Prólogo

A sala não era uma prisão. Não havia grades, grilhões ou um vidro que o prendessem.

Sentado em uma cadeira no centro do cômodo, ele mascarava o desconforto com a mesma destreza com que ocultava os monstros que residiam na mente. Um sorriso estampava a desgraça travestida de sarcasmo. O sangue rubro escorria dos olhos e ouvidos, deixando trilhas na pele e manchando a camisa branca — a veste iria direto para o lixo junto da dignidade, se é que em algum momento ela existira. O objetivo ali era vender-se para o mesmo clubinho de alquimistas responsável pela desgraça de sua existência.

Aquele era o escritório de alguém que se arrependeria por não ter acreditado nele. Se pelo menos tivessem escutado o apelo dele, talvez o chão não pareceria tanto com o cenário de um ritual de sangue mal feito. Aliás, sangue não: elixir. Um líquido tão precioso para eles.

— Avisei para trazerem uma bacia. — O tom zombeteiro saiu quase em forma de cantoria, performando com as sobrancelhas arqueadas uma expressão de soberba e divertimento. — Quanto desperdício. — Franziu testa e queixo, contraindo os lábios enquanto se curvava para frente, movendo a cabeça de um lado ao outro para observar o rio vermelho expandindo pelo piso de madeira.

Dois homens e uma mulher quebraram as posturas estáticas entreolhando-se a passos de distância da poça de elixir. Assistiram à cena degradante, indecisos sobre o que pensar de uma situação fora de todo protocolo que conheciam. O mesmo sangue repugnante que maculava o escritório era o elemento mais raro que buscavam, segundo a alucinação daquele homem insano.

Dr. Elias Crow. Famoso biólogo que conseguiu uma autorização especial para praticar alquimia. Depois de sumir por dois anos, retornara a um dos principais prédios do governo exigindo se encontrar com um membro da família Kartal e alegando que seu corpo continha o segredo para fabricar o principal ingrediente usado pelos alquimistas. A reposição de elixir, uma fonte de energia não-renovável, era surreal. Os três atuais representantes da família decidiram mensurar até onde iria a loucura do biólogo e o transferiram para uma sala privada; a descrença impediu que usassem a logística mais complexa de levá-lo até um laboratório.

O teste foi realizado no escritório de Alina Kartal, a mais velha dentre os três irmãos e, portanto, a única autorizada a praticar alquimia. Segundo Elias Crow, o code reagiria ao estimulante utilizado para curar ferimentos, produzindo elixir em excesso que acabaria "vazando" do corpo. Deixando escapar risos, os Kartal aplicaram uma dose exagerada do estimulante e aguardaram cerca de meia-hora até presenciarem os primeiros resultados.

Os olhos de Elias Crow transbordaram de vermelho, como um harmínion, e a substância escorreu em abundância suficiente para encharcar as roupas, estragar a cadeira luxuosa e inundar o chão. O biólogo alargou o sorriso nos limites da face e soltou uma gargalhada, dobrando-se no assento. Cobriu o rosto com as mãos, movendo-as na direção da testa para o queixo. Quando endireitou a postura e ergueu a cabeça, deixou à mostra as trilhas de sangue desfiguradas em manchas por toda a face e raiz dos cabelos. As unhas, cravadas na fronte e vazando o vermelho pelas extremidades, arranharam o rosto de cima a baixo como se intencionadas a perfurar a pele e aumentar o fluxo do líquido.

— Passei no teste? — questionou, confinando o sorriso maníaco em apenas um lado.

Os irmãos se entreolharam uma vez mais. Se todo aquele líquido vermelho fosse somente sangue, o indivíduo no centro da sala decerto não pareceria tão... vivo.

— Levante-se! — ordenou Alina.

E teve a ordem prontamente atendida.

— Leve-o para ser higienizado — comandou ela ao irmão à direita, virando a cabeça na direção dele veloz como uma águia. — Pegue uma amostra; precisamos confirmar as propriedades antes de entrarmos em contato com o senhor Phoe — dirigiu-se ao homem à esquerda com o mesmo movimento rápido.

O segundo homem se aproximou para coletar o sangue do chão enquanto o Dr. Elias Crow era conduzido para fora da sala.

O biólogo reparou na distância que o primeiro homem mantinha dele — e na expressão enojada enquanto se forçava a andar ao lado —, e achou propício ter um acesso de tosse "incontrolável", espalhando elixir pelo chão e atingindo a calça e parte da blusa social do pobre irmão Kartal.

— Perdão — disse o Dr. Crow, ainda forçando uma última tosse para limpar a voz. — Às vezes fica preso... — Colocou a mão na base do pescoço como para conter outro surto.

O homem afastou um passo apreensivo antes de fechar a cara ao constatar os respingos vermelhos acima da cintura da blusa azul.

— Anda logo — vociferou ele, gesticulando com a mão como se quisesse espantar o doutor da sala e seguindo-o de uma distância maior.

Uma linha fina de sorriso brotou no rosto sujo de Elias Crow, a determinação e euforia expostas nas pupilas cinza rodeadas por escleras carmesim.

As luzes se acenderam. A cor vermelha preencheu o interior das pálpebras. Apesar do incômodo, ele não abriu os olhos. Pretendia se fingir de dormido e evitar uma colaboração com a única pessoa que aparecia para visitá-lo desde quase sempre.

Ouviu passos no corredor. Dois pares de pés. Uma visita extra. Fingir-se adormecido ficou complicado quando o coração disparou. Podia ser uma pessoa desconhecida aproximando-se, podiam ser dois desconhecidos, podiam machucá-lo, maltratá-lo, matá-lo antes que cumprisse seu objetivo — o que já considerava certo como o destino; engoliu em seco quase perdendo o ar —, ou podiam ignorá-lo.

