Capítulo 48

Faltava uma semana para a final do concurso e todos pareciam meio tensos. Eu, porque teria que me apresentar em público. Meus amigos, em solidariedade a mim.

João Vitor tentou montar um relatório completo de Níveis de Competitividade para descobrir as minhas reais probabilidades de vencer. Em outras palavras: ele stalkeou os outros finalistas para tentar extrair informações, como se estivesse em uma investigação do FBI.

Era o intervalo entre as aulas quando João chegou com o semblante derrotado na mesa onde eu estava com Jennifer, Marcos e Calebe. De todos no grupo, Marcos era o mais diferente: Era curioso pensar que um jogador do time de basquete, alto e forte, bonito, com um sorriso reluzente que se destacava por sua pele parda, com jaqueta colegial e uma lista de garotas que já ficaram com ele pudesse estar em nossa roda de amigos do vale. E eu o adorava tê-lo por perto, foi uma amizade improvável.

Calebe trouxe um pote de biscoitos recheados e o colocou na mesa para todos dividirem. Quando João se sentou, pegou três de uma vez e os enfiou na boca. O pátio estava bastante movimentado e quase todas as mesas foram ocupadas.

— Alguém aí tá irritado? — Jennifer falou antes de morder um biscoito. João queria responder, mas estava com a boca cheia e apenas jogou as mãos pelo ar e resmungou.

— Deve ser essa busca policial pelos concorrentes do Charlie. — Marcos deu de ombros. — Mas eu sei que ele vai ganhar. Se bem que o Ramón também é bom. Eu não faço ideia, que situação difícil. Quero ver os dois no pódio!

— O Ramón é o menor dos meus problemas hoje! — João conseguiu falar. — Já investiguei a vida de todo mundo e a maioria são concorrentes fracos, tirando a Kelly, de psicologia. Óbvio, é uma estudante de Psicologia! Ela provavelmente vai falar sobre pessoas com deficiência e as dificuldades de acessibilidade no trabalho, é o tema do trabalho de conclusão de curso dela.

Todos concordaram em silêncio. João continuou a falar sobre os outros concorrentes, até fez um apanhado geral das outras faculdades rivais.

— O único que eu não consegui pegar NENHUMA informação, nada, foi o Jason. Nem as pessoas que odeiam ele conseguiram me dar alguma pista sobre o que ele escreveu, e olha que eu achei muita gente que odeia ele. — João disse com os olhos arregalados. — Não tem nada na vida dele que tenha a ver com diversidade no mercado de trabalho e o pai dele trabalha para o prefeito, ele pode mexer os pauzinhos e ter qualquer emprego que quiser!

— Vai ver ele falou sobre uma coisa bem idiota, racismo reverso, sei lá. — Jennifer pegou mais um biscoito. — E aí colocaram ele na final porque o pai dele é importante.

João virou bruscamente para mim e me encarou com ferocidade. Até eu me assustei.

— Tu infelizmente conhece esse guri até demais. O que tem na vida dele que faria ele fazer um texto sobre diversidade?

— Talvez, porque... Ele seja bi?

Minha pergunta não foi respondida. Pelo contrário: meus amigos olharam para mim e começaram a rir. Até Calebe, que sabia pouco dos nossos assuntos, entendeu o quão bobo foi o que falei.

— A gente tá falando do Jason, Charlie! Eu sei que tem uns boatos e tal, mas tu não acredita mesmo nisso, né? É só os caras que têm inveja dele que espalham.

E então, como num maldito clichê americano, na mesma hora em que estávamos falando do garoto popular, ele apareceu. Jason acenou para mim e começou a caminhar em minha direção.

Nas poucas vezes em que nós dois interagimos, nunca foi perto de tanta gente como era no pátio. As pessoas olhavam demais, e estavam fazendo isso naquele momento. Afinal, era o aluno mais famoso da Engenharia se aproximando da mesa de um grupo de futuros publicitários.

— Eu não tô atrapalhando nenhum planejamento de revolta da classe LGBT de Esplendor não, né? — O Jason aflito do dia anterior que encontrei no banheiro não existia ali, e sim um Jason que gostava de provocar os outros com seu sorriso presunçoso.

— O que que tu quer, Jason? — Jennifer disse sem esconder nenhum traço da sua insatisfação.

Calebe alternava o olhar para cada um na mesa, ele era extremamente loiro e branco, parecia um boneco de porcelana – no bom sentido, apesar de eu desconfiar da sua saúde alimentar. João continuava boquiaberto para Jason.

— Eu só queria pegar o garoto prodígio de vocês emprestado, sei que o QI nessa mesa vai abaixar bastante quando ele sair, mas prometo que vou devolver. — Ele tirou as mãos do bolso da sua jaqueta e segurou em meus ombros, com um sorriso divertido para os meus colegas.

Agora João estava mais boquiaberto, mas pelo tanto que eu o conhecia, eu sabia que ele estava sentindo raiva pelo comentário. Aquela era a primeira vez que Jason tinha contato com os meus amigos e eu nunca pensei em como ele tratava as outras pessoas além de mim. Pelo visto, ele só era legal com um grupo seleto.

