‣ Sensitive

Sensível

JASPER

Ela sabe que eu não sou idiota. Também deve saber que ela não é tão boa em esconder o que pensa. Ou eu que a conheço bem demais.

Eu estou pessimista para caralho quando ela pede para voltar para casa e anda do meu lado, mas ainda está tão fora de meu alcance. Não tento pegar sua mão embora seja realmente meu desejo, não tento puxar assunto porque de repente sua sinceridade me parece assustadora.

Tento me colocar no lugar dela, mas será que sou vingativo à altura? Ah, não dá nem para comparar, mesmo que eu não seja um padre polido como Carlisle. Eu devia ter desobedecido aquela regra idiota dele na clareira, devia ter seguido meus instintos. Ele me perdoaria, Carlisle poderia até não concordar, mas tenho certeza que perdoaria.

Volto a olhar para Beatrice. Rosalie é a primeira comparação á altura que me vêm a mente. Eu ainda não havia me juntado aos Cullen naquela época, mas todo mundo sabe o que ela fez com aqueles monstros, só que eles mereciam pagar de verdade pelo que a fizeram.

Mas Edward merece? Eu não quero pensar nisso, mas ainda me obrigo a encarar. Nós dissemos que iríamos cuidar delas, prometemos que elas ficariam a salvo, Edward disse a Bella que a amava. Mas aí, na chance que ganha de tê-la para sempre ele se desespera sabe-se lá porque e mata a garota. A escolha ali era tão simples. Eu nunca me arriscaria como ele se arriscou, ainda mais se o cheiro de Beatrice fosse tão mais atraente para mim do que os outros. Aposto como sequer teria hesitado em matá-la no primeiro momento que a visse.

Edward foi bem resistente durante um bom tempo, mas não tinha forças para aquilo. Não tinha como ele estar pronto.

Quase me zango em pensar como ele foi imprudente, mas tento não pensar demais nisso, por mais estúpida que tenha sido sua atitude, já aconteceu, não tem como desfazer.

Estamos pisando em ovos, Beatrice.

Ela quer me afastar. Eu entendo. Eu sei porquê. Queria voltar no tempo, ter impedido meu irmão de matar a irmã da minha namorada, a garota mais vingativa que eu conheço.

Eu estou com medo. De verdade. É como se eu fosse perdê-la a qualquer segundo de novo. Beatrice não confia em mim nem na minha família. Se ela tentar fugir depois de Victoria.... Eu teria de caça-la? Carlisle não me forçaria a isso. Mas Edward é meu irmão. Pode não ser sangue do meu sangue, mas eu ainda o amo como se fosse.

Essa é a minha família e eu não posso me virar contra eles. Não vou. Eu terei que matá-la? Esse é o único jeito que eu sei que dá para parar meus inimigos. Não, eu não suporto nem a ideia de machucá-la.

Mas é isso que Beatrice é minha agora? Minha inimiga? Eu quero proteger todo mundo que eu amo, mas eu sei que não dá.

Porra, Edward que merda você fez.

Talvez eu a leve embora depois que pegarmos Victoria. Para longe de Edward, do rastro dele, mas isso não garante que ela vá simplesmente desistir ou que ele ainda não vá estar atrás de Victoria quando chegarmos.... Beatrice disse que talvez não hesite nem por mim. Eu sei que ela não falou da boca para fora, não foi num momento de estresse, ela estava pensando.

Me pergunto como vai ser daqui para frente. O que ela vai se tornar. Ela não é uma pessoa má, mas se deixa levar pelas emoções, ainda que isso não a cegue. Ela é muito intensa e consegue pensar. Isso é perigoso para alguém que agora é praticamente indestrutível. Tudo se torna muito simples e alcançável. É impossível não ter o ego inflado junto com a mortalidade. Mas como convencer ela a não matar o assassino de sua irmã? Ela já brigou por muito menos.

Eu paro de andar, ainda estamos longe de casa, estamos num ponto isolado de todo o mundo, mas não há privacidade, Alice pode estar de olho na gente. Beatrice para dois passos a minha frente e se volta para me encarar, curiosa. Olhos vermelhos, postura felina. Sinto um horror quando meu subconsciente a compara com Maria.

Beatrice consegue ter muitas facetas. Ela é muitas coisas ao mesmo tempo, mas ela é muito melhor do que Maria. Não tem comparação.

— Acho que a gente devia seguir nosso caminho sozinhos— falo, Beatrice franze a testa.

— Mas... Eu preciso de Alice.

