Capítulo 2
Assim que os olhos azuis de Serena encontraram Cecília, a jovem abriu um largo sorriso.
— Ceci! — exclamou, largando a mala rosa choque e correndo para um abraço apertado. — Eu estou tão feliz em ter sua companheira no nosso primeiro lar proteano!
Sem graça, a brasileira deu tapinhas leves nas costas de Serena e resmungou um "que legal, né". Assim que as duas se afastaram, a amarela se voltou para Breena, cheia de empolgação e também a abraçou:
— Muito obrigada por me receber!
A proteana sorriu para Serena.
— O prazer é nosso. Que tal eu levá-las até seus quartos para que possam tomar um banho e nos encontrarem para o jantar? Cecília escolheu ficar em uma das edículas e Serena preferiu um dos quartos, correto?
As duas concordaram. A azul lançou um olhar de lado para a amarela, sentindo uma alfinetada de irritação que controlou com uma combinação de inspiração e expiração profunda.
A estadia na edícula tinha como contraprestação a colheita de frutos e cuidados com o jardim. O quarto, por sua vez, era uma opção para visitas, e não exigia nada de quem o ocupasse.
Nas entrevistas, Breena ofereceu as duas opções, mas Cecília não podia conceber a ideia de chegar ao novo planeta e ser um fardo para sua garantidora. Além disso, queria ganhar seus próprios créditos para conseguir mais autonomia e entender melhor como as coisas em Protea funcionavam.
No entanto, era óbvio que Serena escolheria a opção que daria às garantidoras mais trabalho. Afinal de contas, era acostumada a ter os outros lhe servindo na Terra, por que seria diferente em outro planeta?
— Vamos começar acomodando Serena, já que os quartos ficam no andar de cima.
A proteana começou a subir a escada em formato de caracol. Serena puxou sua mala e olhou para os degraus de madeira.
— Ceci, será que você pode me ajudar?
Ela piscou os longos cílios e lançou um olhar desamparado e meigo que, por certo, tinha lhe rendido bons frutos na Terra. Mas ela estava em Protea agora.
— É por isso que eu escolhi uma mochila, Serena. Para não carregar peso — Cecília girou o corpo apenas o suficiente para que Serena pudesse ver sua grande e surrada mochila de viagem, quase estufada com todos os itens que ela conseguiu fazer caber dentro.
— Eu sei, eu sei... Mas o que custa ajudar? — Serena projetou o beiço inferior.
Cecília considerou responder que ela não era obrigada a carregar o peso dos outros, mas percebeu que Lani observava a interação entre as duas, enquanto misturava alguns ingredientes em uma panela.
O que a proteana pensaria, se ela recusasse? Entenderia sua posição, ou acharia que humanos são egoístas e não se importam uns com outros?
Pigarreando, ela concordou com um aceno de cabeça e forçou um sorriso solícito.
— Claro, vamos lá.
As duas subiram a mala com alguma dificuldade, chegando ao topo da escada levemente esbaforidas. Ao contrário do térreo, o andar de cima era dividido em quatro aposentos. Apenas as portas do meio estavam abertas.
A proteana explicou que aqueles quartos haviam pertencido às suas filhas, Rita e Beti, mas que estavam vazios desde que elas tinham saído para o mipore, um processo proteano de migração.
O primeiro tinha as paredes cobertas por desenhos de animais; alguns tinham traços incertos e claramente infantis, mas outros eram bem realistas. Cecília notou que a maior parte dos desenhos era de um animal muito semelhante aos elefantes, mas com chifres para combinar com suas longas presas. O segundo tinha uma decoração mais viva, repleta de vasos com plantas e flores exóticas.
Enquanto Ceci analisou os quartos com timidez do limite da porta, Serena tocou as mobílias, espiou a vista das janelas, sentou nas camas para testar os colchões, inspecionou os desenhos na parede de perto e abriu os armários e gavetas.
