Capítulo XXV [PARTE TRÊS]




H U N T E R


QUARENTA E CINCO MINUTOS HAVIAM se passado desde a última vez em que vira April. Ela desaparecera diante dos meus olhos como em um truque de mágica. Não estava atrás do palco, nem na pista e nem no bar. Chequei até a porra do banheiro feminino. Duas vezes. Não sei como não apanhei.

Misturado à multidão, meus olhos procuravam por ela. Um vislumbre de seus cabelos, o som de sua risada ou o contorno de seu corpo. Tudo que eu queria era um sinal de que April estava bem.

Eu não conseguia esquecer o maldito sorriso que ela tinha em seus lábios antes de sumir.

Ela me assombrava, mesmo sem saber.

Por que April tinha que deixar o backstage? Por que não continuar ali, como eu pedi?

Porra. A teimosia daquela garota era tão perigosa quanto qualquer outra arma. April havia encontrado uma maneira eficiente de me torturar, dessa vez sem seus caprichos habituais ou jogos de palavras. Minha mente não descansava, atravessava milhares de possibilidades desastrosas enquanto o alvoroço bêbado do bar se fechava ao meu redor.

Inferno.

Eu não podia continuar a enganar minha consciência: se qualquer coisa acontecesse a April, a culpa seria minha. Ela não tinha como saber que o irmão havia emputecido uma gangue de motoqueiros. Eu mesmo garanti que essa informação não chegasse aos ouvidos dela.

Espera.

Onde diabos estavam Milo e Ziggy?

Meu estômago se revirou na pior das expectativas.

Quando eu estava cogitando retornar ao backstage, o espatifar de uma garrafa contra a parede me fez estremecer. Procurei a origem do barulho, ombros rígidos e mãos cerradas em punhos. Poucos metros atrás de mim, espuma e bebida escorriam livremente sobre o balcão de madeira. Os clientes atingidos pelas lascas de vidro se levantaram desorientados, sem entender o que havia acontecido.

No próximo segundo, o som inconfundível de ossos colidindo contra carne atravessou o pub e gritos inflamados varreram a multidão. Curiosos abriram caminho à cotoveladas, atraídos pelo sangue como abutres. Bem no olho do furacão, havia um garoto do time de futebol cambaleando para trás com o rosto ensanguentado. Ele caiu sobre uma mesa e copos de vidro estouraram contra o chão. Um homem o agarrou pelo colarinho e desferiu outro soco, deixando a marca de seu punho em sua face direita. Não muito distante, um sujeito mal encarado avançava contra um adversário que não chegava a ter nem metade do seu tamanho.

Porra. Não precisava ser um gênio para entender o que acontecia ali. Os homens que instigavam o tumulto tinham a mesma insígnia costurada em suas jaquetas. Sick Rabbit. Eles queriam confusão. Qualquer um que estivesse no alcance de um braço poderia se tornar o próximo alvo.

O lugar era um maldito abatedouro.

Eu precisava encontrar uma saída.

Uma cadeira foi arremessada contra o bar e a multidão se dispersou como um bando de ratos. Os alto-falantes ficaram mudos e as vozes desesperadas se diluíram em um ruído indistinto. Era cada um por si. Com um ombro à frente do corpo, eu caminhei contra o movimento, em direção ao palco. Havia uma porta no backstage, meus amigos deveriam estar lá, transportando os últimos cases de instrumentos até o furgão.

April precisava estar lá.





Em comparação à porta da frente, a saída do palco estava deserta. Qualquer burburinho de conversa soava abafado, a pelo menos um quarteirão de distância. O pub era ladeado por galpões, paredes de tijolo expostas e garagens com grandes portas de metal em ambos os sentidos da rua. Nas calçadas estreitas, latas de metal transbordavam com lixo e carros abandonados subiam o meio fio, estacionados em fila.

A porta se fechou atrás de mim com um som grave e tive a certeza de que estava sozinho. Eu avancei pela rua com passos largos e decididos, treinando meus ouvidos para qualquer ruído que não fosse o do tráfego.

Meu fôlego abandonou meus lábios como fumaça.

April, April, April.

Onde você foi se meter?

O furgão de Seth continuava no mesmo lugar, embicado na garagem de um galpão do outro lado da rua — portas traseiras abertas, como se alguém tivesse saído às pressas. Zoe estava sentada no interior do veículo com as pernas voltadas para fora, suas botas de combate pendendo centímetros acima do chão. Havia um filete de sangue em sua testa e a luz amarelada dos postes se projetava sobre seus cabelos longos. Ela me encarou com os olhos cheios de lágrimas. Parecia assustada. Zack estava de pé ao lado da menina, resmungando algo para si, distraído. Tinha as sobrancelhas unidas em preocupação e revirava uma caixa de primeiros socorros. Não deu sinal de reconhecer minha presença na outra calçada.

Sem tempo para recuperar o fôlego, corri disparado até o furgão e espiei o interior do veículo, janela por janela. Apenas caixas e bancos vazios. Nada de April.

Puta merda.

Que porra eu deveria fazer? Onde mais eu deveria procurar? April estava no interior do pub? Ela tinha se perdido? Estava bem?

