Capítulo 26

Depois de algumas horas trabalhando, meu estomago começa a roncar e percebo que já é hora do almoço. Fiquei tão compenetrada no meu trabalho, que facilmente poderia ter ficado o dia inteiro sem sair dessa sala, não fosse o meu bendito estomago que precisa ser alimentado.

Lembro da ligação de Alex ontem e que aceitei almoçar com ele. Droga!

Olho a hora no meu telefone: meio dia e quinze. Porcaria! Ele deve estar no restaurante já. Pego minha bolsa e o envelope com as fotos o e vídeos de Jonah e tranco minha gaveta e depois a porta do escritório. Quero sair sem ser vista por ninguém, mas esse plano falha miseravelmente.

-Oi Amélia. Como você está? -Rafa me olha curioso, não conversei com ele muito esses dias, ele deve pensar que aconteceu alguma coisa.

-Oi Rafinha! Estou bem, e você? -Dou um abraço nele e quando faço isso, vejo Cris me olhando com uma expressão nada feliz do outro lado da parede de vidro.

Sinto muito querido, mas quem terminou comigo foi você. Volto a atenção para Rafa, e ele me segura pelos ombros.

-Tem certeza que está tudo bem? -Mas porque todo mundo está me perguntando isso hoje! Será que estou tão mal assim?

-Sim, fica tranquilo Rafinha! -Passo a mão pelo seu cabelo sedoso, bagunçando um pouquinho seu penteado. Ele o arruma quase na mesma hora.

-Eu sei, eu sei. Você não vai me contar de qualquer jeito. -Ele me olha magoado. -Mas pode me dizer se precisar de algo tudo bem?

Rafael pisca para mim e volteia sua cabeça sobre o ombro ao tempo em que vê Cris vindo na nossa direção.

Preciso sair daqui e rápido.

-Bom Rafa, preciso ir, marquei de almoçar com um amigo em um restaurante aqui perto. Mais tarde nos falamos, tudo bem?

Não espero sua resposta, o abraço rapidamente e escapo da empresa tão veloz quanto esses malditos saltos me permitem. Sinto que Cris me observa, mas não quero dar o gostinho de me virar e vê-lo. Ele vai saber que ainda me afeta.

Passo pela grande porta de vidro, quando para minha surpresa, Alex está parado de braços cruzados ao pé da escada.

-O-oi, Alex. Vamos? -Nem me preocupo em me explicar. Ele ainda não tem esse direito.

-Oi Amélia. Você estava demorando um pouquinho, então resolvi vir até aqui... como disse que trabalhava perto do restaurante, esse foi o primeiro lugar que encontrei. -Ele dá um sorriso orgulhoso, como se fosse tão difícil descobrir onde trabalho.

-Sim...bom vamos, que não tenho muito tempo de almoço.

Começo a andar na direção do pequeno restaurante que fica a umas três quadras do edifício.

Alex me segue em silencio. Ainda não consigo entabular uma conversa sem me sentir estranha.

Depois de andar por alguns minutos, finalmente chegamos no restaurante. Ao entrar percebemos que está parcialmente vazio, ainda bem. Não quero demorar a voltar para a empresa, senão Cris terá uma desculpa para falar comigo.

Nos sentamos em uma mesa do lado de fora do lugar, hoje o dia está com um clima agradável para estar dentro. O garçom traz os cardápios e pedimos nossa comida.

Coloco o envelope sobre a mesa e o empurro até Alex.

-Aqui estão todas as fotos e vídeos de Jonah. Peguei as que tenho impressas em dobro, e algumas outras que tinha em digital, gravei em um pendrive junto com os vídeos que te falei.

Alex agradece e pega o envelope com cuidado, como se fosse um animal prestes a ataca-lo. Ele abre lentamente e quase pergunto se ele não quer que eu abra. Ele vai tirando foto por foto e o pendrive cai por último quando ele balança o envelope. Ele guarda o pequeno dispositivo quadrado no bolso da jaqueta e finalmente começa a ver as fotos.

