Passado e presente
X
- Por que você foi embora?
- Infelizmente surgiram compromissos inadiáveis na capital - justificou Melissa.
- Podia ao menos ter me telefonado.
- Mãe! A senhora sabe como é este meu trabalho. Algumas vezes tenho que mergulhar muito fundo e ficar totalmente concentrada nele.
- E quanto aos nossos problemas em Chanbuts? Não vai fazer nada para ajudar a cidade?
- Me desculpe, mas os moradores não querem ser ajudados. Perdi uma semana da minha vida neste vilarejo que a senhora chama de cidade.
O telefone ficou mudo e pouco tempo depois ambas riram muito.
- Você não muda nunca, Mel!
- Não me chame assim, mãe! Não sou mais criança - disse ela rindo novamente - Se cuida! Se quiser pode passar uns dias aqui no meu apartamento, junto com meu pai. Só até as coisas se resolverem em Chanbuts...
- Eu agradeço, Mel, mas prefiro ficar aqui. Adoro esse lugar. E confio na sua intuição: se diz que as coisas vão se resolver, ótimo!
Houve um silêncio incômodo de alguns segundos, até que Melissa o quebrou.
- Em todo caso...
- Diga, minha filha.
- Tente descobrir mais sobre o passado do jovem Mart, como o chamam por aí. Os moradores que entrevistei não me disseram nada sobre ele, talvez por eu ser uma forasteira.
- E eu também não sou?
- A senhora foi, mas hoje já não é mais. Se descobrir algo, me manda uma mensagem. Gostaria de saber mais sobre ele.
- Farei isso!
Elas se despediram e a Sra. Andres aproveitou para tomar um bom gole de café puro e sem açúcar. Ordens do médico.
Estava se sentindo velha, principalmente quando todas as coisas boas da vida não podiam mais ser aproveitadas, em nome da saúde e do desejo de viver para sempre.
- Quer saber, que se dane!
Pegou outra xícara e encheu de café, adicionando creme e uma colher de chá de açúcar. Bebeu lentamente, saboreando o delicioso aroma do café importado do Brasil.
Nem reparou que o marido a observava exibindo um sorriso, na soleira da porta.
- Está bem! Me pegou em flagrante. Eu me entrego.
Ele a abraçou e depois abriu a porta, para ler seu jornal na varanda.
- Saia um pouco, meu amor. Vá dar um passeio na casa das amigas.
- É isso mesmo que eu vou fazer.
Ela saiu e foi direto para a casa da Sra. Grondy, para ver como ela estava. Havia ficado dois dias no hospital, se recuperando de uma lesão na cabeça, mas importunara todo mundo por lá, até que a liberaram.
Bateu à porta e em menos de um minuto, ela apareceu vestindo um robe rosa.
- Vim ver como a senhora está!
- Entre, por favor, Sra. Andres. Já tomou café?
- Sim! - respondeu ao se sentar no sofá maior - Mais lhe acompanho em outra xícara, se for tomar.
Algum tempo depois a Sra. Grondy retornou com uma travessa contendo um lindo conjunto de café. Enquanto se servia, não pode deixar de elogiá-lo.
- Foi presente da minha filha. Um dos poucos que ela me deu.
- Muito lindo, realmente. Deve ter custado caro.
- Suzi deve ter economizado bastante.
- Falando na sua filha, ela ainda não retornou?
- Como disse?
- Sua filha ainda não voltou para casa?
A Sra. Grondy olhou para o vazio.
- Minha Suzi, sabe, é uma boa garota. Tenho fé em Deus nisso! Mas ainda está um pouco perdida neste mundo. Não teve o pai para auxiliá-la na criação, ser um exemplo. Acredito que isso lhe fez falta.
A Sra. Andres deixou que ela continuasse, demonstrando completo interesse no assunto.
- Eu estou acostumada com os sumiços dela, mas acredito que em breve ela voltará para casa. A Suzi sempre volta...
- E não tem receio que ele lhe faça mal?
Por um pequeno lapso de tempo, a Sra. Grondy pareceu desorientada, mas logo se recompôs.
- Ora, de quem a senhora está falando?
- Do jovem Mart! De quem mais seria?
- Eu não...
- Eu sei que já conversamos sobre isso antes, quando andei bisbilhotando sobre o assunto e me disse que era impossível que ele a tivesse levado, mas depois do trote das cabeças, não mudou de ideia?