Por fim, a bilionária decidiu pelo segundo quarto, afirmando, sem papas na língua, que tinha ficado com medo dos desenhos de animais do outro quarto e que não conseguiria dormir olhando para eles.
Cecília quis desmaiar de constrangimento, mas Breena não pareceu se incomodar com a franqueza. Quando foi chegada a vez de levar a brasileira até as edículas externas, Serena também as acompanhou.
Do lado de fora da casa, existia um jardim lindo, iluminado pelos raios turquesa do sol que se punha e por alguns focos de luz no chão, que começavam a se acender à medida que a noite chegava. Cerca de cento e cinquenta metros de distância da casa principal, era possível enxergar duas edículas, razoavelmente distantes uma da outra.
Eram significativamente menores do que a casa principal, mas igualmente charmosas. Tinham poucas mobílias, uma cama de casal, cozinha equipada com itens básicos e um banheiro pequeno. No teto, um ponto do telhado havia sido substituído por um tampo de vidro, que permitia a entrada de luz natural. A única coisa que destoava da ordem do ambiente eram os vários rabiscos nas paredes, que lembravam as pixações que se acumulavam nos prédios da Terra.
— É uma pena... — Serena suspirou, com olhar de desaprovação. — Vocês têm muitos problemas com vândalos?
Breena riu, passando os dedos por alguns escritos na parede.
— São recados deixados por nossos hóspedes antes de partirem... De vez em quando, Lani e eu gostamos de vir aqui e reler as paredes, lembrando de cada um que esteve aqui — A proteana suspirou, com um sorriso nos lábios e os olhos brilhantes de saudosismo.
Curiosas, Cecília e Serena analisaram com mais atenção as inscrições nas paredes. De fato, ali havia nomes, datas, frases e desenhos.
Por um momento, Cecília se permitiu perceber que estava entrando num ambiente que já havia sido visitado e habitado por dezenas de outros proteanos antes dela.
— É incrível, Breena. Obrigada!
A proteana sorriu.
— Vou deixar você se acomodar. Nos encontramos em seguida na casa para o jantar, está bem?
X
O caldo que Lani preparou tinha um aroma delicioso, e uma aparência ainda mais convidativa. Era laranja e cremoso, com flores, ramos e legumes cortados.
Quando, seguindo o exemplo do casal do outro lado da mesa, Cecília segurou a tigela de madeira e sorveu o conteúdo, sua língua ficou dormente e seu cérebro deu um nó.
Ela nunca tinha sentido um sabor assim antes.
Não era exatamente salgado, ou terroso, mas tinha gosto de...
— Ler antes de dormir. — Foi Serena quem falou, olhando para Ceci com uma expressão atônita, as pulseiras de ouro que usava sacudiram, enquanto ela mexia as mãos. — Você está sentindo isso também?
A azul inclinou um pouco a cabeça, tentando decifrar como seus sentidos estavam trabalhando de forma misturada desde que deu o primeiro gole no caldo.
Ela jamais imaginaria que sabores poderiam ser percebidos daquela maneira.
— Não, para mim é mais... — Hesitou, procurando pelas palavras certas. — Sentar no alto dos containers e ver o sol se pôr no mar, no fim da tarde.
— Conforto — Lani sorriu, transparecendo tranquilidade. — Esse é o sabor. Imaginei que vocês estivessem precisando disso. Quero dizer, eu nunca conheci ninguém que tenha passado diretamente pela seleção, mas é o que eu gosto de sentir, depois que passo muito tempo viajando.
Cecília se sentiu tocada com aquele nível de cuidado, e deu mais um gole na sopa, apreciando a sensação da brisa úmida do mar embaraçando seus cabelos, enquanto o som se despedia do horizonte.
— O que você quer dizer com nunca conheceu diretamente ninguém que passou pela seleção? — Serena perguntou, com o cenho franzido.
Lani deu um gole em seu caldo.
— O processo de seleção é... esporádico e imprevisível. Tem proteanos que passam a vida sem presenciar um. Por isso, estamos todos tão ansiosos e animados com a chegada de vocês — adicionou, com um sorriso.