Meus dedos se embrenharam em meus cabelos enquanto eu caminhava de volta para a parte traseira do furgão. Vômito subia pela garganta. Eu estava prestes a colocar tudo para fora quando Zoe plantou os pés no asfalto, discutindo aos sussurros com o vocalista:

— Eu preciso encontrá-la.

Apesar da diferença de altura, ela parecia disposta a enfrentá-lo. Queixo erguido, postura desafiante. Mãos na cintura e tudo. De alguma forma, Zoe parecia ainda menor, engolida pelo casaco do namorado.

Zack a segurou pelos ombros e inclinou seu rosto baixo, alcançando os olhos dela:

— Já conversamos sobre isso. Você não vai a lugar algum. Eu não vou deixar.

Aos poucos, a menina cedeu.

Ela se sentou novamente e o vocalista aproximou a gaze de sua testa. Pequenos fragmentos de vidro brilhavam no cabelo dela, próximos ao machucado vermelho vivo em sua pele. Zack comprimiu os lábios em uma linha reta enquanto limpava com cuidado, como se fazer aquilo doesse nele mesmo.

— O que aconteceu? — finalmente perguntei — Onde está a April?

Zoe encolheu os ombros dentro da jaqueta jeans enorme e me encarou com seus olhos escuros, cheios de pesar:

— Eu a perdi.

Uma enxurrada de perguntas ameaçou escapar da minha boca, mas eu me segurei.

Não queria deixar Zoe apavorada. A garota parecia a ponto de chorar e algo me dizia que Zack não hesitaria em meu nariz se eu tentasse pressioná-la por respostas.

— Dá pra acreditar? — o vocalista descartou a gaze suja sobre uma pilha — No meio do tumulto um babaca arremessou uma garrafa contra um poste. Aconteceu bem quando ela estava passando.

Ela? Ela quem?

Zack falava de April?

Não.

A julgar pela expressão no rosto dele, o vocalista falava de Zoe:

— Voou vidro para todo lado — gesticulou nervoso, aplicando mais álcool em uma gaze limpa — Um estilhaço pegou na testa dela. Eu a encontrei sangrando. Não vi April.

Zoe desviou o rosto, cruzando os braços dentro da jaqueta jeans.

— Do jeito que você fala, parece que eu levei um tiro. Foi só um arranhão.

— Você teve sorte — ele franziu a testa distraído — Imagina se pega no olho?

Assim que Zack pressionou a gaze contra o corte, a menina se encolheu:

— Ai.

— Isso mesmo — concordou, enérgico — Ai.

Eu não tinha tempo para aquela merda.

Eles podiam namorar depois, quando April estivesse a salvo e, de preferência, bem longe daquele inferno.

Antes que eu pudesse interrompê-los, gritos e risadas escandalosas afugentaram o silêncio. O som de passos apressados atravessou a distância, cada vez mais próximo. Zoe inclinou sua cabeça para fora do furgão, em direção ao barulho, enquanto Zack endireitava seus ombros com uma expressão ilegível em seu rosto.

Assim que um grupo de adolescentes surgiu na esquina, meus amigos respiraram aliviados. Nós os observamos seguir direto pela outra rua e correr até o próximo quarteirão, onde desapareceram.

Eu continuei tão tenso quanto estava momentos atrás.

— Zoe — chamei — Onde você viu April pela última vez?

Ela afastou a gaze de sua testa e pousou seus olhos castanhos em mim:

— Na frente do pub — seus dedos brincavam com a manga do casaco — Tinha muita gente, não conseguia encontrá-la. — sua voz se tornou cautelosa — April não atende o celular.

Se April e as amigas estavam juntas quando o tumulto começou, elas provavelmente se separaram em algum lugar entre o bar e a porta. April deveria ter saído pela porta principal — se eu tivesse sorte, ela ainda poderia estar lá.

Zack descartou o curativo em uma pilha e deu um passo adiante, colocando-se entre nós.

— Você fica aqui — murmurou para a garota e, então, voltou-se para mim: — Eu disse que voltaria para procurar April, mas era impossível. Eu tentei, por minutos... — As mãos dele tinham um pouco de sangue, sua voz soava estrangulada. — Eu não sabia o que fazer.

Meus tênis fizeram um som áspero contra o asfalto e eu dei os primeiros passos para a direção oposta da van.

— Ligue para o Seth — eu disse, dando as costas — Diga para todos esperarem no furgão. Nós vamos embora.





Eu não tinha tempo a perder. Correndo feito um louco, eu disparei entre os carros e deixei meus amigos para trás. O vento gélido cortava meu rosto e zunia em meus ouvidos. Ela estava lá, eu sabia que estava. A frente do pub. O único lugar que eu ainda não tinha revirado de cima a baixo em busca de April.

Na rua principal, a luz dos letreiros iluminava a fachada do pub. Minha velocidade se quebrou pela metade assim que alcancei a esquina, atravessando a multidão com um dos ombros à frente do corpo. As pessoas reunidas próximo a entrada tinham um perfil completamente diferente do público que assistira nosso show. Os bastardos da Sick Rabbit haviam conseguido o que queriam: nós estávamos cagados de medo. Qualquer babaca com o mínimo de bom senso havia batido em retirada no início da confusão, de forma que restara no pub apenas a clientela regular.

