Capítulo 4
Quando você descobre um novo ponto de vista, o mundo parece soar diferente a partir de então. Eu me sentia entrando em um terreno que sabia não ter mais volta, e isso me assustava, mas eu não tinha outra opção a não ser continuar a caminhar.
Por isso, eu simplesmente não conseguia parar de pensar naquilo.
As coisas estavam um pouco estranhas em casa. Dois dias se passaram desde a estranha conversa com os meus pais — a qual resultou em nada — e minha mãe parecia mais próxima de mim, fisicamente falando. Ela queria saber o que eu via no celular, que música estava escutando, até o que eu estava pensando. Parte de mim teorizava que era a sua preocupação excessiva, pensando que eu estava amedrontado com a ideia de começar uma nova graduação em uma cidade estrangeira. Já a outra parte estava paranoica pensando que minha mãe, na verdade, desconfiava de que eu escondia alguma coisa.
E se ela estivesse assim, estaria totalmente certa.
O dia seguinte seria o da matrícula dos calouros – era a forma dos brasileiros de dizer que eu era um novato na faculdade – e eu queria chegar cedo para resolver isso logo e voltar para casa antes que alguma turma de veteranos surgisse com uma tour ou brincadeira. Eu também queria ficar o máximo de tempo possível sozinho, assim conseguia pôr os pensamentos em ordens e buscar formas de entender quem eu era de verdade. Por isso, às dez horas da noite eu já estava na cama, me preparando para dormir.
O dia inteiro havia se resumido em pesquisar na internet sobre pessoas trans. A palavra ainda soava estranha para mim. Por que eu precisava especificar que eram pessoas trans? Não eram, simplesmente, pessoas?
Esse foi apenas um dos vários questionamentos que tive ao longo do dia.
Como todo cuidado era pouco, criei um perfil sem foto e com um usuário aleatório apenas para seguir páginas sobre transexualidade. Meus pais possuíam redes sociais e eu não queria arriscar uma conversa que começaria com um “por que você está seguindo isso?”. Eu estava com medo de perceberem que eu menti e começarem a vasculhar minha vida para descobrir a verdade.
Meus olhos já estavam doendo de tanto ver postagens sobre transgêneros. Encontrei um perfil que mostrava relatos de apenas homens trans e senti um pouco de esperança.
“Então existem outros como eu?”
Depois de olhar várias imagens, só consegui concluir que não, não existiam outros como eu.
Enquanto eu deslizava o dedo pela tela do smartphone, o meu coração ia se apertando. Era uma sensação estranha.
As fotos eram todas parecidas: homens musculosos ou com regatas apertadas mostrando que haviam feito cirurgia de remoção de mamas ou usavam uma faixa para cobrir os seios. Quase todos possuíam uma barba, fosse ela espessa ou rala. De qualquer forma, ela estava ali, mostrando que fazia parte de um corpo transmasculino.
O meu corpo não era masculino, quem diria transmasculino.
O que era o meu corpo?
Apertei uma coxa contra a outra, incomodado. Eu sabia que o mais saudável era sair daquela página, mas eu não conseguia.
Nas legendas, mensagens de motivação falando sobre persistir, ter fé e paciência, pois o momento de hormonização iria chegar. Nos comentários, felicitações de outras pessoas falando que eles estavam lindos. Um perfil anônimo comentou em uma foto que o rapaz da postagem até parecia um menino, e alguém rebateu dizendo: "ele É um menino". Gostei daquela afirmação, apesar de todo o resto. Eu não entendia nada sobre masculinidade, eu simplesmente pensava que eu me sentia mais um garoto do que uma garota. Foi assim durante a vida toda, mesmo de forma inconsciente.
No meio de tantas fotos, encontrei um casal. Eram um homem trans com uma mulher cis — outro termo com o qual eu estava me acostumando a usar. Nos comentários, algumas pessoas diziam ser um casal lésbico e fiquei pensando sobre aquilo.
Eu sabia que eu gostava de garotas, e não precisava ter ficado com um garoto para perceber isso: eu gostava e ponto. Só me via com garotas, mas nunca cheguei a dizer em alto e bom som: "sou lésbica".
Porque, bom, para ser lésbica eu precisava me ver como uma mulher. Mesmo sem a consciência de ser um garoto trans, eu já sabia que não era uma garota.
Mas como eu conseguiria ficar com uma garota hétero se eu não tinha a aparência do seu gênero oposto?
Voltei a olhar a foto daquele casal. O jovem da foto, com certeza, tomava hormônios. Eu não sabia se um dia eu poderia fazer um tratamento hormonal, nem sabia se eu desejava isso por enquanto, mas não queria ter que esperar fazer algo do tipo para me relacionar com alguém.
Isso tudo seria mais difícil do que eu pensava.
O medo de ficar sozinho para sempre passou pela minha cabeça. Uma ideia ridícula e exagerada, mas eu não possuía uma esperança sequer. Nenhuma garota iria querer ficar comigo.
Até as chances de ter bons amigos que me respeitariam eram poucas.
Eu não havia considerado todas essas possibilidades quando pensei que eu poderia ser trans. Contudo, não era algo que eu pudesse escolher, de qualquer forma. Eu precisava encarar um fato novo da minha vida e aceitar que tudo seria diferente a partir de agora.
Me lembrei dos meus antigos colegas da época de escola e de quando eu comecei a "brincar" que eu era um garoto aos treze anos. Todos achavam engraçado e parecia algo normal, inocente, até minha mãe descobrir e eu ter me isolado de tal forma que não quis conversar com mais ninguém. À medida que os anos passaram dentro do colégio, fui me tornando cada vez mais invisível e o máximo de contato que estava fazendo com outras pessoas da minha idade agora era com uma garota que conheci na Internet.
