Capítulo XXIV [PARTE DOIS]



H U N T E R


NO MOMENTO EM QUE NOSSOS OLHARES se cruzaram, um arrepio desceu minha espinha. April estava no estacionamento. Ela aguardava por mim, próxima ao meu carro, tinha sobrancelhas franzidas e punhos envolvidos pelas mangas compridas de seu velho moletom. Havia algo em seus olhos castanhos que atravessava distâncias, escurecia os céus e evocava nuvens de tempestade. Eu me preparei para ouvir todo tipo de xingamento e ignorar qualquer um de seus comentários afiados sobre o treino de futebol. Tinha prometido à ela que encontraria um jeito de resolver a situação e foi o que fiz — sem arrependimentos.

Inferno. Eu esperava qualquer coisa de April, menos aquela pergunta.

Você transou com ela?

O jeito que seus olhos me encararam, tão firmes. April queria uma resposta. Depois de tudo que eu disse, de todas as vezes que venerei seu corpo, ela acreditou que eu seria capaz de traí-la. Na hora, eu tive que rir, exasperado. Tudo bem. Não tínhamos exatamente o que podia se chamar de relacionamento e, sim, eu me comportara feito um babaca nas últimas horas, mas meus sentimentos por ela não haviam mudado — eu continuava tão refém de seus caprichos quanto antes.

Eu estava tão cego pela raiva que não resisti a oportunidade de provocá-la.

April nunca baixava a guarda e eu não cederia daquela vez — era minha chance de dar as cartas, como ela sempre fizera. Mastiguei todo sentimento revoltoso que cozinhava em meu peito e cuspi de volta as suas próprias palavras como veneno.

Eu fui cruel com April, que nunca teve pena de mim.

Esperei que ela rebatesse meu comentário, pronto para tirá-la do sério, mas não foi como nas outras vezes — ao invés de uma réplica cortante, recebi silêncio. Em poucos segundos, observei seu rosto mudar: seus olhos castanhos cintilaram com mágoa e finalmente entendi.

Meu Deus, April. Como você é tola.

Por mais irritado que estivesse, não queria machucá-la. Não queria dormir com outras. Eu queria April. Eu quebrava minha cabeça noite e dia pensando em formas de me aproximar daquela garota, mas parecia impossível — tudo que ultrapassava o limite físico a assustava e a afastava de mim. April não confiava. Eu só conseguia me aproximar dela usando sexo, então foi o que fiz.

O tilintar de sinos atravessou meus ouvidos, anunciando a entrada de um novo cliente na loja. Um senhor franzino empurrou a porta acompanhado de um cachorro pequeno e latidos, barulho de buzinas e outros ruídos da rua invadiram o pet shop.

Merda.

Não importava o que eu fizesse, meus pensamentos continuavam a voltar para April.

— São vinte libras — Grace sorriu para mim atrás do balcão.

Assenti em silêncio, procurando minha carteira nos bolsos.

Depois de tudo que aconteceu, era uma coincidência de merda encontrá-la ali.

— É uma boa compra — ela continuou — O pacote econômico vem com três quilos de ração de graça.

Meu celular vibrava sem parar em meu bolso. Eu saquei a carteira de couro e aproveitei para conferir no visor. Não me surpreendi quando o nome de Zack apareceu: mais uma vez, eu estava atrasado para a reunião da banda.

Dessa vez, eu não tinha culpa.

Emergência familiar.

Minha avó havia ligado horas antes, insistindo para que eu buscasse ela e Julie depois do meu treino de futebol. Era um pedido atípico: não apenas teria que dar uma carona para elas, como também teria que acompanhá-las ao pet shop mais próximo — o único em um raio de três quilômetros.

Sim. Os sonhos de Julie se realizaram: nós adotamos um cachorro. Havia um vira-lata no abrigo local precisando de um lar e as mulheres da família Campbell não resistiam a uma história triste. Elas armaram tudo pelas minhas costas e só me deram as boas notícias quando tudo já estava arranjado.

Eu não tinha voz de decisão naquela casa.

Meus olhos viajaram entre as prateleiras que transbordavam de brinquedos coloridos e pacotes de petiscos. Encontrei Julie próxima a porta, brincando com um cão de quase o dobro de seu tamanho. Elas não escolheram um filhote: o animal tinha pelagem escura e densa, com tufos brancos distribuídos pelo focinho e pelas orelhas. Julie se apaixonou por um vira-lata velho e magro, com cara de bobão. Parecia limpo.

Estendi duas notas de dez para Grace, que aceitou:

— Precisa de uma sacola para a ração? — ela dividia sua atenção entre a caixa registradora e um computador velho, que imprimia um recibo.

No colégio, Grace havia mencionado que trabalhava meio expediente na loja da tia. Eu não imaginei que a encontraria justamente naquele pet shop e não queria que ela pensasse que era uma visita proposital.

Era uma situação desconfortável para caralho.

— Não, tudo bem — murmurei, guardando a carteira no bolso.

— Bom, obrigada por comprar conosco — Grace me estendeu a nota e sua expressão se tornou brincalhona — É como eu te disse: se você não se esquecer de alimentá-lo pelo menos uma vez ao dia, vai ficar tudo bem.

— Vou tentar lembrar disso — murmurei, puxando o pacote para a extremidade do balcão.

Eram treze quilos de ração sabor carne em uma tacada só. A senhora que nos ajudou com os papéis de adoção comentou algo a respeito da dieta do cachorro.

Ele ficaria bem morando conosco.

— Deixa que eu te ajudo! — ela se prontificou a contornar o balcão e me alcançar do outro lado.