Meu olhar pairou sobre a multidão, procurando o topo castanho dos cabelos de April, mas tudo que encontrei foram carrancas e olhares atravessados. Era bom que Seth estivesse nos esperando com a chave engatada na ignição — não passaríamos nem um segundo a mais do que o necessário naquele buraco.

Eu quero meu encontro, ela disse. Me peça.

Deus do céu. Como foi que eu deixei essa garota escapar?

O mar de pessoas se fechava ao meu redor, apenas ruído e calor. Meu coração martelava em meu peito enquanto o pânico que crescia dentro de mim se tornava palpável. Fechei os olhos, controlando a respiração. Perder a calma não me ajudaria em nada: pelo contrário, só dificultaria minha minha missão de encontrar April.

Afastando-me da multidão, eu apalpei meus bolsos em busca do meu celular. Tentaria ligar para ela, não custava nada.

Foi quando eu a vi.

Lutando contra as mãos que se fechavam ao redor de seu pescoço, gritava palavras que eu não conseguia ouvir. Debatia-se como um canário preso nas garras de um gato, olhos assustados e cabelos longos espalhados por suas costas

Minha April.

Dessa vez, eu não a deixaria escapar.





A P R I L


Era difícil enxergar. Difícil respirar. O aperto ao redor da minha garganta apenas se intensificava, assim como meu desespero. Não esperei. Desferi mais um golpe em seu rosto, dessa vez em seus olhos.

Observei horrorizada quando o homem se afastou, cobrindo a lateral do rosto com as mãos. Ele me soltou, xingando alto. Olhei para baixo, para minhas unhas quebradas. Não havia sangue, mas eu sabia que havia machucado o desgraçado.

Puta — o homem cuspiu a palavra.

Sob meu peso, minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Eu precisava sair correndo, mas minha sensação era de que eu me movia debaixo d'água.

Milo avançou novamente e fiz o que pude para colocar distância entre nós. Recuei o mais rápido que pude, mal respirava. Antes que ele finalmente pudesse me alcançar, alguém se colocou entre nós.

— Deixe ela ir.

Era ele. Hunter.

Reconheci seus ombros largos e cabelos escuros. Ele se postou na minha frente, vários centímetros mais alto que eu, e meus olhos desceram dos fios curtos que cresciam em sua nuca até a gola de sua jaqueta. Uma onda de calor se espalhou pelo meu corpo e me fez estremecer — eu não estava a salvo, mas com certeza me sentia mais segura do que minutos atrás.

Milo riu, sem esconder a satisfação e um brilho homicida cintilou em seus olhos:

Você — disse baixo — Depois da conversa que tivemos, achei que não te veria mais. É preciso ter culhões de aço para dar as caras por aqui, garoto — ele me encarou, escondida atrás de Hunter — Toda essa valentia por causa de uma vadiazinha?

O desafio estava implícito em sua postura: desde seu queixo erguido ao peito estufado. Tudo fazia parte do convite. Ele queria provocar uma briga.

Hunter deu um passo para trás, suas mãos erguidas para impedir qualquer avanço do homem.

— O que ela tem de tão especial? — A voz do homem se tornou mais alta, mal disfarçava a ameaça — Diz pra mim, gatinha. Você faz mais do que só arranhar?

Testei minha unha quebrada com a ponta do polegar e meu estômago se embrulhou com repulsa.

Se tudo falhasse, eu iria para seus olhos.

— Anda, cara — Hunter disse, sua voz soava calma — Ela está bêbada.

— Ela está bêbada? — o homem debochou — Desculpe. Isso muda tudo — voltou-se para mim: — Eu não sabia, gatinha. Venha aqui.

Milo tentou me agarrar pelo braço, mas não conseguiu. Hunter bloqueou cada uma de suas tentativas de aproximação, protegendo-me atrás de si. Frustrado, Milo empurrou os ombros do baixista, que mal se mexeu.

Essa puta arranhou minha cara!

Campbell nada respondeu. Continuou parado entre nós, sólido como uma parede.

— Milo — alguém gritou, aproximando-se com pressa — É uma garota.

— E daí, porra?

Um homem robusto surgiu atrás de Milo. Ele era grisalho, tinha faces avermelhadas e vestia uma jaqueta idêntica ao amigo. Respirava contido e não fazia movimentos bruscos, sem quebrar o contato visual. Era como se lidasse com uma cobra prestes a dar o bote.

— Você não está pensando direito, cara.

— Não estou aqui para pensar — ele pousou os olhos em mim — Eu vou ensinar bons modos para essa vadia.

Milo tentou avançar, mas dessa vez o homem o segurou:

— Você está passando dos limites — o rugido gutural irrompeu do fundo de seu peito — Fazendo merda, de novo. Rob disse sem mais brigas.

— Foda-se o Robert.

Deixe eles — disse entre dentes.

Ou o quê?

Em silêncio, eles trocaram um olhar ameaçador. Hunter aproveitou a distração da dupla para dar um passo para trás. Moveu-se devagar, seus ombros subindo e descendo no ritmo de sua respiração. Mesmo de costas, suas mãos buscaram as minhas. Nós entrelaçamos nossos dedos e eu me preparei para o pior.

