Capítulo 32

Chega de atualizar por hoje né? Já postei uns 6 caps kkkk

Eu estava praticamente dormindo na mesa da biblioteca.

Dormir por um dia na casa de João foi tranquilo. Os seus pais eram donos de um foodtruck de lanches e eram bastante simpáticos, me receberam de braços abertos e falaram que eu podia ficar pelo tempo que quisesse. Meu amigo também era pai-pet de um Lulu da Pomerânia que parecia um ursinho de pelúcia.

Mas após três dias dormindo no chão com um colchonete e latidos estridentes quase todas as noites porque aquele ursinho tinha o pavio curto e surtava com qualquer barulho, eu estava fisicamente esgotado.

Marcos me chamou para levar minhas coisas ao apartamento, o qual chamavam de República. Contudo, eu estava fazendo alguns trabalhos online para juntar pelo menos o suficiente para o primeiro mês de aluguel. Ser nativo no inglês e também saber português me ajudou a conseguir alguns serviços de tradução, mas o processo também me consumia tempo e energia, então eu estava esgotado mentalmente também.

Eu mal conseguia me encontrar com Sammy igual antes, e meu coração também estava doendo de saudade. Tudo estava terrível.

Era difícil entender o que Philip Kothler escreveu sobre os princípios do marketing 2.0. O livro gigante à minha frente estava quase se tornando um travesseiro. 

Um estalo de dedos me fez abrir os olhos de susto e demorei para entender que era Jason quem estava na minha frente.

Na verdade, eu estava vendo dois Jason's. Meu cérebro ia pifar a qualquer momento. 

Esfreguei os olhos e o vi se sentar ao meu lado na mesa redonda. Eu gostava de ficar dentro das salas de estudo privadas, pois eram mais silenciosas – secretamente eu também gostava de dormir nelas. Fiquei surpreso ao encontrar o garoto ali.

— Charlie? Tu tá bem?

— O que você acha? — Resmunguei e passei a mão no rosto como forma de afastar o sono. Desisti de estudar e fechei o livro de marketing.

— Eu soube do que aconteceu. Quer falar sobre isso?

Jason estava sentado ao meu lado, dessa vez com um casaco preto dos Beatles. Ele não estava de óculos escuro, mas eu podia notar uma leve vermelhidão abaixo de um dos olhos.

— Por que você é assim? Eu tentei conversar antes e tu não quis. Mas aí quando algo acontece comigo, tu vem atrás de mim.

Jason apoiou os braços cruzados na mesa e mexeu no cabelo preto. Ele não olhava diretamente para mim.

— Só fiquei preocupado.

— Ficar preocupado e depois parar de falar comigo não é uma coisa muito normal de se fazer. E o que você sabe que aconteceu?

Eu duvidava muito de que Jason soubesse da história toda. Madison nunca falaria sobre isso com o senhor Max.

— Ouvi tua mãe falar que tu e o teu padrasto brigaram e aí cê' saiu de casa com raiva. Ela só não disse o motivo, falou umas merdas tipo má influência e tal, e... Charlie?

Eu havia coberto o meu rosto com as mãos no meio da sua fala. Meu corpo estava apoiado na mesa, e o absurdo de saber que minha mãe mentiu sobre mim piorou as coisas. Depois de tudo o que eu contei para ela, esperando que iria me defender, ela quis esconder o que houve e agir como se eu tivesse agido com um ataque de raiva.

Apertei as mãos no rosto e comecei a soluçar, sem me importar com mais nada. Eu estava exausto, não havia nem mais o que tirar de mim. 

— Charlie?!

Senti as mãos de Jason em meus braços, tentando me fazer revelar o rosto, mas endureci. Só queria ficar ali, parado, sem ter que dizer nada a ninguém, dar explicações, apenas deixar sair tudo aquilo que estava me consumindo.

Ouvi quando Jason fechou a porta da sala de estudos, abaixou as persianas da janela e voltou a ficar do meu lado.

— Charlie?

— Eu não aguento mais. — Consegui falar com a pior voz do mundo, mas nem isso mais era importante. Eu não ligava se Jason estava ali, se me achava um idiota sensível, eu já estava cansado de tudo.

