CAPÍTULO ÚNICO

Tempestade.

Um fenômeno climático caracterizado geralmente por nuvens carregadas, fortes chuvas, raios e trovões.

Também pode significar turbulência de sentimentos. Uma tempestade de sentimentos.

Sofrimento. Dor. Solidão.

Um enorme e turbulento conjunto de emoções misturadas. Algo que te abate e te sufoca até o íntimo de sua alma, de seu corpo, de seu ser. Algo que te deixa maluco somente por tentar entender e raciocinar direito. Não há espaço para razão quando sente uma tempestade em seu peito, uma tempestade de emoções e sentimentos.

Jason Grace encontrava-se no meio de ambos os aspectos que caracterizam essa palavra. Não sabia o que fazer, apenas correr.

A chuva caía sobre o campo com uma força implacável. As gotas pesadas molhavam o jovem homem, que corria pela estrada de terra. Suas roupas estavam encharcadas, os cabelos loiros incrivelmente claros completamente bagunçados e grudavam em seu rosto; porém, ele não se importava.

Nada importava, apenas correr.

Correr. Correr. Correr.

Correr como se sua vida dependesse disso. Fugindo, enquanto um turbilhão de sentimentos subia desde as profundezas de seu coração e sufocavam-no com tanta força quanto um mata-leão. Indo embora como o covarde que era, pois não suportaria ver seu amor com outra pessoa.

Aquela tempestade de emoções, tão forte quanto a chuva, impulsionam-no a apenas correr e fugir. Deixou o sofrimento assolar seu coração.

Doía.

Doía ver que nada do que imaginava seria real. Doía ver que entregou-se de corpo e alma por uma causa perdida. Doía ver que todo seu amor seria jogado no lixo porque as pessoas não podiam aceitá-lo.

Por que era tão difícil aceitarem que ele amava um homem? Por que era tão difícil entender que apenas queria viver ao lado de Percy?

As lágrimas misturavam-se às gotas de chuva em seu rosto. Deixava fluir toda a sua dor e o seu sofrimento e chorava como nunca em sua vida. Chorava e corria.

Jason correu pelo campo aberto até suas pernas fraquejarem, e seu corpo desabou no chão. Arrastou-se pela grama, pouco se importando em sujar a blusa branca feita sob medida. Parou sob os galhos de uma árvore e recostou-se no tronco, mas as lágrimas não abandonaram seu rosto.

Chorava e soluçava tanto que chegou a engasgar, quase não conseguindo respirar. Todas as lembranças com Percy, felizes e tristes, voltaram a sua mente como em um trágico livro de romance sem um final feliz. Jason detestava romances sem finais felizes.

Tudo começou quando eles ainda eram jovens, apenas dois garotos que nasceram em famílias muito importantes para se deixarem levar por escolhas do coração ao invés de pensar somente no bem estar social e financeiro.

Percy Jackson tinha treze anos, e Jason doze. Houve uma grande festa na enorme residência dos Jackson, uma família muito rica e influente da nobreza. Muitas pessoas importantes foram convidadas, incluindo o Duque de Caelum, Júpiter Grace, pai de Jason.

Os dois garotos se conheceram naquele dia e logo criaram um grande laço. Tornaram-se inseparáveis, e Jason não negaria que desde aquela época o outro o fazia sentir-se estranho.

O moreno de olhos verdes e sorriso encantador fazia seu coração palpitar com força em seu peito, como se fosse sair pela boca. Os cabelos escuros sempre desarrumados quando estavam longe de eventos eram um grande charme, assim como seu senso de humor que sempre fazia o loiro rir. Sua presença era avassaladora, chamava atenção por onde passava.

Em meio aquela amizade, seus sentimentos cresceram para muito além com o passar dos anos. E só os deuses sabem o quanto ele tentou esconder isso e qualquer um de seus impulsos, porém era difícil.

A cada vez que se viam, sempre que estavam juntos, tudo o que o Jason queria era poder beijá-lo e estar com ele o tempo inteiro. Ele se apaixonou.

O filho do grande duque apaixonou-se por um homem. Trágico, não? Quando se pensa na sociedade em que viviam, não poderia caracterizar como nada além de trágico. Era algo absurdo, inconcebível.

O dever de Jason era assumir suas responsabilidades como o próximo grande Duque de Caelum e encontrar uma moça nobre para se casar e gerar herdeiros. Mas ele não queria nenhuma jovem moça, nunca se interessou de verdade por nenhuma, por mais que tentasse. Ele queria Percy.