— Anda — o homem empurrou Milo pelo braço — Viciado de merda. Eu estou cansado de ser sua babá.

Hunter recuou, dessa vez decidido. Não tirou os olhos da dupla enquanto se afastava, mergulhando fundo em um mar de pessoas. O aperto tenso de sua mão me mantinha perto. Olhei para baixo, para meu pulso dolorido, e minha garganta se fechou em um nó — estava cansada de ser agarrada pelo braço e arrastada por aí como uma boneca.

Quando estávamos longe do perigo, desvencilhei-me de seu toque.

Isso chamou a atenção de Campbell, que diminuiu o passo e me lançou um olhar preocupado sobre o ombro. Se a situação já não fosse louca o suficiente, diria que ele parecia magoado. Inclinou-se para mim, sobrancelhas franzidas:

— Você está bem?

— Sim — minha voz saiu abafada, misturada a respiração.

Apertei minha jaqueta rente ao meu corpo enquanto meus cabelos tremulavam sobre meus ombros, cheios de movimento. Hunter posicionou sua mão na base da minha coluna e me guiou gentilmente até a outra calçada — nós contornávamos o quarteirão, caminhando em direção aos fundos do pub.

O chão úmido sob meus pés refletia a luz fraca dos postes e o odor de urina infestava a rua. Torci meu nariz para imundice, rangendo os dentes para todo ódio que eu estava guardando dentro de mim. Eu me sentia deslocada, irritada com a minha própria fragilidade e, principalmente, envergonhada de mim mesma por me colocar em perigo como uma tola. Foi ridiculamente fácil para aquele Milo me agarrar pelos braços. Meu irmão estava certo: eu não pertencia àquele lugar.

Eu era uma patricinha burra.

Um alvo fácil.

Quando cansei de me remoer em silêncio, disparei a pergunta de uma vez:

— O que deu em você? — procurei por seus olhos azuis — Você já comprou briga com caras muito maiores do que ele.

Por que não o enfrentou? Por que não bateu de frente, como sempre fazia?

Em St. Clair, Campbell infernizava os mais fracos por diversão. Milo era um bom exemplo de um bastardo que merecia levar uma surra — eu mesma desejei poder socá-lo. Não vi motivo algum para recuarmos de cabeça baixa daquele jeito.

Passando por cima de tudo como um trator, eu sequer vi o momento em que enfiei meus pés em uma poça de água suja. Hunter teve que me segurar para eu não me esfarrapar no chão, gotas frias respingando na minha canela.

Jesus Cristo.

O quase-tombo foi o jeito que o destino arranjou de me sacudir de volta para a realidade.

Eu estava mesmo cogitando incentivar Hunter a cair no soco com um viciado?

Maldita bêbada briguenta.

Campbell não se deu ao trabalho de me encarar de volta. Continuou a seguir em frente, sem tempo para distrações. Cheguei a pensar que ele não havia me escutado, talvez assim fosse melhor. Hunter não merecia lidar com toda merda que estava passando pela minha cabeça agora.

Meus olhos acompanharam a linha tensa do seu maxilar, subiram até seu queixo erguido e o seu nariz reto. Eu estava tão distraída pelo jeito que a luz incidia sobre seu rosto que me assustei ao ouvir sua voz:

— Você gosta de cicatrizes?

Pisquei.

— O quê?

— E quanto a facadas? — seus lábios se repuxaram em um sorriso maldoso — Gosta de facadas?

Não respondi.

Continuei a encará-lo, surpresa pelo vislumbre de seus dentes brancos.

— Eu prefiro te levar para casa sem testar o fio da navalha, princesa — confessou, aproximando sua boca do meu ouvido — A não ser que você esteja escondendo um fetiche por facadas, é melhor abaixar a cabeça e apertar o passo.

O calor de seu hálito fez cócegas em meu pescoço. Encolhi os ombros, mas não me afastei de Hunter. Não havia motivo para isso. Apesar de ter me comportado como uma megera nos últimos minutos, eu me conhecia bem o suficiente para saber que não estava zangada com Campbell. Ele tentou me ajudar e, por sorte, funcionou — nós dois sabíamos que eu teria levado uma surra se tivesse tentado sair daquela situação do meu jeito.

Aos poucos, a gritaria e o burburinho de conversas ficavam para trás, substituídos por um silêncio inquietante. Campbell pressionou seus dedos contra minha cintura e olhei ao redor, estudando as sombras disformes que imitavam pessoas nos cantos escuros.

Inclinei meu ombro para seu peito e nós cambaleamos para o meio da rua:

— Se você acha que eu me impressiono fácil assim — sorri à contra vontade —, está me subestimando.

— Ah, April — liberou uma risada curta, sobrancelhas arqueadas — Não estou tentando te impressionar: aquele cara tem mesmo uma faca. Nós temos que ir embora.

Que diabos?

Travei meus pés contra o chão, mas Hunter não me permitiu parar. Continuou a me conduzir para frente, sem diminuir a velocidade.

— Campbell? — as peças do quebra cabeça começaram a se juntar lentamente diante dos meus olhos — Aquele homem disse que te conhecia. Milo te conhecia.

Ele não me encarava.

