1. Aquilo que Reluz (p.5)
— Você também pode ir, Akrar — disse Aine à fada no chão, assim que Chloé e Nisi desapareceram pelo túnel.
Ele se levantou, e após uma reverência exagerada, deixou também o local.
— Eu não queria te atrapalhar — disse Diana, que definitivamente não desejava estar ali.
— Não atrapalha — Um passo foi dado pela Rainha em sua direção. Os longos cabelos dourados escondiam parcialmente seus seios, embora os bicos teimassem em aparecer por entre os fios. — É bom ter você aqui.
— Eu não tive opção — disse a feiticeira, enquanto Aine voltava a se mover lentamente para próximo a ela, como se Diana fosse um animal que poderia ser assustado por movimentos bruscos. — Sinceramente, eu preferia não pisar nesse lugar outra vez.
Vendo que ela já estava próxima demais, Diana recuou um passo largo, criando uma distância segura entre elas.
Aine riu e parou no lugar onde estava.
— Você era muito jovem naquela época. Sempre foi muito ardilosa, mas no fundo ainda era ingênua.
—Tinha muito pra aprender na vida, especialmente sobre não confiar em ninguém, ainda mais se for fada.
A Rainha arrastou o pé descalço e empoeirado sobre o chão, fazendo brotar ali uma grama macia e longa, onde ela se sentou. Diana a acompanhou, cruzando as pernas e ajeitando o vestido sobre as coxas.
— Você fala como se não tivesse sangue de fada correndo pelas veias.
— Em uma quantidade irrelevante — respondeu Diana, revirando os olhos. — Ainda sou completamente feiticeira. Sequer entendo seu interesse em mim, de modo tão específico. Se for por uma questão de herança de sangue, sei que encontraria muitos outros indivíduos por aí mais adequados para seus propósitos, sejam eles quais forem.
Aine a analisava como se tivesse a intensão de disseca-la com os olhos. As íris cinzentas fixavam seu rosto com tamanha concentração que faziam Diana questionar-se o que, afinal, aquela mulher queria com ela.
Entrara no País das Fadas uma única vez antes, mas havia encontrado a Rainha em diversos outros momentos. Sabia do interesse que ela tinha, apenas não tinha conhecimento de para quê ou o porquê de ser ela a escolhida para qualquer coisa que fosse.
A não ser que ela tratasse outras pessoas da mesma maneira, entretanto, tinha lá suas dúvidas.
Diana jogou uma mecha de cabelo por cima do obro e falou:
— Por que não me diz de uma vez o que quer comigo? Assim eu posso recusar e ir embora, e você para de me procurar e tentar me cercar.
— Por que a pressa? Somos imortais. Tenho tempo de sobra para fazer você se unir a mim.
— Me unir no quê? — questionou Diana, um pouco mais incisiva.
— Ainda não é o momento. Tem coisas demais acontecendo, então prefiro esperar até que tudo esteja mais calmo.
— Está falando da guerra iminente de Anjos e Híbridos?
Aine se inclinou para o lado, apoiando o cotovelo sobre a grama enquanto se deitava. A posição evidenciava o osso de seu quadril, e deixava à mostra os pelos escuros e hirsutos de sua pélvis.
— Acredito que não vá demorar para que os híbridos comecem a confronta-los de maneira mais direta.
Diana não podia deixar de concordar. Por isso precisava tirar Marina daquele lugar: tendo a garota nas mãos, eles não iriam desperdiçar tempo, certamente logo começariam a convocar apoio da população híbrida mundial, usando Marina como forma de incita-los a bater de frente com os Anjos.
— E qual lado pretende apoiar? — perguntou Diana. Sabia bem que Aine não se envolvia com questões terrestres, mas dessa vez podia ver claramente que ela estava interessada.
— Dos híbridos.
— Por quê?
— Grande parte dos híbridos são meio fadas.
Diana riu, incrédula. Era tão sutil a forma como as fadas manipulavam a verdade, embora não pudessem mentir. Aine acabava de lhe apresentar um fato, não sua real motivação. Ainda assim, a feiticeira tinha quase certeza de qual era o motivo mais provável.
