Capitulo 27

Devem passar mais de quarenta minutos até que alguém bate na porta. Eu juro por todas as coisas, que se for Cris, vou começar a gritar como louca. Abro uma pequena fresta da porta de madeira e quando vejo que é Marcela a que está do outro lado, abro totalmente e a deixo passar. Ela vê meu estado e se senta na cadeira balançando a cabeça.

-Eu sabia que aquilo era tudo encenação. -Afirma desgostosa.

-Sim... e obrigado por seguir meu teatro idiota. Te ofereceria um café, mas minha cafeteria quebrou então...

-Não se preocupa Amélia. Eu vim aqui para ver como você estava. Quis esperar, te deixar sozinha por um tempo. Mas como você não sai dessa sala, vim ver se estava tudo bem.

Essa atitude me pegou de surpresa. Ninguém nessa empresa tinha se preocupado comigo antes. E também ninguém sabe que estou saindo com Cris... ESTAVA saindo. Droga! Ninguém além de Marcela sabe que estou saindo com Cris. Como eu não vi isso antes! Eu não queria acreditar que ela com esse jeito de amiga estava me passando a perna. Com certeza foi ela quem ajudou a vaca loira com informação de onde estávamos e com o endereço da minha casa, afinal ela tem acesso a todos esses dados. Como eu sou burra!

Olho desconfiada para a mulher sentada bem na minha frente.

-Marcela, eu vou te perguntar só uma vez e espero que você me responda com sinceridade: Você por acaso contou para mais alguém que eu e Cris estávamos saindo?

-D-do que você está falando, Amélia? Eu nunca faria isso com você.

Seu olhar magoado quase me faz pensar que estou exagerando. Quase.

-Acontece que a vaca da Martha me mandou fotos de momentos que estávamos eu e Cris juntos, comendo, saindo da minha casa etc... e só você teria essa informação. Meu endereço deve estar no seu computador, você sabe de todos os compromissos de Cris e o mais importante, você sabe que eu e Cris estávamos juntos. Pode muito bem ter contado a ela e ela aproveitou para dar o bote.

A mulher não diz nada e seu rosto esta contorcido como se estivesse com dor. De repente vejo uma lagrima escorrer por sua bochecha. O arrependimento vem como uma bomba no meu peito.

-Droga, Marcela... desculpa eu...

-Não precisa dizer nada, Amélia. Eu fui a única que apoiou vocês dois, não contei a ninguém. Inclusive quando a Martha veio procurando o Cris e vocês estavam no escritório dele, fazendo sabe-se lá o que, eu disse a ela que vocês tinham saído. Eu torcia por vocês e nunca teria coragem de prejudicar meu chefe e nem quem eu considerava uma... amiga.

Percebo que ela usou a palavra "considerava". Merda acho que acabo de perder a única pessoa que queria ser minha amiga de verdade nessa empresa.

Marcela se vira e vai até a porta.

-Marcela, espera!

Tento em vão me desculpar, mas o estrago já foi feito.

Ela sai me deixando sozinha como a idiota que sou.

Não consigo manter nem um namorado, nem uma amiga! Como eu sou inútil!

Bato a porta com força e as janelas de vidro tampadas com a cortina delicada chegam a tremer. Me sento no pequeno sofá de couro encostado na parede e coloco minha cabeça entre os joelhos. Quando eu comecei a ser tão patética?

Resolvo deixar de dramatizar e começo a fazer meu trabalho, senão depois vou estar deprimida e cheia de trabalho acumulado.

Reviso as planilhas, refaço as contas de pagamentos, alguns estão bem atrasados, tenho que mandar memorando a Cris para que paguem o que devem aos funcionários, coitados.

Vejo o nome de Cris na planilha de pagamentos, e percebo que ele não recebe tanto assim. Pensei que para ser o Ceo de uma empresa como essa, ele ganhasse mais, é claro que seu salário é bem confortável, mas não tanto quanto pensei. Chego no nome da Marcela, e sinto aquela bola na garganta de novo. Eu a tratei tão mal, merda!