— Não minta para mim.

— Eu prometo que vou explicar tudo — Hunter me trouxe de volta para seus braços, sua voz macia aos meus ouvidos — Só confie em mim. Nós temos que sair daqui.

H U N T E R

Demorou um pouco, mas April se aquietou e me deixou abraçá-la, aconchegando seu corpo contra o meu. Apesar do silêncio repentino, a pequena ruga de insatisfação que crescia em sua testa e o adorável beicinho que despontava de seus lábios eram um lembrete de que a garota não deixaria o assunto de lado tão cedo. Porra. Se treinasse meus ouvidos, eu seria capaz de ouvir o som das engrenagens de seu cérebro trabalhando atrás de uma resposta.

Era só uma questão de tempo até ela surgir com a primeira teoria.

Eu precisava agir mais rápido que April. Não queria perdê-la. Não queria estragar as coisas entre nós. Eu queria que ela pudesse confiar em mim, mas, naquele momento, minha prioridade era levá-la para longe daquele lugar o mais rápido possível. Uma vez que entrássemos em uma zona livre de facadas, eu poderia me preocupar em contar a verdade sobre seu irmão.

Nós alcançamos a esquina em algumas passadas e a saída do backstage surgiu no fim do quarteirão. Assim que avistou a traseira do furgão, April correu até as amigas e as abraçou:

— O que aconteceu? — perguntou para Zoe, examinando o curativo em sua testa — Onde vocês estavam?

Não fiquei para ouvir a conversa, avancei até a van e as deixei para trás.

Uma breve olhada ao redor e os únicos que não consegui encontrar foram Seth e Finch. Eles provavelmente estavam fazendo merda e apareceriam segundos antes do furgão arrancar, como era de costume. Quanto ao irmão de April, não me preocupei em procurá-lo: Cole provou que sabia exatamente o que estava fazendo quando nos meteu nessa confusão — se ele era a mente criminosa por trás do plano brilhante que colocou todos nós em perigo, ele poderia muito bem arranjar um jeito de voltar para casa sozinho.

Alguns metros à frente, próximo a porta do motorista, Zack andava de um lado para o outro com um celular pressionado ao ouvido. Ele falava alto, como se mal pudesse escutar a pessoa do outro lado da linha, preso a uma conversa que parecia seguir em círculos:

— Dê as costas e vá embora — fez uma pausa assim que me viu e ergueu uma de suas mãos em um cumprimento, mas sua atenção logo voltou para chamada: — Foda-se. Só faltam vocês.

Meu ombro encontrou a lateral do furgão e eu apoiei meu corpo à superfície gelada, mãos afundadas nos bolsos da jaqueta. Fazia tanto frio que o vapor que abandonava meus lábios se condensava em fumaça. Depois de uma pequena discussão, a chamada finalmente se encerrou. Ele conferiu o visor e a luz fraca iluminou seu rosto:

Merda.

— E então? — endireitei a postura, colocando-me de pé — Onde está todo mundo?

— Faz uns dez minutos que Finch e Seth terminaram de carregar o furgão, estamos esperando por eles — ergueu seus olhos da tela e me encarou — Não consegui encontrar Cole. Eu liguei, mas foi direto na caixa postal.

De braços cruzados e testa franzida, Zack esperava por uma confissão — era como se ele me desse mais uma chance para confessar toda merda que estava acontecendo. Eu queria continuar a mentir, mas as palavras pareciam ter secado em minha boca. Zack era uma boa pessoa. Ele estava preocupado com seu melhor amigo e faria qualquer coisa para ajudá-lo, mas eu tinha certeza de que a verdade o decepcionaria.

Antes que eu conseguisse pensar em uma maneira de me esquivar daquela conversa, um movimento no canto do meu olho atraiu minha atenção:

— Oi, lindo — Lexie se debruçou sobre a janela do motorista com um sorriso enorme — Belo show.

Não precisei dizer nada.

Bastou um estreitar os olhos e o burro disparou em sua defesa:

— Ela precisa de uma carona.

— Não é problema nosso — eu empurrei a maçaneta e a porta se abriu: — Saia.

Zack riu pelo nariz, olhando do meu rosto para o de Lexie. Quando percebeu que eu falava sério, seu divertimento foi substituído por choque, sobrancelhas arqueadas:

— Não podemos deixá-la aqui.

Era aí que ele se enganava.

Lexie não precisava de ajuda. Nunca precisou.

Nós não só poderíamos deixá-la ali, como também deveríamos. Pouco me importava se Zack queria dar uma de bom moço. Deixá-la para trás era uma questão de sobrevivência: se Lexie era um escorpião, nós éramos o maldito sapo — cedo ou tarde, ela revelaria sua verdadeira natureza e eu não queria estar perto quando as águas do rio se tornassem fundas.

— Todos os lugares estão ocupados, Zack — então ergui meu queixo para ela: — Anda. Você vai nos atrasar.

Lexie não me deu ouvidos. Apoiou as mãos sobre a porta e inclinou seu corpo para fora, seus cabelos lisos escorrendo sobre seus ombros como tecido:

— Aquele ali é o Finch?

Ela franziu a testa, como se não pudesse acreditar na cena diante de seus olhos.

