Capítulo XXX [PARTE DOIS]







A P R I L


— EU ESTOU INCOMODANDO VOCÊS? — eu perguntei devagar, porém alto o suficiente para alcançar os passantes, até mesmo aqueles que nos observavam a uma distância segura. Todos eles, malditos fofoqueiros. Eu e Jackie teríamos conseguido atravessar o parque em paz se não fosse pelo olhar clínico de mães super protetoras e pela imaginação fértil de meia dúzia de aposentados.

Quando não recebi uma resposta, eu me dirigi ao homem bloqueando meu caminho:

— Eles não parecem incomodados para mim! — Gesticulei para trás, onde eu sabia que um grupo de idosos cochichava. — Não entendo como podemos estar perturbando a paz, seu guarda.

Pelo canto do olho, eu flagrei o momento em que Jackie ergueu a mão em direção ao rosto do outro guarda. Ela parecia fascinada pelo bigode que crescia sobre o lábio superior do homem, uma penugem branca tão espessa e vívida quanto a de uma lagarta de fogo. Por sorte, eu segurei minha amiga pelo braço a tempo de evitar um incidente e consegui esconder a cesta de piquenique atrás do meu corpo com cuidado — explicar ao homem o que diabos Jackie queria com seu bigode estava fora de cogitação e, embora eu não tivesse cem por cento de certeza do teor de THC naqueles brownies, eu não podia arriscar tê-los confiscados por um policial com uma fraqueza por doces.

Quer dizer, eu e Jackie achávamos que os brownies tinham maconha.

Talvez não muita, mas havia alguma coisa ali.

Sendo bem sincera, o contraste entre a expectativa e a realidade chegava a me deixar triste. Sério. Levando em consideração tudo o que passamos para conseguir aquela maldita cesta de brownies, eu estava esperando ser derrubada por uma onda mais forte do que aquela que varreu Woodstock em 1969 — se bem que eu duvidava que em Woodstock eles tivessem parado apenas na maconha.

O que importava era que eu esperava algo completamente diferente e, apesar da dormência e da leve sensação desorientação, volta e meia eu me perguntava: "será que bateu mesmo?".

Talvez tudo não passasse de um efeito placebo muito louco. Quer dizer, olhar para a cara de Jackie e cair na risada não era uma experiência tão distante de qualquer terça-feira comum na minha vida.

— Garota, é melhor você abaixar seu tom de voz e nos acompanhar até a delegacia — o homem de uniforme tinha as mãos em repouso sobre o cinto, sua barriga saliente apontava para mim. — Você e sua amiga estão em apuros.

Ignorando a ameaça, Jackie tocou o próprio rosto.

Merda.

Eu tive que morder a boca para não rir.

— Mas por quê?

As palavras abandonaram meus lábios agudas demais para meus ouvidos. Se eu não arrumasse a minha postura logo, o guarda pensaria que eu estava debochando dele e, na minha experiência, não havia nada pior do que um homem fardado ofendido — eles conseguiam ser piores do que madames.

Muito bem.

Eu continuava a segurar Jackie e o cesto, completamente imóvel. Talvez imóvel até demais.

Oh, Deus.

Graças à minha falta de atenção, eu não percebi que guarda estava falando de novo.

Mas não era comigo.

Ele colou sua boca ao rádio pendurado em seu uniforme, olhos perdidos no portão atrás de nós:

— Unidade, responda. Câmbio.

Nós ouvimos o inconfundível som de vidro se quebrando seguido pelo silvo estridente de um alarme de segurança. Entre o ir e vir de curiosos, eu consegui distinguir a pequena viatura estacionada próxima às grades do parque: seu retrovisor parecia ter sido estraçalhado por um objeto do tamanho de uma roda.

Enquanto os guardas estavam distraídos, agarrados aos seus walkie talkies, uma mão se fechou ao redor do meu pulso.

— Venha, April. — Era Finch, meu amigo. Ele mostrava seus dentes brancos em um sorriso sem fôlego. — Nós temos que ir.


• • •


Meu corpo estava inclinado sobre a janela do carro. Eu observava o movimento vagaroso das nuvens que rasgavam o céu, sentindo o ar frio congelando meu rosto. Na última meia hora, o laranja do pôr do sol havia caído sobre o horizonte além dos prédios e se descortinava diante dos meus olhos como um véu, substituído aos poucos por um cinza azulado.

A paisagem era tão bonita quanto um sonho.

Eu me sentia sonolenta também, como na maioria dos meus sonhos.

Definitivamente, acompanhar os garotos até o mercado se mostrou uma tarefa tediosa em comparação ao nosso passeio no parque — apenas momentos atrás, eu e Jackie estávamos despistando os policiais com ajuda de Finch: nós entramos no carro que aguardava na outra esquina e observamos a viatura desaparecer à distância pelo espelho retrovisor, sem acreditar na nossa sorte.

Nenhum ir e vir de lojas de bebidas supera aquela emoção.

Sentada no banco do passageiro de um carro parado, quase senti saudades de correr descalça pelo gramado.

— O que você tem na cabeça? — A voz de Hunter atravessou meus ouvidos como o estrondo de um trovão.