— Você não se importa de verdade — disse ela. — Essa até pode ser uma das suas razões, mas tenho certeza de que um dos principais motivos é que os híbridos são mais liberais, e vão se importar muito menos com você trazendo humanos pra cá.
— Também é um motivo — concordou a Rainha e sorriu. — Fico satisfeita com a sua perspicácia. Não gosto da forma como os anjos manipulam o quanto os humanos podem ou não saber.
— De qualquer forma, tudo o que eu preciso é ir embora daqui o quanto antes.
— Pra que a pressa? — Aine exibiu um sorriso nocivo, e após sentar-se, inclinou o corpo para frente, apoiando as mãos no chão, como se tivesse a pretensão de engatinhar até Diana. — Ainda é muito cedo e em pouco tempo teremos uma festa.
Diana revirou os olhos. Uma festa. Tudo o que ela menos precisava agora.
***
Chloé voltou à superfície com a fada Nisi, e precisou fazer um certo esforço para frear a correria da criatura.
— Devagar! — disse ela. — Onde estamos indo?
Nisi parou e se virou em sua direção. Até então, a fada usava a mão da garota como gancho para arrasta-la, mas naquele momento, ela segurou delicadamente apenas pelos dedos, virando a palma para cima enquanto usava as pontas das unhas para traçar movimentos circulares sobre ela.
— Gosta de dançar? — perguntou Nisi.
— Eu não sei dançar.
Nisi riu de sua resposta.
— Dançar é só uma questão de sentir a música. Teremos uma festa daqui a pouco, deveria tentar se remexer um pouco.
— Ah, eu não sei. — Chloé recolheu a própria mão e a enfiou no bolso da calça. Por algum motivo, o toque já estava se tornando incômodo. — Fico bem confortável sentada em um cantinho.
— Vai gostar.
Nisi enlaçou seu braço com o de Chloé, a induzindo a andar junto dela novamente. Já estavam se aproximando da fogueira de onde há pouco havia saído junto com Diana.
Seus olhos recaíram sobre algo que não vira na primeira vez que havia passado por aquele lugar: a luz proveniente das chamas deixava visível os ramos de Huschiva Slehyl, facilmente identificável por conta dos pequenos frutos amarelos, chamados de tandas, pendurados nela. Conhecia as propriedades medicinais das folhas, das quais podia-se produzir um xarope excelente para o tratamento de doenças respiratórias crônicas.
— Isso é Huschiva? — perguntou para Nisi, apontando a planta no chão, somente para confirmar se estava certa. Sabia ser uma espécie extremamente rara, que só conhecia, até então, através de livros de botânica, pelos quais nutria grande interesse.
— O quê?
— Huschiva Slehyl — repetiu Chloé.
Nisi se desprendeu de Chloé para agachar-se e colher um punhado de tandas, oferecendo os frutos a garota em seguida, enquanto enfiava um deles na própria boca.
— Você gosta? — perguntou ela.
— Isso é alucinógeno.
— Não é, não. — Nisi cuspiu os caroços no chão e mordeu mais uma frutinha ao meio, oferecendo a outra metade a Chloé, colocando-a bem próxima à sua boca. — Prova.
Chloé pegou em sua mão a tanda que lhe era oferecida, observando-a com atenção. Seu interior era preenchido por uma polpa cremosa e esbranquiçada. Aproximou de seu nariz para sentir o cheiro adocicado que tinha.
— É bom — incentivou Nisi, colocando de uma vez só na boca as duas tandas restantes em sua mão.
De fato, não parecia fazer mal à fada, então decidiu que tocaria apenas com a ponta da língua. Só o suficiente para sentir o sabor. Ao fazer isso, o gosto doce e levemente ácido inundou toda sua boca. Era muito saborosa.
— Pode comer — incentivou Nisi.
Chloé girou a pequena tanda entre os dedos, ponderando.
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