— A gente pode achar um rastro dela por nossa conta, não vai dar certo envolver toda minha família nisso, Tris, você sabe disso.

— Eu não pedi para eles se oferecerem— ela argumenta.

— Eu sei, mas se um vai, todos vão, nós devemos nos separar, agora seria uma boa chance. Alice poderia mentir para eles— falo, só teríamos que ir para a água e nosso rastro seria apagado.

Beatrice pisca rapidamente e dá um passo para trás, visivelmente confusa.

— Você... está me mandando embora?— pergunta, desvia o olhar do meu rosto e encara os meus pés, ofendida.

— Não. O que? Claro que não— me adianto, dando um passo na sua direção. Ela não se move— Quando digo que devemos nos separar, isso sou eu e você nos separando deles.

— Se um vai, todos vão— ela repete— Se você for eles também vão! É sua família, eles não vão simplesmente te deixar partir.

— É, eu sei, isso não é uma escolha fácil para mim também...

— Jasper, eu não estou te implorando para vir comigo, eu sei que isso seria demais, você...— ela me interrompe e logo fica calada também, não completando o que ia dizer e pela sua cara, não tinha nenhuma intenção de continuar.

— Eu já fiz minha escolha— falo com firmeza.

— ... não— ela sussurra, eu sei o que ela está pensando.

— Não faz isso— me aproximo mais e ela se afasta.

— Não tem como você já ter escolhido um lado, Jasper— ela se encolhe, se afastando de mim. Isso vai me fazer surtar.

— Tris, não faz isso, não me afaste. Por favor.

— Não tem como isso dar certo!— ela eleva o tom de voz.

— Porra, eu sei que não, mas eu não vou desistir assim de você— zango-me.

Ela quer ir embora porque não quer me afastar da minha família, mas eu também não quero que ela se afaste de mim. Eu estou pedindo demais? Não sei como vou ficar, quase enlouqueci de ver James a machucando naquele maldito estúdio. E se a perder de vez? E se ela se jogar de cabeça para a morte, indo até Victória?

— Você não está pronta, sequer sabe lutar com nossa espécie— tento lhe mostrar a razão, sei que ela vai me escutar, é uma garota esperta, mas caso se decida, já era para mim— Sequer sabe das nossas leis, eu tenho muito para te contar ainda, não posso simplesmente te deixar ir sozinha.

— Leis?— ela pergunta, confusa, tenho sua atenção, essa é a minha chance.

— Não acha mesmo que só porque somos sobrenaturais que não temos regras a seguir também, não é? Também temos que andar na linha, senão os Volturi virão atrás de nós. E eles não são de dar segunda chance para aqueles que quebram as regras. Não há cadeia para os vampiros, querida, apenas execução.

Beatrice cruza os braços, pensativa. Será que é agora que eu invento que ela não pode simplesmente ir matando nossa própria espécie a vontade? Isso não é exatamente contra as regras, e, honestamente, duvido que ela vá respeitar qualquer coisa. Como é teimosa. Acha que pode lutar contra o mundo, mas eu sei que ela também não quer morrer, pode estar triste, mas isso não muda nada.

Complica um pouco minha vida, eu também não quero que ela não confie em mim. Não posso, não quero mentir para ela. A questão é se devo.

As coisas ficam muito frágeis, rápido demais. Estendo minha mão na sua direção, Beatrice encara ela, hesitante.

— Fico comigo, Tris— peço, seus olhos encontram os meus. Ela está triste e se sente confusa— Eu vou cuidar de você— queria que ela soubesse o quanto eu estava sendo literal. Eu faço qualquer coisa por ela.

— Eu não quero te torturar comigo, Jasper— ela sussurra, indecisa.

Eu não posso falar o que eu quero porque só vai piorar as coisas e eu não preciso de sua pena. Eu queria que ela soubesse que só vai me torturar se for embora. Porque aí nós não teremos nenhuma chance, mas eu não vou desistir dela.

— Não vai, querida— garanto-lhe. Pode ser mentira. Minha mão não está cansada, mas de repente ela pesa. Beatrice a pega depois do que me pareceu uma eternidade e me puxa para si com força, de forma brusca que eu não tenho como resistir. Ela me abraça e eu retribuo, eu amo como nos encaixamos, mas as coisas parecem dolorosas, não quero que isso seja nenhuma despedida antecipada.

Eu amo você. Quase te disse, mas me contive em apenas a abraçar com mais força. Eu a amo, Tris, você está sentindo isso?

Por que isso dói?

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