A chuva rugia e abalava o campo onde Grace se encontrava, ainda debaixo daquela árvore. O mesmo campo onde esteve tantas vezes com seu amado, onde lhe fora prometido uma esperança.

As mãos trêmulas foram até o rosto vermelho do loiro, tanto pelas lágrimas quanto pelo forte tapa que recebera momentos antes ao gritar para seu pai que nunca se interessaria por uma garota para se casar, porque ele simplesmente não sentia atração por qualquer figura feminina. Infelizmente, esse é quem ele é.

As pontas de seus dedos tocaram suavemente seus lábios ao lembrar-se do toque doce da boca de Percy contra a sua. Pensou em cada um dos beijos trocados ao longo dos últimos seis anos, desde que o primeiro ocorreu, em seu aniversário de dezesseis anos.

Um baile foi feito por sua família naquele dia. Várias belas moças debutantes da alta sociedade foram convidadas, porém Jason não deu atenção a nenhuma delas. Seus olhos estavam voltados para Percy e como ele estava lindo naquelas vestes formais, quase um príncipe.

O palacete estava animado, e Jason dançou muito com sua irmã, Thalia. A música que soava dos violinos tocados pelos músicos era contagiante. Amou dançar com sua irmã, porém nem se compara a quando, longe dos olhos de todos, fora do salão de baile onde ainda pudesse ouvir a música, dançou com seu amado moreno de olhos verde-mar.

— Sinceramente, prefiro dançar com você aqui do que com qualquer uma daquelas garotas — disse Percy, com a mão estendida para o loiro. — Você me conhece muito melhor.

— Bailes não são justamente para conhecer e socializar-se com outras pessoas, Percy? — Jason arqueou uma sobrancelha com um leve sorriso.

— Quer dançar comigo ou não, caro duque? — O moreno sorriu de canto, e isso derreteu o coração do mais novo. — Não há ninguém por aqui, e ainda podemos ouvir a música.

Jason não resistiu mais e pegou na mão do garoto. Permitiu que ele lhe puxasse devagar para mais perto e instintivamente levou sua mão livre ao ombro do mais velho, enquanto sentia ele repousar a própria com delicadeza em sua cintura.

Ele deixou o mais velho guiá-lo naquela dança, ambos iluminados pela luz do luar vinda do lado de fora, enquanto se movimentavam graciosamente por aquela varanda. Os olhares fixos um no outro, sem desviar um instante sequer, conectados.

Nada poderia explicar a incrível conexão que houve naquele momento. Jason sentia-se nas nuvens e pedia-se na imensidão esverdeada daquele olhar. Percy o olhava com tamanha doçura e serenidade, o coração de Jason começou a bater mais rápido.

— Seus olhos ficam tão lindos sob o luar — comentou o moreno.

O rosto do loiro enrubesceu no mesmo instante, as bochechas ganhando um destaque com a coloração rosada.  Abaixou a cabeça, envergonhado pelo elogio e sem saber como agiu, mas não se afastou.

— Olhe para mim, Jason.

Jason obedeceu, sem forças para resistir, sem saber como resistir a ele.

Seus corpos estavam demasiadamente próximos e ficaram ainda mais, graças ao moreno. Pararam de dançar e apenas permaneceram com os olhos presos um no outro. O verde no azul. Azul no verde.

Antes que pudesse se dar conta, com uma mão em sua cintura e outra acariciando seu rosto, Jason sentiu os lábios de Percy contra os seus. Os olhos azuis fecharam-se após poucos instantes de surpresa, todo o corpo do jovem duque amolecendo e se entregando em milésimos de segundo.

Foi um beijo rápido, simples, casto, singelo. O suficiente para Jason não sentir mais firmeza em suas pernas e tudo a sua volta não significar mais nada.

Aquele foi o primeiro de muitos beijos.

A lembrança o fez sorrir. Um sorriso dolorido. Um leve curvar de lábios em meio a todas as lágrimas que transmitia toda sua dor.

A dor de saber que nunca teria aquilo para sempre.

Foi ingenuidade sua pensar que algum dia eles poderiam ter uma vida juntos. Não havia possibilidade de finais felizes para pessoas como ele naquele mundo. Pessoas que nasceram para amar alguém que não poderiam ter, pois as regras da sociedade não permitiam.

