Capítulo 41

Antes do cap, vamo bater um papo aqui rapidão:

Eu quis focar mais na transexualidade nesse livro, então resumi todas as outras coisas bads que poderiam fazer parte da vida do Charlie: crises de ansiedade, depressão, traumas e todas essas coisas, apesar de ter ficado óbvio que ele tem essas coisinhas k

O livro ia ficar extenso demais e sem tempo, irmão, Azul não é sobre isso. Deixei tudo pro livro 2.

Quando Feitos de Cinza e Estrelas começar (gente eu amei esse nome, quem reclamar vou dar block kkkkk brinks), vocês vão conhecer um outro lado da história, com mais problemas psicológicos, vícios e principalmente masculinidade tóxica. Inclusive vai ser narrado pela única pessoa que representa bem todas essas coisas rs duvido alguém acertar quem é.

Agora bora pro cap!

Com amor, Chriszin

Quando abri os olhos, meu corpo todo estava doendo, dos pés à cabeça. Fui enrolado na coberta e senti alguém deitado ao meu lado; era Sammy, que me encarava assustada.

— Charlie! — Sua voz soou muito alta pelo silêncio do cômodo e ela segurou meu rosto com as mãos. A janela do quarto descoberta pela cortina e a claridade da rua entrava fracamente dentro do quarto, mas eu não era capaz de enxergá-la nitidamente.

— Sam... Sam. — Me dei conta de que ela estava ali e cheguei mais perto, recebendo seu abraço. Escondi meu rosto no meio dos seus cachos e ela me apertou.

— Jão tá na sala, tu demorou pra acordar, eu fiquei com tanto medo, Charlie. — Ela afagou minhas costas e sua fala saiu dolorosa.

Meu coração estava em pedaços. Me senti egoísta por ter feito aquilo sem ter pensado nela.

Eu mal havia acordado e já estava chorando de novo.

— Me desculpa. — Apertei ainda mais os meus braços ao seu redor e Sammy beijou meu cabelo. Meu estômago estava doendo, minha garganta também.

— Não precisa falar nada. Tu quer alguma coisa? — Seu tom de voz era tão baixo e doce que eu me sentia falando com um anjo. — Podemos ir no hospital se quiser.

— Nao, por favor, não. — Entrei em desespero. Nada de hospital.

Afastei meu rosto dos seus cabelos e me aproximei de sua face, meu nariz se encostou com o tela. Ficamos daquela forma por segundos intermináveis, os seus dedos passearam por minha bochecha e a respiração de ambos estavam irregular.

— É porque iam classificar como... — Sammy não quis completar a pergunta e nem precisou. Minha mente se encarregou disso e meu corpo estremeceu.

— É.

— Eu queria ser melhor nisso, quando o Marcos me ligou e me pediu para vir eu não soube o que fazer, chamei o Jão e ainda bem que ele veio, senão eu não sei o que faria...

Sammy falava tudo aquilo com aflição. Aquilo era demais para ela, eu não deveria ter colocado aquele fardo.

— A gente pode falar sobre isso depois? — perguntei na tentativa de afastar os pensamentos ruins da minha cabeça.

— Claro, me desculpa. — Ela esfregou os olhos e beijou minha bochecha. — Tu quer dormir mais?

— Eu preciso vomitar. — falei de repente, senti minha barriga revirar, talvez fosse algum efeito dos remédios.

Sammy se levantou comigo e ficou afastada da porta do banheiro para me dar privacidade. Senti como se minha garganta estivesse se rasgando enquanto eu vomitava mais uma vez. Me senti fraco, queria dormir de novo.

Lavei a boca e escovei os dentes como pude, então Sammy me ajudou a voltar para o quarto. Não vi João de imediato, mas eu também estava com vergonha demais para vê-lo. Pelo visto, passei horas demais apagado e já era tarde. Eu sentia alguns calafrios e uma dor insuportável na testa, além de uma ânsia forte no estômago, mas eu não queria alarmar mais ninguém com isso.

Apesar da cama de solteiro, não reclamei por Sammy ficar colada em mim para dormir. Ela passou os braços ao redor de mim e deitamos com os rostos ao lado um do outro. Ela respirou profundamente e colocou a mão por cima do meu peito, deixando um carinho leve com os dedos na região.