— Aproveitando — Breena tomou um gole de suco. — Vocês possuem alguma dúvida?
Cecília aproveitou o momento para dar mais um gole no seu caldo, enquanto tentava decidir como responder. Era óbvio que ela tinha muitas dúvidas, mesmo que tivesse passado quase todo o seu tempo livre na estação de treinamento estudando sobre Protea e o processo de seleção.
Serena, no entanto, não precisou de tempo nenhum para fazer as próprias perguntas:
— Se vocês não passaram pela seleção, como estão aqui?
— Nossa espécie participou da seleção há séculos, então estamos aqui há gerações — Breena explicou.
— E como foi a seleção deles? — Cecília perguntou, curiosa.
O formato exato da seleção ainda era um grande mistério. A descrição de interação com o planeta e avaliação individual e coletiva era genérica demais e por mais que tivesse formulado diversas perguntas para Bleau, nunca conseguiu uma resposta mais específica.
— Delas. Nossas antepassadas. Nossa espécie só tem fêmeas. — Lani corrigiu.
Houve um breve instante de silêncio, enquanto Cecília e Serena digeriam a nova informação. Como de costume, foi a amarela quem falou primeiro.
— Um planeta sem homens? — Ela deu uma risada. — Eu tenho algumas amigas que amariam viver lá.
Breena e Lina se entreolharam, as cabeças levemente inclinadas, e depois se voltaram para as humanas:
— Por quê? Qual é o problema com os homens? — Breena perguntou.
— Nossa, por onde começar...
Cecília pigarreou e lançou um olhar de alerta para Serena, que o percebeu antes de continuar.
Um dos poucos combinados entre os selecionados era de não deixar os proteanos entenderem a gravidade dos conflitos que aconteciam na Terra, já que tinham receios que isso pudesse prejudicar a seleção.
Enquanto as proteanas ainda olhavam para Serena com curiosidade, ela fingiu se engasgar com o próprio caldo antes de oferecer um sorriso largo:
— É só uma piadinha. Os homens são ótimos. Os melhores. Vocês vão adorar conhecê-los. Mas, como você dizia, como foi a seleção da sua espécie? — A amarela apoiou o rosto nas mãos e observou as proteanas, com expectativa.
Breena hesitou, e depois encolheu os ombros, resolvendo deixar o assunto para lá.
— Nosso planeta, Lumin, estava em tremendo desequilíbrio quando fomos convidadas. Sei que nossas antepassadas tiveram um excelente processo de seleção e foram aceitas.
Cecília mordiscou o lábio inferior. Era bom conhecer alguém que era fruto daquele enigmático processo. Era um indício de que talvez aquilo fosse possível para os humanos também, apesar das óbvias diferenças entre as espécies.
— E o que aconteceu com o seu planeta, depois da seleção? — A azul perguntou, curiosa.
— Até onde eu sei, foi restabelecido. Quando as selecionadas foram aprovadas, Protea estabeleceu relação de colaboração tecnológica com Lumin, e apoiou a implementação de soluções para a restauração do bioma do planeta.
— Que tipo de soluções?
— Ah, de todos os tipos — Lani respondeu. — Desde compartilhamento de tecnologias para eliminação de detritos, até fórmulas encontradas para o restabelecimento das camadas atmosféricas...
Cecília inspirou profundamente. Seria possível que estivessem em Protea as respostas para todas as perguntas que os humanos se faziam na Terra?
— E vocês já visitaram Lumin? — Serena quis saber, os olhos brilhando com interesse.
Lani balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Não. Nós poderíamos ir para lá, se quiséssemos, mas... seria uma viagem geracional. Protea é nosso lar.
— Viagem geracional? — Cecília ecoou.
