XVIII

Scarlett acordou com uma dor de cabeça terrível, tinha bebido muito vinho na noite anterior, depois que tinha retornado ao baile. E o pior não era isso, eram as lembranças do beijo entre ela e Adam. Ainda se perguntava como tinham chegado até aquele ponto. Um momento ela dizia que eram estranhos, e no outro, estava nos braços dele. Estava realmente louca, não tinha outra explicação para aquilo.

Porém, sabia que Adam tinha desejos escondidos por ela. Aquele beijo não tinha sido normal de forma alguma, não era apenas um efeito do álcool; foi ardente, cheio de desejo. Lembrou-se de todas as sensações que sentiu ao beijá-lo, sensações que desconhecia por completo. Sensações em lugares que nem poderia imaginar que existiam.

Ela estava com medo, muito medo. Era um jogo muito perigoso para ser jogado, e não sabia se estava pronta para isso. Adam tinha seus demônios, muitos demônios. E ela era uma solteirona basicamente declarada por toda Londres, com seus pequenos demônios também. Aquilo era algo muito estranho.

Ainda tinha o baile de máscaras mais tarde, não saberia como iria ficar as coisas entre eles, seria vergonhoso demais. Não conseguiria esquecer aquele beijo nem que se passasse mil anos.

— Scarlett. — era a voz de Jasmine. — Querida, não queria acordá-la, mas já é tarde.

— Tarde?

— Sim. Em breve terá que começar a se vestir para o baile de máscaras.

— Oh meu Deus, maldito baile em homenagem a Adam.

Jasmine a olhou com desconfiança.

— Trata o rei escocês assim com tanta intimidade?

— Ele veio aqui, soube?

— Sim, eu soube.

— Nos beijamos ontem. — colocou o braço sobre os olhos para não ver a reação da governanta da casa, fora seu rosto que estava começando a ficar ruborizado.

— Céus, como isso aconteceu?

— Não sei, simplesmente aconteceu.

— O que sente por ele?

— Não posso dizer que não sinto nada, porque eu sinto. Talvez um desejo ardente por ele, desde aquele beijo de ontem, algo acendeu dentro de mim. Porque eu queria que ele me tocasse em todos os lugares possíveis do meu corpo. A sensação da mão dele em meu rosto, em minha cabeça, seus lábios sobre os meus. Ah, Jasmine, foi muito bom. Não posso negar.

— E se você se apaixonar por ele?

— Eu fujo. — sorriu. — Não teria como dar certo. Temos que permanecer apenas nesse beijo, e tudo ficará bem novamente.

— Realmente acredita nisso? — Jasmine pegou em sua mão com carinho. — Porque, eu, particularmente, não acredito.

— Ele é rei, Jasmine. Pode ter a mulher que ele quiser, pode estar apenas me usando.

— Sim, pode estar fazendo isso, mas eu quero acreditar que ele não esteja fazendo isso com você.

— Ah, Jasmine, você não entende.

— Entendo sim.

— O que quer dizer com isso? — Scarlett levantou-se da cama, e se apoiou na cabeceira.

Jasmine andou até a porta e a trancou.

— Para assegurar de que não seremos incomodadas.

Ela se sentou na cama e pousou as mãos em cima do colo.

— Eu tenho uma filha, sabe disso.

— Sim, Margareth.

— Também sabe que sou viúva.

— Claro.

— Margareth não é filha do meu marido.

— Como? — perguntou atordoada.

— Ela é irmã de George. — atropelou as palavras ao dizê-las.

Aquilo fez Scarlett ficar paralisada.

— Como? Não estou entendendo. George, rei da Inglaterra, casado com Charlotte? Irmão de Margareth? Como...

Então ela lembrou de William, da forma como ele morreu, e como era sua reputação.

— Jasmine...

— É fácil saber quando um homem está querendo se aproveitar de você. Ele não viria em sua casa, não conversaria com sua madrasta, não a convidaria para dançar, esse detalhe Phoebe me contou mais cedo, se não tivesse algum interesse a mais. Ele é viúvo, ainda é jovem, pode estar querendo outro alguém.

— Margareth sabe?

— Não. Deus me livre contar a ela, muito ambiciosa. Bastardos não são bem vistos, ainda mais se isso afetar a família real. Melhor deixar as coisas como estão.

— Alguém sabe?

— Seu pai e Charlotte.

— Charlotte? — perguntou espantada.

— Sim, eu precisava contar a ela.

— Esse segredo é perigoso.

— Muito perigoso. Sabe, William não prestava. Não valia uma libra esterlina, mas eu o amei muito. Não me arrependo das escolhas que fiz, pois tive minha filha. Porém, se não fosse por meu amigo de infância, eu estaria arruinada. — colocou uma mecha atrás da orelha. — William pediu ao seu pai para me empregar, como uma forma de me recompensar pelo que havia feito. Seu pai e sua mãe foram solidários comigo, devo minha vida a eles.

— Margareth vive com sua mãe?

— Sim, em Cambridge.

— Oh, tão perto de mim! Eu poderia ter ido visitá-la, ou até você mesma.

— Margareth não gosta muito de mim, acha que eu a troquei por vocês.