- Eu não sei sobre o que pensar - respondeu ela tristemente.
A Sra. Andres continuou, lhe segurando a mão.
- Desculpe vir aqui tocar nesse assunto que lhe incomoda tanto, mas saiba que eu compartilho da sua esperança.
"É que não sei nada sobre esse jovem Mart, nunca o conheci, nem sei porque o chamam assim..."
- É por causa do pai! - disse a Sra. Grondy dando de ombros - Ele era um rico fazendeiro que viveu aqui em Chanbuts a vida toda, até aquela tragédia em sua família.
A Sra. Andres se serviu de mais uma xícara de café e fez um gesto para que a anfitriã continuasse.
- Havia um costume em nossa cidade que se encerrou em 2005, justamente por causa deste episódio. Todos os anos, nas sextas-feiras 13, independente do mês em que caiam, fazíamos em Chanbuts uma festa na praça principal, inspirada no Dia das Bruxas.
"A esposa dele, Michelle, não era daqui. Era uma mulher de cidade grande, sabe? Ah, a senhora sabe, é da capital..."
- Sei bem como é, mas prefiro o interior, é muito mais sossegado - disse a Sra. Andres exibindo seu melhor sorriso de ex-gerente de banco - Mas prossiga, é uma história interessante.
- Bom, o velho Mart a adorava. Ela era uma negra linda e alta, com o sorriso mais branco que já vi na vida. Como ela não gostava de ficar na fazenda, ele comprou uma casa pra ela aqui no centro. Só que ele tinha muitas coisas para resolver na fazenda e às vezes Michelle passava dias sozinha aqui.
"Ela era uma mulher requintada, que fazia questão de mostrar que tinha dinheiro e as pessoas mais simples de Chanbuts a evitavam, alguns pelo seu exibicionismo e outros por preconceito. Tenho certeza disso! E Michelle também não suportava essas comemorações que a cidade fazia. Ela dizia para quem quisesse ouvir que era uma tremenda perda de tempo e era bem por isso que Chanbuts nem aparecia no mapa de Ohio."
"Calhou que na sexta-feira 13 de maio deste ano Michelle estava sozinha na cidade com o filho, enquanto o velho Mart cuidava dos seus negócios. Hum, a senhora tem filhos?"
- Só a minha menina que não tem mais nada de menina, que a senhora conheceu.
- Mas sabe como são os garotos, não é mesmo?
A Sra. Andres fez um gesto positivo.
- Sempre houve uma porção deles atrás da minha filha...
- Bom, os meninos daqui já provocavam muito o jovem Mart por causa do esnobismo da mãe. E nessas épocas de festa, então, eles ultrapassavam os limites.
"Toda vez que ela vinha para a cidade, trazia o filho junto, pois ficava mais fácil para que ele fosse para a escola. Naquela semana fatídica os garotos convenceram o jovem Mart a participar das festividades da sexta-feira, escondido de Michelle, que não aceitava que ele participasse destas frivolidades."
"Disseram pra ele que faltava um garoto, pois estavam em 12 e 13 seria o número correto. O enganaram dizendo que ele seria o membro mais importante do grupo e Mart, carente de aceitação, resolveu participar. O que mais um garoto de 13 anos poderia pensar?"
- É realmente uma idade complicada. Uma fase bem rebelde.
- Certamente que era! Mas continuando, cada um deles saiu naquela dia 13 carregando uma cesta com 13 ovos e a noite, escolheram 13 casas para jogar esses ovos. A casa de Michelle entrou na lista, como a décima terceira casa. Eles disseram para o jovem Mart que a ordem do ataque às casas era de acordo com o tempo do garoto no grupo. Então, como a senhora pode perceber, ele teria que jogar os ovos na própria casa.
"Segundo contaram-me depois, Mart começou a atirar os ovos timidamente, mas depois adorou a sensação e parecia haver raiva em seu gesto. Mesmo quando os outros garotos soltaram bombas para acompanhar os ovos, ele não se importou. Até mesmo quando sua mãe apareceu gritando com todos, ele terminou o serviço e saiu correndo, rindo, com sua fantasia de porco bege..."
Uma conexão pareceu abalar a Sra. Grondy, que suspirou profundamente, mas logo se recompôs.
