Capítulo 2
Ficaram sozinhas sem saber o que dizer. Hormar decidiu quebrar o silêncio porque, como dizia a canção "Fools said I, You do not know Silence like a cancer grows[...]"1. Ela preferiu matar logo o cancro neste, provavelmente, sonho estranho.
- Então vocês perceberam alguma coisa? Quer dizer, eu até percebi, mas ao mesmo tempo, não percebi...
- Sim. É algo estranho. Mas por exemplo, Hormar, também é um pouco estranha... A forma como se veste... como fala... Aliás se virmos bem somos todas estranhas umas para as outras. Se bem que, eu conheço a Louisa, a Mary e a Ada mas daquilo que li sobre todas elas. Peço desculpa Hormar mas a si não a conheço. Disse Ursula Le Guin.
Hormar fez uma cara de, "ah não se preocupe" e disse:
- É natural! Eu não sou ninguém. E riu-se.
Todas se riram, não por achar que Hormar não era ninguém, mas talvez porque precisavam relaxar.
- Ok. Vamos fazer aqui um ponto da situação. Temos uma biblioteca composta por tudo aquilo que poderíamos ser e está simplesmente a desaparecer, os livros da estante. Temos a biblioteca de vidro com a história como a conhecemos e temos que apreservar também. Não sabemos quanto tempo temos, como podemos travar o processo e efetivamente o que poderá resultar do nosso falhanço. Sabemos apenas que para além da história, também os fios do destinos se começam a desvanecer, ou seja, o mundo ao redor está a entrar em colapso. Precisamos investigar e perceber porquê. Concordam?
Entreolharam-se com expressões de "nem sei"...
- Hormar, certo? - Ela acenou que sim com a cabeça. - Não sei se falo por todas, mas creio que devemos começar a tentar perceber o início disto tudo. Por exemplo, porque estamos aqui, seis mulheres, diferentes, e desconhecidas. Contudo, não a conheço a si, nem à Úrsula. Creio que vocês serão doutro século. Mas porquê aqui, que na verdade ainda nem percebi bem onde estamos, tirando que estamos numa biblioteca, mas não sei o país, o ano, e tudo o resto que já foi falado. Para além disso, se é uma biblioteca com informação daquilo que poderíamos ser e não daquilo que somos, não põem em causa a nossa História nem memórias... Sim?
- Sim, sem dúvida Virginia, concordo consigo. Mas isso só em relação ao livros. Eu sou do séc.20 e a Hormar do século 21, mas também temos as mesmas dúvidas. Portanto, se me permitem, achava bem dividirmo-nos por grupos, talvez duas a duas e tentarmos ver se encontramos mais pessoas e talvez algumas respostas?
Sim, acho bem - disse Ada.
Úrsula e Louisa, Ada e Virginia, e Hormar e Mary.
Dividiram-se e foram tentar ver o que acontecia nas outras divisões.
Ada preocupada com o que tinha visto, um livro a desaparecer, esfumando-se simplesmente, quis logo perceber o que aconteceu. Porque teria acontecido isso?
Sabia que tudo o que tinha pensado até aqui já tinha sido ultrapassado. Estava claramente numa outra era, talvez numa outra dimensão... Teria capacidade para perceber o que se passava? Acabou por verbalizar estes receios com Virginia.
- Não consigo entender. Viemos parar a uma era muito diferente da nossa. Tudo está diferente, tudo aquilo que imaginava, está muito mais além, não sei bem que contributo podemos dar para solucionar este problema Virginia.
- Estamos aqui por alguma razão, e se a mesma não está percetível de imediato, temos que continuar à procura do problema e da solução, não te parece?
Ada olhou para Virginia com um ar de surpresa e ao mesmo tempo de orgulho.
- Sim, sim. Tens toda a razão!
Continuaram a explorar e de repente Ada pára em frente a uma estante e lê "Projeto Babbage". Estende o braço para pegar no livro e este desaparece. Ada ficou irritada e dececionada. Virginia percebeu que Ada estava chateada mas não sabia porquê.
- Ada que se passa? Estás bem?
- Não, não estou. Temos que descobrir o que faz com que os livros estejam a desaparecer. Deve haver alguma divisão com máquinas.
- Vamos tentar encontrar então, mas não queres contar o que aconteceu que te deixou irritada?
Ada não queria ter que estar a explicar e disse:
- Tentei pegar num livro mas antes de conseguir ele desapareceu. Isso chateou-me.
- Vamos ver se descobrimos que se passa! Disse Virginia assertiva.
Abriram algumas portas mas eram salas de leitura, com estantes recheadas de livros. Não desistiram, até que Virginia:
- Ada! - Chamou Virginia
Ada foi ao encontro de Virginia. Esta, estava com a mão no puxador de uma porta a espreitar lá para dentro. Quando Ada se aproximou, Virginia abriu a porta e puderam ver uma sala enorme sem janelas e com uma máquina no centro, com vários braços ligando-se a outras pequenas máquinas, umas e outras todas ligadas entre si. Aproximaram-se e perceberam a forte energia que se sentia naquela sala. Estavam extasiadas!
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