— Por que tu não vai tomar no meio do teu cu? — Jennifer ergueu a cabeça para Jason, que apenas riu, sua risada saiu um pouco melódica e grave.

— Calma, roxinha! Eu não gosto dessas coisas, não que eu saiba. Nossa, ficar perto de vocês até me deixa um pouco gay. — Ele disse com uma expressão de surpresa e pressionou o meu ombro com os dedos. — É sério, Charlie, preciso falar com você.

A minha vontade era de xingá-lo, o Jason que eu conhecia não era assim e meus amigos iriam me crucificar depois por acharem que era aquele tipo de garoto que era meu amigo.

— Beleza. — falei sem esconder a irritação e me levantei, o que causou um barulho na cadeira, que se arrastou pelo piso.

Nos afastamos um pouco das mesas e até o andar de Jason era diferente do meu. Eu notava o olhar das garotas quando ele passava e isso me deixou um pouco desconfortável.

Não adiantava; todas as histórias sobre ele não ofuscavam a presença que ele exercia perto da outros. Jason era, de longe, o garoto mais bonito dali. Havia uma tatuagem nova, dessa vez em seu pescoço, de uma fênix abaixo da orelha.

— Então, é o seguinte. — Ficamos em um ponto mais afastado dos outros, longe das lanchonetes. Ele cruzou os braços e falou em voz mais baixa. — Eu virei o Diretor de Redação daquela empresa júnior que eu entrei, a Beta Media.

— Como é que é? — Demorei para processar. Quase dei um passo para trás diante da sua frase, deveria ser brincadeira, mas seu rosto estava sério.

— Na boa, eu acho que isso foi só pra puxar meu saco. O último diretor saiu e aí ficou essa vaga em aberto, eu tô na final do concurso de redação, aí tem meu pai e tal, aí perguntaram se eu queria a vaga.

— E tu me chamou só pra falar isso? — Foi minha vez de cruzar os braços, infelizmente meu gesto não foi tão marcante quanto o do garoto.

— Na verdade, eu queria que tu entrasse na empresa! — Jason piscou e deu um sorriso. Às vezes eu até me esquecia de que ele era atraente. — Acho que tu merece uma vaga assim bem mais do que eu, e aí se tu entrar eu poderia aumentar sua função lá dentro com o tempo, até tu ficar como Diretor.

— Você quer que eu... Trabalhe com você? — Não pude esconder minha surpresa.

— Bah, tu só tem a ganhar fazendo isso.

— Eu não sei se tenho condição de entrar, mas eu acho que se eu decidir fazer isso quero entrar de forma justa, fazendo o processo seletivo igual todo mundo.

— Me poupe, Charlie! Tu mora no Brasil agora, esqueceu? Tem que mexer os pauzinhos pra conseguir as coisas.

— Igual o seu pai faz? Não, obrigado! Eu nem duvidaria de que você entrou na final do concurso trapaceando também!

Minha voz acabou aumentando um tom, e me controlei logo em seguida. Ela ficava mais fina quando eu me irritava e eu odiava isso.

O rosto de Jason se fechou. Ele não era tão alto – possuía quase a minha altura, mas havia uma aura intimidadora ao seu redor que compensava isso.

— Não fala daquilo que tu não sabe. — Sua voz saiu com raiva, seus olhos pareciam estar analisando a minha alma e um arrepio rápido percorreu minha nuca. — Tu não me conhece de verdade.

— É, tu tem razão. — Joguei os braços para baixo. Já estava cansado daquela conversa. — Eu não sei nada sobre você. Nem sei por que a gente ainda conversa, se você nunca abriu a droga dessa boca pra me contar alguma coisa.

A expressão de Jason foi de choque. Ele arregalou os olhos e soltou um riso seco e revoltado.

— Do que tu tá falando?! Isso não é verdade!

— Então me fala uma frase sincera sobre você! Uma frase!

Aquela deve ter sido a primeira vez que deixei Jason sem fala. Sua boca ficou aberta, surpreso, mas ele não me respondeu. Ergui uma das sobrancelhas, olhando-o com desafio.

— Você não é capaz de falar NADA sobre você pra mim?

— Eu... — Ele passou a ponta da língua pelos lábios para umedecê-los. Eu podia sentir seu desconforto, mas me mantive firme. Não era justo que ele soubesse tanta coisa sobre mim, enquanto eu ficava no escuro.

— Eu..?

— Eu, sou... — Ele fez um esforço enorme para falar duas palavras. Contudo, Jason desviou o olhar e virou o rosto para o lado para não me encarar. — Eu não sou obrigado a te contar nada.

Aquilo foi como um tapa. Respirei fundo para não perder a calma. Tentei soar tranquilo e indiferente, mas eu estava revoltado por dentro.

— Eu vou voltar pra minha mesa, e na próxima vez que for falar com os meus amigos, vê se cria um personagem melhor. Todo dia você faz um mais babaca que o outro.

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