Capítulo 44

A primeira semana passou voando, e eu não fazia ideia do que faria. Jejuava, orava, buscava direção na palavra de Deus, mas o mesmo permanecia em silêncio. Certa tarde estava em minha sala conversando com Ashley e Pamela acerca do evento que ocorreria dali a dois meses, o último evento importante do ano. Fazíamos o nosso cronograma quando Megan aparece com uma expressão estranha no rosto.

- Bom dia, senhoritas! - Diz formalmente.

- Bom dia! - Respondemos da mesma forma. Ela olha para mim e vejo nervosismo em seus olhos.

- Ana, poderia vir comigo por um instante?

- Claro, Megan! - Levanto-me e olho para as mulheres à minha frente - Já volto!

Acompanho minha chefe em silêncio até sua sala. Chegando, fecho a porta e me sento de frente para ela, que olha para todos os lados desviando dos meus olhos.

- O que está acontecendo? - Pergunto sem rodeios. Ela suspira e vira seu notebook para mim. Aproximo-me e leio o conteúdo do e-mail.

"Senhorita Sullivan,

Muito me impressiona a sua insistência em querer nos convencer a permanecermos com a senhorita Bianchi em nossa equipe. No entanto, a decisão já foi tomada!

Infelizmente demitiremos a funcionária após o desfile de inverno. Conto com sua ajuda para preparar o ambiente, se é que a senhorita me entende.

Cordialmente,

Adriana Herrera."

Olho para Megan em silêncio, ainda digerindo as informações. Respiro profundamente e engulo em seco.

- Elas irão me demitir. - Não era uma pergunta, mas Megan assente.

- Eu sinto muito, Ana! Eu tentei convencê-la, mas tudo foi em vão. - Suspira se levantando.

- Tudo bem, Meg! - Faço o mesmo - A minha vida está nas mão de Deus! - Ofereço um sorriso reconfortante.

- Admiro sua fé, Ana! - Diz vindo em minha direção e me envolvendo em um abraço - Apesar de ter esse jeito durão, quero que saiba que você é uma amiga querida e uma excelente profissional! Farei de tudo para te ajudar a encontrar um novo trabalho.

- Creio que isso não será necessário. - Afasto-me sorrindo ainda mais ao me dar conta do que tinha acabado de acontecer.

- Como assim? - Olha-me confusa.

- Após a NYFW, tive uma reunião com o Alain Wertheimer. E ele me convidou para me juntar a eles. - Ela arregala os olhos desacreditada.

- O CEO da Chanel? - Pergunta.

- O próprio!

- Ana Clara Bianchi! - Coloca as mãos no rosto - Você tem noção do que isso significa?

- Tenho! - Mordo os lábios tentando conter o imenso sorriso em meus lábios.

- Que ninguém me escute... - Sussurra olhando para a porta - Estamos falando da Chanel!

- Eu sei!

- E será aqui em New York ou em outro lugar?

- Em Paris! - Digo suspirando.

- Paris? França? - Arregala os olhos colocando uma mão no peito - OMG! - Segura minhas mãos - Querida, voe! - Abraço minha chefe mais uma vez. Jamais esqueceria o que Megan fez por mim desde o início da minha carreira, até hoje. Ela foi, e é, uma ótima chefe, parceira, profissional e amiga. Sentiria falta de passar os meus dias ao seu lado, até mesmo dos gritos e seu mau humor. Sorrio com o pensamento.

- Mas isso não é uma despedida, correto? - Afasto-me - Ainda temos até o fim do ano.

- Exatamente! - Contorna a mesa voltando para sua cadeira - Então, senhorita Bianchi, mão na massa!

Pisco para ela e retorno para minha sala. Ao chegar na porta, vejo Ashley e Pamela debatendo animadamente. A cena faz meu coração se apertar um pouco, sentira saudades daquela que se tornara minha melhor amiga. Sacudo a cabeça tentando ignorar os pensamentos e entro.

- Então meninas, o que resolveram? - Elas olham para mim e Pamela começa a explicar. Obviamente o olhar preocupado e questionador de Ash em minha direção, não passou despercebido. Tínhamos muito o que conversar.

***

Saio da empresa por volta das cinco. Ashley está ao meu lado esperando Evans. Os dois tinham começado a namorar há dois dias e eu estava muito feliz por essa união. Meu amigo chega e acena para nós. O cumprimento de longe enquanto Ash caminha até seu carro.