Repousei minha mão por cima da dela e meu rosto ficou quente por novas lágrimas descerem, dessa vez mais silenciosas. Eu piorei a situação de forma absurda e não sabia como lidar com isso.

Mais um problema pra lista.

Passei algumas horas acordado dentro do quarto, só queria ficar perto de Sammy. Tive que contar tudo o que aconteceu, da festa na casa de Jason até Madison ter vindo aqui após saber o meu endereço.

Por um momento, ela não respondeu. Ficou parada, pensativa sobre tudo o que eu contei. Antes de responder, olhou atentamente nos meus olhos. 

— Tu devia te afastar desse guri, ele te faz mal. — Ela não disse aquilo com raiva, foi apenas um comentário feito de forma honesta. Contudo, eu fiquei triste.

— A culpa não é dele...

— Eu entendo que algumas coisas não são, mas a gente escolhe como vai reagir. Ele escolheu um jeito que não é legal, tu não precisa ser igual a ele e repetir os erros dele.

— Isso poderia acontecer de outro jeito, ele não fez nada tão grave assim.

— Não é o que ele faz, é o que ele é. Ele atrai problema e tu fica achando que devia ser igual a ele. Eu não quero namorar um cara igual ao Jason, quero namorar você. 

Balancei a cabeça e coloquei as mãos de Sammy no meu rosto. Estávamos deitados, um de frente para o outro.

— Você tá decepcionada comigo.

— Não tô não. — Sammy se inclinou e beijou minha boca rapidamente. — Só pensa antes de fazer as coisas, principalmente beber. Tu é um neném.

Senti meu rosto esquentar e Sam fez um biquinho engraçado. Ela se levantou para pegar uma garrafa de água e um pote de biscoitos, pois eu precisava comer alguma coisa. Ficamos deitados pelo resto do dia até anoitecer.

Acordei antes de Sammy. Eu nem poderia falar que o que tive foi uma noite de sono, pois acordei várias vezes por conta de uma série de pesadelos. Em quase todos, eu morria. No último sonho, João não estava presente e os remédios deram certo, e depois de ter acordado nessa parte o Sol já estava nascendo e desisti de voltar a dormir.

Me esforcei para não fazer barulho ao me ajeitar na cama e acordar Sam. Meu celular estava no chão e consegui esticar o braço para pegá-lo. 

Olhei para Sammy e a admirei dormindo profundamente. Seu semblante estava tranquilo. Eu estraguei a sua noite com minha loucura e agora ela prestaria muito mais atenção em mim – de um modo ruim. Eu não queria dar a impressão de que poderia surtar e tentar me matar a qualquer momento.

A expressão "me matar" era nauseante. Fiquei com vontade de vomitar de novo, mas me controlei. Eu não podia voltar atrás no que fiz, deveria planejar o que fazer em seguida.

Abri minha rede social e vi algumas fotos, mas não me concentrei em nenhuma. Estava totalmente perdido. Desliguei o celular e o coloquei embaixo do travesseiro; queria organizar os pensamentos. Cobri meu rosto com as mãos e respirei fundo, tentando me concentrar em alguma coisa que me fizesse ter um ponto de partida.

— Charlie? O que foi?

Uma Sammy sonolenta me encarou preocupada, seus olhos estavam entreabertos. Não notei que ela acordou.

— Não é nada, só perdi o sono.

— Mentira. — Ela continuou me encarando. Eu não queria ter aquela conversa às seis da manhã, mas seu olhar sobre mim me impedia de mentir.

Ela ergueu a coberta para me cobrir e ficar com o corpo colado ao dela.

— Eu... Estou pensando sobre o que fiz ontem. — falei apreensivo. Ela continuou a me encarar, esperando que eu continuasse. — Eu acho que tenho problemas demais... Você não é obrigada a lidar com isso. Então se estiver difícil... — Minha voz arranhou, tentei me recompor. — Você não precisa ficar comigo.

Falar aquilo foi doloroso demais. Sammy não esboçou reação, além de uma desviada do olhar do meu rosto para baixo. Parecia pensativa.

— Tu não me obrigou a ficar aqui, eu que escolhi. Se um dia eu for embora, vai ser escolha minha também.

"Espero que esse dia nunca chegue."

— Entendi.

Ficamos em silêncio. Passei minha mão por sua cintura, debaixo da coberta, e aproximamos nossos corpos. Ela esticou o pescoço para chegar até minha boca e me dar um selinho. Seus lábios eram quentes e me senti um pouco melhor.

