4.

Carregue um fardo em seus ombros por tempo suficiente e quando ele partir sentirá que pode voar.
Por isso, o latejar na planta do meu pé machucado não me incomoda. Os tapetes felpudos roçam contra minha pele apenas pelo breve segundo de impacto e deixo um rastro de sangue por onde passo. Mas não há um pingo de espírito de desistência em mim. Meus pés agora estão livres. E eu também.
Corro por minha vida. Estandartes e escudos e adornos e vasos passam pelo meu campo de visão como um borrão conforme tudo dentro de mim me instiga a prosseguir. Não sei para onde vou. Não refleti longe o bastante para isso. Sou guiada pelo meu instinto, pela necessidade que leva recém-nascidos ao seio de sua mãe ou pela insistência de um pulmão sedento de oxigênio.
O colar de diamantes e rubis pesa no meu pescoço, golpeia-me a cada salto, então com uma puxada forçada arrebento o fecho e o lanço para trás no trajeto. Ele se queda no carpete, reluzindo a luz do luar que passa pelos amplos vitrais. Será que o experimentarão no pescoço de toda moça do Reino à procura de uma substituta?
Sinto a mudança do terreno, do calor das fibras para o mármore suave e gélido da escadaria lateral que leva para fora ao concreto áspero da saída dos criados que poucos conhecem e que me provém minha chance de escapatória. O alívio que sinto é indescritível quando experimento o toque da grama molhada, folhas e geada envolvendo minha pele, e nada me faz recuar ou diminuir a velocidade.
Nunca tive tanto fôlego. Nunca tive tanta motivação para nada. Eu só preciso sair daqui.
Para reforçar a urgência em meu coração trago à lembrança de forma circular e redundante os acontecimentos das semanas seguintes ao casamento, semanas repletas de tarefas e eventos que exigiam as presenças individuais minha e do príncipe e, por isso, praticamente não nos vimos, exceto por nossa noite de núpcias, uma vez sequer. A distância considerável entre os aposentos reais, cada qual localizado numa ponta do piso, conspirava para que qualquer chance de encontro incidental se tornasse praticamente nula.
Numa manhã, sem anúncio ou alerta, surgiu o Grão-Duque à minha porta, mal acabara eu de ser vestida pelas criadas. Por causa do susto da visita inesperada, emudeci por completo. Sem cumprimentos ou pretensão de qualquer coisa relacionada à cortesia comum, anunciou formalmente que eu e o príncipe faríamos juntos uma aparição pública naquela tarde.
— É do interesse do povo estar informado sobre o bem-estar e a estabilidade de seus governantes. — Explicou, já batendo os calcanhares, anunciando sua saída, e partiu imediatamente.
Pouco antes do horário estabelecido, cercada de um cortejo de nobres e servas, cruzei a metade da distância entre nossos cômodos e observei meu ausente marido fazer o mesmo do outro lado, em total sincronia de tempo e pressa, para que nos encontrássemos exatamente no meio, onde se localizava a sacada que nos revelaria para a multidão. Ao alcançarmos o ponto central, seus olhos cruzaram os meus por apenas meio segundo, só para em seguida desviarem-se para a nossa destinação, ambos voltando-nos automaticamente numa curva de noventa graus para as portas que levavam à tribuna.
— Senti sua falta — sussurrei.
— Sim — foi sua resposta destituída de qualquer emoção, olhos fixos na sacada.
Engolindo minha decepção, caminhamos adiante e fomos recebidos com uma aclamação calorosa de uma miríade de súditos. Foi aí que Henry ergueu minha mão e a beijou. O primeiro toque desde as núpcias. O povo reagiu com uivos e aplausos. Para eles, uma atitude de afeição. Para mim, a revelação particular de um embuste. O primeiro de grandes gestos, de declarações poéticas a danças e canções nos bailes oficiais; gestos que esmoreciam tão logo nos víamos encobertos do escrutínio público. Isso confirmou o que eu já particularmente temia: eu não passava de um símbolo. Não foi por mim que se apaixonou. Foi pelo conceito da princesa nos sapatinhos brilhantes e delicados.