Ajustei o espelho lateral do carro para observar a cena: Hunter estava alguns metros mais a fundo dentro do estacionamento, discutindo com Lexie. O pequeno quadrado não me permitia ver muita coisa além da expressão furiosa no rosto dela. Ao que parecia, Hunter havia reservado um tempinho para esbravejar com cada um de nós desde que deixamos o parque para trás e, no momento, era a vez de Lexie — ela conseguira conquistar toda sua atenção para si, respondendo a cada acusação com um insulto à altura.

O som de um carrinho de mercado sacolejando sobre o asfalto me despertou do transe.

Eu observei um sorriso travesso crescer nos lábios de Seth à medida que ele encurtava a distância entre nós, empurrando o carrinho até estacionar ao lado da minha porta — seus cílios longos e acobreados mal contrastavam sua pele pálida, salpicada por sardas.

— Foi aqui que chamaram o táxi? — ele disse, erguendo as sobrancelhas para mim.

Não resisti ao convite.

Me acomodei dentro do carrinho, rindo sem acreditar. Da última vez que fiz isso, eu ainda era uma criança entediada acompanhando a família em uma ida ao supermercado — continuava exatamente tão desconfortável quanto eu lembrava.

— Vejo que você encontrou seus sapatos.

— Eu nunca os perdi. — Empurrei meus mocassins contra a grade do carrinho e o brilho imaculado do couro capturou a minha atenção. Meus pais me matariam se precisassem substituir os sapatos do uniforme a essa altura do campeonato. — Eu só os tirei por um momento.

Nós arrancamos de uma vez e aceleramos entre os carros.

— Seth, você sabia que o Steve Jobs gostava de andar descalço?

— Eu também gosto. — Mesmo de costas, ouvi o sorriso em sua voz. — É parte da experiência humana universal... Isso e usar drogas.

Uma risada escapou pelos meus lábios e eu me surpreendi com o som. Meu corpo sacolejava sobre o chão acidentado junto com o carrinho enquanto o vento gelado acariciava meu rosto e desalinhava meus cabelos.

Nós terminamos de cruzar o estacionamento e nos aproximamos do mercado, onde os outros se reuniram para conversar. Seth cumprimentou alguns conhecidos com um aceno e, sem querer, meus pensamentos foram transportados para a outra noite: Hunter me contou sobre a confusão que haviam armado na casa de seu pai e das suas suspeitas em relação ao amigo ruivo — Seth era complicado, mas era como parte da família para ele.

— Você e a sua amiga conseguiram arrumar uma confusão e tanto, lindinha.

Jackie estava mais à frente. Ela empurrava um carrinho também, segurando o visor de seu celular muito próximo de seu nariz.

Nós atravessamos a porta do mercado atrás da minha amiga e a seguimos até o corredor de guloseimas, onde ela agarrou uma embalagem de Pringles e vários chocolates.

Curiosamente, toda vez que Jackie parava, nós parávamos também.

— Eu não mandei vocês jogarem pedras em uma viatura, Seth — resmunguei ao jogar minha cabeça para trás para fitar o condutor do carrinho. — Aliás, quem teve essa ideia?

— Não sei — respondeu desinteressado, seus olhos presos a Jackie, acompanhando a menina à distância.

Seth claramente não queria conversar.

Quando eu estava começando a me sentir como uma peça crucial do plano dele, jogada para lá e para cá como um saco de batatas, nós nos movemos novamente.

Dessa vez, as rodinhas do carrinho deslizavam mais rápido sobre o chão.

— Você vai mesmo me usar de desculpa para falar com ela?

— A realidade é simples, lindinha: quem não tem cão, caça com gato.

A resposta me surpreendeu. Eu poderia jurar que ele não estava me ouvindo.

Antes que Seth conseguisse cumprir seu objetivo de alcançar a minha amiga, uma figura masculina bloqueou nosso caminho: ombros largos, cabelos escuros e olhos azuis como geleiras.

Eu me endireitei dentro do carrinho.

— Hunter! — Seth disse, fingindo surpresa. — Que coincidência! Nós estávamos falando de você agorinha.

— Quando eu te disse para me esperar no próximo quarteirão...

Ah, bem.

Meus dedos soltaram as grades metálicas das laterais.

Chegou a vez do Seth.

— Eu tentei! — Nosso amigo ruivo arregalou seus olhos claros, antecipando acusações. — Mas um guarda ameaçou me multar.

— É — Hunter disse seco. — Daí você preferiu ser multado por excesso de velocidade.

Seth concordou com a cabeça.

— Naturalmente.

Uma risada silenciosa fez meu corpo estremecer dentro do carrinho. Eu lutava contra um sorriso, decidida a chamar o mínimo de atenção possível, mas eles começaram a trocar ofensas hilárias e meu riso evoluiu para uma gargalhada.

O som repentino atraiu um par de olhos azuis. Campbell franziu suas sobrancelhas escuras para mim e Seth aproveitou a oportunidade para fugir em direção ao setor de congelados.

Covarde.

Hunter contornou o carrinho para me alcançar e fechei os olhos, preparada para ouvir um sermão.

