Capítulo 37
Eu e João estávamos na farmácia que ficava na esquina da Marie Curie. Ele me pediu para acompanhá-lo pois precisava comprar alguns remédios para sua mãe. Fiquei andando pelos setores, olhando os produtos distraído, enquanto ele aguardava na fila. Eu ainda tinha duas horas livres antes de entrar no meu turno na Comffy.
Quando faltava apenas uma pessoa para ser atendida na sua frente, ele fez sinal para eu me aproximar.
- Aí, tu tá precisando de alguma coisa?
- Tô tranquilo, obrigado.
- É sério, nenhum remédio, curativo, essas coisas?
- Eu não estou com dinheiro pra comprar isso ainda, quando eu receber meu primeiro salário eu compro.
- E quem tá falando de tu comprar? Eu que tô te oferecendo, guri, num faz desfeita não.
Minha risada saiu baixa e incrédula. João se preocupava demais comigo.
- Pode ser qualquer remédio pra dor, às vezes fico com dor de cabeça.
- Vê se põe um óculos no futuro, hein. - Ele me repreendeu e foi chamado para ser atendido.
Sempre que eu entrava em uma farmácia, me imaginava comprando minha primeira dose de testosterona. Era preciso receita para adquirir, e para isso eu deveria ter um acompanhamento médico. Infelizmente, eu ainda não tinha dinheiro para isso - e nem sabia se meu psicológico estava pronto para receber uma dose de hormônios. O mais recomendado seria começar a ir ao psicólogo primeiro.
Havia um espelho na parede de produtos de maquiagem e fiquei me encarando por alguns segundos ali, virando o rosto levemente para observá-lo com detalhes. Eu imaginava se meu maxilar ficaria mais quadrado, se minhas feições mudariam demais. Eu era curioso quanto a isso. Será que eu tinha uma genética boa para ter um cavanhaque? Eu ficaria bem gato se tivesse um. Ou não, né, pois eu tinha um rosto de bebê. Era difícil imaginar, e dos relatos que ouvi de vários homens trans, o resultado da testosterona sempre era diferente do que eles pensavam.
Decidi montar uma lista de metas sobre minha transição assim que eu chegasse em casa. Dessa vez, eu não teria ninguém para rasgar o que eu fosse escrever.
Passamos pelo caixa, João me entregou uma pequena sacola com o que pedi e ainda comprou um pacote de chicletes para dividirmos. Agradeci pelas coisas e caminhamos pela calçada, rumo ao ponto de ônibus.
- Tu vai trabalhar daqui a pouco né? Tá gostando?
- Só trabalhei um dia até agora, e lá é bem legal, mas tô com medo de dar tudo errado.
- Vai nada! Só confia. Aí, quer parar na pracinha?
- Fazer o quê?
- Só dar umas banda mesmo, tenho nada pra fazer em casa. A gente pode comprar um lanche, tu tem que comer alguma coisa antes de ir.
João Vitor olhou no site da cidade a linha de ônibus que passava pela praça central, um lugar não muito longe dali, mas que não dava para ir caminhando ou chegaríamos cansados demais. Em poucos minutos, pegamos o ônibus rumo ao lugar.
Esplendor era uma cidade bonita, com uma mistura de interior com cidade grande. Ela possuía muitas árvores, mas muitas construções também. As ruas não eram tão movimentadas, a presença de carros não era grande, mas as lojas, praças e calçadas eram lotadas de pessoas.
Alguns minutos se passaram até que João deu sinal e descemos do ônibus.
Apesar do Sol, ainda fazia frio, mas felizmente os dois estavam de casaco. Havia uma barraca de salgados e cada um pediu um salgado assado com uma lata de refrigerante. Procuramos um banco para sentar e havia um vazio perto da pista de skate.
- Eu tenho zero paciência pra aprender algum esporte, tu acredita? - João comentou com a boca cheia quando vimos um garoto fazer uma manobra na pista.
- Eu acredito! Também sou assim. - respondi com uma risada e tomei um gole do refri.
- Te vi meio distraído lá na farmácia, tava pensando em alguma coisa?
- Ah... - Perdi as palavras. Eu não tinha o hábito de conversar sobre minha transgeneridade com outra pessoa além de Sammy. Contudo, João Vitor parecia ser uma pessoa que poderia me entender. - É que... Eu queria tomar hormônios.
- É difícil de conseguir?
- Mais ou menos, a parte de não ter dinheiro atrapalha um pouco.
- Aí, teus pais pagam tua faculdade ou tu tem bolsa?
Virei o rosto rapidamente para João e, pela primeira vez após sair de casa, pensei sobre isso. Eu não havia considerado a minha faculdade ao decretar independência à minha mãe.
Meu pai quem custeava a faculdade, o que não era ruim para ele, pois o real era desvalorizado. Esse foi o acordo entre ele e minha mãe, como uma espécie de pensão. Mas agora, eu corria o risco de que Madison contasse que eu saí de casa e me transformar no vilão da situação, e eu poderia perder minha faculdade.
Comecei a suar frio.
- Caramba, João, o meu pai quem paga, se ele descobrir... Que droga.
- Ei, ei, ei, Charlie, perai', tu esqueceu por que tu saiu de casa?! - João segurou o meu ombro. - Óbvio que ele vai te entender!
- Não sei... - Abaixei a cabeça, minha mente estava aérea. Eu não queria pensar naquilo.
- Vamo' ouvir música, toma. - João retirou os fones de ouvido do bolso e me entregou um lado. Em seguida, abriu o seu player no celular e uma música começou a tocar.
