VINTE E DOIS - Compartilhar
— Que merda é... — Falei antes de eu mesma me correr para cima de Lura que lutava com Felipa no chão.
Uma mão forte me segurou no lugar. Enquanto o treinador e Stefano separavam as duas.
Eu nem ao menos sabia porque a manipuladora da escuridão tinha me batido, eu tinha direito de revidar. Lutei contra meu pai, que se recusava a me deixar ir. Quando finalmente a briga foi separada Lura se virou para mim. Seus olhos queimavam com um ódio que eu nem ao menos sabia de onde vinha.
— É tudo sua culpa. — Ela falou para mim. — Você espalhou que Daniel era um traidor, e agora ele não tem outra alternativa, não tem para onde ir. Quem diria, que a boazinha sofrida dos moquifos, que fez com que todo mundo gostasse dela assim que pisou na mansão, era na verdade uma vaca, fria e manipuladora.
Felipa fez menção de escapar de Stefano para continuar a briga com Lura, mas eu a impedi com um aceno de cabeça.
Minha mente processou a informação. Minha culpa? Daniel tinha traído todo mundo e eu vi. Vi cada momento da reunião que ele teve com sua mãe e ouvi quando falaram sobre seu plano de se aproximar de mim. Ele tinha usado sua habilidade para ganhar minha confiança.
— O que quer dizer? — Perguntei.
Lura riu, e Raphael se mexeu ao meu lado, incomodado.
— Daniel me ajudou a sair do centro político quando eu achei que teria que me render. Ele teve que voltar porque soube que não seria bem vindo aqui, por conta das suas mentiras.
— Já chega. — Ouvi o treinador interferir. — Devem se preparar e se concentrar para amanhã. Não vou permitir esse tipo de coisa.
Meus olhos se encontraram com os de Lura. Senti a confusão ser substituída por irritação. Eu não tinha inventado nada daquilo e iria fazê-la ver.
Empurrei minha habilidade contra a raiva que eu sentia emanar de Lura. Seu escudo mental se rompeu facilmente, e eu entrei. Minha mente buscou a memória, e eu a transmiti para a manipuladora da escuridão.
— Devia se aproximar dela. Ganhar sua confiança. Não foi isso o que nos acabaram de nos informar.
Vi Lura arregalar os olhos, e os demais suspirarem ao perceberem que algo estava acontecendo.
— Deixe-a. Ela está apenas mostrando-a. — Ouvi a Voz de Jase.
— Sabia que ela podia fazer isso? — José falou.
— Sim. Ela fez isso para mim e Stefano uma vez.
Eu tinha. Para mostrar para Jase e Stefano o que a Anti tinha me dito sobre minha mãe, eu tinha feito algo que nunca tinha feito antes, compartilhar memórias.
— Precisamos da garota. — Ouvi a voz de Laura passar novamente pelos meus lábios, que se levantaram ligeiramente em um sorriso torto.— Está tudo pronto, mestre.
— O quê? — Daniel perguntou, de repente alerta. — O quê está começando?
— A era da Ordem. — O mestre respondeu.

Lura tinha saído sem dizer uma palavra no dia anterior. Parecendo tão chocada quanto eu, quando vi aquela cena pela primeira vez.
Vesti o uniforme preto, que tinham nos entregado um pouco depois da minha chegada. Era bem parecido com o uniforme que vestíamos na mansão, com exceção de que ali todos vestiam a mesma cor negra, independentemente de seu elemento, ou até mesmo se eram manipuladores ou não.
— Está pronta? — Ouvi Felipa dizer.
Eu assenti e segui Felipa para fora do quarto, em direção ao saguão, onde eu sabia que já estavam nos esperando.
— Você está bem? — Ela perguntou. — Está calada depois de tudo que ontem.
— Estou. — Falei. — É só que ainda não sei muito bem o que pensar sobre tudo isso. Eu deveria ter percebido antes.
— Ele enganou a todos nós.

Jase. Stefano. Raphael. Julliam. Lorena. Felipa e eu. Esse era o time que tinha sido chamado para a missão de extração, como tinham chamado. Teríamos que observar os arredores e esperar o horário combinado. As demais pessoas que tinham chegado com a gente já tinham sido colocadas em outros grupos táticos.
— Estamos esperando rondas da ordem naquele lado das fronteiras, não com tantos homens, nada muito desafiador. Mas devem estar preparados. — O Treinador falou.
Jase assentiu, abrindo a porta da van que tinha acabado de entrar a garagem subterrânea.
— Nunca saiu da capital, não é? — Raphael me perguntou assim que sentamos lado a lado na van escura.
Neguei.
— A primeira vez que sai dos moquifos ou quadrantes foi quando viemos para cá. E por enquanto só vi o interior do centro de treinamento.
O manipulador de fogo deu um meio sorriso. E segurou minha mão na sua.
— Não é um lugar fácil de se viver. Nem bonito. — Ele contou. — O assentamento para onde vamos agora é um dos piores.
Calor emanava de Raphael, eliminando o friozinho que a madrugada trazia. Quando a porta escondida do quartel se abriu apenas o suficiente para a van emergir para superfície.
Terra vermelha, e nenhuma árvore. A van seguiu pela trilha estreita de terra, guiada apenas pela luz da lua, não correriam o risco de ligar qualquer luz ou farol tão perto de seu local seguro.
— O quão ruim é? — Perguntei para Raphael, ao meu lado Felipa encostava a cabeça no ombro de Stefano, para tentar cochilar na viagem que demoraria algumas horas.
— Depende. — Raphael respondeu. — Para manipuladores a trabalho da nova república, é suportável. Mas para refugiados, e sem elemento, faz os moquifos parecerem o quadrante vermelho.
Levantei uma das sobrancelhas.
— O que fez lá atrás com Lura foi impressionante. — Ele tornou a falar.
O compartilhamento de memórias. Agora eu compreendia um pouco melhor como aquilo funcionava, a funcionalidade de minhas busca podia ser interessante, mas eu não imaginava como poderia usá-la em batalha.
— Obrigada. Ainda estou tentando descobrir como funciona. — Expliquei.
Raphael deu uma risadinha.
— Nossas habilidades e nosso elemento são mistérios, e dificilmente conseguiremos entender até onde podem nos levar. Mesmo depois de tantas pesquisas, ainda não conseguiram chegar em uma resposta, não se cobre muito. Está aprendendo tudo isso mais rapidamente do que qualquer um aqui conseguiria.
Olhei para o rio tormentoso no olhar de Raphael. Ele deu um pequeno sorriso e e levou sua mão quente até meu pescoço, enlaçando seus dedos em meus cachos bagunçados pela falta de tempo pela manhã. Eu suspirei, e me aproximei. Nossas testas se encontraram, e Raphael acariciou minha bochecha.
Meu coração disparou, mas as muitas pessoas na van pequena nos impedia de qualquer outra coisa além.
O som de alguém limpando a garganta na poltrona de trás me assustou.
Meu pai, eu vi quando eu e Raphael nos separamos.
O manipulador de fogo sorriu, divertido, mas sua mão continuou na minha. Quente, confortável, me lembrando o que ainda não tinha coragem de admitir.

Oláaaa, capítulo novo atrasadíssimo! Espero que tenham gostado mesmo assim.
Obrigada pela paciência, e por acompanhar até aqui!
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