Para minha surpresa, porém, quando ele falou de novo, sua voz não soava brava: seus dedos se arrastaram contra minha bochecha em um carinho delicado e eu abri meus olhos para encontrá-lo muito perto, suas íris azuis queimando meu rosto enquanto uma ruguinha crescia em sua testa.

— Eu posso te levar para casa.

Me aproveitando de suas carícias, eu aninhei meu rosto a sua mão e abri um sorriso:

— Eu estou bem. — Minha respiração escapava por meus lábios com dificuldade, alterada graças à crise de riso. — Na verdade, estou morrendo de fome.

Ele assentiu com calma e indicou os pacotes espalhados pelo carrinho com o queixo, sem tirar os olhos de mim:

— Batatas e chocolates vão segurar a sua fome?

Talvez eu tenha exagerado um pouco.

— É o que vamos descobrir. — Ergui uma das sobrancelhas para sua brincadeira. — Mas nada disso estaria acontecendo se a sua ex não tivesse me feito de mula.

Eu e Jackie tínhamos nos divertido horrores com a nossa pequena missão, só que Hunter não precisava saber disso.

— Ela não é minha ex.

— Isso é o que mais te perturba nessa frase?

Hunter negou distraído, seus olhos perdidos na minha boca. Ele se inclinou para mim e eu enrosquei os dedos na grade de metal, procurando algum apoio para alcançá-lo mais rápido.

Eu queria aquele beijo.

Assim que seus lábios roçaram contra os meus, porém, um engradado de latinhas de cerveja aterrissou aos meus pés dentro do carrinho. Ergui meu rosto, surpresa ao encontrar Cole nos encarando — seu maxilar rígido se destacava sob a pele e seus cabelos claros estavam penteados para trás, quase prateados sob a luz do supermercado. Havia a sombra arroxeada sob seu olho e um corte em seu supercílio, a lembrança de um soco bem merecido, desferido por Hunter na outra noite.

Jackie apareceu logo em seguida e se prontificou a me segurar pelas mãos, me guiando para longe da cena:

— Vamos.

Apesar de impressionada com a aparição repentina, eu obedeci a sugestão da minha amiga com passos hesitantes. Eu não queria ir embora — não gostava da ideia de deixar Hunter para trás; se fosse para que ele pudesse brigar com meu irmão, então, gostava menos ainda.

— Eles vão conversar, April. — Minha amiga entrelaçou nossos braços, me rebocando até o outro corredor. — Civilizadamente.

— Eu não estou tão fora de mim a ponto de acreditar nessa.

— Bom, nós precisamos consertar isso.

Jackie me soltou por um momento e se aproximou de uma prateleira de bebidas, correndo seus dedos entre as garrafas de vidro transparentes com rótulos conhecidos.

Vodka.

Nela, sim, eu podia acreditar.








H U N T E R


— Ela confia em você. — Cole posicionou as mãos sobre o carrinho e me encarou com aspereza, seus olhos escuros fundos, um reflexo de noites mal dormidas. — Eu não sei como e nem porquê, mas ela confia.

Embora o assunto claramente o perturbasse, aqueles malditos avisos envolvendo a irmã dele estavam ficando velhos. Eu e April estávamos mais sólidos do que nunca e eu não deixaria nada — nem ninguém — estragar a nossa paz.

Nem mesmo eu.

Por esse motivo, eu me obriguei a respirar fundo vinte vezes antes de perguntar:

— Você veio até aqui para conversar sobre a sua irmã?

Ele puxou seus cabelos descoloridos para trás, parecendo contrariado com a situação. O filho da puta podia não ter muita fé em nós, mas eu tinha certeza que April estava mais feliz e segura ao meu lado — ela havia me escolhido, assim como eu a escolhi e continuaria a escolher milhares de outras vezes se fosse necessário.

— Eu trouxe o resto do dinheiro que arrecadamos na outra noite. — Cole mudou de assunto, retirando dois bolos de dinheiro do bolso, ambos presos com elásticos de borracha. — Nós recuperamos o valor que foi roubado. Pagamos a gráfica e as camisas. Podemos pagar boa parte dos gastos do evento de hoje e ainda sobre para a caixinha da formatura. — Eu segurei um maço de cédulas e o abri como um baralho com a ponta dos meus dedos. — Deu tudo certo, como eu disse que daria.

— Tudo certo, mas com algumas intercorrências, né? — Zack se aproximou com uma cara péssima, surpreendendo a nós dois com o arrastar de seu vans pelo chão. — Se é que dá pra chamar a hospitalização de três pessoas de intercorrência.

Desde a noite no pub, havia uma animosidade entre eles.

Cole havia permitido que a banda fizesse uma apresentação para uma plateia composta metade por alunos de St. Clair e metade por motoqueiros furiosos, ansiosos para reivindicar a cena local. Ele sabia que daria merda, mas decidiu não avisar — essa, pelo menos, foi a versão que chegou aos ouvidos de Zack e o enfureceu: envolvia uma simples ocultação de informação, o tipo de desgraça que estava fadada a acontecer uma hora ou outra naquele bar.

