Capítulo 55

Whaaaat??? Capítulo 55? Mas a história não tinha acabado?

Tudo culpa de quem? Jason, claro.

Eu não consegui explicar direito aos meus amigos por que eu não queria mais sair para comemorar com eles, pois Jason me fez prometer que tudo o que aconteceu naquela sala, iria ficar naquela sala.

Por isso, todos saíram da faculdade irritados comigo e alguns minutos depois, eu saí rumo à delegacia.

O carro de Paloma ficou silencioso na maior parte do tempo. Pela forma com que agia com Jason, parecia conhecê-lo há muito tempo. Eu ainda estava jogado de paraquedas naquela situação e queria entender o que havia acontecido.

— Paloma? — Arrisquei chamá-la e a mulher de cabelos lisos olhou para mim pelo retrovisor. Jason se mantinha imóvel, apoiado no banco e olhando pela janela.

— Sim, meu bem?

— Como você sabia aonde o Jason estava?

— Nós planejamos aquilo. Ele não iria falar o texto no evento, só fez uma distração para irritar Max e conseguir uma prova contra ele.

Então foi tudo parte de um plano. Jason só entrou no concurso para isso.

— Mas o texto... Como vocês tinham certeza de que ia dar certo?

Jason se mexeu – o que foi um milagre. Ele mexeu nos bolsos da calça e retirou um papel amassado. Entregou para mim sem olhar nos meus olhos.

O carro parou em frente ao departamento de polícia e Paloma abriu a porta do carro para Jason.

— Tu quer entrar, Charlie? Pode ficar no carro se quiser.

— É, tô bem aqui, obrigado. — Eu não tinha tanto estômago assim para entrar em um local como aquele.

Jason e a Paloma subiram as escadas e passaram pela porta com o grande logo da polícia. Eu me acomodei no banco de trás do carro e desdobrei o papel.

Esse texto é um pedido de socorro.

Quando eu tinha seis anos, contei para os meus pais que eu não era uma garota. Meu pai não acreditou em mim e disse que eu estava inventando. Minha mãe, por outro lado, me apoiou e tentou entender.

Quando eu tinha oito anos, as garotas da escola cortaram meu cabelo porque diziam que eu era uma aberração para ser comparado a elas.

Com nove anos, rasgaram meus cadernos porque era anormal eu ser uma garota que queria parecer um garoto.

Com onze anos, meus pais brigaram para decidir o que fariam comigo. Eles sabiam que eu passaria por coisas piores por dizer aos outros que eu queria parecer um garoto com aquela "aparência". Eu não iria mentir, nunca iria falar que eu era uma garota. Minha mãe queria que eu crescesse um pouco mais para tomar minha decisão, se eu queria ter um corpo diferente ou não, mas meu pai pensava o contrário. Para ele, se eu queria ser um garoto, precisava parecer com um o mais rápido possível.

Com doze anos, ele me levou ao médico. Comecei a tomar um bloqueador hormonal. Ele disse a minha mãe que em breve deveríamos mudar de cidade, para um lugar em que ninguém soubesse que eu nasci como uma garota. Minha mãe achou uma atitude extrema e disse que não se mudaria. Eles passaram a brigar ainda mais.

Com treze anos, saí da escola. Eu não estava suportando aquele lugar e fiquei em casa durante um ano. Meu pai criou uma rotina com séries de exercícios, musculação e esportes para desenvolver o meu corpo. Cada segundo livre dele era destinado a me ensinar alguma atividade que me fizesse parecer mais um garoto.

Com quatorze anos, passei a me chamar Jason. Meu pai mudou todos os meus documentos e jogou os antigos fora. Disse que Jade havia morrido e que ninguém poderia saber de nada disso.

Cada comportamento que o fazia pensar que eu estava parecendo uma garota, era punido. Se eu achava um cara bonito, ele me batia. Se eu cruzava as pernas ao sentar, ele as machucava com a ponta do cigarro. Eu não podia rir alto demais, falar fino demais e nem elogiar demais. O meu cabelo não podia crescer demais, mas eu também não deveria raspar os pelos do corpo, pois isso era uma coisa que mulheres faziam.

Em hipótese alguma, eu poderia usar roupas femininas. Ou nada que, de acordo com meu pai, me deixava "afeminado".

