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Uma única ampola com líquido vermelho descansava sobre o balcão branco. Separados pelo móvel, estavam duas pessoas. A mulher de cabelos compridos e olhos avelã era encarada pelos orbes cinzentos do homem do outro lado, cujas mãos estavam apoiadas na borda do balcão.

Estavam na mesma sala utilizada por Li e Mori no dia anterior.

— Ontem você falou que ia precisar de uns dias pra produzir, aí agora já tá pronto? — questionou Isadora, salpicando as palavras com ironia . — Foi sorte eu ainda estar por perto.

— Eu pretendia resolver algumas pendências antes, mas priorizei encerrarmos logo essa primeira parte do acordo porque a reunião foi adiantada e a minha agenda pode ficar apertada nos próximos dias — explicou Li.

— É, imagino quem deve estar organizando os seus compromissos. Chamou ela pra ser a sua secretária?

Isadora tirou a mochila das costas, exibindo a estampa listrada e decorada com o desenho de um emoji com olhos em forma da letra "x" e um sorriso largo e aberto com dentes à mostra. Do interior da bolsa, retirou um papel dobrado.

— Aqui tem o nome e todas as informações que eu tive acesso. — Ela depositou o papel na mesa e estendeu o braço para pegar a ampola, movimento que Li interrompeu cobrindo o objeto com a mão.

— O cérebro receberá muitos estímulos extras; isso confundirá seus sentidos, principalmente nessa primeira dose, portanto recomendo que deite após tomá-la — informou ele. — Quando surtir o efeito, não terá controle sobre as suas memórias; será como se toda a sua vida se passasse em um único dia e em desordem. O psicológico poderá se desestabilizar, lembranças que foram superadas voltarão a aflorar e poderão alterar sua personalidade enquanto os efeitos durarem e, depois que acabar, a sensibilidade sensorial será maior, terá uma exaustão mental, dor de cabeça, ânsia, fraqueza e possivelmente fome. — Pausou por um momento, recapitulando os sintomas na mente e pensando em possíveis reações não observadas. — Ao menos, esses são os efeitos colaterais que tive. Como nenhuma outra pessoa o experimentou além de mim, podem ocorrer divergências.

— Vou tomar cuidado. — Ela exibiu um sorriso simples combinado com um olhar confiante. — Não menospreze a minha inteligência como você faz com todo mundo. — Piscou um olho.

— E o gosto pode ser desagradável. — O cientista afastou a mão, permitindo que ela recolhesse a ampola, e guardou o papel em um bolso do jaleco.

— Isso é tão legal. — Isadora aproximou a mão da face, analisando o líquido dentro do recipiente seguro entre os dedos. — Tô ansiosa pra descobrir como é! — Encaixou uma alça da mochila em um dos ombros, guardou a ampola dentro dela e se encaminhou para a porta. — Vou indo nessa. Toma cuidado com os "caras poderosos" lá, senão, vai saber — deu de ombros —, pode acabar descobrindo o endereço do Dr. Owlen pessoalmente.

Depois que ela saiu, Li aguardou alguns segundos contemplando o nada, como se de fato considerasse aquele aviso, até, por fim, também sair da sala. Vislumbrou Isadora andando em direção ao elevador antes que Catrin surgisse para bloquear a vista, vinda de uma sala adjacente. Se não a conhecesse, daria mais crédito à possibilidade de uma coincidência.

A repreensão transmitida pelo olhar de Catrin foi acompanhada pelo silêncio, como se este salientasse a decepção ou já soubesse que as palavras ali seriam inúteis.

— Só... pensa bem o que está fazendo com a sua vida. — Ela exprimiu o ponto de conclusão do discurso omitido depois de desperdiçar longos segundos da vida de Li.

O "direito" de persegui-lo vinha do cargo de diretora do laboratório ou do cargo de prima? Seria infrutífero, embora satisfatório, perder o tempo de ambos levantando essa questão, porém o momento não era propício. Li não tinha a mínima preocupação sobre o discernimento da bióloga e opiniões baseadas nas "verdades de fachada", apesar de aquela vigia constante acrescentar um incômodo a mais a ser aturado além do rastreamento ao qual era condicionado pelos alquimistas.

— Minha reunião foi adiantada, então partirei hoje — anunciou ele.

— Eu já sei, não precisa repetir — disse Cat, entoando uma mistura de amargura e aborrecimento.

— Discordo. Parece que não importa quantas vezes eu diga algo, você esquece... ou ignora? — Imbuiu a última palavra em um tom ácido acompanhado pelo franzir rápido entre as sobrancelhas. — Então vou dizer mais uma vez: pare de me seguir. — Arregalou os olhos por um instante ao enfatizar a ordem e depois passou pela diretora, tomando o rumo até os elevadores.

Catrin comprimiu os lábios até enrugar o queixo enquanto se virava para observá-lo se afastar até sumir para outro andar.

Aquele não era o Elias Crow que ela conhecia; o primo costumava ser gentil e sincero com todos. Nada de "joguinhos" ou sorrisos irônicos e provocações infantis, nem daquela vaidade em fazer uma cirurgia de rejuvenescimento ou do interesse em mulheres mais jovens. Se todas as mudanças ainda eram em decorrência do luto, então estava mais do que na hora de superar aquele pesar de décadas.