Eu segurei o pacote na frente do corpo sem dificuldades e Grace insistiu em me acompanhar até a saída, onde Julie e Nana me esperavam com o vira-lata. O cachorro parecia sossegado, respirando com a língua para fora, sem se incomodar com as mãozinhas da minha irmã por todo seu rosto.

— Então, eu estava certa — Grace quebrou o silêncio, andando ao meu lado — April Wright estava mesmo olhando pra gente.

Franzi a testa.

— Como é?

Ela riu alheia ao meu mau humor, ou talvez consciente até demais dele.

— Na aula — a menina explicou, arqueando suas sobrancelhas para mim — Ela ficou chocada?

Ah, sim.

Vamos dar a April algo para ficar chocada.

Foi o que Grace disse antes de enfiar a língua no meu ouvido.

Eu não estava esperando receber um ataque surpresa no meio da aula. Claro que fiquei satisfeito em saber que April Wright me encarava, mas puta que pariu isso não dava a Grace o passe livre para enfiar a língua na minha orelha. Assim que me afastei de Grace, me virei para trás: por sorte, April tinha os olhos colados na mesa, concentrada no dever.

Nós não tínhamos um compromisso, eu estava irritado com ela e, por uma infinidade de razões infantis, provocar ciúmes em April me parecia justo — mas deixar uma garota me lamber na frente dela era algo completamente diferente. April não precisava de mais um motivo para me achar um cafajeste.

Porra. Eu mal escutava o que Grace dizia, não queria ter nada a ver com ela.

Rezei para que April não tivesse visto aquela cena.

— Não precisa fingir para mim, Hunter — ela caminhava propositalmente devagar, para nos dar tempo — Uma garota sabe quando está sendo ignorada. Se eu me meti no meio de alguma coisa entre vocês...

Meus ombros enrijeceram sob o olhar desconfiado de Nana, que me vigiava de longe.

— Não — eu limpei a garganta — Eu e April...

Inferno.

Que porra eu poderia dizer para uma completa estranha?

Além de não coloque a língua no meu ouvido, claro.

— Deixa eu adivinhar — Grace torceu o nariz, divertida — É complicado?

Eu assenti, por falta de uma resposta melhor.

Não queria discutir aquele assunto com Grace. Meu relacionamento com April parecia algo íntimo demais para compartilhar com qualquer um — principalmente, enquanto minha avó me lançava um olhar mortal à distância.

— Então, descomplique — a menina murmurou — Com April, quero dizer.

Caralho. Eu não queria ser rude, mas Grace precisava parar de falar.

Nós estávamos muito próximos de Nana e Julie. O cachorro se levantou do piso de azulejos e liberou dois latidos poderosos para nossa chegada, abanando o rabo.

— Até mais, Hunter — Grace abriu um pequeno sorriso e se inclinou para me dar um beijo.

No mesmo momento, eu coloquei o pacote de ração entre nós. Arrumei as mãos embaixo do pacote de ração e estendi uma à ela:

— Obrigado — minha voz era firme — Pela ajuda. Tenha um bom dia.

Grace me encarou admirada. Felizmente, pareceu captar a mensagem e aceitou o cumprimento.

Minha irmã não se aguentou quieta. Ao me ver parado, ela atravessou a loja correndo e começou a empurrar minhas pernas em direção à saída. Julie queria ir embora, estava ansiosa para levar o vira-lata para conhecer o novo lar. Nós atravessamos a porta do pet shop sem olhar para trás: eram latidos, risadas e gritos de criança atraindo a atenção da rua inteira — apenas mais um dia normal da família Campbell.



A P R I L


— Elas vão aparecer — Zoe recolheu suas pernas compridas e magras para si. Empoleirada sobre o banco de couro, ela parecia um passarinho. Encarava a janela como se esperasse que a qualquer momento uma de nossas amigas pudesse surgir na rua.

Nós estávamos em uma lanchonete do centro, as meninas deveriam ter nos encontrado meia hora atrás. Eu perdi as esperanças nos primeiros dez minutos, mas Zoe não se deixou abalar — para ela, era apenas uma questão de tempo até que os lugares vagos da mesa fossem ocupados. Não queria frustrar as expectativas da minha amiga, mas o cenário parecia ruim: tanto Indy quanto Jackie continuavam desaparecidas desde a nossa última conversa.

Mais cedo, cheguei a pensar que tinha avistado Jackie em seu maiô azul no vestiário feminino. Precisei de uma segunda olhada para perceber que não era ela e, sim, uma menina aleatória.

Depois do meu fracasso épico em confrontar Campbell, minha cabeça flutuava nas nuvens. Eu estava distraída, praticamente absorta em pensamentos desde a conversa que tivemos no estacionamento. Meu plano, que parecera simples em teoria, fora um desastre na prática. Quando fui atrás de Hunter, minha intenção era resolver as coisas entre nós, não complicá-las ainda mais. Ele estava certo em reclamar: éramos um emaranhado de problemas mal resolvidos e momentos interrompidos — muita coisa precisava ser dita antes que pudéssemos seguir em frente.

Uma vez na vida, eu decidi jogar tudo para cima e dei o braço a torcer.

Eu me arrisquei, mas não esperava receber uma resposta daquelas.

Hunter sabia como me deixar desconsertada. Ele tinha malícia e usava isso a seu favor nas piores horas, era mestre em converter qualquer conversa em uma preliminar. Bastou uma frase suja para a minha mente ir longe, exatamente do jeito que Campbell desejava. Fui tola. Me distraí, perdi a linha do raciocínio.

Porra.

Mas é óbvio que fiquei desnorteada.

