Capítulo 17
Roy se virou no sofá, ficando de frente para mim.
- Lembra da história que eu contei sobre nossa mãe? - Perguntou e eu confirmei - Pois bem, tudo começou quando ela ficou doente. Nosso pai não queria aceitar que aquilo estava acontecendo com a mulher de sua vida. Ele sabia que poderia perdê-la a qualquer momento. - Encarou a TV - No início, ele fazia tudo o que o médico dizia que poderia ajudá-la, até deixou de lado a empresa para estar com ela. O tempo foi passando, a doença se agravando e nossa mãe só piorando... - O silêncio invade o ambiente - Até que o médico nos disse que ela só teria mais um mês de vida. Isso o destruiu, não só a ele, mas a todos nós.
Pude sentir sua dor ao recordar essas lembranças massacrantes. Seguirei sua mão o encorajando, fazendo-o se virar para mim.
- Sabe, Clara, ela sempre foi uma mulher de fé! Forte, corajosa! Quando soube da notícia, não se entristeceu por estar passando por isso, e sim por ver os que a amavam sofrer. - Aproximei-me dele afim de enxugar uma lágrima que rolava em seu rosto. Ele segurou minhas mãos, mas logo as soltou - Hoje entendo, que sua doença não foi para a morte, mas para a vida. Por causa dela, eu estou aqui hoje vivendo para Cristo! Toda essa dor e sofrimento, trouxe-me a Vida!
Mais uma lágrima rolava em seus olhos, e a única coisa que eu queria fazer era abraçá-lo e confortá-lo, mas não o fiz, me contentei em enxugar seu rosto apenas.
- Nesse último mês de vida, o nosso pai tentou de tudo. Viajou para vários países, afim de encontrar médicos especializados no caso, mas nada adiantou. Falávamos para ele voltar e aproveitar o pouco tempo que tinha ao lado de sua esposa. E foi em sua última tentativa que ele recebeu a notícia.
- Sua mãe faleceu e ele estava longe... - Minha voz saiu como um sussurro.
- Sim.
Não sabia o que dizer. Não conseguia imaginar o tamanho da dor desse homem. Perdeu a esposa, a mulher de sua vida e nem pôde se despedir.
- E o que aconteceu?
- Ele perdeu o chão. - Roy levantou e foi em direção a cozinha, pegou um copo de água e voltou. - Beba, ou daqui a pouco estará tendo outra crise de tosse. - Estendeu o copo em minha direção. Sorri com seu cuidado.
- Obrigada! - Sentou-se ao meu lado.
- Na época, Emily tinha 4 anos e não entendia absolutamente nada. Ele estava sempre nos culpando pela morte de nossa mãe, dizia que poderíamos ter tentado mais, assim como ele. Era triste de ver, Clara. - Fechou os olhos - Ele começou a beber sem parar. Todos os dias o nosso pai chegava em casa irreconhecível. Tornou-se agressivo não só nas palavras, mas também nas atitudes. - Apoiou os braços em seus joelhos e me encarou - Ele costumava descontar sua raiva em mim - Riu sem humor - Cansei de ir para a emergência por causa dele.
- Ele te agredia fisicamente, Roy? - Perguntei incrédula e ele assentiu - Mas como você permitia? Não se defendia?
- Clara, ele é o meu pai, estava sofrendo e não sabia o que fazia. - Deu de ombros - Eu aguentaria sem problemas. Obvio que eu o impedia, mas por várias vezes ele conseguia me machucar. - Levantou-se e ficou parado em frente a porta que dava para a varanda, com um olhar distante - Mas um dia ele passou dos limites.
Senti um calafrio ao ouvir suas palavras.
- Ele tinha chegado em casa e a Emily foi abraça-lo, a pequena não só tinha perdido a mãe, mas também estava perdendo o pai. Quando ela o abraçou, ele a empurrou fazendo com que ela batesse a cabeça na quina da mesa. - Ele fechou as mãos com tanta força que parecia pronto para socar alguém - Eu cheguei na hora e vi a minha irmã gemendo de dor deitada no chão. Nesse dia eu precisei me controlar para não partir para cima dele - Respirou fundo - Mas eu não resisti e comecei a discutir com ele, e tudo aconteceu muito rápido. Ele pegou um objeto pontudo e jogou em minha direção, e eu não consegui desviar.