E, se a versão censurada havia enfurecido Zack, eu não podia imaginar o que ele faria se descobrisse o que realmente acontecera naquela noite. A verdade era que Cole estava vendendo drogas no território da Sick Rabbit, uma gangue de motoqueiros de quinta categoria — toda violência que presenciamos foi uma pequena retaliação pelo desrespeito cometido por ele e eu sabia que aquela informação tinha potencial para arruinar a nossa banda de uma vez por todas.

O motivo da minha certeza era complexo e envolvia Zack.

Zack era um cara legal. Nós sempre nos demos bem, apesar de não conversarmos tanto. Ele era mais sossegado que eu e Seth, um cara reservado, do tipo que conseguia ser popular entre as garotas sem arranjar muitos problemas para si. Uma coisa que nem todos sabiam sobre ele, porém, era a natureza dos problemas que enfrentava em casa. O cara odiava tocar no assunto. Desde que o conheci, se o ouvi mencionar o nome da mãe mais que duas vezes era muita coisa. Nós sabíamos pouco além de seu status: em reabilitação, em recaída — a luta contra a dependência química havia se tornado uma constante na vida dela.

Eu não fazia ideia de como ele reagiria se soubesse que seu melhor amigo andava armando por suas costas, mas com certeza não seria nada bonito de se ver. Cole merecia levar uma surra, claro, mas eu não queria assistir a vida de Zack virar de ponta cabeça de novo.

— Eu já disse que não queria que as pessoas se machucassem.

— Nós sabemos o preço por engradado? — Zack o ignorou, revirando o próprio carrinho, cabelos castanhos caindo sobre seu rosto. — Três, quatro... Nós já temos um barril de cerveja no carro. Eu não quero malucos bêbados vomitando na piscina da escola.

Além de todas as merdas que estavam acontecendo, eu sabia que Zack estava meio emputecido porque a namorada dele não fora convidada para a festa. Zoe não era da nossa fraternidade e, por isso, não foi considerada bem vinda no nosso trote — o tipo de merda ilegal que faríamos hoje precisava permanecer parcialmente secreta se quiséssemos nos formar.

— Acho que já temos o suficiente bebidas — eu me manifestei, decidido a mostrar serviço antes que os dois começassem mais uma discussão.

Zack desceu os olhos para o carrinho de mercado que eu segurava entre as mãos. Havia todo tipo de batatinha e doce amontoado no fundo daquelas grades metálicas. Ele pegou uma das guloseimas de April e a ergueu me encarando de sobrancelhas arqueadas, tão desacreditado quanto estaria se estivesse conduzindo uma investigação anticorrupção real:

Twix?

— São os chocolates da April — expliquei, tomando o chocolate de sua mão.

Ouvindo isso, Cole entregou os maços do dinheiro arrecadado ao vocalista e meteu a mão no meu carrinho:

— Eu pago.

Eu pago — corrigi.

Puta que pariu.

Se um dia não tivesse dinheiro para pagar um mísero chocolate para April, poderiam me enterrar porque certamente eu seria um homem morto e sem orgulho.

— É foda isso. — Zack podia estar mal humorado, mas não conteve a risada. — Queria que alguém brigasse para pagar as minhas contas.

Eu não pensei antes de dizer "vai se foder" e me surpreendi quando a voz do Cole se juntou à minha.

Nós nos encaramos por um momento, cada um segurando o carrinho de um lado, sem a perspectiva de soltar.

Ah, April.

O que diabos você está fazendo comigo?


• • •



A boa notícia era que o molho de chave que conseguimos com Eugene estava bem atualizado.

A má notícia era que bebidas, infelizmente, não se transportavam sozinhas pelos terrenos do colégio.

— Por que tinha que ser nós dois? — Seth respirou com dificuldade ao subir mais um degrau e o barril de cerveja quase escorregou entre meus dedos. — Cuidado com meu joelho, porra. Quero ver vocês jogarem sem um ala.

Enquanto alguns se aventuravam pelas salas escuras e corredores vazios, nós seguíamos um caminho de pedra até a piscina coberta, onde a maioria das pessoas já havia começado a curtir a festa.

Definitivamente, trabalhar igual a um corno a noite toda não estava entre meus planos.

Degrau — eu avisei, sentindo a superfície gelada do metal pesar contra minhas mãos. — Mais impressionante que isso só se você carregasse o barril em silêncio.

Para variar um pouco, Seth ignorou a minha súplica e continuou a tagarelar:

— Finch já sumiu, aposto que foi fazer merda. Eu ouvi um dos caras dizendo que as portas para o grêmio da Champoudry passam a noite abertas.

— É esse o tão antecipado trote do nosso último ano? — Nós subimos o último lance de escadas devagar, cada vez mais próximos das portas envidraçadas. — O bom e velho vandalismo?

— Nunca sai de moda por aqui. — Ele sorriu e seu rosto foi parcialmente iluminado pelas luzes azuladas da piscina. — Encontraram o interruptor! Bando de tontos. Ai. Chega. — Meu amigo recuou com uma careta, abaixando sua extremidade do barril até o chão. — Preciso descansar.

Eu mal havia me sentado sobre a grama quando uns caras da nossa turma passaram por nós e se ofereceram para levar o barril até o interior do prédio.

