Capítulo 2
Sento na mesa posta pela minha mãe. Ela também está apressada, anda de um lado a outro com uma xícara de café na mão e balançando seus longos dreads. Enquanto tento engolir o café o mais rápido que posso, ouço o som de notificação do celular, avisando que chegou mensagem.
— Já vi que seu filho começou a trabalhar cedo, hoje! — reclama minha mãe, apontando a xícara para o meu celular, que estava em cima da mesa. Era o meu primeiro probleminha, com certeza. Levantei da cadeira, pegando o aparelho e a mochila. Dirigindo-me à saída, pergunto:
— Botou minha marmita?
— Botei, querido. Tenha um bom dia! Vai embora sem meu beijo? — Fui até ela e me abaixei para ajudá-la a alcançar a minha testa.
— Bença, mãe!
— Não esqueça a sua máscara! Deus te abençoe e te guie! Cuidado por onde anda, lembre sempre dos meus nervos! — Dei-lhe um beijo demorado e estalado no rosto e saí de casa rumo à faculdade, devidamente protegida contra o Coronavírus. Como a campanha de vacinação já está bem avançada, não estamos mais em lockdown e as faculdades estão funcionando de forma semipresencial.
Saí pelo portão, andei mais alguns metros e cheguei no ponto. Faltavam cinco minutinhos para o meu ônibus passar e também para checar o meu "problema diário".
Finalmente o ônibus chega. Entro na fila de pessoas para embarcar e consigo sentar na janela. Abro-a para entrar um ventinho, talvez desagradando a passageira ao meu lado, com seu cabelo lisinho feito de açúcar. Retiro o celular de dentro da mochila e checo as mensagens. Ela acordou!
"Bom dia! Dormiu bem? Você não vai acreditar, mas sonhei contigo de novo!"
Li a sua mensagem e pensei: "Sonho com você acordada, gata!" Só pensei, porque ainda me falta coragem para falar, e também não diria algo tão besta assim. Quer saber? Falo sim! Digitei e enviei como resposta.
O nome desse meu primeiro probleminha é Sarah. Sim, uma mulher. E que mulher! Nos conhecemos quando ela comentou um de meus vídeos e também em outra rede social, onde de fato trocamos vários caracteres. Há dois meses atrás, essa garota apareceu e já me faz suar tanto assim! E olha que nem estou maquiada. Não me monto diariamente, somente em ocasiões especiais e para o canal. Na vida eu sou o Tae, mas na internet eu posso ser a Koreana a hora que eu quiser.
Sarah é um pouco tímida e as vezes é bem difícil arrancar algo dela. Sei que um relacionamento pela internet não é dos mais indicados, mas não posso fazer nada se meu coração só funciona quando quer. Não estamos juntas, mas estou batalhando para conquistar esse amor para mim. Queria ter certeza que não só eu me sinto assim.
Sarah: Você tem o dom de me deixar virtualmente sem graça, sabia?
Resolvi responder com uma self, dando uma piscadinha. Depois filmei a paisagem pela janela , mostrando alguns pedestres caminhando na orla. Enviei para ela.
Koreana: Vamos um dia desses caminhar na praia, pegar um solzinho?
Mas a nega é escorregadia:
Sarah: Não sei, não sou muito fã de areia. Sinto agonia, sabe?
Koreana: Eu quero te ver! Estou traduzindo melhor pra você?
Ela somente respondeu com uma figurinha envergonhada.
Koreana: Essa é demais pra mim! Mora em Salvador e não é fã de areia! Vamos aproveitar que as praias foram reabertas, poxa!
Enviei a mensagem e desisti de convencê-la.
Vinte minutinhos era o suficiente para me deixar na faculdade. Desço do ônibus e vou caminhando sem pressa até o meu campus.
Na segunda aula do dia encontrarei com o meu colega de sala e estágio, e por que não, um probleminha também? Estou falando de Tiago, aquele magricela sentado na frente, quase nas fuças do professor. Sei que quando me vê, fica nervoso, pois enrubesce logo. Entro na sala e já lanço meu olhar pra cima dele, direto na nuca, pois está de costas para mim. Sento no fundão, e continuo mirando sua nuca à espera de um olhar teu. Nada. Saco meu celular e digito: "Psiu!" Ele pega seu celular, olha o visor e guarda o aparelho. Meu coração congela. Que boy pirracento! Eu hein! Também sei ser iceberg! Afundei no fundo da carteira, chateada. Por um momento, distraí-me conversando com dois colegas — quando deveria estar prestando atenção na aula!