Ele disse que queria me comer. Meu corpo inteiro estremeceu com a promessa que crepitava em seus olhos famintos. O resto da frase se tornou automaticamente irrelevante. Eu fiquei nervosa, afoita do jeito que poucas vezes ficava longe de Hunter. Por vários segundos, eu me dividi entre ouvir meu lado racional, que me implorava para que eu tomasse uma atitude, e as súplicas desesperadas da minha buceta, que clamava por atenção.

O problema é que a única bocetinha molhada que eu quero comer é a sua.

Caralho.

Talvez a excitação tenha consumido meu cérebro até o último neurônio e minha mente finalmente tenha sucumbido à loucura, mas eu estava começando a acreditar que aquele era o mais próximo de declaração carinhosa que Hunter já havia chegado. E, por mais obscenas que fossem, suas palavras me soaram verdadeiras.

O celular de Zoe vibrou sobre a mesa e ela o puxou para perto, examinando o visor. Puta merda. Eu ainda estava em uma lanchonete, sentada de frente para minha amiga. Deveria estar prestando atenção no presente, no que acontecia ao meu redor, e não repassando mentalmente minha conversa com Hunter.

— Zo — eu movi a colher dentro da xícara, agitando o líquido escuro —, estamos aqui há mais de vinte minutos e só pedimos dois cafés. Daqui a pouco a garçonete vai nos expulsar.

Mesmo distraída, reparei que a mulher de avental atrás do balcão mandava olhares em nossa direção. Ela ia e voltava da cozinha, conferindo a mesa entre uma tarefa e outra.

Zoe apoiou um braço sobre o assento de couro vermelho e olhou ao redor. Se não fosse por nós duas e o senhor corpulento que almoçava em um banco alto no fundo do estabelecimento, a lanchonete retrô estaria vazia.

— Esse lugar está morto — ela disse, voltando-se para mim — Pede mais um.

Eu franzi o cenho. Havia uma dupla de xícaras fumegantes sobre a mesa, cada uma em seu respectivo pires de louça branca, e, enquanto a minha estava pela metade, a de Zoe permanecia intacta.

— Mas você nem tocou no seu.

Ela ergueu um de seus ombros sob a jaqueta jeans, desinteressada. Um cropped branco se destacava sobre sua pele e uma calça de cintura alta bem larga se ajustava ao seu corpo com a ajuda de um cinto de couro. Tinha seus olhos castanhos na janela de novo, pairando sobre a rua:

— Já esfriou.

Meu queixo repousava sobre meus braços cruzados, apoiados contra a mesa. Estiquei a mão para tocar a xícara, medindo a temperatura com a ponta dos dedos:

— Está morno, na verdade.

Eu tinha plena consciência de que soava como uma criança implicante — anos de experiência como a irmã mais nova mimada me deixaram marcas —, mas isso não me impediu de comentar. Até hoje eu tinha dificuldade em resistir quando via uma oportunidade de perturbar os outros.

Zoe se virou para mim com os lábios repuxados em um meio sorriso, mas não teve tempo de dizer nada.

— Merda — uma voz feminina nos interrompeu — Vocês chegaram há muito tempo?

Jackie estava parada ao lado da nossa mesa. Ela não sorria, tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo alto. Assim como nós, devia ter passado em casa depois do treino: vestia uma saia que quase desaparecia sob seu grande casaco verde musgo e um Air Jordan impecável em seus pés. Talvez, o único sinal de nervosismo em sua postura estivesse em suas mãos, que torciam as alças finas da pequena mochila que pendia sobre suas costas.

— Minha bunda está dormente — reclamei baixo, deslizando sobre o banco de couro para me levantar — Isso responde a sua pergunta?

— A minha está dormente também — Zoe cruzou as pernas sobre o assento, erguendo as sobrancelhas.

Nós trocamos um high five para a coincidência e nos voltamos para Jackie. Ela, por sua vez, nos encarava com um semblante cauteloso, descendo as alças da mochila por seus ombros:

— Olha só pra vocês — murmurou — Estreitando laços de amizade por causa de bundas dormentes.

Zoe assentiu.

— É mesmo uma experiência de mudar vidas.

— Tudo bem — Jackie jogou seu corpo sobre o lugar que desocupei — Se serve de consolo, não me atrasei de propósito.

Eu me espreguicei, esticando meus braços acima da cabeça e meu peso na ponta dos pés. Era uma sensação tão boa. Me permitir fechar os olhos por alguns segundos para apreciar.

— Esquece isso.

Quando abri os olhos novamente, ela me encarava.

— E não posso fazer se a bunda de vocês está dormente — uma ruguinha cresceu entre suas sobrancelhas — A não ser que vocês estejam esperando por uma massagem. Isso meio que ultrapassaria todos os limites saudáveis da nossa amizade, então...

— Vou ao banheiro — eu a interrompi, rindo — Fiquem de olho no celular, talvez a Indy responda as mensagens.

Minha bexiga ameaçava explodir a qualquer momento. Havia exagerado na bebida, estava apertada para fazer xixi. Dei as costas e apressei o passo, caminhando em direção ao toalete.

Quando voltei à nossa cabine, Jackie parecia mais relaxada. Sentei-me ao lado de Zoe enquanto ela fazia um pedido à garçonete, descendo os olhos pelo cardápio:

— E você, April? — Jackie virou mais uma página — Quer alguma coisa?

Eu neguei, satisfeita com meu café.

Depois da garçonete desaparecer atrás do balcão, o silêncio pairou sobre a nossa mesa. Não nos despedimos da melhor maneira no colégio, mas, se estávamos reunidas naquela lanchonete, era porque nos importávamos umas com as outras — e com a Indy.

