° Capítulo 14 °
Não tardaria para ele abrir um trincheira no chão, passos firmes e apressados ecoaram no templo. Tarden aparentava tão ansioso quanto ela.
Seria um momento oportuno para repassar todo seu sermão sobre o quanto estava certas, as consequências do romance estavam ali, inegáveis. Entretanto, Bastet também ressentia e joga toda essa carga nele não seria justo.
— Se você não parar vou amarrá-lo nessa cadeira — ela advertiu, a felina tocou no ombro do garoto.
Mesmo contrariado ele parou comprimindo a mão, suas íris faiscaram por um determinado momento. Que Sekhmet retornasse logo, ele não aguardaria por muito tempo.
— Ela deve estar com medo? — ele inquiriu num sussurro.
— Malu sabe se virar — disse, querendo acreditar nas suas próprias palavras.
— Com sangue de deuses — Sekhmet interviu. —, ela saberá se defender.
Os dois assentiram, aguardando mais informações da deusa, que se aproximou de ambos.
— Há séculos não me divirto tanto assim —Sekhmet riu baixinho, mostrando os lábios perfeitos.
— Isso não é uma brincadeira, tia — Tarden disse incomodado, mas Bastet já estava acostumada com o humor peculiar da irmã.
— Sentimentalismo é seu ponto fraco garoto — ela retrucou, pegando a taça.
Apesar da orientação que foi dada, Bastet seguiu a mais velha até sua casa. Rá precisava de alguns papiros antigos de volta, a felina havia pegado eles anteriormente com o intuito de pesquisas, na sua visão não tinha muito que reiterar naquelas escrituras, ervas, formas de evitar alguns inimigos, nada que ela já não tivesse conhecimento.
Pequenos grãos rodopiaram quando sua casa se materializou diante de si. Cores entre branco e amarelo claro recobriam as paredes, simples e sem muitas considerações.
Tarden impaciente foi o primeiro a entrar, cruzando os braços na espera das duas. Aguardar estava sendo uma tortura interna para ele, observou a felina. Sekhmet ficara lá fora por alguns segundos, mas adentrou encontrando um garoto emburrado e sua irmã junto à lareira.
— Você pode ir pegar os papiros, Tarden — Sekhmet ordenou, sem olhá-lo. — Sabe quais são.
Sua voz não carregava nada além de uma ordem seca, o que por sua vez fez Bastet erguer o rosto em sua direção. Sekhmet não costumava ser assim.
— Algo errado? — Bastet questinou, quando Tarden entrou no escritório.
Sekhmet negou se aproximando, um sorriso triste se fez em seu lábios, a deusa entalaçou suas mãos num gesto inesperado de carinho que levou a felina a arquear as sobrancelhas. O que foi aquilo afinal? Sekhmet não seria o melhor exemplo de carinho e muito menos saia distribuindo sem motivos.
— Recorda-se quando nós éramos novatas nesse mundo mortal? — ela inquiriu. — Creio que foi momentos bons, ouso dizer que éramos quase felizes, sempre brincando em templos, correndo sobre o deserto. Seu lado protetor estava em constante alerta, quando eu ensinei Hathor a lutar e por um acidente acertei ela forte demais, eu não mensurava minha força naquela época, você lembra?
Ela estava desacordada, o medo me consumiu neste dia, porém você me tranquilizou, queria até levar toda culpa.
É claro que ela lembrava, foi a única e última vez que viu Sekhmet chorar. Os pequenos bracinhos de sua irmã tremiam com os soluços, enquanto via Hathor desmaiada na areia. Bastet podia relembrar minimamente quando tentava acordar Hathor e fazer Sekhmet se acalmar. Entretanto, a deusa voltar com esse assunto de séculos estava sendo incomum.
— Você ficou com medo de Rá saber — Bastet disse, fitando seus olhos.
— Ele me amedrontava naquela época — ambas riram, Sekhmet não era uma deusa de nutrir medo.