Puta que pariu.

Era ele mesmo. Finch pulou do capô de um carro para o chão como o maldito Exterminador do Futuro. Nós o assistimos disparar entre os veículos estacionados, gritando algo incompreensível à distância. Apenas quando Seth surgiu na porta do backstage, tropeçando em seus próprios pés e rindo feito louco, eu tive a confirmação de que algo errado estava acontecendo.

Eles corriam em direção ao furgão como se suas vidas dependessem disso.

Dê a partida! — Finch se esgoelava sem fôlego — Dê a partida!

Lexie deslizou para fora do veículo e Zack ocupou o banco do motorista, apalpou os bolsos de sua calça com pressa:

— Puta merda — quando me encarou, havia desolação pura em seus olhos — As chaves.

— Onde estão?

— Não sei — ele sacudiu a cabeça, parecia estar a segundos de entrar em pânico.

— Zack — chamei decidido — Procura de novo, faz uma ligação direta... Não sei, só tira a gente daqui.

Fechei a porta atrás dele e corri até a porta traseira do furgão, passando por Zoe no caminho. Ela sorria nervosa, sacudindo um pequeno objeto metálico, que tilintava:

— Tenho as chaves!

Quase ri.

Um problema a menos.

— EI! — um sujeito grisalho irrompeu da porta dos fundos do pub VOLTEM AQUI, SEUS FEDELHOS!

Caralho.

Finch e Seth estavam mesmo fugindo por suas vidas.

Da cintura para cima, o cara que os perseguia parecia um monstro: sem pescoço, só músculo — bastava um soco daqueles punhos para partir o crânio de alguém. Quando ele marchou até o meio da rua, porém, o contraste entre sua parte superior com o resto de seu corpo ficou em evidência. Foi impossível não reparar em seus braços bombados e pernas finas.

Seth liberou uma gargalhada sonora para a cena, seus cabelos ruivos espalhados ao vento:

— Hoje é dia de malhar a perna, coroa!

Ótimo. Ele conseguiu realizar a proeza de deixá-lo ainda mais puto. Aquele viciado em adrenalina sempre estava disposto a nos colocar em problemas em troca de uma boa gargalhada.

Eu alcancei a traseira do furgão bem a tempo de ajudar April a subir. Assim que entramos, minhas narinas imediatamente foram invadidas pelo familiar cheiro de suor misturado ao mofo. Havia uma caralhada de caixas de equipamento empilhadas sobre o carpete sujo, obstruindo o caminho. Nós abrimos espaço para sentarmos enquanto Jackie segurava a porta aberta, gritando para Seth correr mais rápido. Ao invés de tomar a atitude mais sábia e disparar para o interior da van, meu amigo diminuiu o passo para irritar o coroa. Seth ria, mostrava-lhe a face direita e apontava para o próprio queixo:

— Tenta a sorte, Howard!

Finalmente, o ronco do motor reverberou pelo interior da carroceria e Zack pisou fundo no acelerador. O furgão arrancou a toda velocidade, pneus cantando no asfalto, e as caixas se moveram soltas sobre o assoalho. April me agarrou pela jaqueta e eu fiz o que pude para recuperar o equilíbrio enquanto o chão estremecia sob os meus pés.

Finch foi o primeiro a pular para dentro:

— Anda — ele bateu seu punho contra o teto — Pé na tábua!

Agachada sobre o carpete, Jackie estendia sua mão para fora do veículo. Assim que ouviu os pedidos do amigo, lançou um olhar ferino sobre o ombro:

— Zack, não ouse!

Em outras circunstâncias, teria sido uma cena engraçada de se observar: correndo como um corno, Seth se esforçava ao máximo para alcançar o furgão enquanto o cara atrás dele gritava ameaças em plenos pulmões. Finalmente, o ruivo entrelaçou seus dedos aos de Jackie e se jogou para dentro, rolando de costas sobre o assoalho.

— Até mais, Howard! — Finch improvisou uma continência e fechou as portas do furgão de uma vez.

Nós aceleramos pela rua vazia ao som de juras de morte carregadas de xingamentos pesados, observando através do vidro coberto de poeira o homem corpulento diminuir a distância. Desde o mês passado eu vinha dizendo que precisávamos limpar aquela porcaria, mas ninguém me ouvia.

— O que foi isso? — Zack gritou do banco do motorista.

Por vários segundos, não houve resposta. Embalados pelo sacudir da lataria velha, todos no interior do furgão respiravam alto, sem acreditar no que havia acabado de acontecer. Nem em meus piores pesadelos imaginei que assistiria meus amigos fugirem de um boneco de ação em tamanho real.

Jackie foi a primeira a se recompor: ajoelhou-se sobre o assoalho e engatinhou até Seth.

— Nunca. Mais. Faça. Isso. — grunhiu entre os dentes, socando seu ombro — Da próxima vez, você estará sozinho. Sozinho. Escutou?

— Tudo bem — Seth apoiou seu tronco sobre o cotovelo, retirando os cabelos suados da testa — Tudo bem, Jackie.

O bastardo sorria, satisfeito até demais consigo mesmo. Se eu não o conhecesse, diria que Seth havia feito aquilo só para chamar atenção da menina — não seria tão absurdo presumir uma coisa dessas, mas, como seu amigo, eu sabia que aquela era apenas mais uma quinta-feira normal na vida dele.