— Não queria me atrasar, mas meu pai estava em casa — Jackie explicou, tamborilando os dedos sobre o tampo de madeira — Ele saiu mais cedo do trabalho. Vocês sabem como ele é. Quando aquele homem começa a falar, não para mais.

E ela o adorava.

Eu podia ver o brilho de admiração escondido em seus olhos. Minha amiga sempre se escondia atrás de piadas e fazia pouco caso das próprias emoções, mas elas ainda estavam lá.

— Você teve a quem puxar — comentei, mexendo o canudo dentro da latinha.

Jackie espremeu os olhos para mim e um biquinho despontou em seus lábios carnudos.

— Ok — murmurou — Mas falando sério, agora: vocês tiveram notícias da Indy?

— Nenhuma — Zoe gesticulou o celular que tinha entre as mãos — Ela visualizou o grupo e sumiu.

— Posso ligar para ela — sugeri, tirando meu próprio celular do bolso — Seria bom saber se ela vem ou não.

Assim que meu dedo pressionou o botão de discagem, Jackie se ajeitou sobre o banco, erguendo o queixo para encarar alguém que se aproximava:

— Não precisa — murmurou — Ela já está aqui.

Quando olhei por cima do ombro, encontrei Indy andando em nossa direção. Carregava uma bolsa volumosa debaixo do braço e parecia ter escolhido suas roupas às pressas: usava um moletom velho, jeans confortáveis e um par de all stars velho.

— Foi mal pelo atraso — ela se sentou ao lado de Jackie e seus cabelos dourados deslizaram sobre seus ombros, leves como tecido — Eu estava em casa, Eric apareceu. Minha mãe o adora e convidou ele para entrar.

A notícia nos atingiu como uma bomba. Em segundos, a mesa explodiu em perguntas e exclamações, uma mais confusa do que a outra. Indy não se incomodou com o nosso estardalhaço. Parecia cansada. Apesar de seu olhar firme, seu nariz estava vermelho e seu rosto, inchado.

Eu me calei.

— Mas por quê? — Zoe se sentou ereta — Como isso aconteceu?

— Minha mãe acha normal nós termos problemas — os lábios de Indy se repuxaram em um sorriso ácido — Eu tenho um temperamento difícil e Eric precisa ser paciente.

Troquei um olhar com Jackie. Ela parecia compartilhar dos mesmos pensamentos que eu.

Nós conhecíamos a mãe da nossa amiga. Era uma mulher rígida, pouco afetuosa, que dividia seu tempo entre tarefas domésticas e cuidar da educação do caçula. Indy sempre tinha alguma história inacreditável envolvendo a mãe para nos contar, era uma piada recorrente entre nós. Eu sabia que se tratava de uma mulher invasiva e controladora, mas não imaginei que ela fosse tão longe a ponto de se intrometer na vida amorosa da filha.

— E você está bem? — Jackie quis saber.

— Sim — Indy assentiu — Eric só queria falar comigo.

Zoe havia se juntado ao nosso grupo naquele ano, no início das aulas. Ela se esforçava para juntar as peças do quebra-cabeça com o que conseguia pescar das nossas conversas e decidiu dar o benefício da dúvida à mãe da amiga:

— Sua mãe não sabe que vocês terminaram? — sua voz era baixa e cautelosa.

Em resposta, Indy riu.

Ela se recostou no banco, engolida pelo moletom cinzento. Quando nós continuamos em silêncio, esperando por uma explicação, liberou um suspiro e disse:

— Minha mãe aceitou o término tão bem quanto o Eric. Ameaçou parar de pagar minhas aulas de dança, caso eu não escutasse o que ele tinha a dizer.

Indy dançava desde sempre. Nunca parou ou tratou como uma fase. Era mais do que um exercício ou uma ocupação para seu tempo livre — aquela era a única coisa que ela sabia fazer.

— Isso é loucura — deixei escapar.

Eu não queria colocar mais estresse sobre os ombros de Indy, mas isso era preocupante. Se eu estava apreensiva apenas em ouvir, não podia imaginar como estava a cabeça dela.

— Não — Indy revirou seus olhos azuis — A louca sou eu. Eu estou estragando tudo. Minha mãe quer que nossas famílias esquiem juntas no fim do ano, até já fez as nossas reservas. Ela está planejando tudo com a mãe do Eric, são melhores amigas agora — sorriu contrariada — Dá para acreditar? Nós nem podemos pagar um jantar em um dos restaurantes que a família do Eric frequenta e ela quer viajar com eles.

— Então isso tudo é por causa de dinheiro? — Jackie esbravejou furiosa — Desculpa, mas isso é tão a cara dela.

Indy assentiu, puxando um guardanapo para si.

— É — seus dedos dobraram o papel em um triângulo e amassaram o vinco de ponta a ponta — Mas com isso não me importo.

— Como assim? — indaguei.

— Minha mãe não faz por maldade — Indy ergueu um de seus ombros — Não totalmente. Ela é só uma dona de casa deslumbrada, nunca teve oportunidades na vida. Dá pra entender porque ela está tão fascinada pela Carol e precisa tanto dessa viagem — seus olhos perderam o foco — Quem eu não consigo entender é Eric.

— Por quê?

Ela moveu a cabeça para os lados uma vez e seus cabelos longos e loiros oscilaram sobre seus ombros.

— Não faz sentido para mim. Desde que terminamos, ele tem agido desse jeito. Parece que Eric prefere me ver miserável a me deixar ir.

Por vários segundos, sua frase pendeu no ar, flutuando sobre nossas cabeças. Indy reuniu os pedaços do guardanapo esmiuçado por seus dedos em um montinho e suas feições se suavizaram.