Vozes acompanharam os passos — lentos, por sinal. Reconheceu uma delas. Era engraçado pensar que se acalmou ao escutar a voz do cientista que o manteve preso naquele laboratório durante a vida toda. Lambeu os lábios e estabilizou a respiração. Sentiu a sede corroer a garganta. Ainda se recuperava do plano de fuga. As juntas doíam e o corpo estava molenga. Estava febril — segundo Raymond —, mas não lembrava qual número de temperatura significaria que a febre tinha passado.

—... Na verdade, apagaram a memória dele, então não precisa esperar uma retaliação dos Amesther. — Conseguiu discernir o que o não-Raymond disse. — Mas eu consideraria não trazer mais civis pro seu laboratório. Eu tive um trabalhão pra convencer todo mundo que a aposentadoria compulsória seria um desperdício das suas habilidades. Fora que precisariam recorrer a outra linhagem dos Owlen pra continuar suas pesquisas, e parece que mesmo a linhagem mais próxima não tem conhecimento da alquimia, então seria uma longa jornada de ensino...

— Quer dizer que o que me salvou da aposentadoria foi meu estado civil? — Raymond soltou um riso que foi cortado pelo som da porta de vidro deslizando para o interior da parede.

— Ah não! Como eu disse...

Sem aquela barreira, o volume das vozes aumentou. Agora estavam no mesmo recinto que ele.

— Não leve a sério, foi só uma piada. — Raymond interrompeu o visitante. — Agradeço pelo seu esforço e espero poder ajudá-lo a alcançar seus objetivos. — Papéis foram remexidos enquanto os passos contornavam a sala. — Sinta-se à vontade para usar qualquer equipamento... e qualquer cobaia.

— Ah... Eu não costumo trabalhar com cobaias. É meio que raro precisar abrir um corpo para estudar meteorologia.

O som de um riso leve vindo de Raymond quase passou despercebido por ele.

— Se quiser mudar de ramo, é melhor se acostumar.

— E essa aqui? Por que está aqui? — questionou o desconhecido.

Os passos se aproximaram dele em sintonia com os batimentos de seu coração apreensivo.

Raymond soltou um suspiro forte e indignado antes de responder:

— Esse é traiçoeiro. Ficou doente de repente e precisei interná-lo. Enquanto eu estava ocupado, ele tentou me atacar e me fazer engolir uma pílula. Óbvio que foi uma ideia estúpida; debilitado do jeito que estava, não conseguia nem ficar em pé direito. — A voz de Raymond indicava que estava quase acima da maca onde ele repousava. — Engraçado que ele deve ter escondido a pílula no quarto durante dias enquanto se envenenava com ela. A cabeça dele tem algumas engrenagens insolentes bem desenvolvidas para uma cobaia.

Um silêncio perturbador recaiu sobre a sala de operações. Era horripilante não saber o que as figuras ameaçadoras estavam fazendo enquanto ele se encontrava vulnerável, ainda que a situação já lhe fosse comum.

— Como ele conseguiu a pílula? — indagou o visitante, com uma nuance de curiosidade no tom. — E estamos falando de qual pílula exatamente?

— Era... um projeto rápido que eu criei e abandonei. Ele provavelmente pegou em algum momento de desatenção minha.

O disfarce de dorminhoco pareceu funcionar bem até aquele momento, mesmo após ele estremecer ao sentir uma mão passando pelo pescoço e dedos pressionando-lhe a nuca. Permaneceu de olhos fechados. A respiração acelerou por um instante. Não fazia diferença para os cientistas se uma cobaia fragilizada estava acordada ou não, porém esse pensamento não o aliviou da pressão de ser descoberto.

— E como conseguiu uma cobaia sem registro? — A voz do estranho vibrou com a perplexidade de não encontrar indícios de um chip por baixo da pele daquela cobaia.

Outro riso de Raymond.

— Alguns segredos devem permanecer secretos. Mas, quem sabe, dependendo do andamento da nossa parceria, eu não te conto algum dia?

O estranho precisou de um momento de ponderação antes de se resignar.

— Tá, me parece razoável. E a pesquisa de órgãos artificiais? Vou precisar esperar também?

— Perderia o sentido da sua visita, não? — Raymond indagou e ficou em silêncio por alguns segundos; talvez aguardasse uma confirmação visual. — Vou buscar alguns exemplares.

Os passos do alquimista se distanciaram.

O nervosismo do homem na maca se elevou. Estava sozinho com o estranho. Era algo que jamais aconteceu antes. Conhecera o rosto de somente cinco pessoas que não eram cobaias — e duas delas foram em encontros que duraram minutos insuficientes para que guardasse as feições na memória.

Sentiu a respiração do estranho se aproximar do rosto. Se estivesse conectado àquela máquina que fazia "bip" contando as batidas de seu coração, com certeza Raymond seria alertado pelo barulho insano que ela estaria produzindo.

— Não precisa ter medo de mim, prometo que não vou machucá-lo — murmurou o estranho.

Ele quase abriu os olhos ao ser flagrado. As pupilas perambularam em vão em meio ao vermelho do interior das pálpebras. Era uma promessa ou uma ameaça disfarçada de promessa? Percebeu que prendera a respiração. Forçou os pulmões a retomarem o trabalho. Para alguém que mal conhecia o significado de esperança, aquelas palavras invocavam somente pavor.

A presença do visitante se distanciou junto de seus passos. Raymond voltara com uma tagarelice animada, mas o homem na maca não processou nenhum outro ruído depois daquele sussurro duvidoso proferido de forma acalentadora.

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