Sentado sobre um banco corroído, eu esperei meus olhos se acostumarem à semi escuridão do interior do furgão. As luzes ocasionais de postes de rua invadiam o veículo e iluminavam os rostos assustados dos meus amigos. Claramente, havia mais passageiros do que lugares disponíveis — enquanto Seth não hesitou em se sacrificar pelo bem da maioria e continuou estirado sobre o assoalho, Finch se jogou no assento de couro na minha frente. Ele tinha um sorriso esperto no rosto e observava April de pé. Antes que qualquer um dos dois começasse a ter ideias, eu a puxei para mim.

April enrijeceu sob meu toque, mas não resistiu. Firmei minhas mãos em sua cintura, descendo até suas coxas e colei minha boca ao seu ouvido:

Se você vai sentar no colo de alguém hoje — disse o mais baixo possível, sem esconder meu divertimento — Será no meu.

Ela me lançou um olhar atravessado sobre o ombro e seus cabelos castanhos cobriram meu nariz. Quando pensei que levaria um tapa, seus lábios cederam em um sorriso mínimo:

— Você é doente.

Eu sorri também.

Aos poucos, April relaxou seu corpo contra o meu. Eu senti seu peso, o cheiro de seu cabelo. Não era um contato sexual. Era íntimo. Não queria constrangê-la, mas eu precisava dessa proximidade e da confiança silenciosa que ela depositava em mim — precisava de uma afirmação de que nós estávamos juntos, de que ainda poderíamos ser uma porra de um casal até o fim daquela maldita noite.

Se nossos amigos nos observavam, azar o deles.

O espaço no furgão era limitado por caixas e não podíamos nos mover sem tropeçar nas pernas de alguém. Mal podíamos enxergar no meio daquela confusão. Eu queria ter a minha garota no meu colo e isso não era da conta deles.

Por cima de seu ombro, assisti Lexie deslizar pelo banco e ocupar o lugar ao lado de Finch. Sob a luz errática de faróis de carro, o par de íris esverdeado se iluminava como olhos de gato no asfalto. Ela sorriu para mim como se estivesse exatamente onde queria estar. Eu não duvidava que existia intenções perversas por trás de seu interesse por April, mas gastei um segundo pensando naquilo mais do que o necessário — Milo, Piggy e o grandalhão que perseguiu o furgão eram muito mais assustadores do que uma garota amargurada do ensino médio.

Quando faltava pouco mais de um quarteirão para alcançarmos a avenida principal, Zack girou suas mãos sobre o volante e manobrou o veículo em uma curva fechada.

Não. Não. Não.

— O que você está fazendo? — Finch se agarrou à alça de segurança, seu corpo rígido sobre o assento enquanto assistia o furgão fazer o caminho reverso.

Meus olhos procuraram pelos de Zack no espelho retrovisor, mas a atenção dele estava em April. Os dois eram provavelmente os únicos naquele veículo que se importavam com Cole a ponto de pensar em voltar.

— Meu irmão — April quebrou o silêncio, respirando pesadamente — Ele ficou para trás.

— Puta que pariu — Finch verbalizou meus sentimentos.

No banco do motorista, Zack deu de ombros e voltou a encarar o parabrisas:

— Nós temos que voltar.

Bastardo.

Cole estava bem para caralho. Ele mesmo escolheu fazer o show e conversar com os caras da Sick Rabbit. Provavelmente, estava ocupado fazendo o que sabia melhor: enrolando pessoas. Quando o vi pela última vez, o desgraçado exibia seu melhor sorriso para meia dúzia de caras maiores do que ele, todos quietos, prestando atenção enquanto o ouviam discursar — cena que não me surpreendeu, visto que Cole tinha uma habilidade impressionante para encantar qualquer público: bastava ele abrir a boca para falar e a magia estava feita.

Eu não queria ser o babaca, mas Cole não precisava de nós. Não havia nada que Zack ou qualquer um de nós pudesse fazer por ele. Em menos de um minuto, tinha formado uma lista com três excelentes razões para deixá-lo para trás: 1) Cole sabia se virar muito bem e interrompê-lo apenas nos colocaria em perigo; 2) se aparecêssemos no pub de novo, os homens que irritamos viriam atrás de nós, dessa vez sem misericórdia e 3) eu queria evitar a todo custo o momento em que a merda atingiria o ventilador porque April surtaria ao descobrir a verdade sobre o irmão.

Porra.

Eu tinha tudo a perder.

— Ele está bem — limpei a garganta — Eu falei com Cole, ele encontrou uma carona para casa.

Era uma meia verdade. Antes do show, Cole tinha acertado de voltar para casa sozinho. Eu não tinha como saber se ele estava bem, mas apostava que sim. Merda. Comecei a suar só em pensar na possibilidade de estar errado. Por mais que eu estivesse puto com a situação, não queria que Cole fosse encontrado em um beco, boiando sobre uma poça do próprio sangue.

Caralho.

April tinha seu traseiro plantado sobre minhas pernas. Ela estava muito perto. Se colocasse a mão sobre meu peito, seria capaz de sentir meu coração bater disparado, quase abrindo caminho entre minhas costelas.

