Capítulo 38
>>>> POV ROY CARTER <<<<<
Algo está errado! É a única certeza que tenho. Passei a noite inteira acordado sentindo uma angustia no peito. Minha esposa não estava bem, e por mais que ela não quisesse compartilhar comigo os motivos de sua aflição, sei que as dores de cabeça fazem parte do problema. O que me preocupa ainda mais, visto que ali está o órgão mais importante do sistema nervoso, e que controla todo o corpo.
Clara não suportava hospitais ou médicos. Segundo ela, quando era bem novinha vivia se machucando e sempre parava no hospital. Isso acabou gerando um certo trauma. Mesmo tendo esse conhecimento, não diminuiria meu cuidado e preocupação com a minha esposa. Todavia, entendo também que a preocupação em excesso poderia ser um dos motivos para o seu silêncio.
De qualquer forma, mais tarde nós teríamos uma conversa séria. Ela não iria escapar!
— Roy? — A voz do meu chefe me traz de volta a realidade.
— Oi! — ajeito-me na cadeira e o encaro.
— Eu te chamei duas vezes e você não respondeu. — ele se apoia na mesa, une as mãos e me analisa atentamente, como sempre fazia — O que está te afligindo, filho?
Solto o ar pela boca e me coloco de pé esfregando o rosto.
— É a Clara! — aproximo-me da janela, que fica atrás de sua mesa, para observar a paisagem. Enfio a mão no bolso e dou de ombros — Ela não está bem. — sussurro a última parte.
— Como assim? O que aconteceu? — sinto sua presença ao meu lado, mas não desvio o olhar do céu, que agora está cinzento.
— É justamente isso que me aflige. Eu não sei o que está acontecendo, pai! Ela parece estar fugindo de mim. — viro-me para ele — Essa noite até fingiu que estava dormindo para se esquivar das minhas perguntas.
— Filho, — apoia a mão em meu ombro — algumas pessoas são assim. Querem carregar o mundo nas costas com medo de preocupar aqueles que amam. — sorri sem mostrar os dentes — Dê tempo a minha nora, tenho certeza que logo ela irá te contar o que está acontecendo. E não se preocupe, se fosse algo sério ela já teria lhe falado.
— O senhor tem razão! — concordo — Tentarei não me preocupar tanto. — digo, mais para tentar convence-lo. Meu coração, porém, continuava com um mal pressentimento.
— Que tal almoçarmos? — pergunta contornando a mesa enquanto veste a parte de cima do terno — Na semana passada inaugurou um restaurante brasileiro aqui perto. Acho que deveria levar a Ana para jantar lá. — pisca para mim.
— É, parece uma boa ideia. — abro a porta, dando-lhe passagem.
Lise, secretária do meu pai, se põe de pé ao entrarmos em seu campo de visão.
— Senhor Roy, a sua esposa está te esperando em sua sala.
Troco olhares com meu pai, antes de caminhar apressadamente em direção oposta ao elevador. Com o coração apertado e um certo nervosismo, abro a porta da sala. Ela estava de costas para mim, em frente à mesa, observando o porta-retrato com nossa foto.
— Querida? — fecho a porta atrás de mim e me aproximo — Que surpresa! — abro meu melhor sorriso, tentando parecer o mais natural. Porém o mesmo morre na hora em que vejo seu rosto inchado e vermelho. Ela estava chorando — Clara, o q...
Ela se lança em meus braços e volta a chorar. Chorar copiosamente. Aperto seu corpo junto ao meu com força. Os soluços eram altos e fortes o bastante a ponto de fazer os nossos corpos tremerem como se fossem um.
Apoio meu rosto no alto de sua cabeça. Fecho os olhos e começo a clamar em silêncio. Permitiria que ela chorasse o tempo que fosse necessário, até estar preparada para conversar comigo. Não sabia o que a incomodava tanto. Tudo o que eu queria, porém, era retirar toda a dor do frágil coração da minha amada.
Acaricio suas costas e cabelo à medida que os soluços diminuem. Aos poucos ela vai se acalmando, deixando-me mais aliviado. Abro os olhos, e eles são atraídos diretamente para uma bolsa em cima da mesa, próxima ao porta-retratos, com a logo do hospital da Salpêtrière. Engulo em seco com as memórias amargas que esse lugar causou para minha família e para mim.