Vou passando nome por nome, passo o de Bianca, o de Rafa, o do porteiro, guardas... conferindo se estão recebendo seu salário normalmente. Pelo momento tudo está correto, exceto aqueles dois que estão com os salários atrasados. Como não percebi isso antes? Com certeza há algum engano. Preparo o memorando e também meu psicológico para ir até a mesa de Marcela para deixa-lo com ela.

Quando chego na sua mesa, ela não está. Não sei se fico feliz ou triste com isso. Deixo o papel em cima do teclado do seu computador para que ela veja sem falta e volto para minha sala. Olho no meu relógio e já passam das oito. Mas é claro. Novamente fiquei até tarde.

Sento no sofá confortável enquanto descanso um pouco, antes de arrumar minhas coisas para ir embora. O dia de hoje foi longo.

Meu telefone começa a tocar. Deixo que caia na caixa postal. Não estou com saco para atender nenhuma ligação. Mas pelo visto a pessoa que está do outro lado da linha parece não ter recebido meu sinal porque insiste, cada vez que para de tocar, o bendito telefone começa a apitar novamente. Me levanto de um pulo do sofá e pego o aparelho na mão atendendo sem nem mesmo ver quem é o sem noção.

-O que é?

-Nossa prima, alguém está de mal humor hoje em. -Pat reclama do outro lado da linha.

-Pat! Desculpa. Hoje não está sendo um bom dia.

-Parece que para ninguém está sendo um bom dia hoje não é, prima? -Seu tom acusatório me surpreende. Será que ele falou com Cris? Não... eles não são tão próximos. Mas é logico, Cris deve ter contado tudo para Joe e Joe contou para Pat.

-Já te pedi desculpa, primo. -Silencio. -Olha, se você quiser me ligar mais tarde, estou me preparando para ir embora, continuo aqui na empresa, nem vi a hora passar.

-Olha Amélia, eu sei que é pedir muito, -Pat suspira- mas eu preciso de um favor seu. -Um frio sobe pela minha espinha, em algum tipo de aviso, sei lá.

-Pode pedir.

-O Joe está preocupado e você sabe que você é a última pessoa que eu ligaria nesse caso, mas eu você é a única que sabe onde o Cris mora, além de nós é claro...

-Pat, vai direto ao ponto pelo amor dos deuses. -Quase grito para o aparelho.

-Então... acontece que Joe está ligando para Cris faz mais de meia hora e ele não atende. Eu liguei para sua secretaria e ela disse que ele saiu a um bom tempo e não voltou mais. Hum... ele estava com a Martha...

-Olha Pat, o Cris já é bem grandinho, se ele quiser sair com alguém que saia, eu não tenho nada a ver com isso.

Estou quase encerrando a ligação quando Pat suplica do outro lado da linha.

-Por favor, prima, não te peço muito, só quero que vá até a casa de Cris e veja se está tudo bem.

-E porque não vai você? -Pergunto irritada.

-Porque o porteiro não me conhece, e Joe não está em condições de andar de carro, você sabe... depois do acidente. E eu não... quero dirigir, tenho medo.

Mas que droga!

-Tudo bem, Pat. Eu vou sair da empresa e vou direto para a casa de Cris. Se vocês estiverem exagerando, vão pagar caro!

Desligo o telefone sem nem me despedir e pego minha bolsa enquanto tranco as gavetas e a porta do escritório.

Saio da sala e praticamente atropelo a Rafael que ia passando a caminho do elevador.

-Ouch! -Ele segura o estomago enquanto tenta respirar.

-Rafa! Desculpa! Eu não te vi, juro!

-Não foi nada, Amélia. Mas onde você vai com tanta pressa?

-Eu... -será que ele me daria uma carona até a casa de Cris? A essa hora encontrar um taxi é praticamente impossível. - Preciso levar uns papeis urgente ao Senhor Swansen, ele acabou de me ligar e pediu para que os levasse, isso se eu encontrar algum taxi a essa hora. - Olho para o relógio e faço minha melhor cara de inocente, mas que está pedindo uma carona descaradamente.

Rafael me olha estranho, como se não acreditasse em nada do que digo, como se soubesse que eu não tenho que levar papel nenhum a Cris... Argh! Devo estar paranoica com essa história de espião dentro da empresa.