— O que não é mentira. — afagou as costas da governanta. — Deveria ter trazido ela para morar conosco.

— Sabe, Scarlett, eu pensei nessa possibilidade. Conversei com seu pai, ele deixou que ela viesse. Quando fui buscá-la, minha mãe me chamou para conversar sobre Margareth. Disse-me que não seria uma boa coisa levá-la para morar em um lugar luxuoso, pois ela era ambiciosa, poderia ficar com inveja de vocês, então, com muita relutância, deixei ela com minha mãe, pelas palavras que ela me disse. Minha mãe nunca se enganou com as pessoas, sempre enxergou além do que podemos ver.

— Caso sua mãe venha a morrer, Margareth virá para cá, certo?

— Certo. Espero que isso não aconteça tão cedo, amo muito minha mãe, e tudo o que ela fez por mim. Nunca terei palavras para agradecê-la por todo o apoio que ela me deu.

— Fico feliz que ela tenha ajudado você.

— Sim. — deu um pequeno sorriso. — Agora, mudando de assunto, confeccionei uma máscara para você usar hoje.

— Oh, eu não acredito que fez isso por mim! — abraçou a governanta com entusiasmo.

— Fiz.

— Ficarei linda.

— É linda de qualquer forma.

— Ora, assim eu fico sem graça.

— Vamos, vou ajudá-la a se arrumar. Mostrar para esse escocês a beleza inglesa.

— Jasmine! — começou a rir. — Vamos.

♔♔♔♔

Quando Scarlett chegou em frente à entrada da mansão em que aconteceria o baile, ficou esperando pela chegada de Adam. Tinha mandando um bilhete para ele explicando tudo, e como ela estaria. Estava nervosa ao voltar a vê-lo novamente tão rapidamente, mas tinha que ser madura e agir normalmente, mesmo não conseguindo. Mesmo que sua mente insistisse em passar a cena do seu beijo com ele toda hora. Deu um grito de frustração, e começou a bater o pé rapidamente.

— Scarlett?

Era ele.

— Está atrasado.

— Na verdade, não estou atrasado. Apenas não estava encontrando você.

— Oh, desculpe-me. — respondeu envergonhada.

— Está linda.

— Obrigada. — sentiu seu rosto ruborizar. — Também está muito bonito.

— Nada se compara a você esta noite.

Scarlett sentiu suas pernas tremerem, e se apoiou nele.

— Antes de entrarmos na casa, podemos conversar no jardim.

— Não seria muito prudente.

— O que você fez ontem também não foi prudente.

— Adam!

— Estou dizendo alguma mentira?

— Não. — revirou os olhos. — Certo, acho que precisamos realmente conversar.

Andaram para dentro da propriedade, pelo caminho que estava iluminado. O jardim estava belíssimo, sem ninguém, por enquanto. Scarlett sabia que muitos escândalos aconteciam nos jardins, esperava que isso não acontecesse com ela. Porque tudo que desejava era beijar aquela boca novamente, mesmo dizendo para si que era errado.

— Acho que aqui é o suficiente. — tirou a máscara.

— Está maluco? Alguém pode reconhecer você!

— Sim, não haveria problema.

— Sim, haveria. Estamos sozinhos.

— Gostaria de conversar sem a máscara, sinto-me mais confortável.

— Podemos nos sentar? — apontou para um banco de mármore.

— Fique à vontade.

Sentaram-se juntamente, o que fez ela rir um pouco, aliviando sua tensão.

— Fiquei pensando sobre nós desde ontem.

— Eu também. — admitiu.

— E vejo que podemos seguir isso adiante.

— Acho que está querendo brincar comigo. — olhou para ele.

Pela sua expressão, ela notou que ele havia ficado chateado com sua afirmação, assim como também aparentava estar magoado

— Olhe em meus olhos, diga-me se enxerga isso, Scarlett. Diga-me que me enxerga dessa forma, que se aproveita das pessoas para depois descartá-las.

— Não posso simplesmente achar que ficará comigo, Adam. Tenho razões muito fortes para desconfiar de você.

— Jamais faria mal a você.

— Sinto segurança quando estou perto de você, mas não posso negar minhas inseguranças, meus medos, sobre isso tudo.

— Podemos tentar?

Olhou aqueles olhos suplicantes sobre ela.

— Não acho que vai dar certo.

— Nem tentamos.

— Tenho medo de sair machucada.

— Eu também posso sair machucado, não se esqueça disso.

— Eu sei. — começou a tamborilar os dedos sobre o colo.

— Se não tentarmos, nunca saberemos.

Scarlett passou a mão pelo cabelo dele e desceu até a sua nuca. Sentiu quando a pele dele se arrepiou com o seu toque, aquilo fez com que seu corpo reagisse de maneira positiva.

Ela o queria muito.

— Se eu ficar muito machucada, eu mato você.

— Morrerei feliz em seus braços, Scarlett.

Adam afundou a mão dele em seu cabelo e deu-lhe um beijo que tirou completamente seu fôlego. Ele era o fogo, ela a pólvora, estava bem claro, pois quando entravam em sintonia, explodiam.

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