— Realmente, bons tempos — Bastet aquiesceu.
Sekhmet parecia querer dizer algo mais, os lábios comprimidos ao mesmo em que suas mãos segurava a de Bastet.
— Lembra-se da filha do artesão? — indagou sussurrando.
Assim que ouviu Bastet tentou se afastar, mas as mãos dela a impediu, assustada ela olhou para irmã. Sekhmet sabia que ela evitava falar sobre isso, como uma recordação que devia ser ignorada ao ponto de não existir. Toda dor e medo.
— Sekhmet...
— Não foi sua culpa, nem você sabia — disse cautelosa, o que estava insinuando? — A vida dela foi sugada, na nossa frente quando ela tocou em você. Suponho que foi o seu medo que desencadeou tudo.
— Chega! — Bastet retrucou assombrada novamente.
Tentou de desvencilhar mas o suas mãos continuavam unidas, como uma força maior impedisse que se afastasse. Seu coração pulsou com maior frequência, a vivência de medo voltou preenchê-la, fora um dos piores momentos que presenciou. Tudo foi tão rápido, um momento brincavam em outro o medo de Rá descobrir fez algo se abrir nela, como um poço que sugava tudo em pela frente, Adala tentava acalmá-la e logo o que viu foi seu corpo magro caído no chão quando ela tocou na sua mão.
O grito da garota perseguia ela até então.
— Você me protegeu, farei sempre o mesmo, irmã — Sekhmet disse, pressionando seus dedos. — Thkanjd.
O vento adentrou a casa levantando as persianas e papéis sobre a banca, silabando palavras do tempos em que mortais eram recém chegados no mundo. Sua mão soltou a de Sekhmet fazendo ela cambelar para trás, ardendo no local onde antes recobria.
A felina olhou para sua mão esquerda revelando tracos circuncidantes unidos dentro do círculo. Recém feitos estavam vermelhos e pulsando de dor. Em sua vasta memória não lembrava de ver algo assim.
Voltou os olhos claros para Sekhmet, que a fitava melancólica, mas, não ousava se aproximar. Ainda era incoerente tudo isso.
— O que você fez? — Bastet inquiriu irritada.
— Estou protegendo você.
Antes que Bastet pudesse tirar uma resposta mais concreta dela, Tarden adentrou com o os papiros sobre o braço. Ele a olhou assustada vendo-a respirar ofegante, o garoto deu um passo em sua direção, mas uma mão impediu seu trajeto.
— Não se aproxime — Sekhmet ordenou. — Vá abrir o portal e não cogite me desobedecer.
A indecisão cobria os olhos de Tarden, entreolhando as duas ele ponderou por milésimos para no fim sair pela portal sussurrando desculpas para ela.
Isso proporcionou que a raiva se apossar-se dela, nunca havia sentido tanto desejo de brigar com Sekhmet. Fazê-la engolir cada palavra de Adala, cada lembrança que ousou trazer à tona. A felina avançou sobre a irmã, suas garras não cresceram como esperado, nem sua força emergiu, o que deu tempo para Sekhmet caminhar tranquilamente para fora.
— Onde acha que vai! — Bastet exclamou furiosa.
Uma dor aguda, como ossos retorcidas a impulsionou para longe quando tentou sair pela porta, uma espécie de força bloqueava a porta. Assombrada com a dor ela se aproximou novamente, porém se tentar passar pela porta. Do lado de fora Sekhmet olhava preocupada, mas não se mexeu um milímetro.
— Sei que você não irá me perdoar, Bastet — ela disse, de onde estava. — Dionísio não quer apenas por ser próximq de Tarden, ele a quer porque você é um Skahjol. O que aconteceu com Adala foi isso, você sugou toda vida dela e ele tem conhecimento disso, usar você para sugar tudo o poder de Tarden seria mais do vantajoso para ele.