— Hoje ele veio a minha casa para me mostrar que pode entrar e sair quando quiser — continuou — Eu não tenho mais controle sobre isso, não teria nem se quisesse. Eric e minha mãe... — sua voz tremeu — É como se eles não me vissem como uma pessoa.

Jackie depositou um aperto gentil em sua mão.

— Eric é patético — disse baixo — Ele pode dar quantos chiliques quiser, mas não é seu dono. Você não é menos que uma pessoa. Ninguém deveria te fazer sentir dessa maneira. Eu estou feliz que você fugiu — acrescentou mais baixo — Nós teríamos te ajudado a escapar de lá antes se soubéssemos disso.

Indy se afastou com suavidade. Seu rosto estava vermelho, tenso, e seus olhos claros não nos encaravam. Eu me senti uma babaca por pressioná-la. A reação da minha amiga no colégio fazia muito mais sentido agora — Indy não tentava defender a Eric, ela só estava assustada.

— Não acredito que estou chorando em uma porra de uma lanchonete — ela gemeu, afundando o rosto entre as mãos — Vocês me pagam.

A voz dela soava abafada, quase risonha atrás de seus dedos. Seus cabelos dourados deslizaram sobre seu rosto como uma cortina líquida, cobrindo suas feições.

— Você precisa de um lugar para ficar? — perguntei, sem conseguir me segurar quieta — Temos um quarto de hóspedes. Você pode ficar o quanto quiser.

Meus pais não se importariam. O único problema seria meu irmão, que eu queria bem longe da minha amiga naquele momento.

— Não — Indy respirou fundo, catando algumas lágrimas teimosas — Minhas coisas estão no meu carro. Eu tenho uma tia avó na cidade, ela concordou em me deixar morar na casa dela por um tempo. Minha mãe a odeia, elas estão brigadas há anos. Ninguém vai me incomodar lá.

Ela parecia determinada, bem resolvida quanto a isso. O aperto no meu peito cedeu aos poucos e consegui finalmente respirar melhor.

— Isso é bom — Zoe moveu as pernas sob o corpo, debruçando-se sobre a mesa — Você precisa ficar longe dele.

De frente para mim, Jackie observava a cena em silêncio. Tinha uma postura rígida sobre o banco, ombros tensos e olhar atento:

— Indy — ela começou — Eu sei que você já passou por muita merda e não quero piorar as coisas, mas mudar de endereço não vai resolver seus problemas.

Não existia um jeito leve de abordar o assunto. Quando estávamos no colégio, nós chegamos a conclusão de que Indy não precisava enfrentar aquilo sozinha — não cabia a nós decidir o que fazer, mas podíamos apenas sentar e observar tudo acontecer com nossa amiga. Era tortura.

— Ele vai continuar a te procurar na escola — eu acrescentei baixo — Eric é persistente, egocêntrico...

— E esperto — Indy me interrompeu e, dessa vez, sua voz era firme — Eu sei onde vocês querem chegar, mas Eric nunca me machucou. Pelo menos não de uma forma que eu pudesse usar em um tribunal ou seja lá qual for a sugestão.

— Indy... — Zoe murmurou cuidadosa.

— Eu não posso simplesmente envolver mais pessoas nisso! — ela insistiu definitiva — A família dele é influente aqui na cidade, Zoe. Todo mundo vai pensar que isso faz parte de um drama adolescente, que eu estou chorando por atenção.

— Deixe que eles pensem o que quiserem! Seu ex-namorado não pode continuar a te perseguir.

Jackie se colocou entre as duas, erguendo o celular para que todas nós pudéssemos vê-lo:

— Eu ainda tenho aquele vídeo — balançou o aparelho entre seus dedos — Ele ameaçou April naquele dia, em frente ao bar. Podemos não pegá-lo por tudo que ele fez com você, mas podíamos denunciá-lo com esse vídeo.

Uma ruguinha de preocupação surgiu na testa de Indy e ela se inclinou para mim:

— Tudo bem por você, April? — disse receosa. Embora a insegurança permeasse seus olhos claros, parecia disposta a ouvir nosso plano.

Eu pisquei surpresa.

— Claro.

A menina me encarou por um longo minuto e voltou a se recostar no banco:

— Mesmo assim, eu não sei se é uma boa ideia — meneou a cabeça e seus cabelos dourados oscilaram sobre seus ombros — Nada aconteceu nas dependências do colégio, o coordenador não vai querer saber. Se falássemos com a polícia, ririam de nós pelas nossas costas. Não tem muito o que fazer.

— A direção do colégio pode ser frouxa, mas o treinador não tolera esse tipo de comportamento — Jackie, que entendia dos esportes, argumentou — Ele poderia tirá-lo do time. Ano passado, depois das denúncias, três alunos foram retirados da equipe.

Indy riu.

Era um som vazio, sem energia.

— Então, eles não foram expulsos por tentar dopar garotas em uma festa, mas foram obrigados a sair do time — um sorriso ácido deslizou por seus lábios — Impressionante.

— Eu sei que não é grande coisa — ponderei — Mas, sem o esporte, eles não conseguiram aplicar para bolsa na faculdade.

Ela fechou as pálpebras e seus longos cílios repousaram sobre suas bochechas como leques:

— Vocês não conhecem o Eric.

— Ele é um babaca — as sobrancelhas de Zoe estavam unidas em determinação — É tudo que precisamos saber.

