Capítulo 6
[Alerta de conteúdo sensível: crise de disforia]
Meus movimentos em casa foram extremamente cautelosos.
Assim que chegamos, fui direto para o quarto com a pasta de documentos da matrícula nos braços. Não tinha coragem de olhar para a minha mãe, mas sabia que ela me fuzilava com os olhos.
Me sentei na cama depois de guardar a pasta em uma gaveta e ouvi passos pelo corredor – era minha mãe entrando no quarto.
Nós não tínhamos aquela relação comum entre mães e filhos. Nunca nos sentamos para falar sobre sentimentos ou problemas. Já tentamos, mas logo nas primeiras vezes eu desisti por ela sempre transformar o assunto em uma forma de falar sobre minha falta de fé. Era difícil contar que estava me sentindo triste por algum motivo, se a resposta para tudo era "Deus não faz nada por acaso, confie em Deus, Deus faz o que é o melhor, busque a resposta em Deus."
Também era complicado criar um laço mais íntimo depois de viver anos longe dela. Eu acabara de completar dezesseis anos quando ela se mudou para São Paulo, e nossa última conversa na Carolina do Norte foi cercada de brigas e reclamações. Eu dizia que ela estava me trocando pelo marido novo, e ela dizia que eu deveria dar uma chance a ela e ter uma vida nova no Brasil. Por isso, também foi um pouco humilhante quando contei a Madison, já aos dezenove anos, que eu mudara de ideia e queria morar com ela.
Não tínhamos uma relação normal de família e eu dificilmente acreditava que um dia teríamos.
Minha mãe demorou para falar alguma coisa. De início, apenas se sentou na beirada da cama e segurava um casaco fino no colo, o qual usara na rua.
Eu também me mantinha em silêncio. Não havia o que falar.
— Você sempre vai ser a minha garotinha. — Ela começou. Controlei minha respiração para não soltar um suspiro pesado. — Me desculpe se tenho dificuldade em te ver crescer. Só é estranho você estar tão grande, porque eu vejo como o tempo passou tão rápido e eu nem estive tão presente nos últimos anos... Meu Deus.
Minha mãe soltou um riso, mas ele não saiu tão animado. Ela percorreu o olhar pelo quarto e percebi seus olhos brilhantes.
— Você sempre vai ser minha mãe. — Falei de cabeça baixa.
— Eu sei, Charlie, eu sei. Vem aqui. — Ela ergueu o braço e fui devagar até ela, recebendo um abraço apertado. Sua mão afagou minhas costas e ela beijou minha testa. — Eu te amo muito e tenho orgulho de você.
Dei um meio sorriso com aquela frase. Eu não conseguia ficar totalmente feliz com aquela declaração.
"E se você soubesse a verdade? Ainda teria orgulho de mim?"
— Bom, chega de drama! — Madison falou alto e se afastou para enxugar as lágrimas do rosto. — Vou preparar o jantar. Pode me ajudar?
— Claro, já vou. — Respondi com um sorriso e minha mãe sorriu de volta. Ela se levantou e saiu do quarto.
Assim que me encontrei novamente sozinho, respirei profundamente. Ficar perto da minha mãe sem conversar de forma aberta com ela era sufocante, mas eu não tinha escolha.
Ou coragem.
Peguei o celular e me deitei na cama, ver publicações de outras pessoas era a minha forma de tentar me distrair e relaxar. Contudo, logo na página inicial eu já senti meu corpo ir ao céu e voltar ao ver o que havia acabado de ser postado por Sammy.
Era uma foto do seu rosto, mais nítida e com uma luz dourada da janela pegando metade da sua face. Se antes ela possuía uma franja, estava presa para trás. Seus cabelos negros estavam longos e amarrados em duas tranças. Se parecia muito com a garota que conheci no campus, mas com um cabelo diferente. Definitivamente era ela, só que ainda mais bonita.
Ela parecia radiante na imagem, de olhos fechados e cabeça erguida, com um leve sorriso sem revelar os dentes. Na legenda:
"Sem fotos de paisagens, apenas eu. Sem filtro, sem maquiagem."
Não percebi que estava sorrindo para o celular até sentir meu maxilar doer.
Resolvi mandar uma mensagem, provavelmente estaria online já que acabara de postar aquela foto.
— Oi, Sam! Tudo bem?
Eu não sabia por que me sentia tão ansioso apenas por mandar uma frase tão boba.
— Opa, tchê! Tudo ótimo, e tu?
— Vou bem, gostei da sua foto.
— Ah, obrigada! — ela enviou um emoji com dois corações vermelhos. Achei carinhoso. — A autoestima tá no grau hoje, bebê.
— O que você quer dizer?
— Ai, jesus. — Ela enviou um emoji de olhos revirados e outro rindo. — Esqueço que você é gringo! "Tá no grau" é quando algo tá muito bom, perfeito, na medida certa, sabe?
— Acho que sim, preciso aprender mais gírias, isso é muito complicado.
— Falou quem ri usando LMFAO.
— É uma risada normal!
— Tá brincando! — Sammy enviou uma coleção de letras K em maiúsculo, e isso eu sabia que significava que ela estava rindo bastante. A internet era complicada às vezes.
— Mas e aí, fez sua matrícula? — Tentei puxar assunto, mesmo sabendo que era um tema arriscado de conversar. Era isso ou ter que inventar outra coisa.
— Fiz sim, na turma da noite da Marie Curie. Tu também fez? Vai estudar aonde?
— É, bom, também estou na Marie Curie, mas vou estudar Publicidade pela manhã, então pelo visto vai ser difícil nos encontrarmos.
— Entendi... — Sammy enviou e ficou mais algum tempo digitando. Eu olhava fixamente para os três pontos que se mexiam na tela indicando que ela não terminou de escrever.