Eu suportaria tudo, suportaria esta morte, se achasse por um segundo que o que tínhamos era real. Ao invés disso, aceitei a fraude pública, mas sua frieza era retribuída em nossas audiências, nas esparsas vezes que, a seu próprio critério, cruzava o trajeto até meus aposentos. Essa era minha única forma de rebeldia, de mostrar que não fora quebrada pelos caprichos da realeza. Por raríssimas vezes, até concedia meu corpo, mas jamais minha alma. Jamais teria acesso ao meu coração.
Um conjunto de árvores frondosas delimitam uma passagem para a floresta, onde o terreno é lamacento e escorregadio. Já caminhei o bastante por aqui para saber que em poucos quilômetros se encontram algumas muralhas que, confesso, serão um tanto desafiadoras, mas não impossíveis de escalar. A escuridão me envolve conforme a folhagem se torna mais densa, impedindo que a luz da lua adentre. Não terei medo. É morte o que me espera? Pois, eu a prefiro à mentira que vivia. Se alguma coisa, o medo apenas me incita. Ele corre pelas minhas veias e é o que libera minhas pernas das garras da lama que tentam segurá-las.
Não vou desistir.
Repito estas palavras para mim mesma à medida que o medo alcança minha pele e o frio penetra meus ossos. Arrepios que me fazem tremer até os pulmões. Minha respiração sai em redemoinhos trêmulos de névoa. Quando chego a uma clareira e disparo em direção à muralha, sou freada bruscamente e deixo escapar um grito agudo quando uma mão se finca firme no meu braço e dou uma topada brusca contra alguém.
— Para onde vai? — Reconheço sua voz, mesmo com a urgência e a rouquidão incomum, antes mesmo de distinguir seu rosto na escuridão. Henry não está com o uniforme militar, o que nunca acontece fora de seus aposentos particulares. Ao invés disso, está vestido com uma camisola larga e leve e calças do mesmo material, já enlameadas pelo contato comigo. Por qualquer motivo, sinto-me constrangida de vê-lo assim, exposto ao ar livre.
— Como... me... encontrou? — pergunto, tentando recuperar o fôlego.
— Você deixou um rastro de sangue por onde passou — diz, aliviando o aperto no meu braço. — O que pensa que está fazendo, Anastasia?
— Eu não posso fazer isso — respondo, ainda resfolegando, as inspiradas forçadas misturando-se a soluços de choro. — Não quero mais, não posso. Não por minha mãe, nem por minha irmã.
— Você não está fazendo o menor sentido. Isso o quê? Estar casada comigo? — pergunta, os olhos em chamas, enquanto segura ambos os meus ombros. Meu pé começa a arder conforme a camada de lama seca e endurece.
— Tudo, apenas tudo. As reverências e a pompa e o teatro para os súditos, o brilho, o viver para o olho alheio, os passos calculados milimetricamente para o público. Eu jamais serei a moça dos sapatinhos! Não posso continuar fingindo... — Minha voz esmorece conforme, de repente, me dou conta do que estou falando e, principalmente, para quem estou falando.
Meu Deus, estou louca? Esse não é apenas meu marido. É nossa alteza real. Um homem que tem vida ou morte nas mãos, sem questionamentos e prestação de contas a ninguém. E não apenas admiti meu engano deliberado, estou tentando fugir de minhas responsabilidades diante do Reino.
O correto, ou o que todos me instariam a fazer, seria ajoelhar-me diante dele e implorar por perdão.
O silêncio total que se prossegue às minhas declarações me causa mais medo do que qualquer coisa que eu poderia encontrar na floresta. Discirno a intensidade com que me encara e sinto novamente vontade de vomitar.
— Você sequer um dia quis ser minha esposa? Por outro motivo que não ajudar sua família? — questiona com uma gravidade e uma frieza que me gelam o sangue. — É por isso que é tão infeliz? Você me despreza? Responda-me! Diga-me a verdade! — brada autoritário e ergo o queixo em desafio, embora meu estômago esteja embrulhado de pavor e minhas pernas estejam prestes a ceder com meus tremores.