Tequila! — Um deles apontou para Seth rindo como se lembrasse de alguma coisa. — Nós precisamos virar uma depois. Vou te cobrar.

— Valeu.

Lexie já podia morrer feliz porque a festa era um sucesso. As pessoas não paravam de chegar. Mesmo a distância, eu consegui distinguir April conversando com uma amiga e outras meninas desconhecidas à beira da piscina.

Ei. — Seth me estendeu uma ponta de um beck.

Eu não tinha ideia de onde ele tinha arrumado aquilo, mas aceitei um trago.

Nós ficamos ali por mais alguns minutos, pensando em nada, até meu amigo ficar sério e estranho. Seth fazia isso em situações sociais às vezes: ele se agitava, acendia uma fogueira e depois, quando a festa não precisava mais de suas instigações insistentes e as chamas estavam fortes o suficiente, observava tudo queimar à distância.

— Valeu — recusei o próximo, me levantando. — Eu ainda preciso dirigir hoje.

A ponta alaranjada queimou mais forte quando ele deu outra tragada demorada no cigarro.

— Bom — murmurou para si, avaliando o cigarro entre os dedos com uma expressão pensativa. Quando eu estava pronto para me despedir, Seth deu continuidade aos seus devaneios: — Eu pensei que ela estava jogando com nós dois, mas no fim ela só estava jogando comigo.

Foi tão de repente que até me assustou.

Ele expeliu a fumaça em uma coluna espessa antes que eu tomasse coragem para perguntar.

— Como assim?

Em resposta, meu amigo ergueu o queixo em direção ao prédio da piscina. Através da parede envidraçada, eu enxerguei duas figuras na arquibancada: Jackie e Finch. Eles conversavam muito próximos, rindo de alguma coisa, apoiados nas barras de segurança.

— Ele citou o panóptico de Foucault mais cedo. — Seth arregalou os olhos de brincadeira. — Acabou pra mim.

Eu ri com vontade.

— Não é possível.

Se a April quisesse conversar sobre o panóptico de Foucault, eu pularia de um precipício.

— Não. — Ele negou em definitivo, agitando seus cabelos acobreados. — Chega. Dessa vez eu estou falando sério. Se eu continuar, corro risco de segurar a vela.

— Ela vai se cansar desse papo.

— A garota quer profundidade — disse de uma vez, como se encerrasse a conversa. — Eu não sou assim.

Porra.

Eu não sabia o que dizer em resposta.

Seth devia ter percebido isso, porque apagou a ponta.

— Anda, vamos — murmurou, seus olhos perdidos em algo atrás de mim. — Nós precisamos voltar para festa antes que a sua garota tire todas as roupas.

Eu segui seu olhar e encontrei o inacreditável: April sorria à beira da piscina, abrindo os botões de seu uniforme, um por um. Outras pessoas já nadavam na piscina e algumas pareciam incentivá-la a entrar na água.

Antes que eu pudesse registrar, meus pés estavam em movimento sobre o gramado. Eu andava às cegas em direção à porta envidraçada.

Em direção à April.


• • •



A P R I L


Eu e Jackie apostamos uma corrida na volta para o carro, cada uma em sua própria carruagem de metal. Nós gargalhamos embriagadas, gritando a plenos pulmões enquanto os nossos carrinhos sacolejavam contra o chão irregular do estacionamento. Logo depois, quando eu pensei que a noite não poderia ficar mais divertida, o nosso destino final foi revelado: além dos portões enferrujados, os terrenos de St. Clair nos aguardavam, engolidos pela escuridão — nós invadimos uma das entradas laterais, longe dos olhos de curiosos e atravessamos halls vazios, guiados apenas pelo brilho fraco de lanternas.

Eu me lembrava da música alta, do sabor da cerveja e até mesmo do ardor do cloro no meu nariz.

Sim.

A festa e a piscina interna — tudo isso, eu me lembrava.

O que eu não me lembrava era como eu havia chegado ali: nós estávamos no carro de novo, eu e Hunter. Horas depois de termos chegado no colégio, ele estava de volta ao seu lugar atrás do volante, dirigindo pelas ruas escuras do centro — dessa vez, eu assisti St. Clair diminuir a distância pelo retrovisor, envolta por um cobertor de lã.

Meus ombros estavam frios, úmidos sob o tecido grosso. Eu levei uma das mãos ao início do meu pescoço, cheia de hesitação. Mal enxergava meus próprios dedos no interior do carro escuro.

— Por que meu cabelo está todo molhado?

Hunter parecia calmo, seu rosto escondido pelas sombras. Ele desviou sua atenção do asfalto por um momento e seus olhos azuis faiscaram para mim como diamantes, iluminados por farois de carros que trafegavam na pista contrária:

— Você pulou na piscina da escola.

Me agarrei às cobertas com mais força, sentindo meu coração parar no peito.

— Eu estava pelada?

Uma risada descontraída escapou por seus lábios e o som me confundiu — por mais que eu quisesse relaxar, não conseguia: aquilo soava exatamente como o tipo de coisa que eu faria depois de ingerir uma quantidade estúpida de álcool.

