Capítulo Dois

Como sempre, preferi subir até ao apartamento das minhas irmãs de escadas em vez de ir no elevador. Elas costumavam brincar e dizer que eu evitava o elevador por ser demasiado pesado para a caixa de ferro, mas eu só gostava de aproveitar o exercício. Subir quatro andares era ótimo para a minha resistência. Apesar de ser polícia há imenso tempo e, devido a isso, ter desenvolvido uma rotina de exercício muito rígida e já consolidada, era mais preguiçoso do que gostava de admitir. Corria-nos no sangue, infelizmente.

Elas viviam naquele apartamento há quase dez anos. Os nossos pais tinham tido possibilidade de o comprar quando ambas ingressaram na faculdade e elas nunca tinham saído. A verdade era que ambas já poderiam tê-lo feito há muito; estavam consideravelmente perto dos seus respetivos empregos, mas já tinham relações duradouras e estáveis. Eu sabia que Dax – namorado de Ava e meu amigo de longa data – estava desesperado para poder ter Ava só para si próprio, mas ela recusava-se a sair do apartamento antes da sua irmã gémea. E Mia, por sua vez, estava presa naquele apartamento. Era, naquela altura, a única ligação que ela tinha com os nossos pais, depois de eles terem declarado que não apoiariam a sua mudança de curso e de carreira.

Eu era basicamente o mensageiro entre os quatro, porque Ava tomara o lado de Mia. Como filho mais velho, no entanto, e como o único que vivia perto o suficiente dos nossos pais para os poder ver com regularidade, cabia-me a mim não escolher lados. Ser neutro. Proteger todas as partes.

Era cansativo, para dizer o mínimo.

Ironicamente, apesar de não nos termos cruzado na entrada do prédio, cheguei ao andar onde as gémeas viviam ao mesmo tempo que Ava e Dax. Ele sorriu para mim, um sorriso calmo e contido, mas que era acompanhado por olhos azuis suaves em que cabia um mundo inteiro. Ava, por sua vez, sorriu abertamente e deu um pequeno pulo para me abraçar. De ambas as minhas irmãs, eu era mais parecido com Mia - éramos ambos pessoas divertidas e que nunca perdiam uma oportunidade para fazer piadas e rir, enquanto Ava era a personificação de calma. Ainda assim, nos últimos anos, tínhamos trabalhado em ter uma relação mais próxima, mais nossa, e isso passava muito por ela fazer o que estava a fazer. Dar um pulo para me abraçar com força.

Nunca conseguiria agradecer ao Dax por me ter dado aquela versão da minha irmã.

- Sabes do que se trata? – questionei Ava, agarrando nos seus braços e empurrando-a para trás. Olhei diretamente nos seus olhos e tentei olhar para ela da mesma forma que olhava para os criminosos que interrogava.

- Não faço a mais pequena ideia. – inclinei a cabeça e levantei uma sobrancelha duvidosa – A sério! Passei a noite em casa do Dax e acordei para uma mensagem dela a dizer que precisava de falar comigo e que era sério.

- E tu? – olhei para Dax – Sabes do que se trata?

- Porque é que, de todos aqui, haveria de ser eu a saber?

- Hm. – cruzei os braços e fitei-o com toda a minha atenção. Dei um passo para trás quando Ava soltou um riso suave e me empurrou para poder passar. Estávamos parados em frente à sua porta há demasiado tempo. – Tu sabes de alguma coisa.

- Não. – Dax abanou a cabeça ao falar e decidiu imitar-me, cruzando também os seus braços. – Mas o Caleb mandou-me mensagem a dizer que apanhaste finalmente os idiotas que te roubavam o almoço. Como conseguiste?

- Passei duas semanas numa varanda do prédio ao lado a observar a janela da cantina com uns binóculos e uma câmara.

Não apreciei a forma incrédula com que Dax me observou, mas não comentei. Virei a cara e retirei os meus sapatos à entrada do apartamento, sabendo que elas tinham comprado uma carpete nova para a sala de estar, no mês anterior, e estavam a ser especialmente cuidadosas. Vi Ava e Dax a fazerem o mesmo e, segundos depois, Ava estava a gritar pela nossa irmã. A porta do seu quarto estava fechada, no entanto, por isso decidi ocupar-me. Entrei na cozinha e enchi um copo com água; Ava seguiu-me e colocou água a ferver. Comecei a rir ao ver Dax a retirar duas chávenas dos armários e duas saquetas de chá de um pote de vidro que elas tinham na bancada; não estava a rir pela cena muito caseira entre os dois, mas sim pelo facto de ele ser demasiado grande para aquela cozinha. Com nós os dois lá dentro, era complicado mexermo-nos, então decidi caminhar até à sala de estar.