Ele se virou e caminhou em minha direção e se sentou ao meu lado novamente. Eu não ousava dar um pio sequer.
- O objeto perfurou o meu peito e atingiu meu pulmão - Coloquei as mãos na boca em choque - Eu não vou saber te contar o que aconteceu exatamente, pois eu comecei a perder a consciência. Só acordei no hospital depois de um mês. Fiquei em coma, com risco de nunca mais despertar. - Sorriu - Mas parece que Deus ainda tinha uma missão para mim aqui na terra.
- Louvado seja Deus por esse grande livramento! - Ele concordou - E Em? O que aconteceu com ela durante esse tempo?
- Nossa avó a trouxe para cá afim de afastá-la de toda essa confusão, e ela fez muito bem. A pequena já estava traumatizada demais, e para piorar, viu tudo o que aconteceu comigo. - Suspirou - Quando eu despertei do coma, soube que foi ela quem chamou os vizinhos para me socorrer, pois nossa avó não estava em casa e nosso pai em choque.
- Essa criança é uma preciosidade. - Sorri ao lembrar da princesa que dormir tranquilamente em seu castelo.
- Ela é! Eu faria qualquer coisa pela minha irmã, pois ela é tudo o que eu tenho de mais valioso nessa vida! - Enxerguei um brilho diferente em seus olhos. Um amor puro e verdadeiro. Era nítido que tudo o que Roy fazia era pensando em sua irmã, ele queria poupa-la de mais sofrimentos.
- E quanto ao seu pai?
- Depois que saí do hospital, um dos meus primos disse que ele tinha se internado em uma clínica de reabilitação. - Deu de ombros - Eu o perdoei por tudo o que ele fez conosco. Apenas fico triste por ele estar se destruindo. Quando vou à França, o visito para ver como vai sua recuperação, querendo ou não, ele precisa do nosso apoio como família. - Suspirou e sorriu - Todos os dias oro para que Deus o alcance com sua infinita misericórdia, e eu creio que esse dia está chegando, Clara!
Cada vez que eu o conhecia, mais me surpreendia. Ele poderia simplesmente ter revidado todas as agressões de seu pai e ter lhe virado as costas. No entanto, claramente, ele escolheu obedecer a palavra de Deus, honrando-o como um filho deve honrar seus pais e perdoando-o como um discípulo de Jesus.
- Quando me recuperei 100%, organizei algumas coisas da empresa e vim para cá. - Disse me despertando - Fui titulado como o presidente temporário, até que meu pai se recupere e tome o seu lugar. Dessa forma, consigo resolver tudo daqui. De vez em quando preciso fazer algumas viagens de última hora, mas no geral, consigo dar conta - Sorriu - Quem mais sofre com essas viagens é a Em. - Diz olhando em direção ao corredor que dá para os quartos - Depois de um ano morando aqui, nossa avó voltou para a França e vem para cá apenas de três em três meses, então não tenho com quem deixar a Emily quando aparecem as viagens.
- Agora você tem! - Sorri calorosamente - Será um prazer ficar com ela, Roy! Isso se você confiar em mim, é claro!
- Clara, eu confio em você de olhos fechados - Disse me olhando profundamente. Pigarrei e desviei meus olhos.
- Posso ver? - Perguntei sem conter a bendita curiosidade.
- Ver o quê? - Pergunta confuso.
- A cicatriz. - Ele pensou por um tempo, mas cedeu.
Desabotoou alguns botões de sua blusa e me mostrou a pequena cicatriz no lado esquerdo do seu peito. Involuntariamente eu levantei minha mão e a toquei. Era tão pequena e quase o levou a óbito. Levantei meus olhos para o seu rosto e vi que ele estava de olhos fechados tensionando a mandíbula. Ele era tão lindo, e conhecer mais sobre esse homem só me deixava mais... apaixonada!
Sim, eu estava completamente apaixonada por Roy Carter. Em 3 meses eu conheci um homem que conseguiu, facilmente, cativar o meu coração. Tudo o que ele passou e suportou para chegar até aqui só o deixou mais forte, sábio, experiente e dependente de Deus! Era impossível não admirá-lo. Um homem amável, carinhoso, temente a Deus, disposto a fazer qualquer coisa por sua família e até mesmo por desconhecidos, como eu.
