Capítulo 7

Lydia

O céu escurecia, anunciando a primeira chuva da estação. Era possível ver as tochas acesas na vila, e ouvir as comuns risadas altas vindo da taverna dos três passos, localizada bem na entrada de Rainelle.

— A comemoração já deve ter começado na taverna. — Olsen falou. — Vamos passar na sua casa para deixar o cervo e nos lavar antes de ir.

— Sabe que não vou nessas coisas, Olsen.

— Todos devem estar lá Lydia, vamos! Vai ter tanta gente que não vai precisar falar com ninguém.

Lydia piscou enquanto encarava a taverna, realmente a multidão apertada naquele pequeno lugar a incomodava, mas não mais que as chatas e sufocantes interações sociais quando a maioria das pessoas estava bêbada.

— Vamos Lydia, ou vai perder a chance de ver a voz mais doce do Norte se apresentar. — Olsen falou, parando de caminhar para olhá-la nos olhos.

— E quem seria este?

— Eu, é claro! — Ele falou, dando uma piscadela.

Ela sentiu suas bochechas se aquecerem e seu estômago se revirar. Isso acontecia toda vez que Olsen piscava para ela, sorria para ela, ou mesmo quando ele lhe dava uma pouco mais de atenção. Ela se sentia uma boba, Olsen tinha todas as garotas da vila aos seus pés e não a via como mais do que uma irmã mais nova, como ela já deixara claro algumas vezes. Mas mesmo assim, ela não conseguia conter suas reações perto dele. Ela gostava dele, sempre tinha gostado.

— Tudo bem. — Ela falou vencida. — Não poderia perder você pagando mico.

Olsen levantou os braços soltando um grito de vitória.

— Não vai se arrepender, Lydia. — Ele disse por fim.

Não demorou para estarem na porta da taverna dos três passos. Lydia tinha se lavado rapidamente, e depois de constatar o estado deplorável de seu vestido, pegou um emprestado de Jolane, que a esta altura já devia estar na taverna, assim como seus irmãos. A chuva já estava caindo, fina e gelada, forçando Lydia a usar sua capa preta surrada. O cheiro de terra molhada se confundia com o de carne assada e sopa de coelho que vinha de dentro da taverna. Assim que abriram a porta de madeira, o ar quente que vinha de dentro se chocou contra seus corpos gelados.

A taverna de Rainelle estava lotada àquela noite, todos estavam esperando a competição de canções.

— Olsen! — Lydia ouviu a voz de Falina chamar. — Como foi a caçada?

— Ótima! Conseguimos um esquilo e um cervo. — Olsen respondeu, sorrindo.

— Ouvi dizer que quase não tem caça na floresta. — Luren falou se juntando a conversa. — É o melhor caçador da região, Olsen!

— Na verdade, fui eu quem atirou no cervo... — Lydia começou.

— Com certeza, Olsen é o melhor! — Falina interrompeu.

Lydia revirou os olhos, e bufou, fazendo Olsen gargalhar, mas antes que ele pudesse dizer algo, Joly, a dona da taverna chamou a atenção de todos.

— Sei que devem estar com fome! O jantar está quase pronto, mas antes temos uma competição a começar. Infelizmente tivemos um número pequeno de competidores inscritos. — Joly falou, arrancando vaias dos fazendeiros. — Mas é como dizem, é melhor a quantidade do que a qualidade. Ou seria o contrário. Bom, vocês entenderam. O primeiro competidor é Bern!

A taverna explodiu em palmas e risadas, enquanto Bern subia no palco improvisado. O barulho cessou por completo quando o mestre de curtume limpou a garganta e começou a cantar com sua voz grave. A canção desajeitada falava sobre os diferentes tipos de couro e seu manejo. Era incrivelmente tediosa, fazendo Lydia bocejar.

— Parece que está com sono, lin, trouxe um pouco de bebida. A cerveja de trigo das montanhas de Joly é a melhor. — Ela ouviu Olsen sussurrar perto de seu ouvido.

Antes que pudesse responder, a música de Bern acabou, fazendo a taverna novamente explodir em palmas.