Eu precisava de um dia de paz, pelo menos um.

Inesperadamente, senti o corpo do garoto me abraçando. O seu desconforto era óbvio e imaginei que ele estava detestando fazer aquilo, seus gestos eram duros como se ele fosse um pedaço de madeira, mas conseguiu passar o braço ao redor do meu ombro e me dar um aperto leve, como uma forma de apoio. Seu outro braço se apoiou nos meus, pois eu estava tremendo e isso se refletia neles.

Eu conseguia sentir a respiração tensa de Jason e o seu coração estava tão arritmado quanto o meu.

— Eu sinto muito.

— Ele não tinha esse direito! — falei no meio dos soluços, a respiração descontrolada. — Ele não tinha!

Era a primeira vez que eu estava tendo uma crise, no pior lugar para se ter uma e na companhia da pessoa mais inexperiente para isso, mas eu não conseguia mais me controlar. 

— Charlie, calma. — Jason conseguiu me desgrudar da mesa e passar os dois braços ao redor de mim, em uma posição que me segurava enquanto eu tremia. — Tá tudo bem.

— Não tá. — Eu queria rebater, dizer que ele não podia me entender, mas era difícil falar até o mínimo de palavras. — Não tá.

— Eu sinto muito, guri, eu sinto muito. 

Segurei em seu moletom e apertei o tecido com força, precisava fingir ter alguma coisa com o que me segurar.

A pior parte, com tudo o que Paul fez, foi imaginar que ele se sentiu no poder de fazer aquilo comigo. Tive nojo de mim mesmo por pensar que meu corpo tinha esse acesso, que ele poderia ter feito algo pior e eu não teria sido capaz de me defender.

Eu queria arrancar minha própria pele só para deixar de me lembrar do toque dele em mim.

— Charlie, eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo, me desculpa por isso acontecer. Eu não queria que a gente fosse assim, isso não tá certo, eu sinto muito. — Ele me apertou com toda a força possível, como se estivesse sentindo a minha dor. — Me desculpa por você passar por isso, guri. 

Jason não era idiota, sabia o que havia acontecido, eu não precisei dizer nada. E ele sabia, também, porque aquilo havia acontecido: porque os homens aprendiam que fazer isso era comum. Que tinham direito de abusar de pessoas com o corpo igual ao meu.

Ele estava me pedindo desculpas por ser parte disso, porque ele era um homem. E ser homem, para muitos, era ter direito de fazer aquilo.

Eu não havia percebido como Jason tinha o corpo maior que o meu quando ele me emprestou o seu casaco. Um pedaço de tecido sobrava em cada manga e eu tive que subi-las para conseguir pegar o copo de chocolate-quente que ele comprou.

Meu rosto estava melhor após lavá-lo, depois do garoto ter me convencido a usar a pia do banheiro masculino.

— Cê' tá melhor? — Jason ficou na minha frente e apoiou os braços na mesa de concreto da área da lanchonete em frente à biblioteca. Eu ainda tremia um pouco, por isso estava com o seu casaco.

— Um pouco. Obrigado. — falei sem esboçar um sorriso apenas porque estava cansado demais para isso. Dei um gole longo na bebida e senti meu corpo se esquentar, o que causou uma sensação boa.

Jason deu um sorriso quase imperceptível e estalou os próprios dedos. O que havia acontecido na sala de estudos não era algo que eu queria que ele presenciasse.

— Olha, você pode fingir que nada daquilo aconteceu, eu vou ficar bem. — falei rápido, um pouco envergonhado. Jason ergueu o olhar para mim. Seus olhos eram tão pretos que eu não conseguia diferenciar a íris da pupila.

— Não é com isso que eu tô preocupado. Ele fez alguma coisa com você?

Meu estômago se embrulhou e deixei o copo de lado.

— Não.

— Tem certeza disso?

— Não, ele não fez, a minha mãe chegou... — Senti os olhos lacrimejarem e respirei fundo para conter o choro. Tentei desviar o foco do assunto. — Ainda não entendo por que você se preocupa comigo.