— Amor, — falo baixo, afastando seu rosto do meu peito. Quero olhar em seus olhos, pois eles costumam mostrar com clareza o que se passa em seu coração — sente aqui. — puxo a cadeira ao nosso lado e a coloco sentada. Vou até o frigobar, retiro uma garrafa de água mineral e entrego à Clara, após abri-la — Beba, por favor.
Agacho em sua frente, observando cada movimento. Alguns segundo, ou minutos, se passam antes de ela colocar a garrafa vazia na mesa e me encarar.
— Eu não queria te incomodar no horário de trabalho, mas eu não sabia o que fazer. — diz com a voz rouca. Toco seus lábios trêmulos.
— Você não incomoda! É a minha esposa, pode vir a hora que quiser. — tranquilizo — O que está acontecendo?
Seus olhos voltam a fitar a mesa, deixando-os marejados novamente. Sigo seu olhar até a bolsa. Sem pensar duas vezes, pego a sacola e retiro o envelope de dentro. Antes de analisar o conteúdo, olho mais uma vez para minha esposa, que mantinha os olhos fechados. Meu coração se aperta ainda mais.
Abro o envelope e espalho os papeis sobre a mesa. Eram exames.
— Quando fez estes exames? — minha voz sai calma, mas minhas mãos tremiam de leve. Principalmente quando vejo o nome tomografia.
— Ontem, quando saí da Chanel. — diz me encarando com receio. Penso que tinha terminado, mas ela continua — Tive outra crise de dor, me senti fraca e pedi que um dos funcionários me levasse à emergência.
— Por que não me ligou? — bato com a mão na mesa, assustando-a. Arrependo-me na mesma hora. Seguro seu rosto entre minhas mãos — Clara, eu já perdi as contas de quantas vezes te disse isso. Você precisa confiar em mim. Eu sou o seu marido! Não sou mais apenas um vizinho, amigo, namorado ou noivo. Somos um!
— Eu sei! — mais lágrimas caem dos seus olhos — Eu deveria ter te ligado ontem, Roy! Ou até mesmo ter contado sobre os exames à noite, antes de dormirmos — as palavras saem um pouco emboladas, mas entendo cada uma — Talvez tivesse sido um pouco mais fácil receber os resultados com você ao meu lado hoje.
Não suportando mais a curiosidade, pego a pilha de papel que estava sobre a mesa, e leio cada palavra com cuidado, temendo perder alguma informação. O mundo parece parar no momento em que leio as seguintes palavras: tumor cerebral.
O choque de ler tais palavras me faz paralisar imediatamente. Não consigo mais controlar as reações que vêm a seguir. Sinto a vista embaçar e o maxilar travar. A respiração descontrolada me faz perder as forças e desabar no chão, apoiando as costas na mesa. Nego com a cabeça algumas vezes. Isso só poderia ser um engano. Amasso os papeis com força.
— Não é possível! — sussurro — Deve ter tido algum engano. — leio as palavras mais uma vez e sinto o ar faltando. Afrouxo a gravata no pescoço e me coloco de pé — Não! Não! Não! — ando de um lado para o outro tentando encontrar o erro naquelas informações — Você é saudável, forte e jovem. Não está certo! — Jogo os papéis amassados aos pés da mesa e enterro o rosto nas mãos — De novo não! Por favor!
O choro baixo me traz a realidade.
— Me perdoe! — ergo o rosto e vejo o sofrimento refletido em seus olhos cor de mel — Por favor! — sua súplica me quebra por inteiro.
Desprendo-me da minha dor egoísta, e me ponho de joelhos rapidamente, puxando-a para mim.
— Você não tem que pedir perdão por nada, meu amor! — coloco-a em meu colo, como um bebê — A culpa não é sua! — sussurro beijando cada parte do seu rosto molhado pelas lágrimas.
— Eu não queria te fazer passar por isso novamente! — fecho os olhos e uno nossas testas. — Não suportaria ser a causa do seu sofrimento, Roy! — volta a soluçar.
Nego com a cabeça, mas nada falo. Gostaria de dizer algo, de consola-la e responder que não me importava com isso, mas seria mentira. Foi impossível não trazer as lembranças do passado, da perda, do sofrimento. Daquele vale terrível que outrora me tirou o chão.
A verdade é que eu também não queria passar novamente por aquilo, muito menos que a Clara passasse. Eu sei quão doloroso é enfrentar esse vale.