Sentei-me no sofá e gritei por Mia e por Asher. Vi, pelo canto do meu olho, a minha irmã e o seu namorado a caminharem na minha direção e permiti-me relaxar. Podia ser estranho, ser o irmão mais velho, ter a idade que eu tinha, e ainda assim ser o único de nós os três que era solteiro. Podia, mas não era. Nunca me senti a mais entre eles os quatro, principalmente porque tinha relações individuais com todos eles. O Dax tinha uma idade muito próxima da minha e a única coisa que o seu namoro com Ava mudara fora a frequência com que nós nos víamos; passámos de nos ver uma ou duas vezes por ano para passarmos a vermo-nos todas as semanas. Era ótimo. Asher, por sua vez, trouxera para a vida das minhas irmãs uma quantidade enorme de pessoas e formara, com elas, toda uma família de amigos. Eu estava orgulhoso.

- Olá, olá, olá. – Mia apareceu finalmente, envergada num vestido vermelho-vivo que combinava com o laço que adornava a sua cabeça. Asher apareceu por detrás dela e cumprimentou todos com um acenar e um revirar de olhos para o entusiasmo exagerado da namorada. Ri baixinho.

- O que é que se passa?

Calado, observei ambos. Ninguém tinha uma perna, um braço ou um pulso partido. Asher estava, como sempre, calmo, mas feliz, com olhos castanhos brilhantes que não saíam de Mia. Sentou-se no braço do sofá onde ela se sentou, ao meu lado, e envolveu um braço nas costas do mesmo. Enquanto as duas gémeas murmuravam os seus cumprimentos do costume, eu observei Dax e Asher a conversarem calmamente, com sorrisos suaves. Sim, Dax definitivamente sabia alguma coisa que me estava a escapar, e Asher sabia que ele sabia. Era disso que eles estavam a falar!

Se o Caleb estivesse ali, estaria a rir da minha cara. Polícia há quase quinze anos e, mesmo assim, não conseguia resolver aquele mistério.

- Pobre Steve, olha para ele, Mia! – Ava teve pena de mim e forçou a sua irmã a olhar na minha direção. Mia gargalhou e encolheu os ombros, mas assentiu. – Quando é que nos vais contar? O que é que nos vais contar?

- Bem... - e olhou para cima, para Asher, e sorriu. – Primeiro que tudo... Steve.

- Eu. – assenti ao falar, forçando uma expressão séria.

- Eu vou precisar que tu fiques calado até ao fim, está bem? – levantei a sobrancelha e gastei os cinco segundos que Mia me deu para a observar a fazer isso mesmo. Observá-la. Não consegui achar nada. Assenti. – E o mesmo para ti, Ava! Não quero interrupções.

- Mia. – Asher repreendeu, revirando os olhos, mas começou a rir. – Não é nada de mal, a sério. Muito pelo contrário. A Mia não sabe como o dizer, por isso é que está a arrastar isto tudo.

- E não sei! Eu própria ainda não sei se processei isto... - Mia murmurou para si própria durante uns minutos e depois voltou a olhar para Asher. – Posso só mostrar?

- Mostrar? – questionei, a olhar para Ava. A mesma pergunta estava nos seus olhos. – Daxon. Tu estás demasiado calmo para quem não sabe o que vai ouvir.

- O Dax sabe. – Mia anunciou, de repente. Daxon olhou para o teto, numa tentativa falhada de não rir. – Ele viu-nos no hospital quando fomos para uma das consultas de rotina e, não sei como, percebeu logo o que se passava! Quer dizer...não foi logo, ele ficou preocupado e ameaçou ligar-te, Steve, mas depois ele olhou para mim e olhou para o Asher...

- E olhou para a ala do hospital em que nós estávamos. – o seu namorado murmurou, num tom sarcástico, e apesar de tudo...eu ri. Adorava observar a dinâmica daqueles dois.

- E viu...e viu... bem... - os meus olhos seguiram as mãos de Mia que, sem eu ter percebido de onde aquilo veio, agarravam um envelope branco. – Viu isto.

E virou o envelope na nossa direção.

- É uma ecografia. Do nosso bebé. – limpou a garganta – Eu estou grávida. Vamos ter um bebé. Vocês vão ser tios...eu vou ser mãe...o Asher vai ser pai...

- Acho que eles já perceberam, Mia.

- Não parece, Ash! Olha para as caras deles!