— Não — Indy cruzou os braços sobre a mochila em seu colo — O que eu quis dizer é que isso só vai servir para irritá-lo. Eric é rico, não precisa de uma bolsa. O sobrenome dele pode comprar a entrada em qualquer faculdade. Se esse vídeo cair na internet, nós só vamos conseguir atrair a atenção de um bando de advogados furiosos. Eles vão tentar arruinar nossas vidas — ela se encolheu — Eu já vi isso acontecer antes. Eric tem um irmão mais velho.

O silêncio pesou sobre a mesa enquanto pensávamos em uma saída. A julgar pelo semblante derrotado em seu rosto, Indy havia desistido de encontrar uma solução antes mesmo de se abrir conosco. Ela enxergava furos em todos os nossos planos, como se conhecesse cada possível rota de fuga. Tinha concluído sozinha que se impor contra Eric era uma batalha perdida e o melhor a fazer era se afastar.

— Eu devia saber que isso aconteceria comigo — comentou em certo ponto.

— Para com isso — Jackie sibilou — O cara se apresentou para você como um príncipe. Você não tem culpa de nada.

— Me desculpe, April — Indy levou suas mãos delicadas às têmporas — Por te desencorajar. Pode entregar o vídeo se quiser.

— Você só está assustada — eu tentei.

— Vocês são demais — continuou, sem me dar atenção — Eu só não aguento mais pensar sobre isso. Minha vontade é nunca mais pisar naquele colégio de novo. Ou em casa.

O tom de sua voz era conclusivo, como se quisesse terminar uma discussão que se arrastava por muito tempo. Mais um pouco e Indy se despediria de nós, deixando a mesa para trás.

— Nós estamos do seu lado — Jackie murmurou suave — Você sabe disso, não é?

— Sim — ela abriu um pequeno sorriso que não chegava aos seus olhos e a encarou: — Eu sei.

— Você pelo menos deveria pedir para a coordenadora trocar seu quadro horário — sugeri — Eric não pode continuar te aterrorizando. Você tem direito a assistir suas aulas em segurança.

Me arrependi do comentário assim que o fiz. Uma garota tinha direito de se sentir segura em qualquer lugar, não só na escola.

— É verdade — Indy coçou a testa, alheia aos meus questionamentos — Eu também estava cogitando sair da turma de trigonometria da senhora Wilkes, não entendo nada do que ela explica. Dois coelhos numa cajadada só.

Pensativa do meu lado, Zoe absorvia a conversa sem nos interromper. Ela esperava por uma deixa oportuna, roendo a unha de seu polegar até o sabugo. Após muita hesitação, quando o assunto ameaçou chegar ao fim, arriscou:

— Eu andei pensando sobre isso tudo e acho que eu tenho a solução.

Os olhos claros de Indy pousaram sobre a amiga, surpresos. Depois de desabafar conosco sobre Eric, ela parecia mais a vontade. Até sorria um pouco, embora eu suspeitasse que seu pequeno esforço se tratasse de uma gentileza reservada para Zoe.

— Pode falar.

Zoe retirou algo do bolso e ergueu para que pudéssemos ver. Era um objeto pequeno e prateado, que lembrava um isqueiro. Assim que a mesa começou a demonstrar os primeiros sinais de confusão, ela apertou um botão e uma ponta metálica reluziu no ar. Meus olhos se arregalaram enquanto uma exclamação aterrorizada escapava pela minha boca: eu sabia reconhecer uma lâmina quando via um.

O barulho de pratos irrompeu da cozinha e eu pulei em meu lugar. Em um piscar de olhos, a garçonete atravessou o balcão e se aproximou da nossa mesa, equilibrando três pedidos em uma bandeja redonda. Minhas mãos cobriram as de Zoe e eu as trouxe para meu colo em um impulso para escondê-las.

— Aqui está, querida — a mulher de avental sorriu para nós, depositando um milkshake de morango sobre a toalha. Seus olhos desceram para o emaranhado de mãos sobre meu colo e uma confusão silenciosa se alastrou pelo seu rosto.

— Obrigada — sorri radiante, chamando sua atenção para cima.

A garçonete riu, sem graça pelo flagrante, e levou os pedidos para outra mesa. O metal frio afundava em meus dedos, quase dividia minha carne. Eu afrouxei o aperto vagarosamente e minha amiga se soltou.

Jackie mal esperou a mulher se afastar para exclamar:

— Quando eu disse que tínhamos que resolver isso — ela fez aspas com os dedos — eu não quis dizer que tínhamos que resolver isso.

Zoe puxou as mãos para si e vermelho se espalhou pelas maçãs de seu rosto.

— Eu não disse que ela precisa usar — sua voz era baixa — É para proteção.

Indy deixou um palavrão quase inaudível escapar, ainda espantada demais para reagir propriamente. De queixo caído e com os olhos presos no pequeno canivete, ela alternava entre a confusão e a urgência de cair na risada.

— Por que você tem uma dessas? — Jackie sussurrou exasperada.

— Foi um presente da minha mãe — Zoe apertou o botão novamente e a lâmina se retraiu — Ela me disse que morou sozinha em Londres quando tinha a minha idade e precisou aprender a se defender.

Um canivete não era o mais comum dos presentes. Quer dizer, a não ser que Zoe estivesse escondendo de nós que fazia parte de uma linhagem de caçadoras de vampiros e outras criaturas sobrenaturais, não fazia muito sentido um objeto como aquele passar de mãe para filha. Não conhecia a mãe de Zoe e, pelo que minha amiga dera a entender em outras conversas, a mulher não fazia mais parte de sua vida.

— Nós podíamos fazer aulas de defesa pessoal naquela praça aqui perto — Jackie argumentou — É um curso comunitário, todo sábado de manhã. Isso, sim, seria uma solução. Mas uma faquinha de manteiga? E se ele tomar isso da mão dela?

