Capítulo Cinco

O meu relógio disse-me que eu tinha dormido cerca de seis horas, quando olhei para ele ao ser acordado por um bater na minha porta. Tinha chegado a casa, depois das minhas oito horas no turno da noite, perto das dez da manhã. Não podia julgar quem quer que fosse por estar a bater à minha porta, porque eram quatro da tarde, mas isso não significava que não estivesse frustrado. Esfreguei os meus olhos e respirei fundo; fiquei sentado na cama durante uns segundos, tempo suficiente para ganhar força nas minhas pernas, e caminhei até à porta. Quando a abri, dei um passo para trás ao ser confrontado com a visão de Lexie, a segurar um tabuleiro cheio de fatias de bolo.

- Oh, não! Estavas a dormir? – assenti, lentamente, ainda a tentar processar toda a nova informação. – Desculpa! – a voz dela desceu até um sussurro, algo que me fez sorrir. – Fiz-te um bolo, para te agradecer.

- Um bolo? Agradecer?

- Por teres trazido o Connor em segurança. – encolheu os ombros, mas eu vi as suas bochechas a ganharem um pouco de cor. Ela estava embaraçada e o meu instinto foi brincar com ela, embaraçá-la ainda mais para as suas bochechas escurecerem, mas não o fiz. – É...é de banana.

- Oh.

Lexie continuou em silêncio, mas eu quase senti o seu embaraço dentro de mim. Esfreguei os meus olhos mais uma vez e limpei a garganta, sorrindo-lhe. Com um passo para trás e um braço a abrir ainda mais a porta, convidei-a para entrar, embora soubesse que o meu apartamento não estava digno de receber visitas. Nunca me habituei a receber pessoas em minha casa. Na minha antiga cidade, passava mais tempo na esquadra e em casa do Caleb e, no restante tempo livre, visitava as minhas irmãs naquele apartamento. Quando elas lá viviam, estava sempre limpo devido ao controlo de Ava e à ajuda de Asher, mas, comigo lá... seria o mesmo que pedir a Mia para chegar a casa sem marcas de plasticina e de lápis-de-cera nas bochechas, depois de um dia a ensinar meninos de cinco anos a pintar.

Na analogia em questão, eu sou os meninos de cinco anos.

- Não quis incomodar! – Lexie falou, um pouco mais alto que anteriormente, mas entrou dentro do apartamento na mesma. Sorri-lhe e assenti, e fechei a porta atrás dela.

- Desde que me tragas bolo, nunca vais estar a incomodar. Acredita. – ela soltou um riso rouco.

- Vou fazer questão de me lembrar disso.

Guiei-a até à cozinha – a divisão mais limpa do apartamento – e indiquei-lhe onde poderia pousar o grande prato verde que ela tinha nas mãos. Lexie olhou à volta, completamente curiosa e quase sem notar que não estava sozinha, e observou toda a divisão. Ocupei-me a fazer café; já tinha acordado e, embora continuasse cansado, seria mais produtivo tentar fazer alguma coisa com o resto do meu dia do que tentar voltar a adormecer até ao início do meu turno. Cruzei os braços, tendo perfeita noção de que estávamos ambos silenciosos, mas nenhum de nós procurava alterar a situação. Alexandra continuava dentro da sua própria cabeça, sem notar que, por aquela altura, eu já estava mais a olhar para ela do que para o meu café.

Ela era parecida com o seu irmão mais novo, apercebi-me, mas de uma forma diferente daquela que eu era parecido com as minhas irmãs. Enquanto eu e Mia tínhamos herdado muitas feições do nosso pai – a Mia escapara-lhe a altura, no entanto – e Ava era praticamente uma cópia da nossa mãe, entre os três éramos semelhantes. Qualquer pessoa conseguiria dizer que éramos família, se nos colocasse lado a lado, mas possuíamos caraterísticas só nossas. Connor e Alexandra, no entanto, pareciam quase gémeos: o mesmo tom de cabelo loiro, os mesmos olhos verdes e com forma de amêndoa. A mesma altura. A única coisa que era diferente era a sua postura: Lexia parecia querer encolher-se, enquanto Connor, numa atitude que eu considerava típica de um adolescente, parecia querer fazer-se maior do que era.

- Café? – ofereci, por fim, quando percebi que ela se apercebeu de que esteve calada nos últimos minutos.

- Bem... - e levantou o seu pulso, para olhar para um relógio que o ornamentava – Ainda tenho alguns trabalhos para terminar hoje, por isso pode ser.