Inconscientemente, eu e Ava encarámo-nos. Ninguém falou, mas eu sabia que as nossas expressões eram idênticas – os olhos azuis claros da minha irmã estavam brilhantes e, em questão de um segundo, encheram-se de lágrimas. Uma dessas lágrimas escorreu pela sua bochecha, mas ela continuava a olhar para mim, quase a analisar a minha reação. Como se estivesse à espera que eu reagisse, para poder fazer o mesmo, mas como é que eu faria isso? Na minha cabeça, a única coisa que aparecia era uma imagem da Mia em bebé, a correr por todo o lado e a bater contra tudo o que era canto, na nossa casa de infância. Ava sempre fora uma bebé mais calma, mais serena, mas a Mia tinha sido como uma injeção de energia na nossa família.

Mal conseguia acreditar que uma das minhas irmãs seria mãe. Ainda por cima a Mia, aquela que era, para todos os efeitos, a mais nova das duas gémeas. Sempre fora tratada como mais nova que Ava pelos nossos pais e, apesar de eu saber que essa era uma grande fonte de tensão entre eles, sempre achei que fosse justificado. Não consegui, portanto, contemplar automaticamente a ideia de a minha irmã desastrada e livre a ter um bebé.

Oh, não. E se o bebé herdasse toda a energia do nosso lado da família?

- Tu engravidaste a minha irmã. – fuzilei o Asher e rodei os meus ombros para trás. Vi o maxilar de Mia a cair. Asher, pelo contrário, teve a reação mais apropriada que podia ter tido. Inclinou a cabeça e, depois de morder o seu lábio inferior, sorriu abertamente e assentiu.

Para aquela reação, tão pura e tão Asher, o meu instinto foi mais forte que eu. Gargalhei.

- Que susto, seu idiota! – Mia esticou-se para bater no meu braço com força mas eu revirei os meus olhos. Levantei-me e aproximei-me dela, para a abraçar com força.

- O Deke soube antes de nós?

- Está fora. Vou ligar-lhe daqui a nada. – assenti para a resposta sensata de Asher e, secretamente, fiquei feliz por termos sabido primeiro.

- Não acredito que já sabias e não me disseste nada. – atrás de mim, ouvi Ava a reclamar com Dax. O som distinto do seu riso grave chegou pouco depois. – Eu nem sei o que hei de dizer... Vou ser tia?

- Vais ser tia, sua linda. Mas não chores! Se tu chorares, eu choro e sabes que o Steve odeia ver-nos a chorar.

- Porque começa a chorar também e ele fica horrível a chorar. – Asher riu alto para a resposta de Dax e levantou a sua mão para darem um mais-cinco um ao outro.

Tentei fazer uma expressão séria, para mostrar que estava desagradado com o facto de os dois namorados das minhas irmãs terem demasiado confiança comigo, mas não consegui. Eu gostava deles. Infelizmente. Vi Ava a limpar os seus olhos com as costas das suas mãos e a apertar Mia com força, em volta dos ombros. Inconscientemente, a minha irmã estava a ser cuidadosa com a sua gémea e aquilo fez-me sorrir – e pensar que eu não tinha tido tanto cuidado quando a abraçara e era muito mais forte do que Ava. Encolhi os ombros mentalmente, não querendo preocupar-me com coisas idiotas desse género, e abracei Asher. Percebi que o surpreendi, mas ele não demorou muito a abraçar-me de volta.

- Como vais contar aos pais? – como sempre, a sensatez de Ava falou mais alto. A pergunta dela foi direcionada para Mia, mas ela olhou para Asher. Um sorriso rasgou os cantos dos meus lábios. - E como vão fazer...logisticamente? Claro, eu não me importo de sair do apartamento.

- Não te importas? Dizes isso como se não estivesses desejosa de nos deixares. – Ava esticou o braço para dar um soco no braço do namorado da sua irmã e eu ri. – Mas a tua pergunta é legítima. O nosso plano...bem, nós tínhamos pensado...

- O Jake e o Miles andam a falar, há uns tempos, que queria comprar uma vivenda. O processo de adoção está quase, quase pronto e eles querem começar a preparar tudo. – todos assentimos, olhando uns para os outros, para a nova informação que Mia nos estava a dar.

Os melhores amigos de Asher eram um casal excêntrico, que passaram os últimos anos a viajar por todo o mundo e os últimos dez meses a tentar assentar e ganhar raízes, para poderem adotar duas crianças. Duas meninas, irmãs, por quem ambos se apaixonaram assim que as viram, num orfanato.