Seus olhos se enchem de lágrimas e ele pisca algumas vezes para afastá-las. É estranho ver sua reação diante de tanta informação do filho. Ele ri com algumas fotos bobas e fica serio em algumas outras.

Por um bom tempo ele não diz nada, até que segura uma foto na minha frente e pergunta por que Jonah estava fantasiado de Batman. É uma das que eu mais gosto. Jonah está fantasiado de Batman e corre por todo lado.

"-Mamãe, olha eu sou o Batman! Vou te proteger com meus poderes!

-Mas o Batman não tem poderes, meu anjinho! -Olho com carinho o menininho que ele se tornou.

-Então como ele combate os vilão? -Jonah pergunta curioso.

-Se diz " vilões" meu filho. E ele combate com sua força, agilidade e com muito dinheiro, é assim que ele fabrica os apetrechos que usa para atacar as pessoas más!

Jonah me olha com seus pequenos olhinhos verdes arregalados.

-Ué, ele... é rico? É só isso? Poxa... quero ser outro super-herói então.

Dou uma gargalhada. Meu filho nunca vai sair com alguém por dinheiro, disso posso ter certeza..."

-Amélia? -Alex me traz de volta à realidade.

-Hm, me desculpa. Estava lembrando dessa foto. Foi um dia qualquer. Jonah adorava se vestir de super-herói. Ele amava o Batman, mas quando contei para ele que o homem morcego não tinha poderes, que seu poder era a riqueza, ele quis ser outro herói. -Passo o dedo carinhosamente pela foto. Meu filho era um personagem único.

Alex me olha entendendo todo o significado desse dado. Jonah não se importava com dinheiro. Ele só queria fazer o que achava ser "correto".

Começo a contar mil e uma histórias sobre Jonah, alguns momentos rindo e em outros com vontade de chorar. Meu bebê me fez muito feliz na sua curta vida.

De repente Alex pega minha mão, eu sou surpreendida com essa atitude. Tanto que não a retiro do seu aperto.

-Amélia, Jonah era uma criança linda, e com certeza teria sido um cavalheiro. Tenho certeza também que você era uma ótima mãe e cuidava dele, quando o pai idiota não o fez.

-Obrigada Alex, e sim ele era muito lindo... e feliz.

O clima fica tenso de repente. Não queria ter dito isso, saiu sem querer. Não posso retirar o que disse.

Graças aos céus, nosso almoço chega e usamos essa desculpa para não ter que conversar nada enquanto comemos.

Estamos quase terminando de comer, quando Alex arregala os olhos de repente.

-O que foi? Tem algo de errado com a comida? -Olho para meu prato, pelo menos o que eu pedi está delicioso.

-Não, nada de errado. Só que acho que temos companhia. -Alex movimenta alguns milímetros a cabeça, sinalizando algo atrás de mim.

Viro minha cabeça lentamente e a cena que vejo me tira o ar.

Cris está entrando cruzando a rua em direção ao restaurante e ele está acompanhado. Martha está do seu lado caminhando como se fosse a dona de todo o bairro. Ela está dizendo alguma coisa para ele, mas Cris está olhando para outro lado, como se estivesse distraído. Martha olha por alguns segundos na minha direção e a vadia tem a coragem de segurar no bíceps do meu namor...ex-namorado. De repente perdi o apetite. Porcaria!

-Se quiser, podemos ir embora Amélia. Outro dia conversamos mais sobre Jonah. -O homem na minha frente parece tão incomodado com a cena, quanto eu.

-Não. O restaurante é um lugar público. Além do mais, minha comida está deliciosa... -Como um pedaço do filet a contragosto, por mais que não esteja já com fome, não vou deixar o restaurante por causa de Cris.

Tento me manter o mais calma possível, até que de repente sinto uma presença atrás de mim. Continuo comendo normal e Alex está calado.