Meus braços apertam-na com mais força. Enterro meu rosto em seu cabelo e começo a chorar. Como há muito não fazia. Só de imaginar perder a minha esposa, a dor consumia o meu coração. Então eu choro. Ponho para fora toda a dor sufocante, o que traz certo alívio.
Afasto-me um pouco, unindo nossas testas. Acaricio seu rosto com cuidado, como uma peça preciosa e delicada, que pudesse quebrar a qualquer momento.
— Eu te amo tanto! — digo olhando profundamente em seus olhos — Nós iremos passar por isso juntos! Juntos! — ela assente e eu beijo seus lábios aproveitando cada toque, cada sensação — Eu não vou te deixar, meu amor! Jamais!
Nossas lágrimas se fundiam, como nossos lábios. Este momento de intimidade e cumplicidade parece ser uma espécie de combustível que aumenta minhas forças. Com uma das mãos livres, toco sua cintura e a trago para mais perto de mim. Os polegares acariciam parte do seu abdômen com certa pressão.
Clara se afasta rapidamente e me encara com temor.
— Eu... — fecha os olhos e volta a apoiar a testa na minha.
— O quê? — pergunto erguendo seu rosto — Está sentindo dor?
— Não! — nega e eu franzo a testa sem entender seu temor — É que este não foi o único resultado dos exames. — fico em alerta e volto a procurar os papéis amassados.
Pego as folhas e passo os olhos em cada uma. Ana toca meus pulsos abaixando as mãos que seguravam os resultados. Retira um envelope menor de dentro da jaqueta e pondera se me entrega ou não.
— Em todas as vezes que sonhei com esse momento, eu nunca imaginei que seria dessa forma. — dá de ombros — Mas aprouve a Deus acontecer assim. — diz, entregando-me.
Pego de sua mão e noto que se trata de exame de sangue. Logo abaixo, uma extensa lista dos resultados do que foi pedido. Apreensiva, ela não desgruda seus olhos de mim. Vejo cada item com atenção. Quando viro a última folha, bem no topo, ganhando um lugar de destaque, está um resultado que faz meu coração saltar no peito.
Pela segunda vez em menos de uma hora, não consigo acreditar no resultado do exame. Encaro minha esposa, que com os olhos banhados por lágrimas, abre um pequeno sorriso.
— Você está grávida? — ela demora um pouco, mas assente. Sinto os lábios tremerem e, involuntariamente, um sorriso preenche meu rosto. Com a mão livre, fechada em punho, levo-a a boca tentando controlar a emoção. Uma risada trêmula escapa de mim — Eu vou ser pai! — digo contendo a euforia. Mas não consigo fazê-lo por muito tempo. Envolvo minha esposa, mais uma vez, em meus braços — Eu vou ser pai! Essa é a melhor notícia que eu poderia receber, querida! Obrigado, meu amor! — ela acaricia meu cabelo — Obrigado, Pai!
Com certa expectativa, ajeito-a em meu colo para conseguir ter acesso livre ao seu abdômen. Toco seu ventre, e sinto uma emoção indescritível.
— Oi, bebê! Aqui quem fala é o papai. — sorrio bobamente antes de olhar rapidamente para Clara, que aproveita o momento de olhos fechados, e continuar — O seu pai babão, que já te ama tanto e que está muito feliz com sua chegada! Você é, sem sombra de dúvidas, uma grande benção! — fecho os olhos e apoio a cabeça na mesa. Aconchego minha amada confortavelmente em meu peito. Continuo acariciando seu ventre. Sinto suas mãos sobre as minhas — Eu não sei como serão as coisas daqui para frente, mas eu declaro que sobre vocês está a mão do Senhor! Mesmo sem entender, eu quero crer que Ele está cuidando de tudo.
— Amém! — sua voz chorosa aperta meu coração.
Apesar da excelente notícia, não deixei de pensar nos riscos que um possível tratamento de câncer pode causar a uma criança aí da no útero. Conversamos um pouco mais sobre as coisas que o médico disse a ela. Entre elas, sobre a biópsia que será realizada amanhã.
Após tal conversa, percebi a tensão voltando aos poucos. Ficamos em silêncio por um bom tempo. Cada um perdido em seus pensamentos, temores e fé.