- Depois desse dia, Michelle decidiu ir embora da cidade. Entrou com um divórcio infernal contra o velho Mart, tentando lhe arrancar tudo, mas antes que se separassem definitivamente, durante o conturbado processo, acabou adoecendo gravemente e em pouco tempo veio a falecer. O pai começou a beber muito, ficou ruim da cabeça, falava sozinho, quase maltrapilho, de dar dó, já não deixava ninguém se aproximar dele. Até que se tornou agressivo e acabou parando num hospício de Springfield.
- Meus Deus, que história triste! E o jovem Mart?
- Foi embora da cidade, não se sabe direito. O único irmão do seu pai já morava em Chanbuts na época, mas nem pareciam da mesma família. Ele nunca aceitou que o irmão se casasse com uma negra, era um tipo muito antiquado. Dizem que o jovem Mart foi levado por uma tia qualquer, da família de sua mãe. Ninguém gosta de falar muito sobre o assunto, todos preferem esquecer que eles viveram aqui, inclusive suas propriedades ficaram abandonadas até que em 2016, se não me engano, foi tudo vendido.
- E de repente o jovem Mart volta... - interrompe a Sra. Andres se levantando - Acredito que já tomei tempo demais da senhora, não é mesmo?
- De jeito nenhum, volte quando quiser.
Antes de sair, a visitante segurou novamente nas mãos da Sra. Grondy e lhe deu um gentil sorriso.
- Continue rezando, pois tenho fé que vai dar tudo certo - disse e se foi, sem ter certeza que de fato acreditava em suas próprias palavras.
XI
Ainda era madrugada de uma nova sexta-feira quando Mart Klosen olhava com desprezo para o homem que roncava no sofá.
Ele o conhecia desde garoto. Nesta época ainda o achava um exemplo a ser seguido. Hoje, se pudesse escolher ser qualquer coisa no mundo, a última profissão que escolheria seria a de um homem da lei.
Era muito mais divertido estar do lado contrário - disse para si mesmo e soltou um pigarro alto, depois outro, conseguindo fazer com que o xerife abrisse os olhos.
- Bom dia, Sr. Maguerry!
Quando ele fez menção de pegar o revólver que deixava sob o travesseiro, Mart não esboçou nenhuma reação, a não ser sorrir.
Mesmo quando o xerife lhe apontou a arma com a tremedeira característica, ele não moveu um músculo do rosto negro.
O jovem Mart era mais alto que a falecida mãe, tendo quase um metro e noventa, e o tipo de serviço que fizera nos anos que ficou longe de Chanbuts o tornaram um homem muito forte, mas não era nada disso que assustava o Sr. Maguerry. Era a frieza daqueles olhos.
O xerife abaixou a arma e a recolocou sob o travesseiro.
- Enfim um pouco de sensatez - brincou Mart mostrando seu sorriso falho - O senhor sabe porque estou aqui!
- Eu fiz tudo como mandou!
- Então de onde surgiu a branquela de cabelos de fogo?
- Foi a mãe dela! Eu não sabia que ela tinha uma filha na polícia...
- Fez mal o seu trabalho, xerife! Muito mal... - Mart balançou diversas vezes a cabeça de forma negativa - Muito, muito mal!
"Mas me conta, meu velho, por que está dormindo no sofá? Brigou com a patroa?"
O Sr. Maguerry ficou vermelho enquanto o visitante gargalhava.
- Temos que fazer algo a respeito, xerife! Esse seu erro não pode passar impune, não para mim. E eu já sei exatamente o que eu vou querer.
"Como fez toda essa merda e colocou quase todo meu belo plano a perder, o senhor terá a honra de escolher a minha próxima vítima. Tem um minuto pra isso, se não levarei sua esposa mesmo. Ela já o colocou para dormir no sofá, seria um favor que eu estaria lhe fazendo, tenho certeza."
O xerife pensou que poderia meter uma bala na cabeça daquele maluco e livrar o mundo de um monte de lixo, mas sabia que ele era inteligente e tinha a sua neta presa como refém em algum lugar, então não podia arriscar.
Assim, para ganhar tempo, falou a primeira coisa que lhe veio a mente.
- Pode levar a mãe da policial. Foi ela que causou todo esse transtorno...