— Ah. — Chamei sua atenção ao me lembrar de algo que estava pensando em algum momento durante a noite em que acordei. — Você acha que eu consigo ir a um psicólogo? Sei lá, pra melhorar.

Eu não tinha experiência com terapia, mas foi a única coisa que consegui pensar. Pessoas que faziam o que eu fiz iam ao psicólogo, então provavelmente eu deveria ir também.

— Hum... Não sei, geralmente as consultas são caras. É melhor tu procurar um gratuito.

— É... Tem razão.

— Tu quer falar alguma coisa?

— Acho que não.

— Certeza?

— Acho que sim. — Soltei uma risada fraca e Sam deu um sorriso sem revelar os dentes. Ela colocou a mão no meu rosto e acariciou a região. Seu toque me deixava confortável e me fez esquecer por um breve momento o que aconteceu na noite anterior. 

O fim de semana passou em câmera lenta. João dormiu de sábado para domingo na República e conversou por longas horas comigo, em particular, após Sammy ir embora. Ele parecia muito mais abalado do que os outros.

Meu amigo estava sentado no chão do quarto, enquanto eu fiquei na cama. Ele enrolava os dedos entre os cachos algumas vezes, em outras passava uma mão na outra.

— Tu tem que pensar muito antes de fazer alguma coisa, guri, muito, eu me importo demais contigo, pra mim tu é tipo um irmão, tchê.

— Eu tenho medo de te incomodar demais e acabar sendo um peso...

— Tu só incomoda quando fica com essas ideias! Ó, eu vou arrumar um psicólogo pra ti. Tu iria em um?

— Eu até tava pensando nisso, mas não tenho dinheiro.

— Vou perguntar pros' meus pais se eles sabem de algum de graça. Eu não tenho ideia das coisas que tu passa, mas sei que tu tem que lutar contra isso, sabe?

— É. — Abaixei a cabeça, envergonhado. João estava 100% com razão.

— E tem outra coisa! — Ele ergueu o dedo indicador. — Eu não quero saber de tu andando com o Jason.

— Oi?!

— Sério, Charlie, depois de tudo o que tu me contou sobre ele, acha que é uma boa pessoa? Só para e pensa. Enquanto tu tá nessa situação depois da confusão que rolou na casa dele, ele deve tá chapado e nem aí pra ti.

Para mim, isso não era verdade. Mas eu não tinha provas.

Meu peito estufou após respirar fundo. Não adiantava discutir sobre isso.

— Eu vou tomar uma decisão sobre ele, tá?

— Tudo bem. — A expressão dura João suavizou. — E tu vai pra aula amanhã?

Eu ainda não sabia ao certo. O correto seria ir, mas eu já imaginava que minha produtividade seria zero. Contudo, era melhor me distrair na faculdade e ficar rodeado por pessoas do que continuar aqui durante toda a manhã, remoendo aqueles sentimentos.

— Você pode dormir aqui hoje de novo?

Eu estava com medo de ficar sozinho no quarto mais uma vez. Meus pensamentos podiam me dominar e eu não queria surtar novamente.

— Claro, tchê. Aí a gente vai junto pra aula amanhã. A primeira aula é do William, né?

— É. — Eu nem sabia qual era o conteúdo pendente para estudar, mas mesmo se soubesse nem planejava encostar no caderno.

— E os finalistas do concurso de redação, vão anunciar quando?

— Não sei, na verdade. — Franzi as sobrancelhas e tateei minha mão por debaixo do travesseiro, em busca do celular. Me ajeitei para segurá-lo com as duas mãos e pesquisei o site da organização.

O concurso só era dividido em duas etapas: primeiro, anunciavam os finalistas. Depois, os ganhadores. João provavelmente queria me distrair com aquela pergunta para me fazer pensar em outra coisa, e eu estava totalmente alheio às datas. Procurei a aba de Cronograma e baixei o calendário.

— Hoje é que dia? — Olhei rapidamente para ele. Conferi a data no arquivo e senti uma leve ansiedade.

— Dia doze, por quê? Que dia vão anunciar?

Respirei fundo e deixei o celular em cima da cama de novo. João ergueu a cabeça para mim e me olhou confuso.

— Vai ser amanhã.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top