— Sim. — Breena sorriu, achando curioso que aquele fosse um termo desconhecido para as humanas. — Lumin é muito distante. Nós demoraríamos mais de uma vida inteira para chegar lá. Morreríamos antes de chegar lá, então seria o tipo de movimento que apenas nossas filhas desfrutariam, senão nossas netas. Nós estamos bem aqui. — Breena respondeu, segurando a mão de Lani.
Serena observou o gesto e, em seguida, lançou uma próxima pergunta:
— Se vocês duas são fêmeas, como tiveram filhas?
— Serena! — Cecília sibilou por entre os dentes, e a bilionária olhou para ela em choque, como se perguntasse "o que foi que eu fiz?".
— Está tudo bem — Lani riu, acalmando-as. — Não tem problema. Nós nos reproduzimos de forma assexuada. Durante nossa vida, costumamos gerar três a quatro filhas, quando acontece uma combinação específica de hormônios e condições climáticas.
— Sim, teoricamente Beti foi gerada por mim, e Rita por Lani, mas como a criamos juntas, são nossas filhas.
Preocupada que Serena pudesse fazer alguma outra pergunta constrangedora, Cecília resolveu mudar o rumo do assunto para algo que lhe parecia mais seguro:
— O que significam as cores dos orbes de vocês? — O de Breena era verde musgo e o de Lani era cinza.
Lani e Breena abaixaram os olhos para os próprios pulsos, depois trocaram olhares divertidos.
— Que gostamos de verde e cinza. Mas podemos mudar de cor, se quisermos. — Para ilustrar suas palavras, o orbe de Lani mudou de cinza para roxo, depois turquesa, e então voltou para cinza.
— Uau! — Serena ofegou, olhando para o orbe amarelo na pulseira de borracha preta. — Dá para mudar de cor? Honestamente, esse amarelo não tem me favorecido.
— O que isso quer dizer? — Breena perguntou, a testa enrugada. Se ela tivesse sobrancelhas, elas estariam quase se tocando.
Cecília lançou um novo olhar de alerta para Serena, que engoliu em seco. Ninguém queria deixar transparecer aos proteanos que os humanos estavam tão divididos, mesmo num grupo tão pequeno.
— Eu quero dizer que não combina muito com as minhas roupas. Só isso. — Serena abaixou os olhos azuis e se calou, tomando mais um longo gole do caldo de cogumelos. Ela estava mesmo precisando de um pouco de conforto.
— Vocês ainda não podem mudar de cor, eu acho — Os lábios de Lani se apertaram, formando uma linha tênue e esbranquiçada em seu rosto. — As cores de vocês têm significado, certo? Azul são os que foram convidados pelo sistema. Amarelos... — Ela pausou e olhou para o teto, vasculhando a própria memória pelo significado da cor.
— Eu comprei o meu orbe. — Serena explicou, mantendo os olhos baixos e ombros encolhidos.
— Isso! — Lani sorriu e estalou os dedos. — Eu estava quase me lembrando. E tem outras duas cores, certo? Verde e vermelho.
— Verdes foram doados. Vermelhos foram tirados do selecionado original contra a sua vontade. —Breena completou.
— Posso perguntar uma coisa? — Serena ergueu os olhos devagar, sua voz não muito mais alta do que um suspiro. — Por que vocês aceitam os orbes vermelhos?
A azul fechou os olhos e inspirou profundamente, sentindo o coração batendo com força contra as costelas. O que Breena e Lani pensariam daquela pergunta? Por que Serena não podia só ficar em silêncio e tomar a porcaria do caldo, pensando em livros e pijamas?
— Nós não aceitamos nada. — Breena disse com veemência — As regras da seleção são milenares. Se a ideia é testar a capacidade de uma espécie de adaptação ao nosso ecossistema, precisamos garantir uma amostragem justa.
"Não é exatamente justa se você puder comprar sua participação", Cecília pensou. Para garantir que nenhuma palavra escaparia de seus lábios, levou novamente a tigela de caldo aos lábios e deu um gole generoso.