- Pensou rápido, mas errado novamente, companheiro. A família dela não tem nada a ver com o que aconteceu no passado. O senhor sabe muito bem de quais famílias deve escolher e o seu tempo está acabando...
Um suor frio escorreu pela face do xerife e quando o jovem Mart se levantou da cadeira que arrastara para perto do sofá, ele não teve mais dúvidas.
- Leve o Steve...
Mart parou com uma mão no corrimão que o levaria para o quarto da Sra. Maguerry, mas não olhou para trás.
- O Steve? Aquele bêbado miserável? Quem vai sentir falta dele?
- Toda a sua família ainda reside em Chanbuts. Eles vivem resolvendo os problemas que ele arranja...
- Não sei não! Acho que gostam mais da sua esposa na cidade, xerife. Ela ainda ajuda na igreja?
- Leve o Steve, por favor, você sabe que a maldita ideia dos ovos foi dele.
Mart se virou e encarou o xerife com nojo.
- É bem a sua cara! A de um grande covarde! Prefere que eu coloque as mãos em alguém que quando criança fez uma grande besteira. Tudo para livrar seu próprio rabo. Estou pasmo!
O homem negro aplaudiu e retornou até próximo do sofá.
- Mas é uma boa escolha, meu velho. Eu só estava blefando, jamais levaria duas pessoas da mesma família...
O Sr. Maguerry suspirou aliviado e resolveu arriscar.
- Mas não serão 13 famílias?
Mart colocou uma mão sob o queixo, demonstrando uma surpresa falsa e exibiu um sorriso diabólico.
- Começo a achar que o senhor não é tão burro quanto parece!
Fechou o rosto e antes da sair pela porta da sala, deu um último aviso.
- Cuide para que mais nada me atrapalhe, homem, pois posso mudar de ideia e lhe fazer mais uma visita.
"E desta vez, não lhe darei uma chance de escolher..."
XII
No dia 2 de julho de 2018 a Sra. Andres descansava em sua varanda, aproveitando um belo fim de tarde proporcionado pelo Verão, quando viu o xerife carrancudo caminhando em direção a sua casa, com seus dois ajudantes, um de cada lado.
Por um momento ela imaginou divertida que pela seriedade deles o objetivo daquela visita seria para prendê-la, mas a princípio não houve emoção alguma.
Pelo menos a princípio...
- Aceitam um suco gelado, senhores? Para refrescar essa segunda-feira quente? - disse ela, apontando para sua mesinha com rodas, estacionada ao lado da cadeira.
- Sra. Andres, como tem passado? - disse educadamente o Sr. Maguerry e antes que ela respondesse a cortesia, prosseguiu - Peço a gentileza de que a senhora, no futuro, antes de pedir ajuda da sua filha policial, venha conversar comigo antes. Como eu bem disse a ela, antes de mandá-la embora de Chanbuts, temos tudo sob controle por aqui.
A Sra. Andres se preparava para retrucar a altura daquele falastrão, mas ele conseguiu ser mais rápido no gatilho vocal.
- E aqui está um convite para uma reunião especial do conselho, que ocorrerá nesta sexta-feira, no mesmo horário de sempre. Estamos planejando o retorno de um evento que acontecia em nossa cidade e eu gostaria da sua importante opinião nesta reunião. Agora temos que ir, pois houve a queda de um barranco junto a uma estrada e precisamos ver se a situação é grave.
O xerife se despediu com um sorriso enquanto ela ficou olhando para o envelope em suas mãos, com vontade de bater nele, se pudesse.
Entrou em sua casa, jogou o envelope sobre a mesa e se sentou emburrada no sofá. Estava cansada, não dormira bem durante a noite quente e sufocante e acabou cochilando.
Ao acordar, mais tarde, pensou em ligar para a filha e falar sobre o episódio com o Sr. Maguerry, mas antes apanhou o envelope para o jogar no lixo. Por uma questão de simples curiosidade, abriu o mesmo e pensou que a princípio estivesse vazio, mas ao olhar direito viu uma pequena folha, que devia ter sido arrancada de uma agenda e dobrada várias vezes.
Típico! - pensou com desdém
Desdobrou o papel e o leu rapidamente, tendo que se sentar, pois a sua pressão oscilou, diante da única frase escrita.
"Peça para Melissa me ligar de madrugada, pois sei quais serão as próximas vítimas..."
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