- Acho que não sei qual é o teu trabalho. – comentei, mas não disse que não sabia qual era o trabalho porque o meu melhor-amigo me tinha impedido de descobrir demasiadas coisas sobre ela.

Vais arrepender-te se o fizeres, dissera ele. Precisas de aprender a conhecer as pessoas à moda antiga.

Ainda estava para encontrar a veracidade das suas palavras, mas agradeci-lhe mentalmente naquela situação. Os olhos de Lexie aumentaram de tamanho e de brilho e, ao olharem para mim com a sua glória esmeralda, senti que fiz a escolha certa. Estava, aparentemente, a descobrir algo que era importante para Alexandra e muita da beleza da interação entre nós ter-se-ia perdido se eu tivesse sucumbido aos meus instintos policiais e desconfiados.

- Ilustro livros infantis. – sorriu-me. Entretanto, o meu café ficou pronto e dividi o líquido escuro pelas duas chávenas limpas que estavam à mão. Quando percebi que ela não estava a desenvolver, olhei para ela e levantei uma sobrancelha. Ela riu, tímida. – Sou freelancer, o que significa que procuro os meus próprios contratos e etecetera. Basicamente, alguém que tenha escrito, ou esteja a pensar escrever, um livro infantil, fala comigo, diz-me mais ou menos a história e as ideias que tem, e eu ilustro.

- Algum livro que eu possa conhecer?

- A não ser que tenhas alguma criança na família, duvido, Steve. – a forma suave como ela disse o meu nome fez-me olhar para ela num impulso. Nem tinha percebido que o fizera até ela me olhar alarmada, com olhos verdes gigantes e atentos, como se eu fosse perigoso.

- Ainda não tenho. – coloquei uma colher de açúcar no seu café, depois de olhar para ela para confirmar – A Mia está grávida.

- A sério? Que bom! – sorri como resposta ao seu sorriso, puro e feliz pela gravidez de uma pessoa que ela mal conhecia. – Não pareces muito feliz com isso.

Levantei uma sobrancelha, admirado com a facilidade com que ela leu a minha expressão. Ela encolheu os ombros e eu notei, por aquele simples ato, que ela estava confortável perto de mim. Não sabia bem o que tinha mudado nos últimos minutos – analisaria toda a interação depois de ela se ir embora, para ser honesto -, mas algo a fizera ficar mais leve. Talvez tivesse sido o facto de eu ter demonstrado interesse para com a sua vida, ou mesmo o facto de o tópico pesado, Connor, ainda não ter surgido...ou talvez o facto de eu lhe ter oferecido café. Quem saberia? O que eu sabia, no entanto, era que Lexie conseguiu fazer algo que apenas as pessoas que já me conheciam há algum tempo conseguiam fazer. Descodificar as minhas expressões.

- Sinto-me velho. – preferi fazer uma piada, em vez de ser completamente honesto com ela. – As minhas irmãs são sete anos mais novas que eu.

Ela assentiu, lentamente, enquanto bebia o café. Comecei a rir de mim próprio.

Decidi mudar o assunto e chamei o bolo que ela tinha trazido – e a razão para estarmos na minha cozinha, juntos – à nossa atenção. Lexie procedeu a contar a história de como tinha acordado, visto que o Connor tinha ido embora sem ela reparar, e de como ela achou que teria de me agradecer de alguma forma. Com toda aquela sua preocupação e consideração, senti-me mal por lhe estar a esconder a verdadeira razão pela qual eu tinha levado o seu irmão mais novo a casa, mas prometi a mim próprio que não iria omiti-la durante mais tempo. Durante o meu turno daquela noite, falaria com o meu capitão acerca de Frost, quem quer que ele fosse, e relataria o que tinha ouvido. De seguida, falaria com Caleb e perguntar-lhe-ia a sua opinião acerca de tudo.

Sabia o que ele me iria dizer, em parte. Iria dizer que eu estava a pedir sarilhos, que não poderia dar-me ao luxo de, menos de um mês na nova esquadra, me meter em negócios que poderiam ser maiores do que aquilo que eu aguentava. Ainda assim, Caleb também prometeria não sair do meu lado, e isso chegava-me. Esperava que o Capitão aprovasse o meu plano de tentar saber mais sobre tudo aquilo, sobre Connor, e saber efetivamente em quantos apuros o adolescente se encontrava. Só queria que não fosse algo tão grave como tudo aparentava, porque detestaria preocupar Lexie, mas sabia que teria de o fazer. Se uma das minhas irmãs mais novas estivesse metida naquele tipo de coisas, eu quereria saber.

