Capítulo Oito

Só quando acordei é que percebi que tinha adormecido ao lado de Ava. Antes de abrir os olhos, senti um corpo quente ao meu lado, braços em cima do meu peito e uma respiração a bater-me no pescoço. Respirei fundo, apreciando por momentos a sensação de ter Ava a dormir ao meu lado numa posição tão íntima quanto aquela. Depois, ganhei finalmente coragem para abrir os olhos e olhei à volta; ela tinha-se esquecido de fechar os estores e o sol estava a começar a entrar no quarto, mas não era tarde. Eu apostaria que fossem cinco, seis da manhã no máximo.

Talvez Ava tivesse sentido o meu corpo a ficar mais tenso porque, pouco depois, vi-a a mexer-se um pouco para se enroscar melhor contra mim. Olhei para ela, reparando que a sua face estava praticamente toda tapada pelos seus cabelos escuros e, retirando uma mão de debaixo do edredão, coloquei as madeixas de cabelo cor de chocolate atrás da sua orelha. Mesmo adormecida – ou maioritariamente adormecida – Ava soltou um sorriso suave e inocente, respirando fundo.

Não sabia se queria sair daquela cama ou não.

- Dax...fica... - sussurrou ao meu ouvido. A minha reação foi um arrepio intenso trespassar-me dos pés à cabeça. Soltei uma respiração profunda, fazendo-a sorrir contra o meu ombro.

- Não posso...

- Porque não? É tão cedo. – a sua voz ganhou muito mais força para as últimas frases que proferiu e isso fez com que eu olhasse diretamente para ela.

Aqueles olhos azuis... Duas pérolas, emolduradas por pestanas que lhe davam uma forma de amêndoa e faziam toda a sua face brilhar. Suspirei curtamente, não sabendo bem o que fazer. Eu não queria ir embora, mas sentia que tinha que o fazer - sem nenhuma razão em específico. No entanto, com ela a olhar para mim daquela maneira, não ganhei forças para a recusar. Ela estava tão pacífica, como nunca a tinha visto antes, e eu queria mantê-la naquele estado de espírito.

Senti a sua mão quente debaixo da minha t-shirt, poucos segundos depois de ter feito a decisão na minha mente. Talvez ela não tivesse notado na diferença da minha postura e quisesse continuar a convencer-me, mas não era necessário. Um único olhar da sua parte e eu era absolutamente dela, por muito que ela não o soubesse ainda. Ainda assim, esperei para ver o que ela iria fazer, não querendo ser um obstáculo no objetivo que ela tinha colocado para si própria. Senti os seus dedos a acariciarem os meus abdominais, lentamente, como quem estava a testar território. Talvez estivesse, na verdade. Nunca tínhamos estado naquela posição, ou numa tão íntima.

Como instinto, pousei a minha mão na sua bochecha que não estava encostada a mim e acariciei-a suavemente com o polegar. Ela fechou os olhos, nunca parando de desenhar no meu tronco, e abriu os seus lábios, soltando um suspiro enquanto o fazia. Sorri para mim mesmo e puxei-a para mais perto, com o braço que ainda a rodeava. Estávamos completamente entrelaçados debaixo dos seus lençóis azuis e eu apanhei-me a não querer estar em nenhum outro lado. Sentia que pertencia ali, com ela entrelaçada a mim, naquele colchão incrivelmente confortável. Ava parecia ter sido feita para estar permanentemente encostada a mim, por muito estranho que isso me soasse.

- Dax... - suspirou o meu nome, levantando uma das suas pernas para a colocar em cima das minhas. Num só movimento, ela estava em cima de mim, olhando-me de cima. Sorriu-me.

- Ava. – tentei pará-la, fazer a minha voz suar mais severa ou algo do género, mas ela viu através das minhas tentativas e voltou a sorrir.

Retirando a mão de debaixo da minha t-shirt, agarrou na minha cara com ambas as suas mãos. Os seus polegares pousaram nas maçãs do meu rosto e deslizaram pelas minhas bochechas, acariciando a minha barba. Ela estava claramente a tentar conhecer-me, a observar-me, a testar-me. Ao saber qual era a sua profissão dela, tudo me fez mais sentido. Toda ela era científica, racional, e não faria nada sem o testar primeiro. Apesar disso, de saber qual seria a lógica mais provável a passar na sua mente, deixa-a fazer o que queria comigo. Mais que isso, dei-lhe toda a liberdade para o fazer ao fechar os olhos.

- Quero muito beijar-te. – murmurou e só pelo facto de a sua respiração bater diretamente nos meus lábios é que percebi quão perto ela estava. – Mas não sei se o queres também.

Apertei as suas coxas nas minhas mãos, indeciso entre responder verbal ou fisicamente. Quando ela pousou um leve beijo no meu maxilar, percebi que ela queria mais que aquilo de mim. Queria que eu lhe mostrasse com clareza as minhas intenções, apesar de não ter feito qualquer movimento para a afastar de mim. Demorei a perceber a razão para tudo aquilo mas, passados uns momentos, compreendi. Ela recusava-se a fazer o que lhe tinham feito: tocar sem permissão, sem consentimento. E, por ter percebido aquilo, por saber dentro de mim que era aquilo que ela estava a fazer, Ava ficou mil vezes mais bonita no meu cérebro.