Sam.
Há dois dias, começamos a conversar e ela era uma garota inteligente e divertida, foi fácil perceber isso logo no início. Conversamos sobre política, história e até filosofia. Ela era bastante interessada sobre minha vida em Erwin e eu era recíproco ao perguntar sobre a infância no Rio Grande do Sul. O susto foi grande quando eu soube que tínhamos a mesma idade, pois ela parecia ser bem mais velha, a julgar pelo nível do seu conhecimento.
Deixei de lado as postagens no meu perfil anônimo e abri minha conta. Havia exatamente três fotos publicadas por mim: a janela de casa durante o pôr do Sol, uma citação de Fernando Pessoa em um papel e metade das minhas pernas no sofá. Eu não mostrava o meu rosto por não me considerar bonito o bastante pra isso. Talvez esse também tenha sido o motivo para Sam acreditar que eu era um garoto, pois minha aparência poderia me entregar.
Outra coisa com a qual me preocupar.
Cliquei em nossa conversa e pensei em que mensagem mandar para ela. Estávamos conversando apenas há dois dias, então eu não podia ser muito invasivo e querer conversar sobre tudo. Não queria que ela me considerasse um psicopata. Ou uma pessoa carente. Ou falante demais.
Na dúvida, mandei apenas um "Oi".
Como eu já esperava, ela não respondeu na mesma hora, então desliguei a tela do celular e o deixei em cima de mim.
Fiquei encarando o teto do quarto escuro e pensando no que poderia conversar com Sammy. O apelido veio naturalmente e ela disse ter gostado do tom norte-americano dele, então o nome acabou pegando.
O ventilador fazia um barulho quase imperceptível enquanto girava. A janela estava aberta e as cortinas se mexiam levemente pelo vento provocado, ou talvez fosse por conta da brisa lá fora.
Permaneci alguns minutos nesse quase transe até o brilho do celular preencher um pouco a escuridão do quarto. Rapidamente desbloqueei a tela e encontrei uma mensagem dela.
— Oi! Desculpa a demora, eu tava finalizando um trabalho. Como tu tá?
Um fio de ansiedade boa surgiu e comecei a trocar mensagens com ela.
— Vou bem, obrigado! E não precisa se desculpar, mas não está tarde pra trabalhar?
— Faço alguns designs pra conseguir uma renda extra e comprar meus acessórios de fotografia.
Fiquei impressionado com Sam, mais uma vez. O que mais essa garota sabia fazer?
Ajeitei o meu travesseiro e segurei o celular com as duas mãos para digitar melhor.
— Você sabe fazer de tudo, uau! Poderia até cursar Design Gráfico.
— Bah, seria legal mesmo, mas vou fazer minha matrícula amanhã em Jornalismo. E você? Vai começar as aulas também?
Senti meu corpo congelar ao ler aquilo. Eu já deveria desconfiar.
Esplendor só possuía quatro faculdades e a maior delas era a Instituição Marie Curie. Não estava nos planos conhecer alguém na Internet que pudesse me encontrar pessoalmente e seria um grande azar estarmos na mesma universidade, então quanto menos ela soubesse sobre meus estudos, melhor.
Tentei desconversar.
— Ah, vou começar sim, mas não estou muito empolgado.
Sammy estava digitando.
— Nossa, sério? Vai estudar o quê?
Fiquei olhando aquela mensagem sem saber o que dizer. Não queria falar sobre qualquer coisa que envolvesse minha vida real.
Não sei se o que aconteceu em seguida foi um sinal divino ou pura sorte, mas Sammy enviou outra mensagem.
— Minha mãe acabou de me chamar aqui, vou precisar ficar off. Amanhã te mando mensagem então?
A sensação gélida em meu corpo se aliviou no mesmo instante. Eu teria algum tempo para pensar sobre aquela conversa e em como me esquivar do assunto.
— Tudo bem, depois a gente se fala.
— Ok! Boa noite, guri.
Pude respirar em paz.
A verdade é que, por mais que Sam fosse uma pessoa legal, seu conceito sobre mim poderia mudar ao me ver pessoalmente. Ela me via como um garoto e eu não queria perder isso, já era difícil demais ter todos me tratando como alguém que eu não era.
Coloquei o celular na cômoda e tentei tirar aquele assunto da cabeça. Sammy era só uma garota da Internet.
Assim que me cobri, ouvi duas batidas na porta e minha mãe apareceu.
— Quer sair que horas amanhã para a matrícula?
— Não precisa ir comigo, o campus é perto.
— Claro que vou com você, eu nunca perderia isso! E vamos fazer umas compras depois, tudo bem?
— Tudo bem... — Meu coração se apertou. Os dias de compras com minha mãe eram sempre os piores, mas se eu discordasse naquele momento ouviria um discurso sobre não valorizar nossos momentos em família.
— Boa noite, Charlie. Fique com Deus.
Minha mãe fechou a porta e apertei a coberta em meu corpo. Meu estômago revirou com o pensamento de sair com ela amanhã.
Fazer compras com Madison era como abdicar de todo o seu gosto e opinião pessoal para sucumbir ao que ela estava disposta a comprar. Não importava se eu nunca usasse aquela peça de roupa ou acessório, se ela achava bonito naquele momento iria comprar para mim e dizer o quanto eu estava "linda".
Fechei os olhos para tentar dormir, mesmo com a cabeça agitada. Era até doloroso, como se aqueles pensamentos preenchessem todo o meu corpo e o corroessem.
Eu só queria ter um dia normal e ser eu mesmo, mas a cada minuto eu sentia que essa meta ficava mais inalcançável.
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