Mentiroso. Mentiroso. Mentiroso.

— Então, para onde nós vamos agora? — Finch quase pulou sobre o assento, segurando-se onde podia — Só pra confirmar.

Atrás do volante, Zack encarava o asfalto além do parabrisas, suas sobrancelhas unidas e seu maxilar marcado sob a pele. Ele não gostava que passassem por cima de suas vontades — principalmente, se o assunto dizia a respeito de seus melhores amigos. Mais cedo, Zack havia me procurado para falar sobre Cole e eu menti. No mínimo, ele se sentia excluído por não saber o que caralhos o baterista estava aprontando. Se Zack somasse um mais um, começaria a suspeitar que eu estava escondendo alguma coisa.

Enquanto isso, April me encarava. O par de olhos castanhos estudava meu rosto de cima a baixo, descendo do início do meu cabelo até a curva do meu queixo. Eu não sabia o que fazer. Porra. Eu deveria fingir que estava distraído ou acalmá-la?

Ainda deitado, Seth aproveitou o momento para quebrar o silêncio:

— Não sei vocês, mas eu estou com muita fome.

— Aqui tá brabo — Finch relaxou um pouco, colocando a mão sobre o estômago.

Antes de expressar qualquer opinião, Zack abaixou seus olhos para encontrar os da namorada:

— Quer ir para casa?

Zoe abriu um sorriso doce para ele e apertou seu braço, murmurando algo que não pude ouvir. O curativo na testa dela ainda estava fresco, eu não culparia a menina se ela quisesse ir para casa ou direto para um hospital.

— O cara não vai nos caçar pela cidade por causa de um trocadilho — Seth mal segurava seu sorriso de satisfação — Nós podemos ir ao Fezco's.

— Espera. Um trocadilho? — Jackie rugiu — Tudo aquilo por um trocadilho?

Embora a fúria da menina estivesse inteiramente direcionada para Seth, Finch encolheu os ombros e se afundou no assento de couro só em ouvir o som de sua voz.

— Howard não tinha senso de humor — o ruivo continuou — Com aquela cara de palhaço, como nós poderíamos adivinhar?

— Seth.

— Jackie — ele amaciou a voz — Eu até tentei impedir o Finch de mexer com aquele coroa, mas você sabe como ele é.

— Eu? — Finch abriu os olhos — Filho da puta.

— Vocês são uma dupla de otários.

— Jackie, eu avisei a ele...

Alguém precisava interromper aquela discussão antes que acabasse em sangue.

— Minha moto ficou estacionada a dois quarteirões do Fresco's — lancei no ar — Não fica tão longe daqui.

Enquanto os outros chegaram juntos de furgão, eu tive que dirigir até o pub de moto. Toda aquela confusão envolvendo irmãzinhas choronas, cachorros adotados e carpetes sujos parecia ter acontecido em outra vida. Horas atrás, jamais imaginaria que acabaria a noite com April sentada no meu colo. Também nunca me passou pela cabeça receber juras de morte de um velho em esteroides, mas o destino às vezes surpreendia a gente.

A luz verde do semáforo iluminou o interior do furgão e Zack moveu suas mãos sobre o volante, sem me encarar:

— Então, vamos ao Fezco's.





N/A (02/08/21): *desviando de garrafas de vidro, tomates podres, garfos de feno e toras em chamas*

Oi, amores. Como vcs estão?

Enfim, o capítulo tão esperado! Achei que jamais seria capaz de colocar uma palavra atrás da outra e criar sentido, mas aí está: seis mil palavras e alguma coisa. Só uns meses de atraso. [risadas triste pfv nao me deem um tiro]

Coitado do Hunter que ficou revivendo o desespero sem parar enquanto eu escrevia e reescrevia o início desse capítulo kkkkk O próximo não deve demorar mto pq eu já comecei a escrever e é mais curto (eu acho que é... odeio que eu sempre me alongo e escrevo mais do que deveria... se eu tivesse uma editora, ela me diria pra cortar 70% das cenas, tenho ctz).

Ah, então... Eu tenho recebido mta mensagem de q nao aguentam mais a enrolação pra April e Hunter finalmente terem cenas românticas e, mds, eu juro q to tentando acertar eles.... Mas tá demorando pq eles tem bastante o que aprender ainda. Eles tem mto sentimento ruim não-resolvido dentro deles kkkkkkk Claro, vai ter cena romântica, eu to ansiosa pra vê-los conversando, sem pressa ou medo, tenho os diálogos memorizados faz ANOS (só falta sentar a bunda e escrever).... mas sei lá, se vcs fizerem uma linha temporal de Bullshit, faz menos de um mês que a aula deles começou. Então.... sei lá, sou lerda. Eu, April e Hunter somos lerdos e burros emocionalmente.

Agradeço pelo apoio de vocês, pessoal que ainda não esqueceu da história e deixa estrelinha, conversa comigo pelas redes [emoji assoando nariz]. Vcs são uns chuchus! É mto bom dividir BS com vcs!!

Enfim, espero que todo mundo esteja bem!!!! Bebam água, usem máscara!

Beijos,

B.

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