Pretendo que entenda minha falta de respostas como desafio e teimosia, quando na verdade não sei o que responder.
A verdade? Qual delas?
A verdade de que um príncipe era o meu sonho de menina? O belo rosto com o uniforme brilhante. Representava o prazer de ser a escolhida entre as milhares. Os sonhos juvenis, as risadas e as brincadeiras de faz-de-conta.
Ele sempre presente, o príncipe encantado. Um enfeite, um alvo.
A verdade de que conquistou meu coração com seu primeiro olhar?
E que o destruiu com o segundo?
Porque seus olhos dançaram ao vê-la.
Mais da metade do motivo pelo qual o queríamos era o privilégio de ser a escolhida e isto me foi roubado.
Naquele dia, decidi que era apenas mais um incapaz de enxergar-me. Não poderia amá-lo. Enterrei meus sentimentos junto com os cacos do meu coração num baú trancado e, assim o esperava, irrecuperável.
Ou a verdade de que despertou minha vontade de resgatá-lo naquela noite?
Quando se fez vulnerável em meus braços, sussurrando confissões e lembranças no travesseiro, o sorriso relaxado e os títulos de nobreza deixados de lado. Quando pareceu me enxergar e, naquele instante infinito na escuridão, ter me escolhido. De novo e de novo e de novo.
— Sim, eu quis ser sua esposa — respondo, por fim, as lembranças embaciando meus olhos sem que eu as autorize, ao perceber que já o quis mais do que tudo. — Mas aturar essa vida é um preço elevado demais para no fim não o ter de fato.
— Então, está decidido — fala gravemente, soltando meus ombros, e cruzando os braços.
— O quê?
Meus dentes trepidam e me questiono se devo me colocar de joelhos para seu anúncio. Ao invés disso, abraço a mim mesma e aguardo.
— Se o seu problema é a corte, só vejo uma solução — diz, estendendo a mão na minha direção. — Foge comigo.
Lentamente e incrédula me aproximo mancando, tentando enxergar-lhe os olhos na escuridão, a luz da lua brincando com seus contornos no meu campo de visão. Não esteja brincando comigo, Henry.
Ele sorri, mas não há humor em sua expressão, apenas o mesmo olhar súplice e indefeso das confissões no travesseiro, repleto de insegurança e esperança. Neste instante percebo que é o mais próximo que Henry algum dia chegará de implorar por algo.
— O que quer dizer com fugir? E suas responsabilidades para com o Reino? — arrisco, tentando fazê-lo chegar à razão antes que o segundo olhar venha e me destrua novamente.
— Existem muitos momentos em que me sinto dividido entre a coroa e quem sou, como homem, princesa — diz, aproximando-se mais, os ombros e pescoço curvados para se aproximarem da minha altura. — E já cometi muitos erros no meu passado. Mas quero que uma coisa se torne clara na sua mente. Não a amei à primeira vista, admito. O que esperava? Você é tanto mais do que apenas sua beleza. Só fui descobrir a extensão de suas qualidades realmente em minha cama.
Abro a boca chocada e Henry se adianta, rindo.
— Perdoe-me a expressão, sei como isso soa. Estou me referindo àquela noite em que descobri seu senso de humor, sua história, sua paixão por sua família e, talvez seja vão da minha parte, mas parecia que eu realmente lhe agradava. Não conseguia acreditar que a ideia do meu tio de selecionar uma jovem a partir de um sapatinho pudesse ter me trazido alguém tão incrível! E espero que entenda que tenha ficado confuso com sua insatisfação no resto do tempo, mas ansiava pelo dia em que aquela mulher assombrosa que encontrei nas minhas núpcias voltaria para fazer uma visita. Eu a esperei e esperei e esperei. E me perguntara o que acontecera com ela. Se desaparecera com o badalar do relógio, como o fim da validade de um feitiço.
Eu o encaro transportada no tempo e no espaço para aquela única noite. Uma única noite que, ao que parece, entrelaçou nossas almas para sempre. Desapareci, sim. Desapareci para mim mesma e não sabia onde estava até agora, aqui, neste momento.