Com dezesseis anos, fumei meu primeiro cigarro e beijei uma garota pela primeira vez. Meu pai disse que eu estava parecendo um homem de verdade.

Minha mãe não aceitou nenhuma dessas coisas. Para ela, eu não precisava de nada daquilo para ser um garoto. Ela aguentou calada até eu completar dezessete, quando descobriu que estava sendo traída – meu pai estava tendo um caso com a minha médica.

Foi a oportunidade de me mudar com meu pai para longe dali.

Então eu completei dezoito, e tomei a minha primeira dose de testosterona. Eu já não tinha a aparência de antes e nem a mesma mentalidade. Meu pai agendou minha mastectomia. Disse que eu ainda precisava disso para me parecer com um homem. Passei na frente de várias pessoas após um estalar de dedos e uma conversa secreta com um cirurgião, amigo do meu pai. A fisioterapia foi intensa e dolorosa, pois eu precisava me recuperar rápido para não levantar suspeitas e nem poderia deixar alguma marca no corpo de algo do tipo havia acontecido.

Ninguém mais sabia que Jade alguma vez existiu. Nem eu sabia.

Esse texto é um pedido de socorro.

Eu não pretendo ganhar esse concurso, mas preciso provocar o meu pai para ter provas contra ele. O nome dele é Maximiliano Albuquerque e finge ser uma pessoa boa, é secretário do prefeito e pastor, mas ele está acabando comigo. Ele é um psicopata, que me obrigou a fazer tudo isso apenas para manter as aparências. Ele não quer que ninguém saiba quem eu sou de verdade e eu tenho medo de que ele me mataria apenas para manter isso.

A única coisa que eu preciso é estar na final, assim eu vou mostrar quem ele realmente é.

Esse é um pedido de socorro, me ajudem.

Havia um nó forte em minha garganta quando terminei de ler o texto. Instantaneamente quis entrar na delegacia e ir até Jason apenas para abraçá-lo.

Meu ideal de masculinidade estava completamente deturpado. Eu me inspirei em alguém que sofreu para ser assim. Fiquei extremamente envergonhado de mim mesmo por ter sentido inveja da sua aparência, pois ela foi fruto de um abuso psicológico.

Jason era o resultado de uma masculinidade tóxica e eu não podia seguir isso, em hipótese alguma. Não era isso que me tornava um homem, eu não podia sair de um sistema opressor – a cisnormatividade – para entrar em outro – o machismo.

Me dei conta de que eu odiava ser chamado de fofo e ser considerado pequeno e o caçula do grupo, mas porque eu pensava que isso me fazia "menos homem". Eu já era um homem! Eu não precisava disso!

E se eu quisesse usar saias, ter o cabelo comprido, gostar de rosa e pintar as unhas, eu continuaria sendo um homem!

Todas as pessoas trans precisavam ter essa noção também. Senti como se aquilo fosse uma missão pessoal – alguém precisava começar alguma coisa para mudar.

Jason era alguém tão próximo de mim e eu não imaginava que ele passasse pelos mesmos problemas que eu. Quantas pessoas deveriam ter passado por mim e também estavam nessa situação? Aonde estavam as pessoas trans?

Eu sabia aonde a maioria estava: escondida. Fingindo ser o que não eram dentro de casa, com medo da reação dos pais. Procurando oportunidades e sendo rejeitadas. Trabalhando nas ruas, porque era a única saída, ainda mais por morarem no Brasil.

Minha mãe não teria me expulsado se soubesse, mas transformaria a minha vida em um inferno tão grande que eu teria entrado em depressão. Essa era outra realidade, e eu nem conseguia imaginar a quantidade de garotos como eu que estavam sofrendo dentro de casa, sem poder expressar sua identidade.

Eu queria conhecer cada um deles, abraçar cada um e dizer que todos eles eram importantes e perfeitos, e que eu seria a família deles.

Meu primeiro passo seria escrever toda essa história, Azul é a Cor do Silêncio, para alcançar o máximo de pessoas possível. Eu já estava cansado de ser invisível.

Apoiei minha cabeça no banco do carro e pensei no futuro com uma pontada de ansiedade.

Eu queria fazer uma revolução.

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