A vida e a Sorte de John Stone
O SOL DO MEIO-DIA brilhava intenso no céu límpido sobre a região do Arizona. O farfalhar das asas de abutres que devoravam um coiote morto há dois dias, próximo a uma árvore de raízes profundas, não o incomodava. O chapéu marfim sobre o rosto parecia isolá-lo do restante do mundo e, enquanto ele repousava o corpo cansado no solo arenoso e quente daquele lugar quase deserto, sob a sombra de seu alazão, seu pensamento ia longe. Mais precisamente, em um quarto de estalagem com duas belas moças nuas a seu lado na cama.
O chamado começou minguado, longínquo. De repente, se tornou mais alto, mais nítido. E com um profundo pesar, ele viu os seios fartos de suas acompanhantes se desvanecerem diante de seus olhos, enquanto elas acenavam para ele, num adeus definitivo.
— Senhor Stone! Senhor Stone!
O chapéu escorregou por seu rosto carrancudo e mal barbeado, e sua primeira visão ao abrir os olhos foi a da cara de seu cavalo, que bufava em direção a seu rosto enquanto raspava o casco no chão. A luz do sol incidiu direto em sua visão. Se soerguendo a esfregar os olhos, ele ouviu a voz aguda chamá-lo mais uma vez:
— Senhor Stone! Senhor Stone! O que está fazendo aí deitado? Falta menos de uma hora. A vila já está em polvorosa! Levante-se!
De esguelha, enquanto ele se erguia lentamente sacudindo a areia da calça puída de veludo, John Stone viu a figura diminuta e magricela de Tommy, um garoto de doze anos que costumava cuidar de seu alazão enquanto ele se aventurava pelos saloons e mesas de jogos. Filho do taberneiro da Vila de San Manuel, Tommy via na figura de John o pai que sempre quisera ter, uma vez que seu verdadeiro progenitor não passava de um beberrão avultado. Para o menino, o aventureiro era a figura perfeita do herói. Ele era forte, valente, enfrentava bandidos e ainda carregava uma pistola, algo que seu verdadeiro pai jamais poderia fazer com toda sua corpulência.
"Ele nem conseguiria enxergar o coldre com toda aquela pança!", pensava o infante.
Como que admirando um ídolo sagrado, Tommy abaixou-se próximo ao cinturão de couro onde o coldre guardava um Colt 45 prateado. Enquanto ele olhava o brilho metálico da arma refletir seu próprio rosto, ele indagou a John, que refrescava o corpo em uma tina de água barrenta, disposta próximo a parede do velho casebre de madeira onde o cowboy morava:
— Ela está pronta?
John passou as mãos molhadas pelos cabelos a caírem-lhe no rosto. Apoiou-se na borda da tina e encarou Tommy, que já fazia menção de sacar a pistola do estojo:
— Minha Peacemaker está sempre pronta, guri.
Naquele momento, uma brisa suave soprou contra o homem, trazendo o cheiro da carniça que os abutres consumiam próximo à árvore seca a quatro metros dali. John observou as aves por um instante, caminhou até Tommy, e com um gesto, indicou para que o menino ali de cócoras levantasse o coldre com a arma. Ele então sacou a pistola, girou o tambor, puxou o cão e disparou para o alto, ao que os dois abutres levantaram voo assustados com o estampido do tiro.
— Comam seu almoço mais tarde, seus nojentos! – resmungou o pistoleiro.
Tommy sorriu, erguendo-se para acompanhar o bater de asas das duas aves que desapareciam no céu, enquanto cobria os olhos parcialmente da luz intensa do sol. O alazão movimentou-se agitado próximo dali, preso a um toco de madeira, e então voltou a se servir do lauto almoço colocado a seus pés por seu dono.
John Stone parecia excessivamente pensativo enquanto vestia a camisa bege velha e o colete de couro que estivera usando como travesseiro até que Tommy o despertasse. Ele passou a olhar fixamente para seu chapéu ali largado no chão com os olhos pequenos e castanhos, algo como se estivesse prestes a enfiá-lo na cabeça pela última vez.
— Do que vai mais sentir falta quando tudo acabar, Senhor Stone?
Ele colocava a camisa para dentro da calça, e olhando aquele moleque magrelo que fora sua única companhia nos últimos meses, quando então ele não estava metido em confusões na Vila de San Manuel por alguma dívida de jogo, o aventureiro respondeu sem nem pensar muito:
— Das mulheres. Sentirei falta das mulheres, guri.
Um sorriso escapava-lhe pelo canto da boca enquanto o suor escorria-lhe da têmpora até a barba.
— Mas é por causa de uma delas que está encrencado! – exclamou o menino, do alto de sua inocência juvenil.
— E me meteria em mais duas mil encrencas, se assim fosse necessário, por um rabo de saia. Uísque, brigas de bar, Pôquer... Nada se compara a um bom refestelo com uma bela rapariga. Quando tiver barba na cara e pelos no saco entenderá o que eu digo!
Tommy coçou a cabeça por um instante encostado na tina d'água, e vendo-o afivelar o cinturão, continuou:
— A caminho daqui ouvi o senhor Casavette da estalagem espalhar aos quatro ventos que ele pagaria uma rodada de cerveja a todos os presentes na taberna hoje à tarde. O que o faz tão confiante?
— Aquele velho italiano de merda me odeia desde que me deitei com suas duas filhas dentro da casa dele — John parou pensativo, a olhar o horizonte. — Lembro-me como se fosse hoje. Gabrielle e Simone... Incansáveis!
Uma risada desdenhosa escapou-lhe pelos lábios roídos.