— Eu a reencontrei no meio de cacos quebrados e coberta de lama no sereno da noite, eu a reencontrei aqui, onde sempre esteve, na sua feição quando ousa, quando me desafia e me acolhe ao mesmo tempo num só olhar — conclui com ambas as palmas quentes envolvendo meu rosto, erguendo-o levemente num convite para si. — Por isso, posso afirmar categoricamente que desde o dia em que a conheci realmente, quando você entra na equação, não há dúvidas do resultado. Apenas você. Você sempre será minha escolha, entende agora? Não me importa como a conheci e se um dia você foi a pessoa certa ou errada para mim. Você é minha esposa. E minha lealdade, meu amor, se tornou do dia em diante em que isso aconteceu, para sempre somente seu.
Pode ser estupidez da minha parte, mas acredito em suas palavras. Acredito nesse Henry de vestimentas de dormir, no Henry que não é príncipe e não tem público para entreter. Acredito na nossa intimidade. Acredito que os momentos mais lindos não podem ser compartilhados com ninguém. Em sua forma mais pura, são apenas nossos.
Antes de beijá-lo em resposta e convidá-lo a retornar comigo para o castelo, digo:
— Isso quer dizer que não preciso mais usar cristal nos pés?
— Vou lançar um expedito real proibindo o uso de cristal em todo o Reino! — anuncia e rimos juntos.
— Isso soa um pouco arbitrário — concluo, mais uma vez interrompendo o quase beijo. — Adorei.
Depois de alguns minutos recompensando pela saudade, Henry me ergue nos braços para que não precise pisar no chão com o pé machucado.
— Essa correria toda me deixou faminto — sussurra, enquanto caminha. — Será que Maria nos faria a gentileza de nos preparar uma sopa de abóbora a essa hora?
— Argh, não me fale em abóbora — respondo, revirando os olhos. — Abóbora tem me causado enjôo.
— Tudo bem. Abóboras são a partir de agora proibidas em todo o Reino também — anuncia, sorrindo.
— Certo. Isso está começando a sair do controle — concluo reflexiva, enquanto tento conter uma risada.
— Eu falei, eu escolho sempre você, princesa. Não acabei de provar que a amo mais do que abóbora?
— Sim! E todos sabem que um amor maior do que por abóbora é algo com que sempre sonhei. — Pisco e dou um beijo em sua bochecha. Por fim, sussurro:
— Sem querer abusar do seu bom humor, mas proíba o monóculo e o bigode do Grão-Duque e não peço mais nada na vida.
Ele me encara e sinto que está por alguns instantes tentado pela proposta.
— Eu o faria — afirma. — Mas perdoe-me se não acredito nesse seu 'peço mais nada na vida'.
— Eu disse na vida? Eu quis dizer essa noite — replico, a provocação se manifestando nos meus lábios, enquanto passamos pelo salão principal e Henry sobe as escadas em direção ao meu quarto.
Ele pausa no meio do trajeto para refletir e, me ajustando no colo, lança-me bem levemente para o alto. Em seguida, prossegue na caminhada, dizendo:
— Monóculos e bigodes estão proibidos também, vossa alteza. É, acho que teremos uma manhã bem divertida no Reino.
— Se depender de mim, sim — provoco mais um pouco, deslizando o polegar por seu queixo definido, ciente do espetáculo que seremos para os criados se nos verem assim, sujos e mesclados.
— Depende de você — ele sussurra enquanto passamos pela porta e me lança sobre as cobertas antes de vir acompanhar-me.
No chão repousa um único sapatinho de cristal abandonado.
E vivemos livres e imperfeitos para sempre.





Espero que tenham gostado :))
Esse foi um de quatro contos que escrevi pro primeiro desafio do perfil RealezaBR! Mas ele foi desclassificado por causa da quantidade de palavras hahaha (o limite eram 5000 e esse conto tem quase 10 mil).
MAS ganhou uma menção honrosa *___* FIQUEI FELIZ.
Se você ainda não leu, leia A OUTRA FERA (conto vencedor desse desafio) e SUA SOMBRA.
Um abraço com carinho e obrigada por seu tempo e comentários :))

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