeram por mal, mas eu estava demasiado cansado e, por o estar, não tinha energia para acompanhar os pulos que Mia e Deke faziam de conversa em conversa. Ava estava habituada, claro, mas eu sentia que ainda ia demorar algum tempo até estar completamente confortável com todos os seus amigos. Com o uso da palavra, lembrei-me das amigas que Ava me tinha apresentado no início da nossa frágil amizade e perguntei-me onde elas estariam. Ela quase não falava delas e eu praticamente me tinha esquecido das três raparigas, o que me fazia achar que provavelmente Ava se apercebera de que aquela amizade não era boa para elas. Esperava que sim, pelo menos.
Eventualmente, Ava obrigou Declan e Mia a darem a sua vez a outras duas pessoas e Asher e Steve apareceram. Steve não controlou a vontade de me abraçar, tal como a sua irmã mais nova fizera, algo que eu não conseguia não achar engraçado. Aqueles dois eram tão parecidos, mas tão diferentes ao mesmo tempo que era fascinante – Ava era o perfeito intermédio entre os dois, quase como se fosse a irmã mais velha de Mia e não irmã gémea. Era um equilíbrio manhoso, de qualquer forma. Asher, que outrora era muito mais falador e bem-humorado que Steve, naquele dia parecia muito mais contido. Acenou-me e ficou no mesmo lugar que o seu irmão mais novo, ao fundo da maca, observando-me como que para se certificar de que eu estava realmente bem.
Mais uma vez, agradeci a sua presença e recebi, da parte da Asher, a mesma frase que Mia me tinha dito. Olhei para Ava quando reparara e ela sorrira-me e, com um beijo na mão que ela nunca largara, prometera contar a história num outro dia. Assenti, sorrindo-lhe, e voltei a prestar a atenção aos dois rapazes que nos olhavam atentamente.
- A Ava descobriu que gosta de agarrar em armas, não foi, Aves? – Steve começou, fazendo-me arregalar os olhos e olhar para a minha namorada. Ava revirou os olhos.
- Ele está a mentir, Dax. – suspirei - Eu estava aterrorizada.
- Eu estava aterrorizado só de olhar para ti.
- Quem não ficaria assustado depois de a ver a deixar um homem com o dobro do seu tamanho inconsciente? – Asher soltou, forçando uma expressão medrosa, mas o sorriso que se seguiu era divertido.
Perto de meia hora depois, a minha mãe e Max apareceram – ambos choraram. Ava nunca saiu do meu lado, sendo que a certo ponto foi mais por mim do que por escolha própria. Quando a minha mãe apareceu, ela tentou soltar a minha mão e afastar-se, alegando que deveria deixar-nos a sós, mas eu não deixei. Max, no entanto, pegou-a nos seus braços e sentou-se na cadeira onde ela tinha estado. Com Ava no seu colo, portanto, ficaram os dois do meu lado direito, enquanto a minha mãe agarrava a minha mão esquerda, com lágrimas nos olhos.
Não conseguia imaginar o que era estar na posição da minha mãe, e não sabia quanto é que ela sabia da situação. No entanto, a certo ponto, as minhas dúvidas foram respondidas pela facilidade com que ela, Max e Ava falavam de Nate. Olhei para Ava, completamente confuso, mas ela sussurrou que ela e Steve tinham-lhe contado tudo assim que se tinham encontrado no hospital. Assenti, feliz por não ter que ser eu a divulgar toda a informação. Nate ter sido preso já era um alívio mas, depois de saber tudo o que ele tinha feito, depois de saber quão fortemente ele tinha afetado a minha vida e a da minha família, imaginá-lo atrás de uma grade dava-me todo um outro tipo de satisfação.
Quando uma auxiliar apareceu com o meu jantar, Ava prometeu ajudar-me a comer. Não era preciso, mas eu sabia que ela estava ansiosa para cuidar de mim, então deixei que ela me ajudasse a comer a sopa. Eventualmente, quando a hora das visitas estava a terminar, pedi para ficar um pouco sozinho com Ava. A minha mãe compreendeu e anunciou que iria ficar a dormir em minha casa até eu ter alta, para depois ajudar no que eu precisasse. Senti os meus olhos encherem-se de lágrimas e limitei-me a assentir e a agradecer. Ela abraçou-me com força e beijou a minha testa. Antes de ir embora, sussurrou umas palavrinhas que me partiram completamente o coração, mas que me deram mais força. Obrigada por teres sobrevivido.
- Segundo os médicos, vais ter que ficar aqui mais alguns dias, porque os médicos precisam de saber se precisas de fisioterapia na perna...o quê? – parou de falar, quando reparou que eu estava parado a olhar para ela. – Não vais voltar a agradecer-me, pois não?
- Ia, mas agora já não vou. – ela soltou um breve riso, continuando a acariciar a minha mão. Estava a fazer aquilo há horas, sem parar.