- Não conheço essa.
- Como assim, não conhece? É Friends, do Marshmello com a Anne-Marie.
Ouvi a música por alguns segundos e fiquei curioso. Eu sabia que Marshmello era um DJ, mas não conhecia a cantora.
- É uma música sobre ficar na friendzone? Que triste.
- Tu é bonito demais pra sofrer isso, né, eu sei.
- Nada disso! - Cobri a boca para minha risada não sair tão escandalosa.
- Coitadinho do Charlie, todos querem ficar com ele, ele nuuunca vai ficar na friendzone.
- Deixa de ser idiota! - O empurrei com meu cotovelo, não conseguia parar de rir. João fingiu ter se machucado e fez uma careta.
- Seu grosso, tô te elogiando! Vou pular essa música, já ouvi ela demais, tenho que te mostrar mais hinos de música eletrônica. - Ele deslizou o dedo pela playlist. - O nome do Marshmello é Chris, sabia? Igual o teu Chris da história, só que ele é Christopher. - João Vitor falou o nome de forma exagerada para ressaltar o estrangeirismo.
- Que coisa, né? Todo mundo conhece ele como Marshmello. - falei distraído e balancei minhas pernas no banco ao som da música, mas João estava com o pensamento bem mais avançado do que eu.
- Charlie, tu gosta do teu nome?
Novamente, aquele assunto. Eu me senti despreparado quando Ramón me perguntou aquilo, e agora com João me perguntando eu estava tão preparado quanto na vez de Ramón.
- Eu não sei se gosto ou não. Eu não queria que fosse tão neutro, porque aí as pessoas tiram a conclusão pela minha aparência.
- Isso é bem chato, mesmo. - A fala de João saiu mais baixa e lenta, como se ele estivesse refletindo sobre isso. - Mas se tu tivesse que escolher um nome, qual seria?
Agora estava tocando Martin Garrix, esse eu conhecia bem, gostava de ouvi-lo algumas vezes.
- Sinceramente não sei, eu usei o nome Christian na história como um trocadilho porque minha mãe é cristã.
- Sendo que esse é um nome que ficou famoso por causa de 50 Tons de Cinza, uhum.
- Meu Deus, João! - Meus olhos se arregalaram para ele, e meu amigo ergueu as mãos para cima de forma escandalosa.
- Eu vi o filme, meu amor! E li to-dos-os-li-vros! Pode me julgar!
- Você é terrível. - Coloquei a mão nos olhos e balancei a cabeça. - Põe mais uma do Marshmello? Quero ouvir o irmão gêmeo do meu personagem.
João mexeu no celular novamente e trocou de música. No fone, começou a tocar uma música que também não conhecia. Ele viu meu rosto curioso.
- Ah, essa é Spotlight, do Marshmello com o Lil Peep antes dele, sabe, morrer.
Spotlight. Era a tatuagem do Jason.
"Não me importo se acredita em mim,
Ainda me pergunto porque está me deixando,
Eu não me importo se você acredita em mim,
Ainda me pergunto por que me provoca."
João começou a cantarolar em voz baixa, com um inglês perfeito igual ao da música. Fiquei em silêncio, pensativo.
"E se eu estou levando isso do jeito errado
Espero que saiba que pode me dizer tudo o que está pensando
É quando você me coloca no centro das atenções,
Espero que saiba que estou desaparecendo com todo esse álcool que estou bebendo."
- João? - Retirei o fone da sua orelha para fazê-lo prestar atenção em mim.
- Bah, que que foi?
- Essa música tem uma letra meio pesada, não?
- Mas tchê, todas as músicas desse cara têm uma letra pesada. - João pegou os fones para guardá-los, pois minha hora de ir trabalhar estava chegando. - O Chris ficou famoso depois de terem zoado ele até o fim do mundo, aí ele se trancou em casa, cortou contato com todo mundo, ficou numa frase depressiva foda e começou a fazer essas músicas. Tu esperava o quê? Cada um lida como pode.
João Vitor parecia ser aqueles fãs que sabiam tudo sobre a vida do artista. Ergui as sobrancelhas, impressionado com a pequena história.
- A gente vê esse povo famoso aí, rico, e acha que eles são perfeitos. Ai ai, tadinho do meu neném.
Meu amigo sempre conseguia transformar um assunto sério em algo engraçado com um comentário.
- Ele é seu artista favorito então, né?
- O quê?! Claro que não, ninguém vai tomar o lugar do meu Harry Styles! Só sou curioso com fofocas de famosos!
João se sentiu ofendido com minha pergunta boba e vimos um ônibus passando pela praça, então tivemos que correr para alcançá-lo.
Graças a Deus eu não estava de binder, mesmo ainda desconfortável com os intrusos. Aquilo nunca ficava fácil, principalmente sabendo que em breve eu ficaria no caixa e atenderia várias pessoas que iriam me tratar no feminino durante o dia.
"É, cortar contato com todo mundo e me trancar em casa não seria uma má ideia."
- Ah, João? - chamei sua atenção assim que viramos a catraca após pagar as passagens.
- O que foi?
- Eu não respondi sua pergunta... Acho que eu me chamaria Chris. Só acho.
Meu amigo abriu um sorriso engraçado e apertou minhas bochechas.
- Tu me causa diabetes, mini-marshmallow! Por isso a Sammy gosta de ti.
Minhas bochechas esquentaram e dei um sorriso.
Não era tão ruim ser um cara fofo, né?

Esse cap não tava previsto, mas já recebi várias perguntas sobre por que eu me chamo Chris aí resolvi contar :)
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