Capítulo 7
- Eu não acredito que dormiste com ela, Asher. – comentou Jake, baixinho, abanando a cabeça.
No domingo que seguiu a noite no bar, a primeira coisa que tive que enfrentar assim que cheguei a casa foi os olhares curiosos do meu casal preferido. O Jake estava sentado à mesa e o Miles estava no sofá, mas ambos se viraram para mim assim que eu entrei. Estava num bom humor, portanto cumprimentei-os e tomei banho sem dizer mais nada. Paguei por isso vinte minutos depois, quando ambos me cercaram enquanto eu tentava sobreviver a partir da minha taça de cereais e fizeram todo o tipo de perguntas. Sentei-me no balcão da cozinha, com uma expressão impassível, sem lhes responder a nada. Depois, e só quando acabei de comer, é que expliquei o que tinha acontecido.
Na verdade, eu não chamaria ao que eu fiz explicar, porque não havia nada a explicar. Mia era atraente, obviamente, e eu estava atraído a ela. Não passava disso e sabia que, do seu lado, acontecia o mesmo. No entanto, não podia negar que senti mais que atração quando processei no meu cérebro que a Mia intoxicada não me conseguia largar. Encolhi os ombros e olhei para os meus amigos, procurando forças em mim para não rir com as suas expressões chocadas. A verdade é que eu sabia que eles gostavam de Mia; desde a primeira vez que Jake a encontrou no café que ela quase se tornou a sua pessoa preferida, apenas porque conseguia irritar-me na perfeição. Para além disso, e por saber como eu era, Jake tinha assumido uma espécie de posição de proteção da rapariga. Não que fosse preciso, eu não era um vilão, mas eu entendia-o.
Uma pessoa tão feliz e pura como Mia não poderia não ser protegida.
Então, quando toda a inocência foi roubada de Mia pela notícia de que tínhamos dormido juntos, Jake retornou à sua posição de meu melhor amigo e sorriu abertamente. Miles comentou apenas que ela parecia simpática, mesmo intoxicada, e que era bastante bonita. Eu concordava. Para além de bonita, no entanto, ela possuía um charme que, apesar de conseguir irritar todas as células do meu corpo, não me permitia ficar chateado com ela. Se na noite anterior ela não tivesse estragado o momento com músicas do Justin Bieber é que eu teria ficado preocupado, sinceramente.
- Aposto que aquilo tudo de ela ser irritante foi uma coisa qualquer que inventaste para disfarçar a tua atração por ela. – encolhi os ombros, não me preocupando em responder. – Mas não passa disso?
- Não passa disso. – garanti, olhando para o meu melhor amigo. – Não estamos doidamente apaixonados nem nada do género, não te preocupes.
Depois disso, bebi litros de água para voltar a estar hidratado e passei o dia inteiro com Miles e Jake a ver filmes. Tínhamos uma coleção enorme de filmes num móvel por baixo da nossa televisão, mas nunca tínhamos tido vontade de os ver. Com a expetativa de uma semana sem demasiados trabalhos e a possibilidade de um dia sem fazer nada, decidimos fazê-lo, então. Vesti umas calças de fato de treino e uma t-shirt aleatória para ir ao minimercado que existia na nossa rua para comprar pipocas, doces e tudo o que eles gostavam de comer enquanto viam filmes. Verifiquei no frigorífico se precisávamos de mais alguma coisa para além daquilo que, na verdade, não precisávamos, e escrevi tudo numa folha de papel.
Jake e Miles ficaram a organizar a ordem em que iríamos ver os filmes e eu fechei a porta do nosso apartamento atrás de mim. Caminhei calmamente, sentindo o vento na minha cara. O minimercado era consideravelmente perto, portanto iria demorar pouco tempo, mesmo andando devagar. Quando lá entrei, peguei num pequeno cesto e cumprimentei a senhora que estava sempre atrás do balcão, recebendo um sorriso caloroso como resposta. Peguei em pipocas, gomas, chocolates, sumos, e tudo o que faltava no nosso frigorífico. O meu cesto estava praticamente cheio quando voltei ao balcão e coloquei tudo pronto para a dona do minimercado passar. Assim que abri a boca para criar conversa com a senhora em questão, o som do meu telemóvel interrompeu-me.
I throw my hands up in air sometimes, saying AYO, gotta let go!
- Mas que porra... - murmurei para mim próprio, quase certo de que aquele toque não era o meu, mas era. No entanto, não era a pessoa que eu esperava que me estivesse a ligar. Era o meu irmão.
- Asher! – cumprimentou, mostrando todo o entusiasmo que era natural dele, mas algo estava errado.
- O que é que se passa? – ele riu, mas não foi o riso normal do meu irmão mais novo. Ele era feliz, como a Mia; quando ele ria de felicidade, notava-se.
- Acho que vou contar aos pais. Estou nervoso, Asher.
Paralisei. A senhora ao balcão perguntou-me se eu estava bem, mas eu assenti, ainda meio paralisado, e dei-lhe o devido dinheiro. Aceitei o saco que ela me deu e apressei-me para a rua. O que o meu irmão me disse devia ter-me deixado feliz, porque era o que eu andava há anos a tentar que ele fizesse, mas não conseguia. Eu não estava com ele e tinha medo de como tudo iria desenrolar. O meu irmão, Declan, tinha dezasseis anos, era incrivelmente inteligente e participava em todo o tipo de desportos na escola onde eu, quando era mais novo, tinha feito exatamente o mesmo. Sempre fomos próximos, porque o pequeno Asher com quatro anos não era particularmente social, então a ideia de um amigo para brincar tinha-me entusiasmado. A minha mãe sempre me elogiou por nunca ter sido daqueles irmãos mais velhos ciumentos.