-Amélia? O que está fazendo aqui? -Sua voz rouca me traz lembranças das coisas que ele diz quando estamos fazendo amor.

-Estou almoçando, não é evidente?

Minha rispidez o deixa sem fala por alguns segundos até que ele se recupera.

-Isso eu percebi. Mas o que você está fazendo aqui, com ele? -Nesse momento vejo vermelho. Cris não tem o direito de querer satisfação sobre com quem saio ou deixo de sair.

-Primeiro, que ele tem nome, Alex, caso você não lembre. E segundo, que fora da empresa, não tenho que te dar nenhuma satisfação.

Martha solta uma risadinha venenosa e Alex a olha com cara de nojo. E eu... bem, eu estou morrendo de vontade de perguntar a ele o que diabos está fazendo aqui com essa vaca loira, mas seria contradizer o que acabei de dizer a ele.

-Bom querido, melhor entramos, que aqui fora está meio sem graça. -Martha diz tudo isso olhando para mim. Vejo o ódio no seu olhar e tento replicar o mesmo. Não vou deixa-la me afetar. Não vou!

Cris não diz nada, apenas acompanha a vaca loira adentrando pela porta do restaurante. Quanto será que me cobrariam para o chef cuspir na sua comida? Decido dar por terminado o almoço e me despeço de Alex com a desculpa de que preciso voltar ao meu trabalho. Ele é inteligente e percebeu que Cris era meu namorado e ao mesmo tempo meu chefe, mas ele foi esperto o bastante para não dizer nada.

-Bom, te devolvo o pendrive quando tiver copiado tudo. -Uma desculpa esfarrapada para voltar a se reunir comigo.

-Não se preocupe, esse é para você. Tenho tantos desses que ando procurando a quem regalar.

-Tudo bem. -Vejo sua cara murchar em alguns segundos. Nesse momento sinto um pouco de pena. Alex está se esforçando para mudar. Um pouco tarde, mas é como dizem: o que vale é a intenção...

-Tudo bem, podemos tomar um café qualquer dia desses, assim te conto mais sobre Jonah. O que você acha?

Seu rosto se ilumina novamente, e por alguns segundos chego a ver aquele brilho no olhar que ele costumava ter.

Nos despedimos com um abraço rápido e cada um pega o seu rumo. Eu entro como estive todo o dia, no piloto automático.

Sento na minha mesa querendo um pouco de paz, mas pelo visto, é muito pedir.

-Amélia, que bom que chegou! Eu vi o Cris saindo com aquela tal Martha... -Marcela estava com uma expressão assassina no rosto. Pelo visto ela não gosta de Martha.

-Sim... eles foram almoçar. No mesmo restaurante que eu.

-Mas que droga, Amélia!

Ela se senta na cadeira sem nem pedir permissão. Começamos a conversar e a bolar planos de assassinato da vaca loira. Até um plano sobre como fazer ela ficar feia... pelo menos rimos alguns instantes, até que Cris irrompe porta adentro.

-Marcela, preciso conversar com Amélia, a sós. -Cris praticamente ordena à sua secretaria, Marcela nem se move do lugar, claramente desafiando ao próprio chefe.

-Eu só vou sair, se Amélia disser que está tudo bem. -Ela olha para mim esperando a resposta. Eu gostaria de dizer para ela ficar, só para ver a reação de Cris, mas estou muito curiosa para saber o que ele tanto quer falar comigo.

-Tudo bem, Marcela, depois conversamos mais. -Faço minha melhor cara de durona, e ela depois de duvidar por uns segundos, sai da sala me deixando sozinha com a última pessoa que quero ver no momento.

Cris quase corre para trancar a porta, uma vez que marcela está fora, e depois ele fica de pé na frente da minha mesa, com a cara de pau de ter um olhar ofendido naquela cara linda.