— Tive a sorte de te convencer a não tirar o sutiã.

— Hunter!

— April! — ele devolveu, exibindo seus dentes em um sorriso de lobo. — Em que mundo eu te deixaria nadar nua na frente de um bando de marmanjos?

Tudo bem.

Aquilo fazia sentido.

Eu me acomodei contra o banco, pensando na minha próxima pergunta. Embora não estivesse completamente em paz, eu me sentia um pouco mais confiante para continuar a preencher as lacunas.

— Você nadou também — percebi, observando seu cabelo molhado, caído sobre sua testa. — Não acredito que te fiz perder a festa.

— Acredite em mim, April — ele disse baixo, girando suas mãos sobre o volante. — A festa ficou bem parada depois que você pegou no sono.

Bom.

Se eu consegui dormir, então eu não passei o tempo inteiro fazendo besteira.

— Você roubou a cena — completou devagar, batucando os dedos sobre o volante. — Você e seu sutiã vermelho.

Ah, não.

Enterrando o rosto entre as minhas mãos, eu senti o que deveria ser o início de uma dor de cabeça fodida.

— Por favor, para.

— Não foi tão ruim quanto parece, eu prometo. — Hunter riu mais um pouco, deixando de lado o tom malicioso. — Você estava só se divertindo. Todo mundo da festa estava igual ou pior.

Em silêncio, eu afrouxei o aperto do cinto de segurança.

Inspira, expira.

Merda.

Eu definitivamente não cheguei no carro andando com as minhas próprias pernas.

Não vomite, April. Por tudo que é mais sagrado, não vomite.

Meu exercício de respiração deve ter assustado Hunter. Assim que paramos em um sinal vermelho, ele aproveitou para esticar o corpo e procurar por algo no banco de trás.

— Beba isso. — Depositou uma garrafa de água no meu colo e se voltou para frente, prestando atenção no trânsito: — Tem aspirina no porta luvas. Você pode tomar uma de manhã. — Ele fez uma pausa enquanto me examinava. — Quer que eu pare? Vai vomitar?

— Não.

Nem ferrando.

Eu segui suas instruções, revirando o porta luvas atrás do remédio. Entre pendrives e CD's velhos, encontrei uma cartela solitária de aspirina. Guardei no fundo do meu bolso. Eu estava quase seca sob as duas camadas de cobertores de lã. Minhas roupas íntimas estavam encharcadas, claro, mas meu uniforme escolar — o mesmo que havia vestido no dia anterior — estava apenas meio úmido em algumas partes.

Caralho.

Meus pais não deviam fazer ideia do meu paradeiro. Eu tive que rir baixinho, me dando conta que faltava pouco para completarmos vinte e quatro horas desde nosso último contato. O efeito da bebida não havia passado totalmente, mas eu já conseguia ter alguma noção da ressaca monstruosa que me aguardava e das possíveis consequências tenebrosas das minhas ações.

Hunter acelerou por uma avenida vazia ladeada por postes de iluminação. O interior do veículo foi preenchido pelas luzes amarelas, como se fosse dia, e um objeto estranho no canto do banco de trás chamou a minha atenção.

— O que é aquilo?

Parecia uma estátua.

Não, um busto.

— Lexie... — Hunter hesitou assim que o nome deixou seus lábios. Eu assisti seus olhos se perderem sobre o painel como se tivesse medo de invocar uma briga acidentalmente. — Lexie e Seth decidiram fazer um trote. Acho que Finch estava com eles e Jackie também. — Deu de ombros, como se aquilo fosse explicação o suficiente: — É nosso prêmio de guerra.

Eu sabia que reconhecia aquele rosto de mármore de algum lugar. Era o patrono de uma fraternidade rival, os Champoudry.

— Você pode ser expulso por isso.

Depois do esforço que eu tive para evitar que ele e Josh brigassem naquela manhã, a situação parecia quase irônica — a promessa de expulsão aparentemente não estava entre suas preocupações.

— Eu sei — assentiu devagar e os cantos de sua boca se ergueram em um pequeno sorriso. — Mas não vou. Eu não participei. Eu estava cuidando de você.

Burro.

Fofo, mas burro.

Lexie e os outros poderiam ter feito o trabalho sujo, mas o maldito busto roubado ainda estava rodando pela cidade no banco de trás do carro dele.

Se encontrassem a cabeça de mármore escondida ali, Hunter seria expulso na certa.

Minhas sobrancelhas estavam franzidas em frustração, mas eu decidi não seguir adiante com aquele assunto. Hunter não era nenhuma criança indefesa. Ele devia saber o risco que estava correndo quando aceitou fazer parte desse trote e eu não queria repreendê-lo como uma mãe — com certeza, não era esse o papel que eu queria ocupar na vida dele.

O carro havia diminuído a velocidade quando eu quebrei o silêncio, puxando um fiapo do tecido de lã da coberta:

— Onde nós estamos?

Hm?

No momento, nós navegávamos pelas ruas pacatas de um bairro residencial com casas de janelas escuras e carros estacionados em uma longa fileira pelo meio fio. Eu queria me distrair com uma conversa, mas Hunter parecia perdido em pensamentos.

— Para onde vamos?