De repente, ela parou de digitar. Fiquei com os dedos a centímetros do teclado pensando se eu deveria mandar algo, até aparecer o símbolo de digitando novamente.
"O que ela quer me falar?!"
— Seria legal ter um amigo no primeiro semestre. Quer sair um dia desses pra falar sobre a faculdade ou bater papo? Posso até te apresentar a cidade se quiser!
O susto me fez jogar o celular para o meio das minhas pernas, em cima da coberta. Eu nunca imaginaria que Sammy fosse me chamar para sair.
Meu coração batia freneticamente enquanto eu revirava meus pensamentos em busca de uma solução. Eu deveria responder alguma coisa a ela, mas sem parecer que estava dando um fora.
"Droga, eu não queria dar um fora! Eu queria sair com ela!"
Peguei o celular novamente e encarei a mensagem.
Meus dedos ficaram parados em frente à tela, pensando em uma resposta.
Tive uma ideia absurda.
— E se eu for um maníaco, hein? Você não sabe se estou falando a verdade sobre mim.
— E se EU for um maníaco? Afinal, eu que tô dando a ideia de sair contigo.
Sammy enviou um emoji de detetive. Não resisti e ri com a sua mensagem.
— Mas eu tenho uma foto sua, você não sabe meu rosto.
— Bah, e quem garante que sou eu nessa foto? Podemos ser o que quiser na Internet.
Outro emoji de detetive, essa garota era sensacional.
— Tá bom, você venceu! — Mandei um "LOL", e Sammy enviou vários emojis de risadas. — E sobre o convite, eu adoraria sair com você, mas eu ando muito ocupado e me mudei recentemente, está sendo um pouco difícil a adaptação da minha família. Mas em breve podemos pensar em algo! — Era uma mentira, e uma bem ruim, por sinal. Não sabia se Sammy acreditaria. Tentei suavizar a situação. — Mas quem sabe a gente se esbarre alguma hora na faculdade.
— E como que vou saber que esbarrei em você? Nem sei como é seu rosto, sua foto de perfil é toda escura!
"Eu queria muito, muito ter uma foto melhor, Sammy."
— Sou um pouco tímido, você sabe.
— É né, você é um guri diferente.
Minha respiração se acelerou ao ler sua mensagem. O quão diferente eu era para um garoto?
E se ela desconfiasse?
Com medo, fingi achar a frase engraçada e respondi:
— E ser um guri diferente é bom?
— Não sei, é?
Pensei em responder alguma coisa, mas Sammy se despediu para fazer uma de suas artes como freelancer e me encontrei sozinho novamente.
Meu pescoço doía por ficar tempo demais deitado com a cabeça levemente inclinada para usar o celular, então me levantei. Ergui os meus braços e os estiquei o máximo que pude para alongá-los.
A porta do quarto estava totalmente fechada e era possível ver o meu reflexo pelo espelho de corpo preso ali. Me levantei devagar e, sem pensar muito, me sentei no chão e fiquei em frente ao objeto.
O que eu estava vendo ali não era o que eu queria ver.
Meus ombros eram baixos e o formato do meu rosto, circular. A blusa grande não escondia os meus seios, ainda era possível notá-los ali. Inclinei meu corpo um pouco para baixo e fiquei corcunda para que o tecido pudesse cobri-los mais.
Mas não era o suficiente.
Meus olhos tinham traços suaves, e minha boca também. Coloquei as mãos no rosto e notei como meus dedos eram finos e pequenos.
Comecei a tatear as outras partes do meu corpo, ainda encarando o meu próprio reflexo.
Meus braços eram finos. Eu não era muito forte. Poderia até frequentar uma academia, mas não fazia ideia de como começar a treinar e se pedisse a ajuda de um personal trainer ele me passaria um treino para corpo feminino.
Minha cintura tinha curvas. Era estranho tatear ali. Olhei para baixo e vi como eu era magro e com os traços delicados.
Minhas mãos foram em direção aos seios. Senti minha pele debaixo da blusa e tentei entender o que eles faziam ali. Eles não faziam parte de um corpo masculino. Por que estavam ali?
Por que eu me sentia um garoto se o que eu via era uma garota?
Percebi que estava chorando e voltei a me encarar no espelho. Meus olhos estavam vermelhos e senti a garganta dolorida. Soltei um soluço e toquei meu rosto, sentindo-o molhado.
Por que eu me sentia um garoto se não podia nem ter barba?
Por que eu me sentia assim?
Fechei os olhos.
Tentei imaginar como seria o dia de hoje se eu tivesse nascido como um garoto. Sammy teria me chamado para sair e eu diria sim, sem nenhuma insegurança. Nosso primeiro encontro aconteceria e eu até poderia apresentá-la para os meus pais.
Minha mãe iria se aproximar e dizer que somos um belo casal. Me abraçaria e diria algo como "não chegue em casa tarde, filho!".
Na rua, as pessoas não notariam nossa existência, pois seríamos um casal completamente comum. Eu pegaria na mão de Sam e sorriria para ela, provavelmente eu seria um pouco maior em altura por causa dos hormônios. Ela iria passar sua cintura por meu corpo e eu beijaria sua testa.
Ela teria certeza de que estava na companhia de um garoto.
Então eu iria falar que ela estava linda naquela noite e minha voz sairia mais grossa. Quem sabe, ela fosse sorrir e tocar o meu rosto, sentindo a barba começando a nascer, talvez até por fazer. Eu inclinaria minha cabeça e a beijaria.
Meu corpo tremia pelos soluços. Minhas mãos apertavam meus braços e eu sabia que deveria abrir os olhos, me levantar e lavar o rosto, mas eu não queria interromper aquela cena.
Eu não queria abrir os olhos e encarar o meu reflexo de novo.
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