Impedi-me de pensar no que aconteceu uns anos antes. Um ex-namorado de Ava, meu colega de esquadra, ficara obcecado com ela e com o facto de ela já não estar solteira. Dax controlara tudo quanto pôde porque, na altura, a minha irmã ainda não confiava em mim o suficiente para me dizer as coisas com a mesma facilidade que Mia. Graças a isso, eu chegara quase tarde demais. Não queria sequer pensar no que teria acontecido se Dax não tivesse sido quem era; se ele não tivesse sido meu amigo, se não tivesse conhecido o caráter de Nate. Se não tivesse também sofrido por atos do polícia corrupto.

Horas depois, estava a bater à porta do escritório do meu superior. Tinha feito a minha pausa na hora antes, mas aproveitei que o escritório estava vazio para ir falar com ele. Com a ajuda de Caleb, tinha reunido sucintamente tudo aquilo que eu poderia usar para argumentar o meu caso. Tal como eu esperara e assumira, o meu parceiro e melhor-amigo apoiara-me a cem porcento, mesmo se me pregara um sermão sobre ter mentido a Alexandra. Não mentiria durante muito tempo, no entanto, e certificar-me-ia disso. Assim que soubesse quem Frost era e o que ele queria de Connor – ou melhor, para que se servia do mais novo – ela seria a primeira pessoa a quem eu contaria. Só precisava da autorização do meu capitão para começar a investigar o caso.

Enquanto esperei, lembrei-me das minhas irmãs mais novas. Depois da tarde em que Mia anunciara a sua gravidez, ambas tinham argumentado incessantemente para que eu concordasse com a ideia de me mudar. Após conversar com Caleb e ele me ter confirmado que tinha andado a procurar escolas para a sua filha noutra cidade e que, caso eu quisesse mesmo mudar de ares, me acompanharia, eu comecei a ver a razão das duas gémeas. Afastar-me-ia dos meus pais e das suas conversas infinitas com o único objetivo de saber da vida das minhas irmãs e de como eu era, de alguma e qualquer forma, o culpado pelo afastamento da família. Eu sabia bem que tendia a ser o preferido do casal mais velho, principalmente depois de ter ingressado nas forças policiais, mas nem essa preferência os impedia de colocarem em mim o peso de manter a família unida.

Ter-me mudado fez-me bem, principalmente ao meu ego. Depois de tantos meses a receber propostas tanto do meu atual capitão como de Dax, que continuava a alegar que eu seria um ótimo segurança, a mudança soube a um milagre. Mais longe dos meus pais, mais perto das minhas irmãs. Mais perto do meu futuro sobrinho ou sobrinha. Mais perto para os proteger.

- Sim, Farrell?

- Tenho algo importante para falar consigo. – percebi que a minha expressão séria o alarmou e, com um único assento, deixou-me entrar. Fechei suavemente a porta atrás de mim.

- Diz. – e, com um gesto da sua mão, indicou-me a cadeira para eu me sentir.

- O nome Frost diz-lhe alguma coisa?

- Talvez. – os meus lábios esticaram-se num sorriso divertido involuntariamente e ele acompanhou-me. – Porquê?

- Tenho razões para acreditar que ele, quem quer que seja, anda a utilizar rapazes adolescentes para traficar...algo. Não consegui saber o que era.

Quando vi que o meu capitão ficou interessado, relatei tudo o que tinha ouvido e recolhido nos últimos dias. Ele ouviu-me atentamente e, depois de ficar silencioso durante uns momentos, confessou que sabia quem Frost era e que, infelizmente, nunca o tinha conseguido apanhar. Aparentemente, ele era o maior traficante de drogas – e a polícia suspeitava que de outras matérias ilegais, também – da cidade e que a Polícia andava à caça de um mandato há alguns tempos. Depois de saber quão investido eu estava no assunto, garantiu-me autorização para eu procurar os ficheiros acerca do traficante que a esquadra tinha reunido ao longo do tempo.

Obrigou-me a prometer que eu não deixaria o meu conhecimento de Connor e Alexandra atrapalhar o meu julgamento e o meu raciocínio e, se havia algo que eu conseguia fazer, era isso. Depois de anos a trabalhar ao lado do rapaz que traiu a minha irmã, mesmo depois de lhe partir um braço e ter jurado fazer-lhe a vida negra, eu tinha desenvolvido uma camada espessa e inquebrável.

- Estou a falar a sério, Farrell. Este Frost é perigoso. – assenti, cruzando os meus braços. – Não te faças de arrogante comigo, que eu tenho idade para ser teu pai.