Clara estava cansada, seus olhos pesados e corpo mole, confirmavam isso. Eu já não tinha cabeça para mais nada que dissesse respeito à empresa ou a qualquer outra coisa. Depois de organizar os exames e fechar o notebook, saímos da sala de mãos dadas. Ana, estando um pouco dispersa, mal percebeu o olhar de espanto e preocupação que David nos lançou ao chegarmos à recepção da diretoria.
— Lisa, avise ao meu pai que estou indo para casa, por favor. Mais tarde falo com ele.
— Pode deixar, senhor Roy! — seu olhar corre entre minha esposa e eu.
— Primo... — David fala, mas eu o interrompo.
— Depois conversamos. — ele assente antes de voltar seu olhar a minha esposa — Apenas ore por nós! — sussurro ao me despedir dele com um abraço significativo.
Além de primos, éramos melhores amigos e conhecíamos um ao outro muito bem. Em todos os momentos, de alegria ou dor, estamos juntos, consolando, ajudando, vibrando ou torcendo. Mas principalmente intercedendo um pelo outro.
— Pode deixar! — ele deposita um beijo no topo da cabeça de Clara — Fique bem, AC! — ela assente sem encará-lo.
Dentro do elevador, o mesmo silêncio de antes domina. Assim como no percurso até em casa. Ao chegarmos na cobertura, eu paro de andar e ela me encara sem entender.
— Sua irmã... — ela fecha os olhos com força.
— Não quero mais falar sobre isso. Não agora. — ao abri-los novamente, seu olhar é de súplica — Mas Sofia não vai me deixar em paz enquanto não contar o que está acontecendo.
— Pode deixar comigo, amor! — seguro sua mão — Eu converso com a sua irmã. Você irá tomar um banho, comer algo e descansar.
— Ok!
Retiro a chave do bolso da calça e destranco a porta.
— Finalmente! — minha cunhada se levanta do sofá irritada — Achei que ficaria aqui o dia in... — para de falar assim que olha para nós — O que aconteceu com vocês?
Clara olha para mim com os olhos marejados, ela estava em seu limine novamente. A qualquer momento desabaria.
— Eu vou subir! — sua voz sai em um sussurro. Sem esperar uma resposta, sobe a escada depressa.
— O que houve, Roy? Estão bem? — como já era de se esperar, Sofia aguardava uma resposta. E o que eu mais queria era subir e não sair do lado da minha mulher.
— Prometo que contarei tudo daqui a pouco. Primeiro preciso preparar algo para a sua irmã comer. — ela assente e volta a sentar no sofá em silêncio.
Preparo um sanduíche, encho um copo com suco de laranja e subo.
— Amor? — chamo, mas ninguém responde. Estava prestes a apoiar a comida na mesa de cabeceira, quando vejo a porta da sacada aberta, e a silhueta de Clara lá fora. Coloco a refeição na mesa da varanda e me aproximo. Abraço-a por trás e ela apoia a cabeça em meu peito — Preparei um sanduíche.
— Obrigada! — sentamos na mesa da varanda em silêncio — Estava uma delícia. — diz após finalizar a refeição, fitando o céu.
Não desgrudo meu olhar do seu rosto. Minha mente tentava gravar cada detalhe. Aos poucos, o pensamento de perder a mulher da minha vida me quebra novamente. Desvio o olhar, para conter as lágrimas. Ana Clara precisava de alguém forte ao seu lado, eu precisava ser essa pessoa.
— Esta situação é tão estranha. — nossos olhos se encontram — Nunca ficamos assim, em um silêncio desconfortável. Nem mesmo quando ainda éramos apenas vizinhos.
— É verdade! — assinto, levando a mão à nuca, esfregando a região. Ela sorri por um minuto, mas volta a ficar séria. — Não! — digo ao perceber sua intenção. Seguro suas mãos sobres as minhas — Nada de desculpas! Já conversamos sobre isso.
— Ok! — se coloca de pé — Vou descansar um pouco.
Seguimos para o quarto, em silêncio. Clara deita em seu lado da cama se cobrindo com o edredom. Retiro a parte de cima no terno, a gravata e os sapatos. Deito-me ao seu lado e a trago para mim. Enlaço nossas mãos, sobre seu ventre.
— Eu amo vocês! — sussurro.
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"...Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" João 16.33b
Att.
NAP 🥺
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