— Como pode ser justa, se tiveram pessoas que foram mortas?! — Serena se indignou e Cecília cuspiu todo o caldo que estava na tomando na mesa.
As outras três olharam para ela com olhos arregalados. Cecília sentiu as bochechas queimando e, em movimentos trêmulos que pareciam em câmera lenta, começou a tentar limpar a sujeira.
— Você está bem? — Lani tinha a cabeça inclinada, a preocupação evidente em sua voz.
— Eu só... é... — Cecília lançou um olhar enfurecido na direção de Serena, que se encolheu. — Desculpe... É só... Esse assunto, eu...
Ficou quieta, porque percebeu que não sabia muito bem o que falar, e sabia que todo esse balbuciar só faria com que as proteanas a achassem ainda mais estranha.
Lá estavam elas: nem quinze minutos em contato com os habitantes de Protea, e já estavam expondo todos os podres que tinham jurado manter em segredo.
Sentindo-se na obrigação de reparar a situação, Cecília pigarreou e disse:
— Não podemos afirmar que todos os vermelhos assassinaram os selecionados originais. Nós não sabemos o que eles fizeram. Podem ter só roubado, ou furtado, ou... — Sua voz foi diminuindo de volume, até desaparecer. Toda aquela linha de raciocínio parecia uma defesa melhor, antes de ser falada em voz alta.
"Teria sido melhor ter engasgado com o caldo e morrido", Cecília pensou. Voltou à missão silenciosa de limpar o caldo que tinha esparramado.
Lani e Breena se entreolharam, e depois lentamente voltaram a atenção para as hóspedes. A proteana de olhos verdes estendeu a mão sobre a mesa e a colocou sobre a de Cecília.
A humana reparou no contraste de suas peles. A da azul era escura e suave, da cor de chocolate. A da proteana era longa, de um bege esverdeado translúcido, aparentava ser frágil, mas eram firme.
— Nós entendemos que deve ser difícil de entender, mas quando aceitamos todos os orbes, temos uma visão melhor de como funciona uma espécie. Tem seleções em que todos os selecionados são azuis. Em outras, em que todos são vermelhos. É apenas uma forma de análise.
— É possível que uma espécie só de orbes vermelhos seja aprovada na seleção? — Serena perguntou, cética.
Breena balançou a cabeça de um lado para o outro, e então encolheu os ombros.
— Não sei dizer. Seria preciso pesquisar a respeito. Mas eu, particularmente, não vejo porque não.
— Não vê...?! — Serena começou, estarrecida, mas Cecília a chutou por baixo da mesa e ela soltou um gemido de dor, que fez com que as proteanas saltassem em suas cadeiras, e lançasse um olhar perplexo para a outra humana.
— O que foi isso?!
— Nada! — Serena resmungou, lançando um olhar feio para a azul antes de esfregar a canela.
Com o objetivo de desviar o rumo daquela conversa, Cecília tomou a palavra:
— Vocês sabem como seremos avaliados? Sei que seremos avaliados individual e coletivamente, mas o que isso quer dizer, exatamente? Como essas avaliações acontecem? A gente vai ter que fazer alguma prova, ou algo assim?
Lani e Breena se entreolharam, não menos confusas do que segundos atrás.
— Não entendi. Acho que o tradutor falhou. O que é prova?
Cecília hesitou, confusa. Depois, refletiu um pouco para entender como explicar algo que lhe parecia tão básico e óbvio. Era estranho pensar que aquele fosse um conceito alienígena para Protea.
— É, sabe, prova... Tipo, uma série de perguntas que você responde para mostrar que você entende de um assunto, ou coisa assim...
Os vincos nas testas das proteanas se acentuaram.
— Como assim? No seu planeta, vocês ficam respondendo perguntas para provar que entenderam das coisas?
— Não sempre, mas... bem... quase sempre. — Cecília admitiu, sentindo-se envergonhada diante da confusão das alienígenas.
— E funciona?
