Capítulo XXVII
Anastásia andava por seu quarto inquieta. Era o aniversário de Natasha, mas ela não sabia o que dar de presente para a irmã. Sabia que ela possuía tudo o que queria, o que tornava tudo mais difícil. Como ainda era cedo, e como Natasha acordava um pouco tarde, lhe restava um bom tempo para lhe surgir novas ideias.
Vestiu-se com um vestido simples, uma meia calça cor de pele, um sapato preto de salto pequeno. Suas novas roupas haviam chegado no dia anterior, e todas as suas irmãs foram para seu quarto vê-la se vestir como uma verdadeira grã-duquesa.
Tinha sido um dia bastante divertido entre elas, se aproximaram um pouco mais. Seu maior foco era se aproximar da família, aos poucos estava conseguindo o que queria. Mas seu pai ainda estava afastado, ela sabia que não era porque ele queria, mas queria muito ter um momento a sós com ele.
— Anastásia?
Era como se Deus tivesse ouvido seus pensamentos e tivesse levado seu pai até seu quarto.
— Sim? — saiu do banheiro.
Ele estava com um uniforme branco com medalhas. Seu cabelo estava bem penteado, e sua barba estava aparada. Anastásia achava seu pai simplesmente lindo. Ele transmitia uma grande calmaria para ela, como se nada no mundo pudesse afetá-la.
— Minha filha. — sussurrou, indo abraçar ela.
Anastásia se agarrou ao pai com toda força e saudade que continha dentro de si. Sentiu a cabeça do seu pai pousar na sua, e logo em seguida ele beijou sua cabeça.
— Está tão linda. — afastou-se dela. — Ainda mais parecida com sua mãe. — o czar colocou a mão sobre o seu rosto. — Como se sente?
Anastásia demorou um pouco para responder seu pai, que percebeu sua relutância.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
— Não?
— Absolutamente. — mentiu. — O senhor não precisa se preocupar.
— Quando vai começar a me chamar de pai?
— Preciso ainda me acostumar com tudo. — mordeu o lábio inferior. — Peço perdão se isso o ofende. Jamais foi minha intenção.
— Acalma-se minha filha, está aflita sem necessidade alguma. Preciso lhe informar uma coisa. Não é uma notícia muito agradável, espero que não fique zangada comigo por não ter lhe comunicado antes.
— Diga-me, estou ficando preocupada.
— Seus irmãos adotivos...
— O que tem eles?
— Foram assassinados por Ivan, com vários tiros.
Anastásia sentiu uma pontada forte no coração. Segurou-se no braço do pai, pois sentiu suas pernas fraquejarem. Apesar de não ter tido uma boa convivência com eles, saber que eles haviam sido assassinados era cruel demais.
Começou a chorar, e seu pai a abraçou para tentar confortá-la. Mas nada adiantava, era muita crueldade dois jovens morrerem de uma maneira tão fria. Ivan sem sombra de dúvidas era um mal para todos que habitavam no mundo. Ela gostaria de nunca sentir nenhum sentimento ruim por outra pessoa, mas era impossível não odiar Ivan Tchaikovsky.
— Ache-o.
— É tudo que eu mais anseio durante esses onze anos.
— Ele é um demônio para conseguir se esconder tão bem desta maneira?
— Ele matou a própria irmã. Não comuniquei nada a vocês porque chega a ser algo absurdo demais para eu absorver. Temo por nossas vidas, principalmente pela sua. Não faço a menor ideia dos sentimentos doentios que ele nutriu por você esses anos. — Vladimir suspirou. — Mandei seus pais adotivos para Moscou. Eles estavam muito abalados com a morte dos filhos, e eu compreendo perfeitamente, passei por algo semelhante. Peço-lhe perdão mais uma vez por não ter lhe comunicado sobre isso, mas era totalmente necessário que isso fosse feito imediatamente. Eu sei que eles não trataram você muito bem, mas eu não poderia deixar mais pessoas inocentes morrerem.
