Capítulo 53
Postei um cap seguido do outro porque fiquei com dó de parar numa parte tão importante kkk sou legal gostasse?
Aguenta o core

Todos já haviam chegado quando o reitor da Marie Curie abriu a cerimônia. Infelizmente, eu estava ansioso demais para conseguir prestar atenção em alguma coisa.
Ramón suava cada vez mais do meu lado. Jason não dizia uma palavra, sequer mexia alguma parte do corpo. Eu estava com o meu texto impresso e mais uma folha com o que eu ia dizer, mas minhas mãos estavam escorregadias por transpirar demais, então deixei os papéis em meu colo por algum tempo.
Olhei para trás na tentativa de encontrar meus amigos, e eles estavam várias fileiras atrás de mim. Mesmo assim, consegui vê-los e Calebe reparou que eu estava os observando, pois acenou e cutucou os outros para acenarem para mim também.
Aquilo me deu um pouco mais de coragem para fazer o que devia ser feito.
— E agora, para abrirmos as defesas, as apresentações serão feitas em forma de sorteio e vocês terão cinco minutos. À sua esquerda, Jefferson Crevelario, colunista da Terra!
O reitor começou a apresentar a bancada de jurados, que estavam na fileira do outro lado do auditório. Quando cada um era anunciado, ele se levantava e acenava para a plateia, que aplaudia.
Eram cinco jurados e a avaliação final seria a média das avaliações individuais. Apenas três ganhadores, cada um levaria um troféu e uma premiação em dinheiro proporcional à colocação.
Um assistente foi até o reitor para sortearem um número. Primeiro, seria sorteada a universidade. Em seguida, todos os alunos daquela instituição fariam as apresentações e depois sorteariam novamente. Eu já estava suando frio — seria azar demais ser logo o primeiro, a pressão seria muito maior, pelo menos para mim.
— Vamos abrir as defesas com os alunos da Universidade Estadual de Uruguaiana!
— Graças a Deus. — Ramón sussurrou do meu lado.
A faculdade pública estava com a mesma quantidade de representantes que a Marie Curie, isso a tornava nossa principal concorrente. Não era apenas o título de melhor texto, mas sim qual faculdade seria a vencedora daquele ano.
Os alunos da Estadual batiam palmas com muito mais entusiasmo que os outros, apenas para mostrar presença no auditório. Eu queria que, pelo menos, alguém da minha faculdade ganhasse.
O tempo passava e eu estava surtando de ansiedade por dentro. Os alunos de Uruguaiana encerraram e outra faculdade foi sorteada. Eram cinco, no total.
— Cansei disso aqui. — Jason se levantou, irritado, e saiu sem nenhuma cerimônia antes do próximo aluno se apresentar.
Como ele ia sair desse jeito?!
Felizmente – ou não – a faculdade seguinte só tinha dois alunos representantes. A próxima foi a Marie Curie. Quando o reitor anunciou que o primeiro a se apresentar era Lucas, de Jornalismo, eu fiz uma prece agradecendo a Deus por não ser o primeiro. Ramón estava quase desmaiando.
Apesar da rivalidade entre Publicidade e Jornalismo, eu tinha que admitir que o seu texto era bom. Obviamente Lucas quis falar sobre o próprio curso e na importância que o jornalista tem no mercado. Achei que ele se distanciou um pouco do tema para valorizar demais a sua classe – meus colegas de curso deveriam estar revirando os olhos para ele.
A próxima foi Kelly, de Psicologia, e ela por outro lado foi brilhante. Escreveu de forma parecida com a minha e João acertou em sua aposta: ela criou uma personagem que passou por dificuldades para ser promovida no trabalho por ser mulher e possuir deficiência visual. Foi um conto tocante e as palmas do público se demoraram alguns segundos a mais do que quando aplaudiram para Lucas.
Então sortearam o nome de Ramón. Eu sabia, superficialmente, do que o texto se tratava e da importância que o tema havia para ele, então minhas expectativas aumentaram. Ele claramente estava à beira de um ataque de pânico e tossiu antes de pegar o microfone no palco para ler o seu texto e fazer a defesa.
E então ele contou a sua própria história. Sequer criou um personagem: falou dele mesmo, na primeira pessoa.
Ramón era filho de pais colombianos. Seu pai foi morto durante um ataque entre o exército e a milícia enquanto voltava do trabalho. A Sra. Valdez decidiu sair do país com o filho de três anos por ter medo de passar pelo mesmo, e passou vários anos vivendo clandestinamente no Brasil, fazendo trabalhos pesados para donos de fazendas no interior gaúcho para sustentar Ramón.
Meu amigo contava tudo aquilo com uma emoção que era perceptível em sua voz. Todo mundo estava em absoluto silêncio para ouvi-lo; ele contou como foi difícil migrar de orfanato para orfanato após a morte da mãe em um acidente de trabalho, e que só conseguiu se estabelecer em Esplendor, por ser uma cidade pequena e com um orfanato de melhor estrutura – haviam muitas vagas no local, naquela época.
A adoção por parte de um casal de idosos – que, infelizmente, faleceram há alguns anos, e Ramón contou essa parte com uma emoção ainda maior – e a bolsa na faculdade de Letras foram o seu passaporte para uma vida que seus pais não tiveram. A diversidade no mercado de trabalho, para ele, era ter a chance de ser um imigrante com uma vida digna no país.
Até eu estava com os olhos marejados quando ele terminou. Meu coração ficou dividido: Ramón merecia o primeiro lugar. Se ele ganhasse, eu nem me importaria mais. Ele era incrível.