-Tudo bem, eu levo você, Amélia.

Ele pisca e chama o elevador. Descemos em silencio até o estacionamento subterrâneo e só quando já estamos dentro do seu carro, começamos a conversar.

-Então, o que estava fazendo até tão tarde na empresa? -Ele pergunta curioso.

-Estava revisando algumas planilhas, você sabe, fazendo o trabalho chato de um contador... mas e você o que fazia a essa hora na empresa? -Estou olhando a paisagem passando pela janela e sinto uma nostalgia sem explicação.

-Havia um computador que deu prego, e como sempre me chamaram, alguém fez uma besteira das grandes e eu tive que arrumar. Estava até agora resolvendo.

-Coitado de você. Ainda bem que meu computador nunca deu problema.

-Uma pena, seria um prazer arrumá-lo, para você. -Ele brinca mas faz aquela cara de que se eu der sopa ele aceita.

Vamos contornando as ruas e avenidas, jogando conversa fora, até que estacionamos na frente do edifício de Cris.

-Bom, chegamos. Se você quiser eu te espero e te dou uma carona para casa. -Seu rosto não transmite a amabilidade da sua voz. Estranho.

-Não precisa, você fez muito por mim hoje! Muito obrigada, Rafa. -Dou um beijo no seu rosto, mas ele nem se mexe, deve estar preocupado em como eu vou voltar para casa. -Pode ficar tranquilo que eu peço para o guarda chamar um taxi para mim.

Abro a porta e desço do carro, ele acelera antes mesmo que eu possa terminar de fechar a porta. Mas o que deu nesse garoto?

Balanço a cabeça e entro pela grande porta de vidro. Tenho outras coisas com que me preocupar no momento.

-Boa noite, seu Jonas.

-Boa noite senhorita Regins. Em que posso ajuda-la?

-Então, o Cristopher me ligou e pediu para eu trazer alguns documentos que ele precisava urgente.

Resolvo usar a mesma desculpa que usei com Rafael. Se o garoto caiu nessa, acho que o guarda também pode cair.

Seu Jonas me olha desconfiado, penso que ele não vai me deixar subir e vai me mandar dar o fora do seu edifício, mas ele surpreendente balança a cabeça e faz sinal apontando para os elevadores.

-Muito obrigada, seu Jonas! -Não perco tempo e aperto o botão do elevador. Alguns minutos depois, a porta se abre e eu entro. Coloco o dedo em cima do número do andar de Cris sem aperta-lo. Sinto que não deveria estar aqui. Aquele frio na espinha me ataca de novo. Definitivamente estou ficando louca. Praticamente soco o botão e o elevador começa a subir.

Depois de alguns minutos escutando a típica bossa nova que deve tocar em todos os elevadores do mundo, as portas se abrem novamente revelando o andar do meu ex.

Duvido um pouco em sair da grande caixa de metal, mas algo me impulsa para fora.

Paro na frente da porta de Cris e penso se toco a campainha ou bato na madeira branca. Por alguma razão acabo girando a maçaneta e me assusto ao ver que ela gira com facilidade abrindo a porta. Essa sensação estranha volta com força e entro no apartamento escuro.

-Cris? -Digo seu nome para o vazio. -Cris? -Repito olhando na cozinha, na sala, no quarto que eu dormi, no banheiro.

Quando chego na porta do seu quarto, vejo que ela está entreaberta e quando estou por entrar, piso em alguma coisa macia.

Pego o pedaço de tecido na mão. Parece um... casaco. Mas não parece qualquer casaco, eu já vi aquela peça em algum lugar.

Dou um passo mais para dentro do quarto e a cena que vejo é surreal. É como se mil adagas estivessem sendo enfiadas no meu coração nesse exato momento.

Cris está deitado na cama praticamente desmaiado e sem blusa, com o lençol tampando o resto do corpo enquanto Martha está só de sutiã e calcinha com os braços e as pernas sobre ele. Uma posição que eu costumava ocupar.

Meus olhos se enchem de lagrimas e solto o maldito casaco que nem tinha percebido que ainda estava segurando.

Um soluço escapa pela minha garganta e Cris abre lentamente os olhos. Para quem estava praticamente desmaiado, não pensei que isso o despertaria.