— Eu acho que não — Serena se pronunciou, enfática. É claro. — Eu tenho uma amiga, Corine, ela é muito inteligente, mas fica nervosa quando tem que fazer provas, e sempre se sai mal. Além do mais, é impossível perguntar toda uma matéria, né? Acaba sendo mais uma questão de sorte, se você estudou ou se lembra do que caiu na prova.
Lani e Breena concordaram com acenos de cabeças.
— Bem, como dissemos, faz séculos que nossas antepassadas foram aprovadas, mas temos quase certeza de que não teve nenhuma... prova de perguntas e respostas — Lani respondeu, afinal — Pelo que sei, é só sobre os selecionados interagirem com o planeta e com os proteanos mesmo, e aí eles serão avaliados de forma holística. Ao final, a decisão será dada individual e coletivamente também.
"Mas o que isso significa?!?!?!", Cecília quis perguntar e arrancar os cabelos, mas resolveu se manter em silêncio.
— Está certo. Obrigada.
— E vocês? Possuem alguma dúvida sobre o nosso planeta? — Serena se apressou em adicionar, e Cecília sentiu que desmaiaria naquele minuto.
Como era possível que, de todos os mais de quatrocentos selecionados, ela tivesse que dividir um lar justo com a mais sem noção de todos eles?
Já não tinha sido suficiente todo aquele show de estranheza durante o jantar, e lá ia a Serena oferecer um cheque em branco para que Lani e Breena perguntassem o que quisessem.
As proteanas se entreolharam com as mãos unidas sobre a mesa, parecendo se comunicar por telecinese. Cecília gostaria de ter essa habilidade, a mente de Serena estaria surda de tanto que ela estaria berrando naquele momento.
— Conte-nos o que quiserem — Foi Breena quem quebrou o silêncio. — Imaginamos que falar sobre o planeta que vocês deixaram possa ser doloroso. Não queremos mexer em nenhuma ferida.
— Bem... — Serena assumiu um ar pensativo, enquanto tentava escolher o que dizer.
Mas, dessa vez, foi Cecília quem foi a mais rápida:
— Na verdade, esse é um assunto doloroso para mim. Será que podemos conversar sobre outra coisa?
X
Apesar dos percalços no início, o restante do jantar transcorreu de forma tranquila. Quando elas finalmente secaram a panela, Cecília avisou que lavaria a louça e a mesa, para compensar pela sujeira que tinha feito.
Apesar dos protestos das garantidoras, ela começou a recolher a louça e a empilhar na cozinha. Lani e Breena só relaxaram depois que Serena disse que ajudaria Cecília, afirmando que era o mínimo que poderiam fazer por sua hospitalidade.
A azul não sabia muito bem o que esperar daquilo. Uma parte dela estava irritada com Serena por ser tão descuidada com o rumo da conversa, mas também estava decepcionada consigo mesma. Por que tinha que dar um vexame daqueles?
Quando notou que era a única recolhendo a louça, parou ao lado de Serena, que estava abaixada em frente a um aparelho na cozinha.
— Posso saber o que você está fazendo?
A amarela ergueu os olhos para Cecília.
— Tecnológicas desse jeito? — Ela gesticulou em volta, referindo-se à casa de Breena e Lani. — Essas proteanas têm uma máquina de lavar louça. E eu vou encontrá-la.
Cecília deixou os pratos sobre a pia e pegou uma bucha e um sabão.
— Elas têm uma bucha e sabão aqui. Além do mais, a gente nem sabe...
Serena se levantou e falou em voz alta:
— Bleau, qual desses aparelhos lava louça? — Ela esperou por alguns segundos, provavelmente escutando a inteligência artificial em seu ouvido, e então deu um sorriso presunçoso para Cecília, antes de marchar até um aparelho redondo próximo à mesa de jantar e pressionar o dedo contra a sua superfície.
Com um som suave e satisfatório, a superfície pressionada deslizou para frente, revelando um escorredor vazio.
— TADA! — Serena esticou os dois braços, claramente satisfeita consigo mesma.