— Acho que é minha vez, preste bastante atenção, lin, vai adorar o que está por vir.

Lydia viu Olsen, atravessar facilmente o salão lotado, e subir no palco. Ele limpou sua garganta, enquanto ela bebeu um gole em sua bebida. Então ele começou com sua voz forte e rouca.


Esta é uma história

de fato triste e singela

então eis a trajetória

de um cavalo, dum Celariano

e duma donzela.


"Que mais formosa donzela"

Disse o Celariano excitado

"Vou logo atrás dela,

no meu novo cavalo"


"Não terá chance alguma,

Celariano, seu tolo,

Não vê que a donzela,

não quer nenhum bobo?"


"Meu cavalo, o que é isso?

Não devia falar,

Cavalos não falam,

não sabe seu lugar?"


"Não vê de onde venho?

Sou do Norte e além,

não tenho um dono,

não sou de ninguém"


"Não vê minha força?

E rapidez sem igual,

não tenho um mestre,

Sou do Norte tal qual"


"É meu por direito,

por você eu paguei,

não me irrite, cavalo,

ou terá o que merecer,"


"Celariano, apostaremos então,

para aquele que conquistar a donzela

a decisão sobre minha liberdade,

ou minha eterna escravidão."


"Não tem chance alguma,

Aceitarei sua proposta,

se eu ganhar deve então

obedecer-me em resposta."


O que aconteceu em seguida,

foi de fato curioso,

aproximou-se a donzela querida

com semblante audacioso.


"Não se pode possuir,

Aquilo que possui um coração,

Meu amor não deve ser apostado

nem em parte ou fração."


"Não sabes o que fala,

Tudo aquilo que vê é meu,

Uma vida de luxo ao meu lado,

ou a miséria que sempre temeu"


"Celariano, seu tolo,

O Norte a ninguém pertence,

Mas se devo escolher,

o cavalo é quem vence"


"Não vê de onde venho?

Sou do Norte e além,

não tenho um dono,

não sou de ninguém"


"Não vê minha força?

E rapidez sem igual,

não tenho um mestre,

Sou do Norte tal qual"


Lydia tinha entendido perfeitamente a música, assim como todos os presentes. Olsen cantava sobre a liberdade do Norte. O cavalo era o espírito livre e forte do norte, a donzela, o destino, e o celariano, o Rei tirano que tinha escravizado aquilo que nunca iria ter alma de escravo. Assim como ela, a taverna agora cantava determinada o refrão, junto com Olsen. Alguns choravam, outros, sorriam. Mas todos ovacionaram quando a música finalmente acabou.

— Acho que nem precisamos escutar as outras. — Joly, falou. — Olsen é o vencedor!

A plateia mais uma vez explodiu em gritos, palmas e vivas.

— As inscrições dos jogos estão oficialmente abertas. — Joly falou — Deseja falar algumas palavras, campeão?

— Claro! — Ele falou silenciando a plateia. — Estou anunciando que eu e Lydia participaremos dos jogos esse ano.

— Não mesmo! — Lydia gritou, se virando em direção à porta da frente, enquanto todos a observavam.

— Hay yurim. — Ele falou alto o suficiente para ser ouvido por todos na taverna. — Eu te desafio.

Imediatamente a taverna caiu no silêncio. O desafio na época dos jogos era uma aposta de extrema importância, era uma demonstração de honra e força, e por isso recusá-lo era inaceitável. Lydia bufou.

— Yurim vatae. — Ela respondeu. — Desafio aceito.

— Yurim. Yurim. Yurim. — O mantra do desafio era entoado por toda taverna, enquanto Lydia e Olsen se dirigiam ao papel de inscrição.

Ela se sentiu encher de confiança, e seus olhos brilharam de antecipação. Lydia adorava competir, assim que assinou seu nome no papel, Joly anunciou que o jantar estava servido, finalmente tirando a atenção de todos de Lydia. Olsen sorria pra ela, mas assim que ela percorreu os olhos pelo lugar, Lydia viu que uma pessoa ainda a encarava. Era Jolane, preocupada.

Obrigada por lerem! Cometem, e não se esqueçam de deixar a estrelinha!

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