- Então, a solução lógica seria eu mudar-me para o apartamento do Asher, já que foram eles que pagaram o deles. – Ava assentiu, lentamente, como se estivesse a tentar adivinhar o que Mia diria a seguir. – Claro que, para isso, eu vou ter que ir a casa e falar com os pais, mas isso... - e fez um gesto para desprezar a situação, como se não tivesse deixado de falar com os nossos pais há quase cinco anos.

- E a Ava? Ela não vai ficar neste apartamento sozinha. O Dax mudou de casa há menos de um ano e...

- Por isso é que nós pensámos que a solução ideal seria tu ficares com ele. – vi, pelo canto do meu olho, Asher a sentar-se no sofá, efetivamente a sair do assunto. O Dax saiu da sala de estar, talvez para ir voltar a encher a sua chávena de chá.

- Eu? Mas a minha vida é a quase uma hora de distância, não vou ficar com um apartamento que vai ficar vazio! – gesticulei com os meus braços para o teto e ouvi o riso suave de Ava.

- Tu tinhas dito que estavas a ponderar pedir transferência para a esquadra daqui. – ignorei o comentário de Ava e olhei diretamente para os olhos negros de Mia, tão iguais aos meus. A idiota fez aquilo de propósito e, como sempre, eu subestimara-a. – No outro dia até falei com o Caleb, ele disse-me que estava a ponderar colocar a Candy numa escola perto do meu laboratório.

- Porque é que és tu a argumentar a favor desta ideia? Já tinham falado disto? – Ava abanou a cabeça, sorrindo suavemente. Acreditei nela. – Então...porquê?

- Estás sempre a queixar-te que os pais estão sempre em cima de ti, Steve! – Mia falou, com mais emoção na sua voz – Eles colocaram o apartamento em nosso nome, por isso, tanto quanto me importa, nós podemos dar-to se quisermos. Até o podes comprar, se quiseres! – abanei a cabeça – Tu já passas mais tempo aqui, de qualquer forma. E se o Caleb está a ponderar colocar a Candy numa escola aqui...talvez peça transferência contigo e fiquem parceiros na mesma. Tudo se resolve! Temos todos a nossa independência e, pela primeira vez em quase dez anos, vivemos na mesma cidade outra vez. Podes literalmente proteger-nos, o que dizes?

- Tens ótimos argumentos, mas isto não é uma decisão que se faça assim de repente, Mia. Tens de saber isso. – ela assentiu – E não demores a ligar aos pais! Se eles souberem que eu soube da novidade muito antes deles, quem sofre sou eu.

- Nem acredito que vais ser mãe... Tens um bebé na barriga, Mia!

Mia gargalhou, em toda a sua glória única de uma pessoa que sempre foi mais nova do que os seus anos, e abraçou-nos ao mesmo tempo. Ainda era bem mais alto que ambas, embora Ava fosse mais alta que a sua irmã, e soube-me bem abraçá-las ao mesmo tempo. Fazíamos poucas vezes aquilo mas, se havia altura para recuperar velhos hábitos familiares, era quando mais um de nós estava para aparecer.

Tio. Eu vou ser tio.


eheh o meu asher vai ser pai. a minha mia vai ser mãe! não sei se disse isto no capítulo anterior, mas esta história passa-se sete anos depois da Cair e Levantar. os meus meninos que originaram tudo isto já namoram há sete anos

eu tentei não colocar muito a Mia e a Ava na história, porque a história é do Steve, mas a verdade é que ele não me deixava. de vez em quando, lá estava ele a pensar nas irmãs e a querer ligar-lhes ou visitá-las, e pronto. 

ainda não conhecemos o seu interesse amoroso, mas está quase, até porque o nosso Steve tem que aceitar a proposta da Mia ;)

muito obrigada a quem decidiu ler esta história, e bem-vindxs! espero que gostem tanto do Steve como eu - ele conquistou-me completamente. eu sempre soube, desde a DSVAL, que queria escrever-lhe uma história, mas apanhei-me a gargalhar enquanto escrevia de uma forma que já não fazia desde a Cair e Levantar. a história da Ava foi um pouco mais séria, e esta também vai ter assuntos sérios, mas o Steve não é capaz de levar tudo 100% a sério e isso facilitou imenso a minha escrita de certas partes. 

terminei ontem a história e é a maior das três, mas estou feliz com o resultado eheh. eu espero que o Steve e os seus pensamentos (e as suas piadas! ele é hilariante, as far as i'm concerned) vos aqueçam o coração como fizeram a mim <3 até ao próximo capítulo e fiquem segurxs

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