- Graças a tudo o que aconteceu, pude pedir alguns dias pagos no trabalho. Quando tiveres alta, se a tua mãe me deixar e se tu me quiseres, peço férias para a ajudar a tomar conta de ti. – abri a boca para refutar, mas ela tapou-ma. – Claro que é preciso, Daxon. Tenho a sensação que não vais ser um utente nada fácil.
- Ava, como é que tu estás? – ela fechou os olhos, abanando a cabeça. – Passaste aqui o dia, passaste uma noite com a minha mãe, mas tu...tu também sofreste muito ontem.
- Estou abalada. – admitiu, numa voz fraquinha. – O Steve já me marcou uma consulta com um psicólogo, para eu...para eu conseguir lidar com algumas coisas. Aquilo que o Nate fez foi horrível, Dax. Não sabia mesmo que ele era capaz de tudo aquilo.
- Nem eu. – suspirei. – Tu foste maravilhosa ontem, Ava. Defendeste-te tão bem... Eu vi-te, a defenderes-te do Dan e fiquei tão orgulhoso. Deixas-me tão orgulhoso. – ela fungou, encolhendo os ombros. – A sério. Não precisas de mim ou de qualquer outro homem para te defender, consegues fazê-lo sozinha. Para não falar de que também me ajudaste ontem. Eu, o brutamontes.
Ela limitou-se a rir e a esticar mais uma vez o pescoço mas, em vez de me beijar na testa ou na bochecha como tinha feito nas últimas horas, beijou-me finalmente nos lábios. Suspirei contra os seus lábios, aliviado por estar a sentir tudo o que ela me fazia sentir. Aliviado porque nenhum de nós tinha morrido e porque ambos os nossos atacantes tinham sido presos. Aliviado porque, apesar de estar num hospital sem a alta no meu horizonte, tudo estava bem. Com Ava a acariciar os meus cabelos e a depositar beijos leves e lentos nos meus lábios...tudo estava bem.
Ava separou-se de mim poucos segundos depois, alegando que não queria abusar da sua sorte ao ficar mais tempo do que o permitido. Não queria que ela fosse embora, porque sentia que tinha acabado de acordar, mas também sentia o cansaço a invadir-me mais uma vez. Suspirei quando a vi realmente a levantar-se, não gostando exatamente da ideia de passar uma noite no hospital sem ninguém ao meu lado, mas tinha que ser. Agradeci-lhe, tão rápido quanto consegui antes de ela tapar a minha boca mais uma vez, e fechei os olhos quando ela voltou a beijar a minha testa.
- Se te portares bem, pode ser que a enfermeira me deixe dar-te banho amanhã. – piscou-me o olho, fazendo-me rir.
- Espero que sim. Se bem que não estou propriamente entusiasmado para ver como esta perna está. – suspirei, frustrado com a situação.
Podia estar feliz por estar vivo e frustrado ao mesmo tempo, certo?
- Daqui a uns meses nem te vais lembrar das dores que estás a sentir agora. Toda a dor é passageira. – assenti, concordando. – Não te esqueças, meu amor. Eu cuido de ti e tu cuidas de mim.
- Eu cuido de ti e tu cuidas de mim. – sussurrei, antes de ela me beijar uma última vez e fechar a cortina que rodeava a minha maca atrás de si.
e assim terminamos esta aventura.
eu não gosto de sequelas. gosto de finais abertos e de deixar a imaginação dos leitores voar em relação a tudo o que fica por fazer. não gosto de me fartar dos mundos que crio. mas a ava... a ava mereceu. a verdade é que esta Ava não era, inicialmente, a Ava Irmã da Mia, mas conforme fui pensando melhor nela, mais elas as duas se mergiam numa só pessoa. A Ava, depois de tudo o que passou na Cair e Levantar, merecia alguém que a ajudasse a ganhar confiança em homens (e em pessoas, no geral) outra vez. merecia um Dax, um brutamontes que no fundo é um ursinho de peluche.
nesta história tratei, como gosto de fazer, muitos assuntos importantes. por meio de exageros e de caricaturas, espero que aquilo que eu acredito tenha sido explícito, por meio das minhas personagens. estes dois lindos lutaram muito para chegarem onde estão - tanto no contexto de uma relação como individualmente - e merecem tudo no mundo. devagarinho, conseguiram
deixo ao vosso encargue imaginarem como acontece o seu futuro assim que o Dax sair do hospital. eu imagino que o Miles e o Jake aparecem, adoram o novo namorado da Ava e os nossos dois melhores-amigos-preferidos, cujo nome até rimam, tornam-se parte da grande e linda família que foi criada na Cair e Levantar e trespassou para a Devagar Se Vai Ao Longe. imagino o Deke e o Max a apaixonarem-se - nem me perguntem porquê, mas o meu coração shippa-os DE UMA MANEIRA!!!!!! - e todos eles serem felizes para sempre
imagino a avó do Asher (lembram-se deste anjo?????) e a mãe do Dax a serem melhores amigas
espero que tenham gostado desta pequena montanha-russa de emoções e sentimentos, de drama e de romance, e obrigada a quem leu <3 até a uma próxima história!
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