Dois homens juntos? Patético! Onde isso teria futuro? Um verdadeiro absurdo! Um ataque aos bons costumes familiares.

Jason ouviu muito isso em sua vida, o que apenas fazia ele se odiar ainda mais. Sentir-se errado. Defeituoso. Criminoso. Impuro.

Hoje, ele era um jovem de vinte e dois anos que tentava esconder quem realmente era.

Ele tentou lutar contra a tempestade de sentimentos trazida por aqueles olhos verde-mar, mas foi impossível. Quando percebeu, já estava apaixonado. Já o amava.

Como um homem da nobreza e alta sociedade, precisava manter uma boa imagem e reputação. Odiava tudo isso. Odiava não poder ser quem ele realmente é. Odiava esconder sua verdadeira natureza, seu verdadeiro amor. Seu dever era se casar com uma moça nobre, de boa família, que trouxesse benefícios.

Percy tinha tudo aquilo, mas era um homem. Isso bastava para seu relacionamento ser inaceitável diante de todos.

Jason dobrou as pernas e enfiou a cabeça entre os joelhos. Suas mãos se guiaram aos cabelos e começaram a puxar os fios loiros enquanto um alto grito de dor escapava por sua garganta. Gritou até suas cordas vocais começarem a doer, extravasando todos os seus sentimentos em meio àquela tempestade.

Mais uma vez, cada momento ao lado do amado passou por sua cabeça. Não conseguia parar de pensar nele. Não conseguia arrancar aquele amor de seu coração.

Já não sabia mais de onde tirava tantas lágrimas. Uma cachoeira saía de seus olhos azuis sem parar, a todo instante, incessantemente.

Pensou em cada um dos beijos que sucederam o primeiro. Cada momento que escapou de eventos e reuniões sociais para vê-lo. Cada encontro às escondidas. Cada toque por seu corpo.

Quando fechava os olhos, era como se pudesse sentir sua presença, sentir cada beijo depositado em sua pele.

Eles viveram um longo romance às escuras. Um romance proibido, longe dos olhos julgadores de todos.

A grande maioria pensava que eram apenas grandes amigos. Porém, ninguém imaginava o que acontecia quando estavam sozinhos, todas as vezes que se perderam no tempo apenas se beijando.

Ninguém imaginava que, na calada da noite, Percy era quem levava Jason ao céu e o deixava louco, quem o fazia esquecer o próprio nome com apenas um toque.

Eram dois homens agora adultos que se amavam e se entregavam de corpo e alma, que viviam em sua pequena bolha de romance.

Jason se lembrava de todas as sensações da primeira noite junto de Percy, pouco depois de completar dezenove anos. Nunca esqueceria, não importa quanto tempo passe.

Ele foi o seu primeiro, e queria que fosse o único.

JASON!

O loiro pensou estar alucinando ao ouvir aquela voz chamar por seu nome. Abriu os olhos devagar e observou o horizonte. Sua visão estava embaçada pelas lágrimas, e a tempestade não ajudava nem um pouco.

Então ele o viu.

Viu a figura de um homem correr em sua direção, ensopado pela chuva. Os cabelos escuros grudavam por todo o rosto, e a imensidão verde de seus olhos se destacavam na escuridão da noite.

Percy caiu de joelhos em frente ao mais novo e segurou o rosto choroso, suspirando aliviado. Ver aquelas lágrimas tornou mais difícil conter as suas próprias.

— O que faz aqui? — Jason perguntou com a voz baixa e embargada, rouco de tanto chorar e gritar.

— Eu fui ao palacete, mas você não estava lá…

— Uma péssima ideia — disse. — Vai embora, Percy.

— O quê? Não! Eu não vou te deixar aqui.

Jason afastou as mãos alheias, sentindo o peito doer. Seria muito mais difícil assim, tendo que encará-lo. Abaixou a cabeça mais uma vez, chorando ainda mais intensamente.

— Não torne tudo mais difícil, Percy. Não dá mais!

— Amor, por favor, olhe para mim. Por favor, meu amor — implorou o moreno, segurando o rosto do mais novo.

O loiro se recusava a olhar para aquelas orbes verdes, pois sabia que se o fizesse não teria mais jeito. Ele não conseguiria se afastar. Não conseguiria dizer "não" a ele e abandonar aquele sentimento que lhe sufocava.

A dor ficou ainda maior. Ouvir a voz do homem que amava em meio àquela tempestade, sabendo que ele nunca seria verdadeiramente seu, porque eles nunca poderiam ficar juntos. Já estava decidido.