— Casa.

Através das janelas, observei a paisagem pouco familiar que se estendia quarteirão após quarteirão.

— Não a minha.

— É. — Ele lançou um olhar divertido na minha direção, lábios repuxados em um sorriso. — Eu pensei em irmos para a minha casa.


• • •



Nós subimos os degraus da frente de uma casa geminada de muros baixos, exatamente igual a todas as outras da rua — descobri que Hunter morava em um bairro típico operário inglês, mais um entre tantos naquela cidade. Ele girou a chave na fechadura, talvez completamente inconsciente do fascínio que a casa exercia sobre mim, e abriu a porta para revelar um hall minúsculo cheio de casacos pendurados em ganchos.

A visão me surpreendeu: era uma casa de verdade, do tipo que você entrava e imediatamente podia sentir que as pessoas viviam ali. Havia um calor entre aquelas paredes, memórias encravadas naquelas vigas de madeira — algo diferente do que eu estava acostumada, distante do mausoléu frio e impessoal que eu morava.

— Pode entrar — ele me encorajou.

Eu atravessei a porta receosa e descalcei meus mocassins, deixando-os na entrada assim como os outros pares de sapatos.

O corredor era caminho para uma escada estreita e dois outros cômodos: uma sala escura, com uma porta envidraçada com vista para um quintal, e uma pequena cozinha iluminada pela luz proveniente das janelas. Eu estendi minhas mãos para tocar as paredes e voltei meu corpo para Hunter, ouvindo as tábuas de madeira rangerem sob meus pés.

Os batentes da porta emolduravam seus ombros largos, superando sua altura por alguns palmos. Eu o imaginei cruzando aquele corredor em diferentes fases de sua vida como a criança nos porta retratos.

Hunter havia crescido ali.

Eu não conseguia explicar o porquê, mas aquilo mexia comigo.

Puxando o cobertor sobre os meus ombros, eu me equilibrei na ponta dos pés e envolvi seu pescoço. Eu queria beijá-lo, mas aquele friozinho no estômago era tão gostoso.

— Você quer comer alguma coisa?

Caí na risada.

— Não.

Eu queria outra coisa.

Anda. — Ele me segurou pela cintura e me puxou consigo. — Eu vou te mostrar a cozinha.


• • •



H U N T E R


April aceitou um sanduíche de queijo quente. Ela estava descalça na minha cozinha, nua debaixo de um cobertor grosso e seu cabelo pingava sobre seus ombros. Eu havia colocado suas roupas molhadas na máquina de lavar e secar, apenas para ter o que fazer enquanto ela comia.

Lua nova era uma grande mancha escura sobre sua cama. Ele ergueu a cabeça para nos observar, deu uma fungada insolente e virou seu corpo de lado para dormir melhor.

Muito bem.

Cachorro preguiçoso.

— Sua mãe não está em casa?

Eu a encarei, surpreso por ouvir sua voz. April segurava uma metade do sanduíche com a pontinha dos dedos e me observava com um brilho de expectativa em seus olhos. A pouca luz da rua atravessava a janela da cozinha e iluminava seu rosto, seus cabelos, o contorno de seu corpo.

De repente, a maneira como ela se agarrava ao cobertor, toda encolhida, fez todo sentido.

— Ela está de plantão.

— Uma enfermeira, eu lembro. — Os olhos dela, castanhos e cheios de calor, continuavam a brilhar. April deixou o sanduíche sobre o prato e se levantou da cadeira, abrindo o cobertor para me envolver também. — E não tem ninguém em casa?

Eu senti seu corpo quente, completamente nu, se aninhar ao meu e minhas mãos se afundaram em sua cintura.

Um sorriso quase me escapou quando percebi para onde sua linha de pensamento caminhava.

— Ninguém — murmurei contra seus cabelos, aspirando o cheiro de cloro e o aroma distante de frutas vermelhas de seu shampoo. — Nós estamos sozinhos.

O nariz dela se arrastou pelo meu pescoço e encontrou o início da minha blusa. Era como gelo sobre a minha pele.

— Você pode me mostrar seu quarto?

Nós subimos as escadas, rindo no escuro, enquanto os degraus protestavam sob nosso peso. Assim que eu abri a porta, porém, April passou pelo batente e seus olhos viajaram por cada centímetro de superfície exposta do meu quarto. Eu me sentei sobre a cama e me preparei para uma inspeção minuciosa, observando seus pés descalços erguidos contra o chão e o movimento suave do cobertor que envolvia seus ombros.

Nós estávamos tão acostumados a andar na semi escuridão que dispensei o interruptor de luz. O escuro era importante para o sono, afinal, e meu plano no momento era esperar April se cansar da novidade para colocá-la para dormir.

Sim, dormir.

Embora eu não fizesse ideia de quantos brownies ela havia comido, eu tinha assistido aquela garota beber álcool como se fosse água. Sem falar que ela quase vomitara no meu carro, então, não. Nada de sexo.

— Quem diria. — April sorriu para mim, mostrando o pequeno troféu de um torneio infantil de futebol que segurava entre suas mãos. — Você tem um passado nos esportes.

Eu retribuí seu sorriso em silêncio.