Zoe encolheu os ombros.

— Foi só uma sugestão.

— Que eu vou aceitar — o sorriso estampado no rosto de Indy cresceu enquanto ela estendia a mão para a amiga, seus olhos azuis cintilavam em diversão. Quando o espanto tomou a mesa, explicou: — Pode ser útil para descascar uma fruta.

Não resisti.

Logo estava sorrindo também.

— Ou palitar os dentes.

Zoe piscou algumas vezes antes de entregar o objeto, a incerteza permeava suas feições.

— Só tome cuidado.

— Tudo bem — Indy guardou o canivete no bolso com um brilho cúmplice em seus olhos — Pode deixar. Eu sou da paz.

Pelo menos, a distração havia deixado minha amiga mais relaxada. Agradeci a Deus por ter Zoe Jackie do meu lado, elas eram infinitamente melhores do que eu para conversar, cada uma do seu jeito.

— Vocês são doidas — Jackie meneou a cabeça e seu cabelo preso no rabo de cavalo acompanhou o movimento — Podemos pedir a conta? Eu acabo com o milk-shake no caminho.

— Caminho para onde? — eu apalpei os bolsos do meu casaco, procurando a carteira para pagar pelos cafés.

Ela levou o canudo aos lábios cheios e, depois de um gole, murmurou:

— Não sei ainda. Mas não podemos ficar aqui — fez uma careta — Merda. Merda. Congelou meu cérebro — ela esfregou as têmporas — Temos algumas horas para matar antes de encontrarmos os meninos e deveríamos ir a um lugar mais animado.

Indy ajeitou a alça de sua bolsa sobre um de seus ombros:

— É melhor eu ir — murmurou, se colocando de pé — Minha tia deve estar me esperando. Vejo vocês na escola.

— Espere — eu me levantei também — Precisamos fazer uma coisa antes de você ir embora.

— O quê?

Indy sorriu confusa enquanto eu me aproximava sem hesitação. Seus cabelos dourados brilhavam sob as luzes fluorescentes, desde as raízes até as pontas. Enganchei meu braço no dela e apontei para a janela com o queixo.

— Nós passamos quase meia hora sentadas aqui, encarando aquela vitrine do outro lado da rua e eu comecei a ter idéias — ergui uma sobrancelha — Me acompanha?

— April — ela advertiu, embora quisesse rir — Depois eu que sou a doida.

— Vai ser divertido — arregalei os olhos de brincadeira — E rápido. Você chega em casa antes do anoitecer.

— E nem um pouco indolor, eu aposto — disse irônica.

— Estraga prazeres — eu a empurrei com meu quadril.

As meninas precisaram ouvir um bocado antes de ceder ao meu pedido. Não foi minha melhor ideia, mas pelo menos foi divertido. Jackie estava certa: esse dia não precisava ser uma merda. Nós ainda tínhamos tempo de mudar as coisas.



H U N T E R


— Ainda não consigo acreditar que a senhora concordou com isso — murmurei, uma vez que estávamos dentro do carro.

Depois das compras no pet shop, seguimos alguns quarteirões até encontrar o carro estacionado em uma vaga em frente ao mercado.

O mais novo membro da família Campbell estava sentado no banco de trás. Eu o encarei pelo espelho retrovisor, sem acreditar que havia um emaranhado de pelos sobre o assento de couro — parecia um pano de chão felpudo com uma boca cheia de dentes, pernas longas e tronco arqueado.

— Ele é velho e cansado, como eu — minha avó respondeu, encaixando a fivela do cinto no espaço certo — Dificilmente conseguiria uma casa.

— O cara do abrigo disse que ele era um cão de fazenda — eu insisti com os olhos no trânsito, mãos sobre o volante — Nós mal temos espaço para Julie.

Guiei o carro pelas ruas familiares do centro e as risadas da minha irmã atravessaram meus ouvidos. O vira-lata lambia o rosto de Julie, ignorando seus protestos. Elas acertaram em escolher um cão com um aparência sossegada, mas, ainda que não se tratasse de um filhote cheio de energia, nossa casa era pequena e tinha um quintal minúsculo — seria difícil dar conta de um animal daquele porte.

— Nós precisamos de um cão de guarda — Nana se ajeitou sobre o banco como se estivesse com frio e eu estendi a mão para mexer no aquecedor — Helen, da outra rua, disse que viu uns arruaceiros tentarem arrombar a fechadura de um carro outra noite.

Uma risada ficou entalada na minha garganta. Eu tive que tossir por ar e minha avó me lançava um olhar desconfiado de soslaio.

— Nós devíamos chamá-lo de Billy — Julie falou mais alto do banco de trás, para que pudéssemos ouvi-la.

— Julie — Nana observou-a pelo retrovisor — Ele já tem nome, lembra?

A menina assentiu, enérgica:

— Lua Nova!

Embora eu não estivesse à vontade com essa história de adoção, abri um pequeno sorriso para o entusiasmo de Julie. Lua Nova não era um nome ruim. A pelagem dele era escura como um céu sem lua e os tufos grisalhos em seu focinho eram os únicos detalhes a estragar o apelido.

Meu celular voltou a vibrar no bolso, dessa vez com mensagens.

A luz vermelha do semáforo se acendeu e eu aproveitei para sacar o aparelho rapidamente, ainda um pouco enjoado. Era da banda, claro. Zack havia desistido de ligar e me avisara por texto que, mais tarde, eles partiriam com o furgão. O contrabaixo já estava junto dos outros equipamentos de som. Tudo que eu precisava fazer era aparecer.