- Ana, você não vem? - Pergunta quando percebe que não estou a seguindo.

- Não, tenho umas coisas pendentes, além do mais estou esperando o Roy. Nos vemos depois. - Ela me analisa atentamente, mas assente.

Pego meu celular e inicio uma chamada. Depois de três toques, a pessoa do outro lado atende.

- Alain Wertheimer!

- Alain, quem fala é a Ana Clara Bianchi! - Digo serena.

- A que devo a honra de sua ligação, Ana?

- Já tenho minha resposta.

- E seria... - Pergunta claramente curioso.

- Eu aceito! Aceito trabalhar na Chanel!

- Que notícia maravilhosa! Ainda essa semana entro em contato com você para acertarmos tudo. Como tinha dito, você começará a trabalhar conosco apenas no ano que vem, mas precisamos preparar as papeladas desde já.

- Compreendo, Alain! Aguardo seu retorno. -Nos despedimos e finalizo a chamada.

Guardo meu celular na bolsa e suspiro observando o movimento de pessoas e veículos em frente à empresa. Sinto duas mãos tampando meus olhos e sorrio ao sentir o perfume maravilhoso do meu namorado. Viro-me para ele, o envolvendo em um abraço apertado.

- Sentiu minha falta, senhorita Bianchi? - Pergunta retribuindo o abraço.

- Sempre! - Minha voz sai abafada pelo seu peito másculo. Ele dá uma risada que soa como música para os meus ouvidos.

- Vamos, nossa reserva está nos esperando. - Pega minha mão me guiando até seu carro.

- Onde vamos?

- Surpresa!

- Você sabe que sou curiosa demais, Roy! - Digo fingindo irritação.

- E...? - Pergunta destravando o carro e abrindo a porta do passageiro para mim.

Simplesmente bufo e entro no veículo.

- Você é bem malvado quando quer! - Resmungo assim que ele toma a posição do motorista.

- Eu sei! - Sorri sínico.

Chegando ao restaurante, fico boquiaberta ao perceber que paramos em frente ao restaurante Lafayette, um dos mais elegantes de New York. E por ironia, não do destino, sua culinária é francesa.

- Uau! - Digo saindo do veículo.

- Gostou? - Pergunta ao se aproximar de mim.

- Claro! - Seguro sua mão. Caminhamos até o saguão, onde seríamos acompanhados por um funcionário até nossa mesa.

- Bonne nuit! Sou o Jean e atenderei vocês durante toda a noite! Por favor me acompanhem!

Seguimos Jean até uma área mais intima do restaurante. Roy comentou que o Lafayette é um grande café e padaria do dia a dia, no entanto, à noite, eles oferecem o jantar em um salão próprio.

Ao chegarmos em nossa mesa, meu companheiro afasta a cadeira para que eu me sentasse. Ele toma o lugar à minha frente e volta sua atenção ao funcionário.

- Merci, Jean! - O atendente se afasta nos deixando a sós.

- Precisarei desenferrujar meu francês! - Digo fazendo graça, mas logo me recomponho ao perceber o olhar analisador de Roy sobre mim. Suspiro e pego o cardápio. Ele faz o mesmo. Jean retorna à nossa mesa e anota nossos pedidos. Assim que se afasta novamente, o homem à minha frente volta a me analisar, mas não por muito tempo.

- Vejo que já se decidiu! - Diz calmamente.

Encaro seus lindos olhos verdes e sinto, mais uma vez, meu coração se apertar.

- Sim! - Minha voz sai como um sussurro. Ele segura minhas mãos sobre a mesa e dá um sorriso fraco.

- Fico feliz! Fez uma excelente escolha, meu amor! - Diz seriamente. Sinto meus olhos começarem a arder, então viro o rosto para a janela ao nosso lado. Gentilmente ele toca minha face fazendo com que eu o encarasse novamente - Vai dar tudo certo, Clara!

- Eles vão me mandar embora, Roy! - Digo o que estava entalado em minha garganta e sinto uma lágrima rolar em meu rosto. Ele passa a mão sobre o mesmo, enxugando a teimosa lágrima - Eles me demitiriam no fim do ano.

- Ei, não precisa se justificar, querida! - Diz me olhando com compaixão - Foi uma forma de Deus te mostrar qual é a vontade dEle para a sua vida! Alegre-se!