Quando a aula terminou, todos saíram da sala e não vi mais o "meu" boy. Okay, ele ainda não sabe que é só meu. Conheci Tiago antes da pandemia surgir e fiquei chocada com a sua beleza. Um jeito que hora é de menino e outra hora é de homem, não sei explicar. Conversamos algumas vezes, trocamos alguns beijos... Não nos víamos com muita frequência por conta do distanciamento social. Infelizmente ele diz não ter redes sociais, conversamos por SMS. Queria ser assim... Mentira! Claro que não!
Fui ao banheiro e dei de cara com quem? Sim! Com o meu crush... Ele estava lavando as mãos quando me posicionei ao seu lado.
— Tá me ignorando, Tiago? — Ele se assusta, não sei se com a minha presença repentina ou com a minha pergunta. Provavelmente as duas coisas.
— Oi? Claro que não! De onde tirou essa ideia? — Ele enxuga as mãos com papel-toalha e em seguida passa um pouco de álcool, esfregando-as. Eu não me aguento! Tirando rapidamente a minha máscara, perco a paciência e o puxo pela camisa para perto de mim, ao mesmo tempo em que também retiro a sua máscara. Assustadinho, ele recebe em cheio o meu bote, digo, beijo! Paro por um momento e o encaro. Um pouco vermelho, Tiago morde seu próprio lábio inferior e me pergunta:
— Por que parou?
Suspiro e atiro ele na parede — sou teatral— e avanço novamente. Desta vez, posso afirmar que nos beijamos de verdade, não como das outras vezes. Esse rapaz me enlouquecia sem nem ao menos falar! Amo o seu jeitinho. Ele saboreia a minha boca como ninguém...
— Eu amo a sua boca, sabia?
Depois de uns amassos, saímos para almoçar na cantina da faculdade. Ele é daquele tipo, santinho do pau oco! Não era muito de se abrir comigo. Mas eu sentia que podia confiar nele. Também era meu colega de estágio, ou seja: passávamos muito tempo juntos!
Tiago comia devagar, sem levantar os olhos para mim. Estava um pouco mais estranho do que o normal.
— Tá tudo bem? Tem alguma coisa pra me falar? — Certeza que quer me dar o fora. E eu queria que me desse outra coisa. O coração dele, pelo amor de Deus!
— Vou sair do estágio. — disse, procurando por uma reação minha. Engoli em seco. Coloquei os talheres no prato, respirei fundo e fiquei olhando para uma mancha amarelada na mesa. Tive receio de fazer mais perguntas, mas encarei:
— Aconteceu alguma coisa? Tem algo a ver comigo? Seja sincero! — Eu e as minhas paranoias, que jurei não expor tão cedo na sua frente.
— Não! É só que arranjei outro trampo, paga mais...
— Ah tá! E onde é?
— Mais pra frente eu te conto, deixa só eu ter certeza que vai dar certo. Confia em mim?
— Confio, né? Qual é o jeito? — Levantei-me para guardar a vasilha na mochila, forçando bem a minha cara de desgosto. Para que ele visse que não gostei nem um pouquinho desse suspense todo.
Depois da faculdade, fomos para o estágio juntos, porém ele passou no setor de RH para acertar as contas.
Cursávamos Nutrição, e até então nós trabalhávamos num restaurante de comida natural. De frente para o computador, comecei a trabalhar, mas com a cabeça em outro lugar.
Eu não queria que Tiago abandonasse o campo tão cedo. Tudo bem que eu ainda não havia me decidido entre ele e Sarah. Tecnicamente, o boy estava mais avançado no jogo do que a moça da internet. Mas ela também mexia comigo, porque amava as nossas conversas até tarde. O que Tiago não sabia expor em palavras, Sarah sabia muito bem. Mas eu ainda não tinha provado da sua boca. Mas amava o seu interior, a sua alma.
A tarde passou correndo e eu finalmente cheguei em casa, depois de ter pego um terrível engarrafamento.
1.355 palavras

Oiee!
Esse capítulo foi um pouquinho maior né?
Vocês conheceram os amores de Koreana xD
Amanhã tem mais, bjuu!
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