- Quero. Claro que quero, Ava. – e, para lhe mostrar que estava a ser honesto, abri finalmente os olhos. Azul contra azul, contra luz matinal.

Por uns segundos, limitámo-nos a olhar um para o outro, mas não demorou até que ela se aproximasse. Tinha acabado de processar a ínfima distância entre os nossos lábios quando ela chocou os seus lábios contra os meus. Apesar de termos acabado de acordar, consegui sentir um pouco do aroma fresco da sua pasta de dentes. Com um joelho em cada um dos meus lados, Ava apertou o meu corpo com as suas pernas e deslizou as suas mãos das minhas bochechas para os meus cabelos. Eu, em contrapartida, levei as minhas mãos até às suas costas e pressionei os nossos corpos ainda mais.

Num único gesto, inverti as nossas posições e coloquei-me em cima do seu corpo. Abri os olhos apenas para verificar que ela continuava a querer tocar-me e, quando ela me sorriu aquele sorriso de maravilha que me mostrara na noite anterior, sorri de volta. Beijei-a mais uma vez, deixando uma das minhas mãos entrar na sua t-shirt, devagarinho, e chegar ao seu peito. Ela deitou a cabeça para trás, voltando a circular a minha cintura com as suas pernas, e ofereceu o seu pescoço aos meus lábios. Sorri contra a sua pele e fiz-lhe a vontade, nunca parando de a acariciar com tudo o que tinha disponível.

A fraca luz que entrava pela janela fazia tudo parecer muito mais íntimo. Debaixo dos seus lençóis azuis, e debaixo de mim, eu tinha Ava. A mesma Ava que não me saía da cabeça há mais de um mês, que arranjava sempre maneira de se infiltrar nas minhas noites, na minha vida. Na noite anterior, ela teria conseguido convencer-me a fazer tudo o que quisesse, se fosse esse tipo de pessoa, mas ao invés disso...ofereceu-me a sua cama, a sua companhia. Aquela rapariga tinha uma força tão grande em mim e nem sequer o sabia; se o sabia, era incrivelmente humilde em relação a isso.

Não demorou muito até ela puxar a bainha da minha t-shirt preta para cima, até sair completamente do meu corpo. Eu sabia que deveria controlar-me, que deveria evitar avançar demasiado com ela naquela manhã, mas a verdade é que não era eu quem tinha o controlo naquela situação. Era Ava. Por muito que me custasse abdicar do controlo, não me era difícil fazê-lo quando o passava à rapariga dos olhos azuis mágicos e dos sorrisos brilhantes. Ofegante, voltei a abrir os olhos para a encarar; ela fizera o mesmo que eu e, com um sorriso tímido, parara a olhar para mim.

- Por favor?

Demorei a perceber o que ela me estava a pedir. Só quando ela olhou para o espaço entre nós é que eu reparei que eu estava a agarrar a sua t-shirt com imensa força, quase a retirá-la do seu corpo mas a controlá-la. A forma como ela me olhou, no entanto, foi a minha ruína. No momento seguinte, voltei a beijá-la e permiti que os nossos corpos se entrelaçassem como ambos queríamos. Talvez eu já o quisesse fazer há demasiado tempo mas, naquele momento, pareceu-me perfeito. Conhecia-a o suficiente, sabia que ela confiava em mim o suficiente para eu não repensar todos os meus passos. Quando ela soltou um grunhido suave ao meu ouvido e puxou os meus cabelos, eu soube que tinha feito a escolha certa.

Ela tinha em si a capacidade de me arruinar. Mas, ao olhar para ela e para toda a suavidade que a compunha, eu sabia que ela nunca seria capaz de o fazer.

- Precisas de comer e de beber água, Ava. Ontem bebeste demasiado. – afirmei, uns minutos em silêncio depois de me deitar ao seu lado. Ela acariciava mais uma vez o meu tronco e depositava leves beijos na minha clavícula.

- Preocupas-te demasiado comigo, Dax.

- Eu sei. – admiti, esticando um dos meus braços para voltar a acariciar os seus cabelos. – Não consigo controlar.

- Não precisas. – tentou garantir, com voz serena e um sorriso doce. – Eu gosto que cuides de mim. Mas também preciso de cuidar de ti para isto resultar.

- Isto? – questionei, numa voz divertida e com uma sobrancelha levantada. Ela corou, mas nem por isso se recusou a encontrar o meu olhar. Levantou o queixo e assentiu, completamente confiante na mensagem que estava a passar. – Hm. Está bem, então. Tu cuidas de mim e eu cuido de ti, é esse o acordo?

- É esse o acordo. – repetiu, num murmúrio, antes de me voltar a beijar.

- Ainda assim, tens que comer. Onde é a cozinha? Eu faço-nos o pequeno-almoço.

- Nem pensar! – e, num único pulo, Ava sentou-se sobre as suas pernas. – Eu cozinho para nós. Preferes comer o quê?

