1. Aquilo que Reluz (p.3)
Quando a tranca da porta fez barulho e estalou, Marina colocou-se de pé, olhando em volta para encontrar qualquer objeto que pudesse usar como arma. Havia uma cadeira no canto, que com dois passos largos conseguiria alcançar. Também poderia usar os próprios poderes, mas duvidava que conseguisse muita coisa com eles.
Tinha sido trancada ali após a confusão da reunião. Sabia que alguém havia sido encarregado da função de ficar de guarda na porta, e espiando por uma pequena fresta na janela, viu gente vigiando também ao redor da casa.
Muita gente pareceu ter surgido depois de pouquíssimos minutos. Ouvia passos apressados frequentes no corredor, o som pesado de calçados se chocando contra o chão.
Tinha plena consciência de que precisava sair daquele ligar o quanto antes, mas parecia impossível sair sem ser notada naquele momento.
Quando a porta do quarto se abriu com um rangido fraco das dobradiças, revelou Jack White, o Líder dos Híbridos do continente americano. A primeira coisa que reparou foi em sua roupa, que estava manchada de sangue em alguns lugares, achava que podia até mesmo sentir o odor cúprico impregnado nele.
Ele se virou para trancar a porta outra vez. Seus cabelos castanhos, normalmente soltos ou presos em um rabo de cavalo, haviam sido apenas amarrados de qualquer maneira em um nó atrás da cabeça, do qual alguns fios haviam se desprendido e grudado no suor em seu pescoço.
— O que fez com Diana e Chloé? — Marina disparou. — Onde estão Miguel, Arthur e Zac?
— Diana e Chloé estão bem, mas quanto aos outros, gostaria que você mesma pudesse me dizer onde estão — respondeu ele, se apoiando na parede. — Aparentemente, tentaram matar meu filho e desapareceram.
— O quê? Eles não fariam isso.
— Não? — Os olhos castanhos do híbrido ostentavam uma certa frieza, e ele indicou a própria roupa com as mãos. — Estou sujo com o sangue do meu filho porque um de seus amiguinhos decidiu atirar nele.
Marina engoliu em seco.
— Ele está bem?
— Vai ficar.
— Ainda assim — insistiu ela, erguendo ligeiramente o queixo e usando as costas das mãos para secar uma lágrima que havia escorrido por sua bochecha. — Não podem ter sido eles.
— O quanto você conhece essa gente pra dizer isso com tanta convicção? — disse ele. — E além disso, nenhum deles poderia te entender como eu entendo. Eles não sabem o que significa ser um híbrido no mundo em que vivemos.
Marina permaneceu calada enquanto ele falava:
— Todos eles tem sangue puro, não conhecem o desprezo e a sensação de ser tratado como a escória.
— Eu confio neles.
— Eu não duvido — respondeu ele. — E com razão, já que eles vem te protegendo por todo esse tempo. Entretanto, agora você está entre os seus. Somos todos iguais a você, e só precisamos da sua ajuda por aqui. Você, Marina, é um símbolo de esperança pra muita gente.
— Eu não vou ajudar você.
Jack fez uma careta e desviou o olhar, cruzando os braços sobre o peito e se escorando na parede outra vez.
— Sabe de uma coisa — seu rosto se virou em sua direção —, os outros líderes queriam que sua memória fosse apagada, mas eu insisti que não. Você vai estar conosco assim que entender nossos motivos. Gostaria que entendesse isso como um gesto de boa fé da minha parte, Marina Ignis.
— E se eu não me juntar a vocês? — ela perguntou, incisiva.
— Eu preciso voltar para o meu filho e ter certeza de que está tudo bem com ele. — Jack respondeu, ignorando seu questionamento. — se precisar de qualquer coisa, pode pedir aos seguranças. A única coisa que eu quero é que fique tranquila essa noite, e que a use pra pensar. Eu só preciso de uma chance pra te mostrar que a causa pela qual estamos lutando é justa.