— Alguma coisa nessa história não está se encaixando. — Anastásia se afastou do pai e limpou os olhos com a mão. — Ivan e Ygor devem ter algum tipo de comunicação.
— Pensei sobre isso também, mas preciso respeitar o luto deles por enquanto.
— O senhor é sempre assim?
— Assim como? — arqueou a sobrancelha.
— Benevolente.
O czar sorriu, mas o cansaço manifestava em seu rosto.
— Não.
— Então por que está sendo agora?
— Algo me diz que nessa história eu preciso saber de mais coisas. Seu pai adotivo não aparenta ser uma má pessoa, ao contrário da esposa...
— O senhor esteve com eles? — perguntou surpresa.
— Estive rapidamente.
— Quando?
— Assim que eu soube da morte dos filhos deles.
Anastásia colocou as mãos sobre a cintura e respirou fundo.
— Preciso esquecer isso por enquanto.
— Eu sabia que ficaria dessa maneira, por isso não queria lhe dizer nada.
— Não posso fugir das situações difíceis.
— Sim, deve ser forte como uma rocha.
Anastásia sorriu.
— Serei.
— Sua irmã faz aniversário hoje.
— Eu sei. Estava pensando no que eu poderia dar para ela, sendo que a mesma possui tudo.
Vladimir cruzou os braços e sorriu.
— Escute-me minha filha. Por mais que uma pessoa possua tudo, sempre falta alguma coisa. Coisas materiais realmente ela tem em abundância, mas experimente dar algo simples, algo que nasceu do coração inspirado nela.
Anastásia abraçou o pai mais uma vez, era algo prazeroso de se fazer.
— Obrigada, papai.
∑
Anastásia começou a pintar uma flor simples. Feodora arranjou tintas de diferentes tonalidades, a pedido dela. Como precisava fazer escondido de todos, principalmente de Natasha que poderia entrar em seu quarto de maneira sorrateira, como tinha costume de fazer sempre. Então foi para o jardim, já que conhecia o caminho, e sentou-se em um banco.
Resolveu desenhar um buquê de tulipas coloridas. Eram flores fáceis de fazer, apesar de nunca mais ter praticado seus desenhos, achava que poderia se sair um pouco bem. Seus traços não possuíam graciosidade e elegância, mas pensou naquilo depois do que seu pai havia lhe falado.
— Eu não sabia que desenhava.
Anastásia levantou a cabeça do seu desenho para olhar de quem era aquela voz não tão estranha para ela.
Era Phillip.
Sentiu que seu rosto estava ficando ruborizado, mas não conseguia se conter, pois sua vergonha aumentava ainda mais.
— Não muito bem. — gaguejou. — Mas por Natasha irei tentar alguma coisa.
— Tulipas são belas flores.
— Gostaria de vê-las pessoalmente, não por cartões postais.
Phillip riu.
— Compreendo. Na Inglaterra tem bastante delas. Posso mandar trazer algumas. Se quiser, é claro.
— Oh, eu adoraria. — respondeu empolgada e acabou derrubando tinta laranja no sapato dele. — Perdão! Olha o que eu fiz com sua calça. — Anastásia se levantou do banco andando de um lado para o outro. — Como pude ter sido tão desastrada?
— Acalma-se Anastásia. — pegou em sua mão. — Foi apenas um acidente. Essas coisas acontecem.
— Não...
— Apenas fique calma. — abriu um sorriso ainda maior. — Antes que eu perca a coragem, gostaria de lhe fazer um convite.
— Um convite? — seus olhos se esbugalharam.
— Sim, um convite. — exibiu suas covinhas. — Gostaria de tomar um chá da tarde comigo?
— É... bem...
— Se o problema for seu pai, falarei com ele. Preciso apenas de uma resposta sua.
Anastásia ainda estava atônita. Jamais esperaria ser convidada por um príncipe da Inglaterra para alguma coisa. Mas precisava sair do seu estupor para respondê-lo, ou ele acharia que era uma completa idiota.
Acalmou-se mais, relaxou seu corpo, e finalmente conseguiu respondê-lo.
— Eu aceito.
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