Solto uma pequena risada e meu companheiro faz o mesmo.

- Por que você gosta de tornar as coisas mais simples? - Questiono.

- Porque elas são simples! - Dá de ombros - Nós que gostamos de complicá-las.

Conversamos bastante durante o jantar. Ele me aconselhou sobre vários assuntos relacionados à França e Alain. Combinamos que, nesse fim de semana, reuniríamos o pessoal para contar a novidade. Sabia que os maiores desafios seria conversar com Emily e Ashley. Não fazia ideia de como reagiriam, mas eu podia sentir que não aceitariam facilmente.

Saímos do restaurante por volta das nove. O caminho para casa foi silencioso, cada um perdido em seus pensamentos.

- Chegamos! - Roy diz me despertando.

Saio do carro e caminho lentamente para o elevador. Ele segura minha mão e beija o topo da minha cabeça. Apoio a mesma em seus ombros ao entrar no elevador. Suspiramos juntos.

- Isso está ficando estranho. - Comenta com um pouco de humor.

- Também acho! - Olho para ele sorrindo.

Em nosso andar, cada um pega sua chave e seguem em direção aos seus respectivos apartamentos. Roy me olha com a sobrancelha arqueada.

- Não quer entrar? - Pergunta apontando para sua porta.

- O dia foi cheio, preciso descansar um pouco. - Vou até ele e beijo seus lábios - Até amanhã!

Viro-me e entro em meu apartamento sem esperar uma resposta. Ainda com as luzes apagadas, tiro o sobretudo, penduro-o e sigo para o banheiro. Tomo um bom e demorado banho. Visto uma roupa quente e confortável, penteio os cabelos e escovo os dentes. O apartamento estava completamente silencioso e escuro, apenas iluminado pela luz do luar que entrava pelas esquadrias.

Caminho lentamente para a cozinha, encho um copo de água e sigo para a varanda. Quando estava prestes a abrir a porta, vejo Roy apoiado no guarda-corpo olhando seriamente para a paisagem. Ele ainda vestia as mesmas roupas de mais cedo. Parecia perdido em seus pensamentos. Decido me afastar antes que ele me visse o espiando.

Fecho as cortinas e sigo para o quarto. Apoio-me na janela e observo a linda paisagem que me encantou assim que a olhei pela primeira vez. O trecho de uma antiga canção surge em minha mente e começo a cantarolar baixinho.

- Eu prefiro confiar em ti, Senhor. Eu prefiro acreditar nos Teus sonhos, porque tudo o que eu desejo jamais se igualará ao que Tens preparado para mim. Senhor, eu prefiro confiar em Ti.

Durante muitos momentos das nossas vidas, não conseguimos compreender o agir de Deus. Às vezes achamos que fomos abandonados pelo mesmo, por vermos apenas o que nossos olhos naturais permitem. Esquecemos que Ele é Onipotente, cujo o poder é absoluto e pode todas as coisas, sendo que não há absolutamente nada impossível para Ele. Onisciente, que tem saber absoluto e conhecimento infinito sobre todas as coisas.

Quem somos nós para querer compreender a forma como o Todo-Poderoso age? Não somos nada diante do criador do universo, daquele que sabe exatamente quantos fios de cabelo tem em nossa cabeça.

"Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! "Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?". Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém."

Romanos 11.33-36

- Perdão pelas vezes que duvidei e temi pelo teu agir em minha vida, Papai! Hoje estou aqui para declarar que confio em Ti e desejo que a sua vontade se cumpra em mim, seja ela qual for. Não importa como o senhor fará ou o que acontecerá! Apenas desejo te obedecer e estar no centro do Teu querer para que eu possa viver uma vida digna diante de Ti e para a Tua glória.

Pego minha bíblia e começo a meditar na palavra que o Senhor colocou em meu coração. A medida que me aprofundava em escutá-lo, sentia os temores e medos sendo substituídos pela plena paz e confiança.

Deito-me na cama, exausta. No entanto, lembro-me da última frase que disse antes de me entregar de vez ao sono.

- Senhor, eu prefiro confiar em Ti...


>>>><<<<

E a decisão foi tomada, a Ana irá para França 🇫🇷

E agora??

Nos vemos amanhã!

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Att.

NAP 😘

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