Revirei os olhos e afirmei ser-me indiferente. Por uns segundos, Ava mostrou-se completamente ofendida, mas depois as suas feições relaxaram e ela lançou-me um sorriso. Não saiu da sua cama sem antes me beijar na bochecha, no entanto, algo que me permitiu relaxar. Pegou num robe que estava pendurado na porta da sua casa de banho e, ao voltar a passar por mim antes de sair do quarto, eu puxei-a para perto de mim e obriguei-a a sentar-se nas minhas pernas. Na verdade, não queria ficar sozinho no seu quarto, rodeado pelas fotografias recheadas de memórias onde eu não tinha participado, para não ser confrontado precisamente com a vontade de estar numa das fotografias. Não lhe disse nada disso, no entanto, limitando-me a acariciar as suas pernas e a beijar o seu pescoço.

- As roupas do Asher definitivamente não te servem, mas se quiseres tomar banho de qualquer maneira, estás à vontade. – afirmou, por entre beijos dos meus lábios na sua pele. – Dax, foca-te em mim.

- Eu estou focado em ti desde que te conheci, Ava. – ela riu alto. Um riso alegre e divertido, que fez o seu peito tremer e a sua cabeça deitar-se no meu ombro. – Não preciso de tomar banho, mas obrigado.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela levantou-se e saiu do seu quarto. Do outro lado da parede onde a sua cama estava encostada, conseguia ouvi-la a mexer nos aparelhos que tinha na cozinha e perguntei-me o que é que ela iria cozinhar. Não me apressei a vestir a minha roupa de volta, no entanto; por um lado, porque tinha ganho uma preguiça enorme de repente e, por outro, porque não sabia até que ponto me queria apressar a partilhar um cenário tão...caseiro, com ela. De qualquer forma, quando apertei o cinto das minhas calças, não havia maneira de o evitar mais. Abri a porta do quarto e caminhei calmamente até Ava que, enrolada ainda no seu robe, batia qualquer coisa numa taça amarela. Encostei um dos ombros na ombreira da porta, observando-a por uns segundos. Ela parecia feliz.

Teria sido por minha causa? Esperava que sim, mas também sabia que ela precisaria de encontrar felicidade sozinha.

- Para de me observar e vem cá, Daxon Tyler. – ri um pouco para a sua rapidez de pensamento e, levantando as mãos em inocência, aproximei-me dela. – Estou a fazer panquecas.

- Para um batalhão?

- Oh, seu pobre ingénuo. – riu um pouco, abanando a cabeça. – Estas panquecas vão ser o nosso pequeno almoço, mas também vão ser o meu almoço com a Mia. Eventualmente com o Asher, se ele aparecer. Faço sempre comida a contar com ele.

- Adorável. – murmurei junto ao seu ouvido, envolvendo o seu corpo nos meus braços.

Ela inclinou a sua cabeça e, ao fazê-lo, ofereceu-me o seu pescoço. Beijei-a suavemente na sua pele macia e com um cheiro fraco a suor e a perfumes variados. Eventualmente, quando cheguei à sua clavícula, ela riu um pouco e percebi que aquele era um sítio onde ela tinha cócegas. Ela continuou a rir, porque eu não parei de lhe fazer cócegas naquele sítio, mas tudo nela era bem-humorado e feliz. Sorri contra a sua pele, apertando-a quase impercetivelmente contra mim.

Ouvi passos antes de ouvir a porta da frente abrir, mas nem por isso deixei de abraçar a rapariga à minha frente. Ela, por outro lado, estava completamente ignorante de que a sua irmã estava prestes a entrar no apartamento das duas porque virou-se para mim, depois de pousar a taça amarela na bancada, e puxou a minha cara para mais perto de si. Como seria de esperar, não arranjei em mim forças para lutar contra ela e deixei que ela me beijasse, sentindo o sabor à massa das panquecas.

- Shh Asher, a Ava ainda não deve ter acordado. – ouvi Mia dizer e, quando me separei de Ava, olhei para o pequeno hall de entrada do apartamento. Asher notou em mim primeiro.

- Bom dia, Dax. – cumprimentou-me, com o ar sereno de sempre. Ava ficou visivelmente sobressaltada nos meus braços, mas disfarçou bem.

- Bom dia, Asher.

Mia, pelo contrário, arranjou maneira de tropeçar contra a porta quando ouviu a minha voz e caiu nos braços do namorado.

- Mia! – Ava aclamou, não sabendo se deveria rir ou repreender a irmã. Asher, por outro lado, tinha claramente decidido porque agarrava a namorada com uma expressão que me indicou que ele estava habituado àquele tipo de incidentes. Não contive a vontade de rir. – O que é que estão aqui a fazer? São seis da manhã!

- Ava, meu amor, eu poderia fazer-te a mesma pergunta, não achas? – Mia questionou e, com um último olhar para o namorado da rapariga mais baixa, que me olhava completamente divertido e com uma sobrancelha levantada, olhei para Ava.

- Tens razão. – encolheu os ombros, olhando para mim com um sorriso confiante – Panquecas?


panquecas!!!!

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