***
Zac seguiu o brilho das chamas que avistou à distância. Decerto mais uma das festinhas promovidas por Aine, a Rainha das Fadas, que eram tão incrivelmente comuns naquele lugar. Queria conversar com ela, precisava ir embora daquele lugar.
Se aproximou o suficiente pra conseguir enxergar a movimentação da clareira, ainda escondido atrás de um tronco, não se deparando com o que esperava encontrar.
As criaturas presentes pouquíssimo se assemelhavam com qualquer fada que tivesse visto anteriormente. A maior parte delas tinha um porte muito menor e visivelmente nenhuma característica humana. Fixou sua atenção em uma delas, que sequer deveria chegar a altura de seus quadril: as orelhas se pareciam com as de um gato, só que mais longas e desprovidas de pelos, um focinho pequeno e curvo, cheio de grossas rugas, que terminava com dois grandes furos na extremidade. Era um quadrúpede, cujas patas assemelhavam-se aos cascos de um cavalo, embora a demais extensão das pernas se assemelhasse mais com as de um coelho. Não era um caso único, e alguns deles até pareciam ter características não só de animas, como também de plantas.
A maior parte se aglomerava em um canto da clareira, disputando loucamente algo no chão.
— Não é bom ficar por aqui.
Seu braço foi segurado por Delwen, que pelo visto havia continuando a segui-lo.
— O que eles são?
— Vem comigo — disse o garoto fada em um tom de voz baixo.
Precisaram caminhar por um tempo considerável. Ele permanecia em silêncio e Delwen aparentemente decidira respeitar isso. Zac não disse uma palavra sequer até ver o lugar ao qual estavam indo.
— A caverna onde Aine te prendeu.
Reconhecia aquele lugar da última vez que entrara no País das Fadas, em sua tentativa de resgatar o garoto fada.
— Que eu também chamo de casa.
Zac o acompanhou até seu interior, onde Delwen tratou de acender uma tocha para dispersar a escuridão.
— O que eram aquelas criaturas?
— Eram fadas — respondeu Delwen, se sentando no chão de pedra e cruzando as pernas, indicando que Zac também deveria fazer o mesmo. — Tão fadas quanto eu, mas diferentes em alguns aspectos.
— Por que diferentes?
— Porque não existe critério de reprodução — respondeu ele. — Uma fada consegue se reproduzir com praticamente qualquer espécie de ser vivo, especialmente as do sexo feminino.
— Qualquer tipo? — Zac ergueu as sobrancelhas. — Tipo plantas?
Delwen tocou a parte superior da própria cabeça, de onde folhas estreitas e compridas, em um tom escuro de verde, brotavam no lugar onde deveriam estar seus cabelos.
— Sim, plantas.
— Minha imaginação não consegue conceber isso.
— O fato — continuou Delwen — é que a Rainha tem um grande apreço por humanos, e uma preferência por fadas de aspectos mais próximos a eles. Por isso é cercada apenas por esse tipo de fada.
— E as outras?
— São banidas para longe do convívio, mas ainda se espalham por aqui. O País das Fadas é para todos.
— Isso é horrível!
— Independentemente de ser horrível ou não, é como as coisas são aqui.— disse Delwen, que provavelmente não se atrevia a criticar sua Rainha. — Aquelas fadas são algo ainda mais selvagem e primitivo. Você não deve se aproximar, ou corre o risco de acabar morto.
— Esse lugar fica cada vez pior. — Zac abanou a cabeça negativamente. — Você pode me ajudar a chegar até Aine? Quero pedir para ir embora daqui.
— Sim, mas não quero que vá.
Havia um tom de dor em sua voz, entretanto, Zac decidiu ignorar.
— Mas eu vou, e se não quiser me ajudar, tento encontrar ela por conta própria.
— Não precisa fazer isso — respondeu Delwen. O garoto fada pôs-se de pé e lhe estendeu a mão para que ele ficasse em pé também. Sentiu a pele de sua palma ao segura-la, e alguns dos calos o arranharam levemente. — Eu levo você. Se quer ir embora, eu não vou impedir.
Zac engoliu em seco e assentiu.
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