Um turbilhão de aplausos foi dado quando ele agradeceu e sorriu, após dobrar o papel do seu discurso ao meio. Ainda estava bastante tenso quando desceu as escadas desajeitado e voltou ao assento. Eu não medi esforços para parabenizá-lo e dizer o quanto ele havia ido bem.
— Foi a coisa mais difícil que eu já fiz, mas acho que foi o certo. — Sua voz ainda estava meio trêmula.
— Seus pais ficariam orgulhosos, todos os quatro. — falei em uma referência aos pais biológicos e adotivos e Ramón deu um grande sorriso para mim.
— Valeu, Charlie.
Eu estava tão focado em meu amigo que não percebi quando o reitor anunciou alguma coisa pelo microfone e foi interrompido logo em seguida.
— O próximo finalista da Marie Curie se apresentar é Jason Albuquerque, do curso de Engenharia Química. — O reitor voltou a falar em alto e bom som. — Contudo, ele não está mais presente e foi desclassificado, então vamos sortear o próximo.
A plateia começou a murmurar — quer dizer, a palavra certa não seria essa, pois havia um barulho considerável — e eu olhei para os lados na esperança de encontrar alguém bonito de cabelos pretos que fosse o Jason. Aquilo não fazia o menor sentido.
O que aconteceu? O que eu perdi?!
Mas eu não tive tempo para pensar sobre isso. O reitor anunciou o meu nome.
— Charlie, é você. — Ramón disse com os olhos arregalados. Ele estava ansioso por mim. Eu queria que Jason voltasse para me dar mais alguns minutos.
— Caramba. É, sou eu. — Repeti para mim mesmo.
Nada no mundo me deixaria preparado para lidar com aquilo.
Fui rapidamente até o palco, ansioso, e fiquei atrás da pequena plataforma de vidro feita para sustentar os papéis que eram usados durante as defesas. Coloquei os meus ali e peguei o microfone.
Procurei meus amigos na plateia, todos eles estavam concentrados de olho em mim. Sammy estava com as mãos à frente da boca, inclinada para a frente.
"É agora."
Eu estava tremendo tanto que era quase possível ver de longe.
Li o meu texto, sabendo que todos percebiam que eu estava falando sobre mim. Olhei rapidamente para os jurados, que não anotaram nada em suas cadernetas, apenas me observando atentos.
Aquela era uma sensação infinitamente maior do que no dia da minha apresentação, quando me assumi trans. Não havia nem comparação.
Ao fim do texto, virei a página para olhar a minha defesa. Respirei fundo, precisava ir até o final com aquilo.
— Esse texto foi feito pensando em todos aqueles que são iguais a mim. A todos os Christian's que demoraram para descobrir quem são de verdade... — falei o nome com um pouco mais de ênfase. — E que ainda estão se descobrindo. Na verdade, eu demorei uma vida inteira para descobrir algo que eu sempre fui, só demorei para perceber.
"Minha família é cristã, e é difícil se assumir em um ambiente mais conservador. Eu perguntei a Deus várias vezes por que eu havia nascido desse jeito, já que Ele era o Todo-Poderoso que fez tudo de forma perfeita.
Mas então eu descobri que, se tivesse nascido de outra forma, eu não seria a pessoa que sou hoje. E se eu não fosse assim, eu não poderia me amar como sou. Eu pedi por tanto tempo para ser um garoto, sendo que eu já era. É um pouco difícil de acreditar nisso todos os dias, eu admito, mas eu estou me esforçando. E eu acho que deve ter pelo menos uma pessoa aqui que também precisa acreditar que já nasceu de forma perfeita, sem precisar mudar nada. Pelo menos alguém aqui, precisa entender isso."
Minha garganta queria se fechar, mas me controlei. Eu precisava terminar isso.
— O único motivo de eu acreditar que mereço esse prêmio é porque quero que outras pessoas iguais a mim reconheçam que elas são perfeitas, do jeito que são. Escrever sobre isso me fez perceber que posso compartilhar minha história para outras pessoas, e quem sabe ajudar mais alguém.
"Nós nascemos sempre como um quadro em branco, e ao longo do tempo somos pintados. Eu deixei ditarem minhas cores e decidirem tudo por mim, e eu me cansei disso. Aprendi que rosa era de garota e azul era de garoto, mas a verdade era que eu podia ser um arco-íris completo se eu quisesse. E se tem alguém aqui que ainda não tem controle sobre a sua própria tela, eu quero que você tenha coragem para assumir todas as cores que existem em você... Porque eu sou o autor da minha própria pintura, e ninguém pode pintar essa tela além de mim."
Eu estava quase chorando. Porra, eu estava à beira de um choro enorme. Fechei os olhos com força e saí o mais rápido possível em meio aos aplausos, sequer agradeci. Minhas pernas queriam parar de funcionar enquanto eu descia o pequeno lance de escadas de volta à plateia.
Eu jurava que era capaz de ouvir meu coração bater dentro do meu cérebro. Ramón sorriu para mim com lágrimas nos olhos, e então me deu um abraço desengonçado quando me sentei de novo ao seu lado.
— Você é incrível, Charlie!
Recebi o seu abraço como um porto-seguro, no qual eu poderia descansar por alguns segundos antes de encarar a realidade novamente.
Eu morava em uma cidade pequena, que não possuía qualquer tipo de apoio a pessoas trans. Eu estava entrando em um terreno totalmente desconhecido em Esplendor e não fazia ideia da repercussão que isso daria.
Mas eu sabia que eu precisava fazer isso, e não importavam mais as consequências.
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