Cecília olhou um pouco decepcionada para as pilhas de louça que tinha levado para a pia, percebendo que tinha feito todo o trabalho à toa.
— Mas a gente nem sabe como usar isso aí! Vai que a gente erra alguma coisa e bota fogo...
— Bleau, como usa essa máquina? — A amarela ergueu um dedo na direção da azul, pedindo silêncio. Contrariada, Cecília obedeceu. Quando Serena voltou a atenção para a outra humana, ela tinha as sobrancelhas erguidas e o sorrisinho prepotente que a Ceci descobriu naquele momento que detestava. — Ele acabou de me enviar um vídeo tutorial de quarenta segundos. Quão difícil pode ser?
Cecília rangeu os dentes e soltou o ar com força.
— Vamos fazer assim, então. Você fica aí vendo esse vídeo, enquanto eu vou lavando a louça que está na pia.
Sem esperar por uma resposta, a azul deu as costas para Serena e ocupou o lugar em frente à pia. Enquanto lavava a louça, ela ouviu a amarela apertando botões e soltando resmungos.
Depois de alguns minutos, Serena se levantou e foi até a pia, organizando as pilhas de louça suja que faltavam. Cecília secou a mão em um pano de prato e seguiu a amarela até o aparelho.
Ficou de braços cruzados, observando enquanto a amarela mexia nas arestas do escorredor, organizando-o de forma que pudesse limpar tudo de uma única vez. No meio do processo, Serena soltou uma risada.
— O que foi? — "... sua maluca", Cecília quis completar, mas não o fez.
— Nada, é só que... — Serena olhou para Cecília com felicidade genuína nas írises azuis. — Você se lembra quando Bleau chegou à Terra? No formato das quinhentas caixas pretas que projetavam aquele código QR e a contagem regressiva?
— Óbvio que eu me lembro.
Quem poderia esquecer? Uma luz cegante vindo dos céus e, do nada, quinhentas caixas pretas espalhadas pelo planeta. Ninguém conseguia entender o que era. Demorou algumas horas – e muitas teorias - para os humanos entenderem que ninguém era responsável por elas.
Quando escaneavam o código QR, era abaixado um aplicativo nos aparelhos, que também apresentava a mesma contagem regressiva. Ao final dela, alguns dias depois do aparecimento misterioso das caixas, o aplicativo abriu simultaneamente e a mensagem de Bleau foi tocada na língua da conexão do dispositivo.
E, depois disso, nada mais foi o mesmo.
— Antes de eu saber o que era — Serena continuou, ainda risonha. — Eu achava que era alguma ativação de divulgação de uma série nova. E agora eu estou aqui, aprendendo a usar uma máquina de lavar alienígena.
E, então, ela começou a rir, como se aquela fosse a piada mais engraçada do mundo. Cecília racionalmente sabia que aqueles fatos não eram particularmente engraçados, mas quando deu por si, estava rindo também.
Não era pela piada em si, mas o absurdo da situação.
Quatro meses atrás, ela estava vivendo sua vida precária, preocupada demais com o dinheiro no fim do mês para se preocupar com o fim do planeta. E, agora, ela estava em outro planeta.
Quando finalmente parou de rir, percebeu que Serena olhava para ela com um sorriso nos lábios.
— É bom ver você rir — A amarela voltou a se ocupar com a louça suja. — Desde que eu cheguei, você não riu nenhuma vez. Estava começando a achar que você também me odiava.
Serena sentiu uma pontada de culpa. Nunca lhe ocorreu que Serena se importasse com o que ela pensava ou sentia.
— Eu não te odeio. Você só... precisa ser mais cuidadosa com as coisas que fala — Cecília resmungou, esfregando a testa. — Eu sinto que falamos muito mais do que deveríamos para Breena e Lani hoje.
A amarela voltou a olhar para ela, com a testa franzida.
— Você acha?
— Bem, agora ela sabe que você não gosta dos vermelhos.