Naquele momento, ao vê-la no meu quarto, eu tive a certeza que nunca havia existido uma mulher mais linda.

Como se pudesse ler meus pensamentos, April largou o troféu e se aproximou de mim. Ela me beijou e tentou me empurrar sobre a cama, mas eu resisti.

— Você disse que queria vomitar, April.

Uma risada musical atravessou meus ouvidos e eu a assistir se levantar, arrastando a coberta pelo chão.

— É, mas eu não vomitei. — Mesmo no escuro, eu podia sentir que ela revirava os olhos para minha preocupação. — É disso que você tem medo? Que eu não esteja sóbria o suficiente?

Quando suas pernas encontraram a escrivaninha, do outro lado do quarto, April soltou a coberta de seus ombros. O tecido grosso correu por seu corpo e caiu aos seus pés. Meus olhos desceram por seu pescoço delicado e acompanharam seus seios redondos, eriçados pelo frio. As peças metálicas de seus piercings brilhavam sob a iluminação fraca da rua, que atravessava a janela.

Caralho.

Minha cabeça estava girando quando baixei meus olhos para seu abdômen plano. Eu a beijei tantas vezes naquele mesmo lugar. April riu baixinho para mim e o vislumbre da penugem fina entre suas pernas fez meu sangue vibrar, correndo diretamente para o meu pau.

— O que acha disso? — Ela abriu os braços como uma equilibrista e, pé atrás de pé, andou em linha reta.

— A janela, April — eu repreendi, embora qualquer autoridade que tivesse sobre aquele quarto houvesse evaporado no momento em que ela jogou aquela coberta no chão. — Os vizinhos vão te ver.

Eu não podia levantar sem chamar atenção para ereção monstruosa em minhas calças.

Mais uma vez, April riu do meu desespero. Tive que assisti-la desfilar nua, seu corpo banhado pela luz prateada da noite. Puta merda. Eu lambi aqueles peitos. Desci minha língua por sua pele e a chupei enquanto metia fundo. Eu estava suando, de pulso acelerado, quase cobrindo meus olhos com as mãos.

— Sim, sim. — Ela abriu a primeira gaveta que encontrou e meus flashcards foram embaralhados por suas mãos curiosas. — E o seu vizinho tem costume de espiar toda mulher pelada que você traz para o seu quarto?

Assim que perdeu interesse no meu material de estudos, April passou para o próximo objeto.

Meu coração deu um pulo quando ela folheou um caderno de capa preta. Meu caderno de músicas. Toda rima ruim e verso perdido encontrava seu caminho para aquelas folhas. Cada possível inspiração que passava pela minha cabeça estava escrita naqueles pedaços de papel. Eram palavras que muitas vezes envolviam April. E ela não podia apenas ler. Não agora.

Sem pensar muito, eu me levantei da cama e recolhi o cobertor caído no chão. April largou o caderno na hora, ansiosa, mas eu tinha outros planos. Eu cobri seus ombros com uma expressão severa, ignorando o brilho de volúpia em seus olhos.

— A janela está aberta — avisei. — Você deve estar com frio.

Ela não deu sinais de me ouvir.

Em vez disso, continuava atenta à minha boca como se pudesse roubar um beijo.

— E você acha que o vizinho estaria interessado em se divertir um pouco? — Perguntou suave. — Se você não me quer...

Minhas mãos envolveram seus braços e eu a puxei para perto com decisão:

— Me pergunte de novo amanhã.

Finalmente, um sorriso amoleceu o repuxar diabólico de seus lábios. April me acompanhou até a cama e se deitou sobre o colchão ao meu lado. Eu ainda estava tenso, esperando algum de seus ataques, mas a promessa de que algo a aguardava no futuro pareceu ser o suficiente para aplacar suas vontades. Ela se aninhou aos meus braços, sorrindo como um gato e passou uma perna sobre as minhas.

— Você me ama.

Uma risada fraca escapou da minha boca e eu sorri de coração disparado, sem saber como me defender da acusação.

— Durma, April.

Observei suas pálpebras pesarem por vários minutos até que, por fim, ela ouviu meu pedido. April fechou seus olhos e, em algum momento entre zelar seu sono e segurá-la contra mim, eu dormi também.











N/A (19.03.2024): NEM ACREDITO:???????

Eu esperei tanto por isso. Tanto por esse capitulo quanto o próximo.

Sei que muitos devem estar ansiosos pelo próximo +18 e eu já comentei no instagram e no twitter sobre um detalhe dessa cena (kkkkkkkkk), mas ainda falta um pouquinho pra acontecer.

Um spoiler? No próximo capítulo, april vai finalmente conhecer a família do hunter kkkkkkk Vai ser mto bom, pro completo desespero da april.

AAAH!!! Vou já já enviar a cena extra pra quem participou, ok? Muito obrigada a todas que participaram, vcs são demais e vão ganhar acesso. Aliás, eu ainda não decidi se envio como arquivo ou se deixo num drive clicável pra vcs... Se alguém tiver alguma ideia, comente pq eu nunca fiz isso.

Obrigada a todos que comentam e me animam! Vocês são demais.

Bjs,

B.

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