Quando tinha catorze anos, Declan admitiu para si próprio aquilo que eu já sabia desde que éramos crianças: ele era homossexual. Na sua tenra idade, ele sempre se mostrara mais atraído por rapazes que por raparigas mas eu nunca comentara, porque para mim era normal e porque não queria que ele se sentisse desconfortável se eu falasse nisso. Declan tinha catorze quando eu e Jake tínhamos dezoito, idade com que o meu melhor amigo decidiu admitir à sua mãe – nunca conheci o seu pai – que ele, também, era homossexual. Era a primeira da lista de coisas que ele sentia que tinha que fazer antes de irmos para a universidade, juntos, e não teve um bom resultado. A sua mãe não lhe falou durante por volta de dois meses, algo que deixou o meu amigo completamente destroçado, mas isso teve grande efeito em Declan.
Eu já sabia da orientação sexual do meu amigo há vários anos, até porque ele nunca foi exatamente subtil nesse aspeto, falando sempre dos rapazes que achava atraentes e até daqueles de quem se aproximava. Comigo, pelo menos, ele sempre aberto, para o resto da nossa pequena vila e das pessoas, já não. Depois de contar à sua mãe, Jake passou esses dois meses em minha casa, indo só dormir à sua para verificar se estava tudo bem com a sua mãe, mesmo não recebendo nada em troca. Portanto, Jake foi um grande exemplo para o meu irmão mais novo, que achou o meu melhor amigo incrivelmente relacionável. A partir de Jake, Declan começou a olhar para si próprio e a tentar identificar-se com alguma coisa. A primeira pessoa a quem ele admitiu, curiosamente, foi Jake.
Os nossos pais eram conservadores: não havia realmente outra maneira de o dizer. Tanto eu como Declan fomos ensinados a partir de valores que ambos achávamos terrivelmente retrógrados, mas nunca saímos muito daquilo que eles esperavam de nós. Boas notas, popularidade, envolvência em desportos e em atividades intelectuais, e uma namorada que, possivelmente, fosse a nossa mulher dali a uns anos. Ambos tínhamos conseguido agradar em tudo – Declan era o rapaz popular da minha antiga escola – menos no aspeto das namoradas. Eu, porque não gostava particularmente de compromissos; Declan, porque tinha namorados.
- Asher? – não percebi que me tinha distraído até a voz nervosa do meu irmão me chamar à realidade.
- De certeza que o queres fazer?
- Eu...acho que sim? Não sei, na realidade. Mas sinto que é algo que eles deviam saber. Estão sempre, sempre, sempre a perguntar-me quando é que lhes apresento a minha namorada, porque eles hão de saber que eu tenho alguém e eu não sei o que fazer.
- Deke...tu sabes que eu te apoio incondicionalmente, mas estás pronto para isso? Não queres...sei lá, esperar até eu esteja aí contigo? Se calhar se eu estiver contigo, é melhor.
- Não. É uma coisa que eu tenho que fazer sozinho. Acho que estou minimamente pronto para qualquer reação, mas é sempre diferente na hora, não é? Bem, só te queria dizer.
- Obrigado por o fazeres. Sabes que estou aqui sempre que precisares, não sabes? Eu, o Jake e até o Miles. Todos te adoramos.
- Eu também vos adoro. – suspirou, e eu fechei os olhos com a dor que ouvir a sua respiração tão trémula me causava.
Odiava saber que os meus pais eram a principal fonte de dor do meu irmão. Eu adorava os meus pais, mas não conseguiria perdoá-los se eles o magoassem. E, apesar de a minha solução ser tentar garantir que não iria correr assim tão mal, eu tinha quase a certeza de como iria acontecer. Queria dar força ao meu irmão, sem dar muitas esperanças, porque sabia que eles iriam quebrar qualquer réstia que ele pudesse ter. Apesar de terem aceitado Jake na nossa casa, depois de ele contar à sua mãe, fizeram-no por mim. Sempre que ele ia a sua casa e eles se apanhavam só comigo, diziam que não gostavam nada de ter uma pessoa como ele na sua casa. Apesar de o terem adorado desde que era criança e durante toda a nossa amizade, ignoravam tudo isso a partir do momento em que souberam que era homossexual. Declan, no entanto, nunca tinha ouvido isso, porque eu certificava-me que ele não ouvia essas conversas, sendo que Jake era o seu maior ídolo.
Suspirei. Não sabia se estava pronto para a futura divisão da minha família, mas escolheria Declan a qualquer altura. Talvez ele não fosse ter o apoio dos nossos pais, mas tinha-me a mim, Jake e Miles que, apesar de não sermos exatamente material próprio para paternidade, adorávamo-lo e isso chegava.
- Boa sorte. Depois liga-me. Tu és forte, eu sei que és.
- Claro. – respirou fundo. – Espero ser.
oláoláolá!!
bemmm, peço desculpa por não ter publicado isto ontem, como tinha prometido, mas aqui está!! e aqui começa a parte mais séria (i guess?) da Cair e Levantar - also, apresento-vos o Declan, o melhor irmão mais novo de sempre <3
espero que estejam a gostar tanto como eu gostei de escrever isto e espero que esteja tudo bem com as vossas vidas, também!!
anyway, e em relação à música: HOLY SHIT AM I RIGHT??? nunca é demais sublinhar que esta história é toda uma viagem no tempo musical, adoro a Mia por isso. i mean, ela nem apareceu diretamente neste capítulo mas toda a gente sabe que é por causa dela que a música apareceu lmao
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