— O velho pegou-me com a boca na botija. Só tive tempo de apanhar meu coldre. Joguei-me pela janela e corri como o vento para escapar dos tiros de rifle. Atravessei toda a Vila apenas com meu cinturão como vestimenta. Foi uma aventura e tanto! Não me admira que ele esteja querendo comemorar as custas da minha desgraça!
John apanhou seu chapéu, olhou-o por mais alguns instantes, colocou-o na cabeça e sacou sua Colt. Chamando Tommy para perto dele, o homem desatou o tambor da pistola e mostrou-lhe uma das câmaras, onde uma nota de cinco dólares jazia enrolada no lugar de uma bala.
— O que é, Senhor Stone? – Perguntou o garoto, confuso a olhar aquela nota na câmara.
— Pode ser que essa seja minha última aventura, Tommy. Caso eu seja abatido, quero que fique com minha Colt e que use esse dinheiro para pagar meu funeral.
Tommy encarou-o parecendo triste. Antes que ele balbuciasse algo, John encorajou-o com uma palmada forte em seu ombro ossudo, e voltou a guardar a pistola. O menino permaneceu em silêncio vendo o bravo pistoleiro do qual tanto gostava caminhar até seu cavalo, desamarrar seu arreio do toco de madeira e montá-lo imponente, certo de seu destino. A viagem até San Manuel não durava mais do que meia hora, então os dois começaram a cavalgar juntos, Tommy na garupa de seu herói.
Próximo ao vilarejo já se podia ouvir um festejo incomum, algo como uma comemoração.
— O pessoal parece bem feliz por aqui! – Exclamou John já enxergando daquela distância a estalagem do velho Casavette e o Saloon do corpulento Senhor Prescott, pai de Tommy.
Tommy saltou do cavalo antes que eles se aproximassem muito da Vila, e com um aceno de boa sorte, correu em direção ao Saloon. Faltavam cinco minutos para as treze horas, e quase toda a população da pequena civilização parecia estar fora de suas casas, só aguardando.
De frente a barbearia, a dez passos da estalagem, Tony McBright o aguardava bem ao centro da rua. O sujeito forte de ombros largos mascava fumo com a boca aberta, e sua barba negra e espessa circundava todo seu rosto. O chapéu igualmente negro, enfiado fundo na cabeça grande escondia seus olhos frios, e sua mão calejada de estivador já parecia pronta para sacar sua Smith & Wesson.
"Deus! Como o sujeito é feio!", pensou John, segundos antes de desmontar seu alazão e caminhar para frente da barbearia.
McBright havia desafiado John para um duelo em nome de sua honra. O pistoleiro havia se refestelado com sua esposa Mary naquela que seria sua noite de núpcias, e aquele era um acerto de contas. Do alto da sacada de um dos quartos da estalagem, a mulher assistia à chegada de John aos prantos, com um chapéu frondoso a fazer sombra no rosto marcado pelas pancadas que levara do marido naquela noite. Ao passar em frente ao local, o aventureiro pensou tê-la visto acenar, mas tal ato seria ousado demais, até mesmo para uma adúltera como ela.
John deu uma última olhada nas pessoas a assistirem aquele que era o único espetáculo daquelas redondezas áridas, posicionou-se a dez passos de seu algoz e o encarou nos olhos, já com a mão direita próxima de seu Colt. Pensamentos conflitantes passavam por sua cabeça, e ao mesmo tempo em que ele queria viver, para sorrir contando sobre seu duelo com o marido traído na Lua de Mel, ele imaginava se aquele homem não estaria certo em meter-lhe uma bala no meio do peito.
"Ora! O Homem me viu saindo de sua casa em sua noite de núpcias. Ele tem ao menos o direito de tentar me abater em um combate justo".
John olhou a Smith & Wesson negra a reluzir já quase empunhada por McBright e viu o homem bufar de ódio a encará-lo. Naquele momento, não havia nada que fosse mais importante para ele do que limpar sua honra. Fazer sofrer o homem que o havia humilhado diante de toda a Vila de San Manuel.
"Ele tem esse direito", pensou John, "Mas que tivesse ao menos escolhido uma arma que não engasgue!".
O estampido de um tiro ecoou no deserto do Arizona, e todos os espectadores pararam atônitos a esperar qual dos dois adversários cairia primeiro. Ambos permaneceram imóveis com suas pistolas apontadas, mas era a Colt que fumegava. McBright expeliu sangue pela boca um segundo antes de cair para frente feito uma bigorna, com um ferimento no peito, o que deu como encerrado aquele duelo. O que se ouvia era apenas a brisa que soprava, arrastando o feno pela areia, até que risadas histéricas romperam do alto da sacada da estalagem, ao que o sacudir de um frondoso chapéu feminino chamou a atenção de todos. Mary era a viúva mais alegre de que já se ouvira falar no Arizona, e por um breve instante John moveu o seu chapéu marfim a cumprimentá-la.
Ao lado do roliço pai, Tommy comemorava de forma contida, enquanto John Stone pensava por quanto tempo mais duraria sua velocidade no gatilho. Um sorriso formou-se em seu rosto, e lá ao longe ele ouviu o gralhar de abutres que já pressentiam novas presas para devorar, enquanto os moradores de San Manuel o olhavam com reprovação, emitindo muxoxos. Guardando o Colt, John respirou fundo e lembrou-se do longo dia que agora teria pela frente. Os abutres teriam que esperar mais tempo por sua carcaça, e enquanto ele caminhava em direção a seu cavalo, um pensamento se repetia:
"Sujeito de sorte. Sujeito de sorte".
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