Porquê ela estava a olhando sério? Devia ser algum tipo de brincadeira, não seria viável, não era nada disso que falara, o que aconteceu foi um erro, não nascera assim.
Bombardeada por informações ela se deixou cair no chão, a mão pulsando de dor, o olhar vazio. Sentia-se revelada para uma nova perspectiva e como odiou ouvir cada palavra.
— Preciso que você fique aqui ou ele vai usar você — Sekhmet continuou, sua voz calma.
— Eu nunca faria isso — sussurrou angustiada, matar seu afilhado? Preferia morrer em seu lugar.
— Com Malu ele acha que obrigará fazer tudo.
Ali estava o motivo do sequestro, com sua humana em mãos ele jogaria sujo em uma chatagem cruel. Como queria invadir o Olimpo e fazê-lo sentir dor até ele pedir por morte.
— Sinto muito, irmã.
Se despedindo Sekhmet entrou no portal com Tarden, as partículas levaram o rosto triste dele e sua irmã. Engoliu seco tentando reprimir as lágrimas, mas os soluços vieram sem avisos.
Mechas do seu cabelo cobriam o rosto enquanto chorava, Adala, Malu, Tarden e todos os outros passavam em sua mente, ansiava protegê-lo ao mesmo tempo que achava-se culpa por estarem em risco, sempre em meios problemas que a própria criava.
Não era justo.
O que havia de diferente na sua essência para Nut ou qualquer seu antepassado amaldiçoá-la assim? Quando errara tanto para levantar a ira deles? Bastet estava nutrindo toda culpa enquanto chorava no chão.
Folhas causando um leve ruído não impediu que ela continuasse chorando, não ergueu os olhos, só que o som de passos fez ela fitar o quintal lá fora e vislumbrar ele a olhando com compaixão.
— Hades!
— Não é um momento agradável — ele disse, andando até a porta. — Suponho.
— Me ajude! — ela implorou, como não fazia há séculos. — Por favor, tenho que sair daqui.
Entretanto o deus apenas mirou seus olhos, sua mão erguida numa tentativa de tocar em seu rosto sem atravessar a porta. Como se soubesse sobra a espécie de feitiço que Sekhmet fez.
— Ainda quero você viva, princesa — ele retrucou, baixando o braço.
— Você também — ela falou, chorando ao constatar que ele tinha ciência da sua maldição.
Doía por dentro como mil facas, todos sabia da sua natureza, todos sabia do que ela era capaz, menos a própria. Poderiam dizer que era no intuito de protegê-la, mas apenas a magoava mais.
— Em pouco tempo, por isso entrei em acordo com Sekhmet.
— Vocês não podiam! — ela gritou, mais uma vez ela esticou o braço atravessando a porta.
Dor e mais dor se apossou do seu corpo, lágrimas saiam dos olhos claros, contudo ela não recuou, ninguém a inibiria de sair. Enquanto se esforçava para romper a barreira, uma sombra negra empurrou de volta para dentro, comandada por ele.
Ele estava tão assombrado quanto ela olhando sua ousadia de atravessar a barreira.
— Perdeu o juízo? — ele inquiriu incrédulo. — Vai morrer se tentar sair.
— Que diferença faz se eu morrer aqui ou lá! — Esbravejou de volta, será que ele não compreendia.
Mesmo afastada da barreira seu corpo sentia espasmo da dor, seu indicador estava sangrando.
— A diferença — ele disse, próximo até onde podia. — E que eu a amo, não quero ver você morta, porra! Sei muito bem se entrar naquela merda de templo vai ser arrepender amargamente.
— Se me amasse — ela retrucou. — Me deixaria ir, Hades, por favor! Preciso protegê-los.
Ele não respondeu, os olhos amarelados estavam tão sofridos quanto os delas, o rosto do deus não escondia a dor de vê-la chorando e implorando pela sua ajuda. Dolorosamente ele se afastou e não a olhou novamente.
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