Me levanto em um pulo e contorno a mesa. Se ele acha que vai me intimidar, está muito enganado.

-Porque você foi almoçar com Alex hoje? -Ele solta a pergunta, sem nem mesmo se preocupar em ser menos direto.

-Isso não é da sua conta. - Cruzo os braços na frente do corpo em sinal de que não estou nem aí para ele. Pelo menos por fora.

-É da minha conta sim, droga! Não faz nem um dia que terminamos, e você já quer voltar para ele? Pensei que fosse melhor que isso, Amélia!

UAU! Cris está furioso, entendo. Mas cada um controla o que diz, e isso... doeu na minha alma.

-Que eu saiba, foi você quem decidiu terminar comigo, então não tem nenhum direito de saber com ando ou almoço, ou saio ou o que seja. Assim como também não tenho direito de perguntar o que diabos você estava fazendo com aquela vaca loira. -Digo calmamente não traspassando todo o nervosismo que estou sentindo no momento.

-Fomos almoçar e conversar sobre algumas coisas, você não entenderia!

Agora o homem está quase gritando. Eu não ligo, se alguém escutar vai ser problema dele. Parece que ele percebe o erro porque baixa a voz alguns decibéis.

-Eu não pedi nenhuma explicação, Cristopher. Agora, se você me der licença, preciso voltar a trabalhar. -Me dirijo até a porta, mas antes que eu possa sequer tocar na maçaneta, Cris me agarra pela cintura e me vira fazendo com que me choque contra seu peitoral musculoso. Posso sentir seus "gominhos" mesmo por cima da camisa bordô.

-Por que você faz isso comigo? -Ele encosta a testa na minha.

-Eu não estou fazendo nada... se alguém fez alguma coisa aqui, foi você.

Me separo dele rapidamente com um empurrão. Seu cheiro inebriante estava me fazendo esquecer a raiva que até minutos atrás sentia.

Ele me olha triste e depois de abrir e fechar a boca várias vezes, como quem quer dizer algo, mas desiste, ele se vira e vai embora. Eu tranco a porta para não ter mais nenhum ex doido entrando sem permissão e me jogo na cadeira de couro confortável atrás da mesa de madeira. Cris parecia sofrer, mas eu também estou sofrendo. Coloco dois dedos na ponte do nariz, de repente uma dor de cabeça resolveu aparecer e eu sei que ela vai ficar um bom tempo. Procuro em minha bolsa se tenho algum remédio, mas infelizmente os que tinha já tomei. Ainda não confio em Marcela, mas pedir a ela um remédio não vai me matar. Ou isso espero.

Disco o número interno que já conheço de memória e Marcela atende no terceiro toque.

-Amélia? Em que posso ajuda-la?

-Oi Marcela, desculpa te incomodar, mas estou com uma dor de cabeça que não aguento, será que você não tem algum remédio que possa me dar? Não tenho tempo de ir comprar... -Deixo a última frase voando, não quero parecer preguiçosa.

-Claro! Vou procurar na minha bolsa e te levo, pode ser que demore alguns minutos, porque o Sr. Swansen entrou furioso a alguns minutos e me pediu que agilize todos os documentos atrasados. -A frase sai com um suspiro e ela parece cansada.

-Não tem problema, procura na sua bolsa que eu vou aí e pego. Em dois minutos chego.

-Perfeito! Preciso de uma distração... estou vendo letras e números por todo lado.

Ela desliga o telefone sem se despedir, pelo visto foi pega em flagrante. Tranco tudo como sempre e vou até o escritório de Cris. Marcela está muito elegante em um terninho cinza, mas sua beleza fica escondido sob esses trajes tão formais.

-Uau! Isso foi menos de dois minutos! -Ela brinca.

-Sim, a dor está tão forte que praticamente vim correndo.

Olho de soslaio para a porta do escritório de Cris, com medo de que ele saia a qualquer momento e me veja ali. Será que ele pensaria que vim atrás dele?