— Então... a Isadora veio de novo... — A Dra. Lírie sublinhou as palavras com decepção e, como do outro lado não houve uma adição ao comentário, continuou: — Eu sei que está decidido e já pode ter pensado no que eu falei, mas... pensa só mais um pouquinho.

Estavam cada um em um canto oposto dentro do elevador, afastados por cerca de dois metros. Mori esperava uma reação de Li, cuja cabeça e pupilas apontavam para o chão. Atrás da parede de vidro daquele recinto, os troncos das árvores aumentaram em diâmetro conforme eles se aproximaram do térreo.

— Vai querer a indicação ou não? — A voz do cientista soou mais alta do que o normal naquele espaço fechado. As reuniões com alquimistas compunham os raros momentos em que Li se apresentava sem os óculos, então já os havia removido por precaução.

— Quer tanto assim que eu venha trabalhar aqui? — Mori imitou o sorriso de canto dele, aceitando a rota do novo assunto uma vez que sabia o lugar desagradável que a insistência no anterior os levaria.

Li apertou a alça da maleta marrom que levava na mão direita.

— Lembre que eu não tenho o mesmo privilégio que os alquimistas de "primeira categoria". Assim que eu pedir ajuda em seu favor, porque não adiantará omitir essa informação quando sabem que já trabalhamos juntos e que é você quem está à frente da defesa dos harmínions, o que espera que aconteça? Vai atrair a atenção deles sobre você, ainda mais do que já tem. — Ele esfregou o cavanhaque com a mão livre. O elevador atravessou o térreo e continuou para o subsolo, onde a visão da floresta se apagou, largando-os à mercê da luz interna. — Vai se tornar um enfado para mim se eu não souber onde está. Aqui é a opção mais segura...

— Como sempre, tentando me encorajar me desencorajando. — A Dra. Lírie expandiu o sorriso até o outro canto. — Não tenho medo deles, e eu sabia aonde estava me metendo quando decidi comprar essa briga.

Ao se abrirem, as portas do elevador deslizaram sobre um tom brando que normalmente seria imperceptível, mas que desta vez ecoou no espaço silencioso entre eles.

— Não respondeu a minha pergunta — reforçou o cientista, seguindo os passos de Mori que se propagaram no chão de grafite opaco do subsolo depois de saírem do elevador.

A área do estacionamento parecia interminável, embora as luzes acompanhassem somente os locais em que movimentações eram detectadas, deixando Li e Mori em um centro iluminado e circundado pela escuridão. O local estava vazio, exceto por cinco carros estacionados e, assim como os demais recintos sociais da construção, pelas câmeras.

Aproximaram-se de um dos veículos de cor prata. Li ignorou a porta do carro que se abrira para ele e se voltou para a doutora.

— É melhor não sair daqui enquanto eu estiver fora, por via das dúvidas. — Apoiou o braço no teto do automóvel. — Aproveite o tempo com a Catrin ou... — virou o rosto para o lado —... procure a Cindy no bioma da floresta tropical.

— Ela já voltou do deserto? Achei que iria demorar.

— Pediu para eu transferi-la durante a noite quando contei que você estava aqui. Ela tem uma certa dificuldade em ficar parada... — o tom mal-humorado de Li lembrava um adulto cansado de lidar com uma criança —... e precisa entender o conceito de espaço pessoal ou, no mínimo, que certos cômodos são de uso individual.

Mori selou os lábios para evitar que mais do que um ronco de uma risada fugisse da garganta, mas falhou em impedir um sorriso franzido adornado pelo rubor.

— É... entendo. — Depois de um suspiro forçado, conseguiu adotar um tom sóbrio pouco afetado pela necessidade de rir. — Vou falar com ela.

O cientista sentou no banco do carro sem pressa em correr para a reunião, esperando a última despedida que o hábito entre eles pedia.

— Tenha cuidado. — O semblante da doutora assumiu uma preocupação genuína envolta pelo restante de rubor que ainda não se dissipara. Enroscou os dedos em uma mecha de cabelo branco próxima aos olhos. As pupilas transitaram de Li para o extremo canto contrário nas órbitas, como se a visão dele as queimassem. — Queria poder ir junto...

Mori não ouviu nada além do barulho suave da porta deslizando até se fechar. O silêncio de Li poderia atrair antipatia de outros, como Catrin, caso presenciassem a cena, mas a Dra. Lírie sabia a tradução daquela linguagem. Havia uma avalanche de pensamentos complexos e contraditórios que se originavam na tensão e incerteza de encarar os alquimistas uma vez mais — e isso valia para ambos os lados. Li jamais manifestaria a vontade de que ela o acompanhasse, em razão do desejo de mantê-la segura, e fechar a boca era o recurso para evitar, em definitivo, que qualquer palavra burlasse o autocontrole, fosse por meio de uma fraqueza momentânea ou manifestação de um pensamento intrusivo — ou, talvez, encontrasse dificuldade em lançar uma promessa de "nos vemos depois" quando não estava em seu poder garantir que se cumpriria.

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