Toquei seu rosto acariciando sua bochecha e ele sorriu segurando minha mão.
- Obrigada por se deixar ser usado por Deus e por ter compartilhado algo tão íntimo comigo, Roy. - Digo suave. Ele abre seus olhos me olhando intensamente - Deus sabe como eu estava precisando ouvir esse testemunho!
- Obrigada você por ter aparecido em nossas vidas, Clara! E eu espero que permaneça assim por vários e vários anos! - Sorriu dando um beijo na mão que estava em seu rosto. Confesso que esse simples ato fez as minhoquinhas em minha cabeça se atiçarem e as borboletinhas em meu estômago baterem asas. Uau, isso é real...
- O que disse? - Questionou-me Roy.
- Nada! - Disse rapidamente - Acho que pensei alto.
Ele sorri de lado, deixando os insetinhos dentro de mim ainda mais agitados... Agora não conviveria apenas com minhoquinhas, mas com borboletinhas também. Ninguém merece!
- Eu preciso ir, está tarde, e... - Pensa em algo, pensa rápido! - Ah! eu preciso ligar para minha chefe. Isso! - Ele me olha um pouco desconfiado, mas concorda.
- Vamos, eu te levo. - Disse abrindo a porta da varanda.
- Que frio! - Exclamei sentindo o vento gelado me atingir novamente.
- Não esqueça de se hidratar, tomar os remédios, jantar e se agasalhar. Se precisar de qualquer coisa, basta me ligar. - Concordei - Ah, e deixe a porta da varanda destrancada, não quero precisar arrombar nenhuma porta caso algo aconteça. Deixarei a de lá de casa destrancada também.
- Sim, senhor! - Digo batendo continência - Boa noite, vizinho!
- Boa noite, vizinha!
Fecho a porta atrás de mim e sigo para a cozinha. Coloco a sopa que Roy preparou mais cedo para mim no microondas e sigo para o quarto, mas logo para quando escuto um toque diferente. Sigo o som e encontro um celular entre as almofadas do meu sofá. Pego o aparelho e vejo a imagem da mesma mulher que estava de braços dados com o meu vizinho no Central Park há alguns dias. A tal da Tracy... Será que eles são...
- Não, Ana! Devem ser apenas amigos... - Sem pensar duas vezes, pego o celular e vou para a casa do meu vizinho, quando abro a porta da varanda me deparo com ele vindo em minha direção, um pouco nervoso - Procurando por isso? - Levanto o celular.
Ele suspira aliviada e pega o aparelho. - Obrigada, Clara! Não fazia ideia de onde tinha deixado.
- A Tracy ligou. - Disse um pouco sem graça - Eu não tive a intenção de olhar, ok? Só escutei o toque, e como não era o meu celular, peguei para ver. Aí lembrei da mulher que apareceu na tela. Era a mesma... - Falo descontroladamente, mas sou impedida de terminar, pois Roy coloca um dedo em meus lábios.
- Tudo bem, Clara! Esqueceu que eu confio em você? - Sorri um pouco sem graça.
A curiosidade estava me mantando. O que essa tal de Tracy era dele? No dia do parque eles pareciam ser muito próximos. Sem contar que ela estava agindo meio que na defensiva, marcando território.
- Bom, vou indo.
- Roy, espera! - Ele se vira em minha direção esperando que eu continue, mas na verdade não fazia ideia do que falar, só gostaria de ter um pouco mais de sua companhia - Você... você...
- Eu...?
- Conhece alguma igreja por aqui? - Ele logo abre um grande sorriso.
- Claro! Te levo no domingo! - Piscou para mim e seguiu para sua casa.
Entro e fecho a porta novamente.
- Igreja? De onde surgiu essa pergunta? - Mas no fundo já sabia a resposta - É, Papai, já passou da hora de eu voltar a congregar né?!
>>>><<<<
Geeeente, só eu que surto de amor com o Roy?? Reli esse capítulo com um sorriso apaixonado em meu rosto 😂😂♥️♥️
Sexta teremos mais um capítulo maravilhoso, se assim Deus permitir! 🙏🏼
Não esqueçam de clicar na ⭐️ se estiverem curtindo a história.
Fiquem na paz de Jesus, queridos!!
Att. NAP 😘
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top