Mordi o lábio para não rir e assenti. Sabia que o divertimento deveria estar a abrilhantar os meus olhos, mas não me mexi. Conseguia ser intimidante se o quisesse ser, mas a minha natureza não era ser sério e rezingão. Era aquilo, rir de tudo o que eu conseguia, e fazer de todo o tópico pesado, algo mais leve. Nunca teria conseguido sobreviver como polícia se não conseguisse separar a minha vida daquilo que eram os acontecimentos recorrentes de uma força armada.

- O que eu aconselho é que ganhes a confiança desse rapaz, o que suspeito que já tenhas começado a fazer. – voltei a assentir, daquela vez numa forma um pouco mais séria e menos brincalhona. – Precisas de ter cuidado. Se há algo que o Frost consegue fazer, é atingir os nossos pontos fracos. As tuas irmãs vivem aqui, certo? E uma delas está grávida?

- Está a tentar assustar-me ou irritar-me, Capitão? – pela forma que o meu superior humedeceu os lábios e suspirou, acreditei que ele estivesse a fazer ambos. – Nunca colocaria a minha família em risco.

- Eu sei, mas isso era mais fácil quando não vivias na mesma cidade que elas. Não te esqueças que o que aconteceu com o Nate deixou-te com alguns inimigos.

- Polícias corruptos não são inimigos que mereçam o meu tempo. – semicerrei os olhos, tentando perceber as intenções do homem à minha frente. Por dentro, o meu coração batia freneticamente, mas não deixei que isso se traduzisse numa expressão preocupada. Eu estava sempre preocupado, o que era aquilo em comparação com vinte-e-tal anos a tentar proteger a minha família?

- Mas homens desesperados por vingança deviam merecer.

Levantei-me num único movimento e, depois de uma continência a brincar – mais para ele não achar que eu estava a entrar em pânico do que realmente por estar num humor divertido – saí do seu escritório. Passei por Caleb, fiz um sinal de fixe e avancei diretamente até à sala de convívio para beber um café. Peguei no meu telemóvel, apesar de evitar fazer isso enquanto estava em trabalho, e ponderei mandar uma mensagem a uma das minhas irmãs. Até ligar a Asher ponderei, na verdade. No entanto, um olhar para o relógio disse-me que eram cerca de cinco da manhã e que isso só iria fazer com que elas se preocupassem e eu tinha feito um pacto com Ava. Evitar dar preocupações a Mia e a Asher tanto quanto conseguíssemos, porque já lhes bastava as suas famílias.

Entre os pais de Asher a tentar enfiarem-se de volta na sua vida, mesmo depois de terem deserdado o seu filho mais novo por ser homossexual, e os nossos pais a tentarem controlar a forma como Mia lidava com a sua gravidez...eles tinham o seu cesto cheio. Ava obrigou-me que controlaria o meu impulso protetor ao máximo e calculei que isso se aplicaria àquela situação. Não valia de nada ceder ao hábito de contar à minha irmã mais nova o que eu andava a fazer, como fizera tantas vezes no passado. Daquela vez, eu tinha de dar razão ao meu capitão: as coisas eram diferentes. E eram diferentes porque eu cedi aos charmes das minhas irmãs mais novas e mudei de cidade, de vida, por elas.

Só esperava não me vir a arrepender de, pela primeira vez em quase quinze anos, ter aberto as minhas asas e feito algo por mim.


olá olá olá

bem, aqui estou eu com mais um capítulo atrasado, mas continuo com a mesma justificação: não tenho computador (estou agora no da minha irmã) e, portanto, não consigo dedicar um dia específico a editar e publicar capítulos

a boa notícia é que assim a história também dura mais tempo lmao

ANYWAY

espero que estejam a gostar deste capítulo <3 enquanto o revia, agora, lembrei-me muito do capítulo em que o Asher conhece o Steve (na Cair e Levantar) e o descreve como uma pessoa alta, musculada e séria. imagino-o a conhecê-lo melhor e a arrepender-se absolutamente de se ter aproximado dele. imagino o Steve a fazer piadas sobre o Asher e ele só revirar os olhos e beber o seu chá (e decerto que escrevi qualquer coisa do género nesta história, se bem que já nem me lembro)

espero que estejam todos bem! por aqui, vou fazendo os meus trabalhos para a faculdade (eu comecei a minha conta no Wattpad quando ainda estava no 8º ano, how weird is THAT) e a tentar não chorar com o cansaço. publicar as minhas histórias sempre me aliviam um pouco <3 até ao próximo capítulo!

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