Seu pai havia prometido sua irmã a ele. Jason era um novo pretendente para a princesa daquele reino graças ao contato do pai com a família real. Nenhum deles queria, mas eles não possuíam poder de escolha. Não se pode escolher quando o nome e a reputação da família estão em jogo. Os boatos já começaram a surgir.

— Amor — Percy chamou mais uma vez, acariciando a pele alva com imenso carinho e delicadeza.

Jason acabou cedendo e abriu os olhos. Ele viu dor nos olhos verdes, os quais também começavam a se encher de lágrimas. Mas também viu amor. O amor que ele sente por si.

Um amor que não deveria existir, mas que eles não puderam impedir que surgisse.

Amá-lo já era um jogo perdido.

— Você sabe que isso não vai dar certo, Percy.

— Nós? — perguntou o mais velho, sendo respondido apenas com um aceno. — Nós vamos dar um jeito, Jay. Não podemos desistir.

— Eu já desisti…

Percy comprimiu os lábios, deixando as lágrimas dolorosas deixarem seus olhos. Continuou a acariciar o rosto bonito de seu amado, ambos encarando-se com dor e amor, tudo ao mesmo tempo. Um turbilhão de emoções.

Uma verdadeira tempestade de emoções.

Era tudo tão difícil que desistir parecia ser o caminho mais fácil. Pegar todo aquele amor e enterrar no fundo de sua alma. Trancar tudo aquilo que sentia em um armário e jogar a chave fora.

Jason não aguentava mais esconder aquilo. Parecia muito mais simples apenas desistir de continuar e ceder a pressão de todos.

— Fica comigo, meu amor. Vamos dar um jeito. Eu não vou me casar com a Thalia e nunca vou permitir que você se case com aquela princesinha mimada!

— Meu pai vai me matar se eu não me casar. — O loiro ficou de pé e virou-se de costas.

— Dane-se o seu pai! Eu amo você e não vou desistir de nós dois.

O vento rugia ao redor deles, alto e forte. Percy levantou-se e abraçou Jason por trás, enquanto Jason encostava sua testa contra o tronco daquela árvore. Eles pareciam aquela tempestade. Uma confusão dolorosa de chuva, ventanias e trovões.

Ambos tremiam pelo frio, mas não se importavam. Estavam juntos naquele momento, mesmo que não durasse. Percy queria que durasse uma eternidade.

— Eu sempre serei seu — sussurrou no ouvido do mais novo, enquanto o apertava forte contra si.

O moreno tornou a segurar o rosto do outro entre suas mãos quando ele voltou a ficar de frente para si e o encarou, enquanto Jason apertou o tecido de sua roupa com força entre os dedos.

Sem dizer nem uma palavra a mais, apenas com um olhar, eles se beijaram. Um beijo desesperado, repleto de amor, dor, saudade, sofrimento, desejo.

Percy prensou o loiro contra a árvore, mantendo seus corpos colados. Apertava a cintura delineada que ele possuía, ao que sentia seus cabelos escuros e o tecido fino de suas roupas serem puxados pelas mãos firmes de Jason. Eles eram uma bagunça de beijos e suspiros em meio a tempestade.

Eles eram uma tempestade, tão intensos quanto uma; imprevisíveis, violentos.

— Eu te amo mais que tudo no mundo — Jason sussurrou em meio a um choramingo. — E isso é o que mais me dói.

Percy olhou para o rosto avermelhado, observando a bagunça em que o amado se encontrava. Uniu suas testas enquanto encarava aquela imensidão azul.

Jason apertou o corpo do outro contra o seu com força, sentindo o calor que ele transmitia em meio àquele frio congelante da chuva. Agarrou-se àquele momento como se fosse o último.

O amor deles era uma tempestade tormentosa e imprevisível.

Tempestades podem ser passageiras ou infindáveis, podem transbordar rios ou ferir pessoas. Nunca se sabe o que pode acontecer, assim como eles não sabiam todos os caminhos que aquele relacionamento poderia tomar, embora Jason soubesse que seria extremamente doloroso.

A vida é uma eterna tempestade. Imprevisível e, muitas vezes, machuca. Nem sempre há como se proteger. No mundo em que viviam, seria impossível se protegerem de toda a dor que viria junto a tempestade daquele intenso amor.

Jason apenas queria ter a esperança de poder encontrar um arco-íris no fim daquela tempestade.

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