— Ninguém gosta dos vermelhos. — Serena encolheu os ombros. — Os próprios proteanos não vão gostar deles. Quem gostaria de receber criminosos? Eu tenho certeza de que serão reprovados. Só espero que isso não atrapalhe o resto de nós.
— Mas não seria melhor que elas achassem que todos os selecionados se dão bem? Você sabe, como uma espécie? Uma fronte unida? Não foi isso que combinamos?
Serena respirou fundo e então revirou os olhos:
— Tá bom. Prometo não falar mais nada dos outros selecionados — Ela ergueu a mão, num gesto solene, e sua fala era arrastada e desgostosa.
— E o que é que você pretendia com aquele comentário sobre os homens, por exemplo? — Cecília sussurrou, com receio de ser escutada pelo casal no andar de cima. — O que você achou que elas fossem presumir?
— Era uma piada! — Serena respondeu, na defensiva.
— E depois, quando perguntou se elas queriam saber qualquer coisa sobre a Terra?
Incrédula, a amarela abriu e fechou a boca algumas vezes, parecendo um peixe de aquário.
— Eu só estava retribuindo a gentileza! Elas responderam todas as nossas perguntas, eu imaginei...
— Bom, e se elas perguntam as coisas erradas? Eu não sei se você entendeu o que está acontecendo aqui, Serena, mas nós estamos sendo avaliados. Não só como eu e você, mas como representantes de todo o nosso planeta.
— Eu sei disso tudo! — Serena resmungou, sentindo-se acuada e feroz. Detestava quando se sentia desmerecida. — Eu penso nisso, você acha que não? De qual forma uma pergunta sobre a Terra poderia estragar tudo?
— Eu não sei, e é por isso que a gente precisa evitar esse assunto! Imagina se nós formos forçadas a admitir que tem mais dinheiro investido em deixar a Terra, do que em estudos para entender como reverter a crise climática? Ou então, não sei, ter que explicar para eles que mesmo com ciclones e incêndios que duram dias, dezenas de países estão em guerra? Ou talvez que aqueles que receberam o orbe convite viveram dias de terror até serem abduzidos, porque tinham medo de serem assassinados?
Houve um breve instante de silêncio entre elas, enquanto as palavras de Cecília se assentavam. Serena suspirou e voltou a lavar a panela.
— A Terra não tem só coisas ruins. Tem muita coisa boa também. Muitas culturas diferentes, e tantos lugares lindos, mesmo com a crise climática e tudo mais. Acho que Breena e Lani gostariam de saber disso.
Cecília respirou fundo, e se virou para Serena com o pano que usava para limpar o tampo da mesa apoiado na cintura.
— E como você acha que conseguimos mostrar um lado, sem falar do outro? — Cecília esperou, mas Serena não lhe respondeu. Então, prosseguiu: — Podemos combinar que, enquanto você não souber me responder, não vai falar sobre a Terra para elas e para ninguém? E, se for perguntada a respeito, vai pensar mil vezes antes de falar qualquer coisa? Por favor?
Serena concordou e fechou a máquina de lavar louça. Apertou alguns botões que eram integrados ao aparelho e ele começou a zumbir baixinho, uma luz brilhando.
— Viu? — Serena se levantou e esfregou as mãos na calça de cetim brilhante. — Eu disse que era fácil.
Continua...
Nota da Autora: Olá, pessoal!
Sei que o combinado era postar o capítulo novo no sábado, mas estava viajando, então ele entrou um pouco depois!
Notei que tivemos algumas leituras, mas poucos votos e nenhum comentário! É muito importante para mim contar com a participação de vocês para entender se a história está boa, se precisa de ajustes, etc!
Espero que me enviem os seus comentários sobre esse novo capítulo e me respondam: O que acharam de Serena? E o que estão achando da história?
Estou muito ansiosa pela opinião de vocês!
Com muito carinho,
Gii Zwicker.
Obs: Capítulo atualizado em 03/03/2025.
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