Volto a me concentrar na mulher que está na minha frente, antes que ela pense que vim atrás de Cris.

-Aqui, pega. -Ela me passa um pequeno comprimido branco. Olho desconfiada para o remédio em minhas mãos. -Pode tomar, é um ibuprofeno. Você não tem alergia, né? -Balanço a cabeça em negativa e tomo o comprimido junto com o copo de agua que peguei do bebedor no caminho. Agora tenho que esperar que o remédio comece a fazer efeito.

Para não parecer mal-educada, sento na cadeira que fica na frente da sua mesa, e começo a conversar amenidades com a mulher.

-Você viu o que aconteceu com a Bianca? -Ela sussurra.

-Não... -espero que continue a história.

-Então, foi tenso. Ela foi pega no almoxarifado, com o Rafael! Os dois levaram uma advertência e ela ficou uma fera. E eu que pensava que ela queria fisgar um ricaço.

Solto uma risadinha. Eu sei que é errado rir da desgraça alheia, mas a Bianca estava pedindo por uma coisa dessas. Fora que ela odiou quando me viu saindo da sala de Cris.

-Ela pode até querer um ricaço, mas quem a impede de se divertir por aí com os mais inferiores. -Brinco com a secretaria.

Marcela solta uma gargalhada, e imediatamente tampa a boca com medo de que alguém a escute. Ela se aproxima mais da borda da mesa e compartilha uma informação muito valiosa comigo, mudando totalmente o foco do assunto.

-A Martha veio de novo aqui. Estão até agora dentro do escritório. Ela chegou alguns minutos depois de que o senhor Swansen voltou da sua sala. -Ela olha para a porta da sala como se Cris pudesse ouvi-la de lá de dentro.

Tento manter minha expressão de indiferença, mas é difícil saber que ele está se reunindo com essa vaca para fazer sabe-se lá o que e não poder dizer nada. Marcela percebe minha tristeza e pega na minha mão, com cara de arrependida.

-Droga, Amélia. Não deveria ter dito isso. Agora você vai ficar mal pelo resto do dia. Desculpa amiga!

-Não se preocupe. -Engulo essa bola que de repente se alojou em minha garganta. -Cris-senhor Swansen, é um homem solteiro. Ele pode fazer o que bem entender. Assim como eu.

Marcela mantem a expressão culpada e eu quero sair logo dali. Começo a me despedir e agradecer pelo remédio, quando a porta de Cris se abre de repente e Martha sai de dentro sorrindo triunfante quando me vê, seguida de Cris com a.... mão nas suas costas? Merda!

Quando ele percebe minha presença, seus olhos se arregalam e ele tira a mão da vaca loira imediatamente. Seria cômico se não fosse tão trágico, sua expressão de garotinho pego em problemas.

-Amélia, o que está fazendo aqui? -Ele começa a vir em minha direção, mas eu me viro para Marcela e falo com ela como se os dois não estivessem bem na minha frente.

-Obrigada pelo remédio Marcela. Me liga um dia desses para que possamos ir naquela boate que você estava comentando! -Dou um sorrisinho e ela capta minha indireta.

-Claro, amiga! Não foi nada, qualquer coisa é só pedir! Até mais!

Balanço a mão para a mulher que acaba de me livrar de uma enrascada e ao mesmo tempo me ajudou a me vingar dos dois idiotas que ficaram pasmos com minha indiferença.

Saio quase correndo dali e entro na minha sala trancando a porta antes de me sentar na cadeira de couro. Meus batimentos estão a mil. Mas em alguns minutos, a adrenalina pelo que acabei de fazer começa a baixar e uma tristeza se instala no meu peito. Nesse momento, é inevitável. Lagrimas tímidas começam a descer pelo meu rosto, e um soluço acaba abrindo as comportas e elas começam a vir como enxurrada, lavando tanto minha maquiagem como minha alma ferida.

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