Jason olhou para os lados, desconfiado, talvez para se certificar de que ninguém estava olhando. O movimento estava fraco naquela hora. Ele começou a mexer na sua corrente de prata que possuía um crucifixo na ponta.

— Eu não quero que tu passe pelo mesmo que eu. Meu pai é um demônio.

— O que ele fez com você?

Eu não sabia se estava indo longe demais em querer detalhes, mas Jason parecia ter abaixado o escudo naquele momento. Ele estava mais vulnerável. Após ponderar, afastou a manga da sua blusa preta e revelou um roxo na região perto da clavícula. Antes que eu comentasse algo, ele soltou o tecido daquela região e subiu a manga do outro braço, revelando outro roxo no ombro.

Jason desviava o olhar toda vez que revelava uma marca. Ele também se sentia envergonhado, mesmo não sendo sua culpa. Eu sabia como ele se sentia. 

— Sinto muito... — Me esforcei para minha garganta não se fechar de angústia.

— Tem essa droga no olho também. Falei pra galera que fumei uns becks e tal, que tava muito chapado.

Jason arrumou a blusa e voltou a me olhar diretamente.

— E por que seu pai fez isso?

Era o meu maior questionamento. Tirando a parte da maconha ser ilegal e ele fumar tanto, não havia nada em Jason para o seu pai tratá-lo daquela forma.

O garoto vacilou – e isso era algo que nunca imaginei que aconteceria. Ele abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu. Seu olhar se voltou para as mãos e, quando pensei que ele fosse dizer algo, ouvi o meu nome.

— Charlie!!! — Sammy estava acenando para mim, eufórica. Estávamos há tantos dias sem nos vermos que meu peito parecia ter uma bateria dentro dele. Ela correu aos pulinhos por entre as mesas e me levantei, dando um selinho nela assim que nos abraçamos.

— Faz tanto tempo, nossa! — Apertei sua cintura e disse com animação, o sorriso da garota estava radiante. — Ah, Sam, esse é o Jason. — Me afastei alguns centímetros do seu corpo e apresentei os dois. — Essa é a Sammy, minha namorada.

— Sua namorada? — Jason ergueu as sobrancelhas e deu um sorriso. Foi quando me dei conta de que ele não tinha o menor conhecimento de que eu namorava. — Prazer, linda.

Ele se levantou e cumprimentou a garota, que correspondeu.

— Lógico que eu te conheço, né, tu é o filho do seu Max!

— É, pois é. — O sorriso de Jason diminuiu. Devia ser insuportavel ser lembrado como o "filho do Max". — Então, eu vou ter que ir, tenho umas parada' pra fazer agora.

— Espera, o seu casaco! — Me lembrei de que estava vestindo o moletom dos Beatles e abri o zíper do meio para retirá-lo e entregar a Jason. Ele olhou de forma estranha para mim, mas pegou a peça de roupa de volta. — E valeu por ter emprestado.

— Que nada... — Ele sorriu novamente. — Aí, prazer, viu?

Jason fez um "hang loose" antes de ir e Sammy acenou para ele. Em seguida, olhou para mim um tanto desconfiada.

— Tu percebeu isso não?

— O quê? — Fiquei confuso com seu olhar acusatório.

— Tu conversando com aquele garoto aqui, ele emprestando o casaco... Tu é sonso ou se faz?

— Ué, mas... O que que tem? A gente é meio que amigo. Eu acho, sei lá, às vezes nós conversamos bastante.

Sammy parecia desacreditada no que estava ouvindo.

— Charlie, tu é tão inocente que eu acho até fofo. — Ela deu um tapinha leve no meu rosto, como se eu fosse um animalzinho. — Esse Jason é a fim de ti, em cinco segundos falando com ele já ficou óbvio. 

Soltei um "ah" que quase não saiu da garganta. Isso não poderia ser verdade. Nunca, em hipótese alguma.

— Ele é hétero, Sammy, pelo amor de Deus.

Sam deu uma risada tão alta que a mulher atendendo na lanchonete olhou para ela.

O que estava acontecendo que eu não sabia?! 

See u soon

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