Eu senti o fio gelado de uma navalha descer pela minha espinha, confundindo minha respiração e enrijecendo meus ombros.

Caralho.

Cole não tinha avisado a ninguém.

Nós fomos proibidos de dar as caras naquele pub, mas ainda assim ele insistiu naquela apresentação, disse que não havia outro jeito. Todos os meus colegas estariam lá, curtindo desavisados enquanto corriam perigo. Puta que pariu. Eu estava nervoso pra caralho. A única maneira de não perder a calma era ignorar isso até a hora do show.

Do banco passageiro, Nana me encarava como se pudesse ler a minha mente.

— O quê?

— Não mexa no celular enquanto dirige — ela advertiu zangada.

— O sinal está fechado — gesticulei para frente, mas naquele exato momento a luz verde acendeu — Puta que pariu.

Eu depositei o celular no porta copos e posicionei minhas mãos sobre o volante ao som de buzinas. Nós estávamos cada vez mais perto de casa. O carro avançou algumas quadras e o trânsito ficou para trás. Nana e Julie continuaram em silêncio por vários segundos e eu soube que havia exagerado na reação.

Limpei a garganta.

— Desculpa — minha voz era baixa, quase se misturou ao som do rádio.

Uma rápida olhada no espelho retrovisor e vi minha irmã confortável em sua cadeirinha, afundando suas mãos no pelo do cachorro.

— Posso levar Lua Nova pra escola?

Como se soubesse que falávamos sobre ele, o cachorro se deitou sobre o banco, abaixando sua cabeça entre suas patas.

— Não — Nana respondeu, sem pestanejar.

Não prestei atenção na discussão delas. Eu ainda tinha o celular na minha mão. Aproveitei o tumulto e cliquei três vezes no número seis e duas vezes no cinco.

Enviar.

— Já disse que não — Nana se inclinou para trás — Julie, fique quieta no seu assento.

— Mas eu quero que Max veja o Lua Nova — ela mostrou um beicinho teimoso — Ele pode vir brincar amanhã? Por favor.

Espera.

Ele?

Max, a criança que havia feito amizade com minha irmã, era um garoto? Julie não parava de falar em "Max" nas últimas semanas. Eu achei que Max fosse uma menina.

Um vinco se formou no meio da minha testa.

— Max, da escola? — observei o rostinho de Julie pelo retrovisor — É um garoto?

— Sim — a esperança preencheu seus olhos azuis — Ele pode vir?

— Não.

Minha irmã murchou, se afundando na cadeirinha.

No banco ao meu lado, Nana começou a rir.

— O que foi? — disparei.

— Sua mãe deveria estar aqui para ver isso — minha avó abaixou a viseira do passageiro e arrumou seus cabelos cinzentos, admirando-se no espelho. Ela parecia bem menos ameaçadora quando sorria daquele jeito.

— Isso o quê?

— Olhos na pista, Hunter Campbell.

O resto da viagem de carro foi um caos. Julie decidiu que não gostava mais de mim e eu fui vítima de sua chantagem emocional. Assim que eu estacionei na entrada de casa, Lua Nova vomitou no meu carpete e Nana me fez limpar tudo enquanto ainda estava fresco.

Só uma boa dose de ração regurgitada espalhada pelo carpete para me fazer esquecer da gangue de motoqueiros que prometeu acabar com a minha raça.

Em algum momento da faxina, imaginei ouvir a risada de April. Se ela pudesse me ver agora, enfiado entre os bancos do carro e limpando vômito de cachorro, iria se divertir horrores às minhas custas.

Ou não.

Caralho.

A química dos produtos de limpeza definitivamente havia afetado meu cérebro.

April poderia até rir do meu azar, mas seu humor evaporaria assim se soubesse a situação de merda que todos nós estávamos metidos. Ela provavelmente surtaria se soubesse que eu estava ajudando seu irmão a esconder uma segunda vida.

Eu soltei o pano sujo no carpete do carro e me sentei sobre o banco.

Lá fora, o céu já estava escuro. Pelos meus cálculos, eu tinha algumas horas para chegar no pub a tempo da apresentação da banda. Não havia escapatória: a merda já estava feita. Eu não podia abandonar meus amigos. Se tudo que me restava era esperar, que eu pelo menos fizesse isso acompanhado de um copo de uísque.

Assim que terminei de limpar o carro, me preparei para sair.

Que se foda.


N/A (06/03/20): VOCÊS VIRAM? Atingimos a marca dos 1M!!!!! 🥂🍾✨

Obrigada por nunca desistirem, por estarem aqui depois desse tempo todo. Vocês são uns chuchus.

Queria celebrar mais, mas tô um pouco triste.

Ah! Espero que vocês tenham gostado do capítulo. Tive bastante cuidado na hora de escrever as meninas conversando, sei que essa história tem um público bem jovem e tenho medo de influenciar de maneira errada. Por favor, isso aqui é uma obra de ficção (to preocupada agora). Se vocês forem vítimas de violência doméstica ou estiverem em um relacionamento abusivo, procurem ajuda, denunciem. 

Mas voltando a BS, teremos momentos decisivos de April e Hunter em um futuro próximo, heheh. Fiquem de olho no instagram.

Falando nisso, tenho a sensação de que esse POV do Hunter ficou confuso (mas me deem um tiro caso eu decida reescrever!!!!!!! a partir de agora só quero editar no futuro, quando retirar a história de vez).

Enfim, obrigada, xuxus! Qualquer reclamação ou erro, podem falar comigo. Estou sempre aberta a ouvir e aprender.


Beijos,

Babi

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