Ele olha para mim um pouco desorientado, tenta se levantar, mas o corpo dormente de Martha o impede. Nesse momento posso ver a cabeça dele fazendo o "clic". Ele arregala os olhos e empurra Martha para fora de seu alcance, ela quase cai da cama, mas infelizmente acorda antes.

-Amélia! -Sua voz sai rouca pelo sono. -O que você está fazendo aqui?

Nesse momento me dá vontade de rir. Nunca pensei que essa frase tão clichê seria usada comigo.

Não respondo nada, porque aquela familiar bola na garganta não me permite, então dou meia volta. Quero sair desse maldito edifício o quanto antes.

Escuto os gritos de Cris, mas não quero saber de nenhuma desculpa.

Soco novamente o botão do elevador, mas a porcaria não chega.

Olho para a porta do apartamento esperando que Cris apareça para me dizer qualquer desculpa, mas ela continua fechada.

Finalmente escuto a campainha que avisa que meu elevador chegou e entro rapidamente. Aperto o botão do térreo, mas quando a porta está quase fechando, uma enorme mão aparece na pequena fresta que restava e ela se abre novamente.

-Amélia, me deixa explicar, por favor!

Cris entra dentro do elevador. Ele está só de camisa e calça. Pelo visto não deu tempo de colocar os sapatos.

-Você não precisa me explicar nada, está solteiro, assim como eu. Pode fazer o que quiser da sua vida, Cris. Somos adultos.

Surpreendentemente estou calma. Isso parece fazer com que Cris fique mais nervoso ainda.

Ele pega me rosto com as duas mãos e me obriga a olhar dentro dos seus olhos.

-Você não está entendendo, eu não sei como a Martha foi parar no meu apartamento, na minha cama! Você tem que acreditar em mim, por favor!

-Olha Cris, eu acredito no que vi. E o que eu vi, foram duas pessoas que pareciam ter disfrutado de uma noite juntos. Mas não se preocupa eu não vou bancar a ex ciumenta, entendi o recado.

A porta do elevador se abre me mostrando o lobby do edifício, graças aos deuses e eu saio praticamente correndo do aperto de Cris. Quero ir embora o quanto antes. Cris corre atrás de mim implorando e dizendo coisas sem sentido. O coitado do seu Jonas não entende nada e nem se atreve a perguntar nada também.

-Amélia - ele me puxa pelo braço quando consegue me alcançar, ele está estranhamente lento hoje - me escuta! Eu não dormi com ela! Eu nem gosto dela, por favor! A única pessoa que eu amo é você!

-Não queira me fazer de idiota, Cristopher! Eu não vou cair nessa sua ladainha! Agora me deixa em paz!

Seu Jonas resolve intervir (finalmente) e segura Cris pelo braço.

-Vamos rapaz, deixe a moça ir embora. Amanhã podem conversar com mais calma.

-Não, Jonas! -Cris puxa seu braço usando mais força do que o necessário. -Ela tem que entender, tem que me escutar... - vejo o seu olhar de desespero e de repente algumas lagrimas começam a cair. Cris está... chorando?

-Amor, por favor! Eu juro que não dormi com ela! Acredite em mim.

Ele se ajoelha e me abraça pela cintura. Eu quase cedo e acredito no que ele diz, mas aquela cena aparece novamente na minha cabeça. Poderia ter sido qualquer outra pessoa. Uma desconhecida, até a Bianca. Mas era Martha! A mulher que nos separou, que nos ameaçou. A mesma que quis me agredir. Isso eu não vou esquecer jamais.

Retiro bruscamente seus braços da minha cintura e respiro fundo antes de dizer as seguintes palavras.

-Cris, eu sei que você terminou comigo, Pat até me disse que era porque você queria me proteger de Martha, da mulher que está na sua cama nesse exato momento. Então eu peço que você não me procure, não me ligue nem vá até a minha casa. Amanhã cedinho estou enviando minha carta de demissão. Não quero mais vê-lo.

Me viro e vou embora deixando ao homem boquiaberto, com os olhos cheios de lagrimas e com a expressão mais triste que eu vi na minha vida.

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