O1. Adeus, Malibu


PROCURANDO FUGIR DO ESTRESSE, encarei a grande janela de vidro na minha frente, alternando o olhar entre o sol que desaparecia lentamente no horizonte e as ondas que se quebravam na imensidão azul do mar.

Apesar de amar a praia, nem aquilo pôde me acalmar diante da situação em que eu me encontrava. Nada parecia me acalmar, eu continuava com vontade de esganar qualquer um que passasse pela minha frente.

Suspirei, revirando os olhos e cruzando os braços enquanto sentava, com desgosto, no grande sofá branco da sala de estar.

Ainda em silêncio, constatei que os barulhos abafados das ondas lá embaixo pareciam muito mais interessantes do que ficar ouvindo sermão pela centésima vez consecutiva em uma única semana.

— Você não é mais uma criança, Sakura! – Papai pronunciou, com um tom severo.

— Com esse cabelo rosa estranho, não fica difícil de confundir. – Amanda, a namorada idiota dele se intrometeu  — Se quer parecer uma jovem adulta, devia parar de tingí-los.

Quem essa garota acha que é? Meu pai deve ter o triplo da idade dela, esses olhos azuis e o cabelo falso lotado de mega hair não me enganam, sei muito bem o que ela faz quando ele não está olhando.

Era só o que me faltava ser filha de um cara que insiste em não ver que o chifre tá tão grande que não passa mais na porta, e olha que a porta da nossa casa é bem alta.

Mamãe odiaria isso.

— Querida, você é a pessoa mais brega que já vi na vida. Se acha que meu cabelo está feio, significa que estou no caminho certo! – Respondi, sorrindo falsamente.

Amanda levou a mão ao coração, abrindo a boca exageramente como um peixe morto.

— Sakura Haruno, sugiro que engula sua ironia e tente levar essa conversa a sério, está deveras encrencada dessa vez!  Você já tem dezenove anos. Como sugere que meu trabalho árduo continue sustentando nossa reputação, se todo dia recebo uma ligação alegando o seu mal comportamento?

— Não receberia ligações se parasse de mandar seus caras ficarem de olho em mim. Tenho certeza que eles têm um trabalho muito mais interessante para fazer. – Dei de ombros.

Papai respirou fundo.

— Já havia dito antes o que aconteceria se continuasse se portando como uma rebelde sem causa...

Eu quis rir.

— A ameaça da graduação na Europa outra vez, papai? Está ficando sem criatividade.

— Não é uma ameaça dessa vez. Já acertei todos os pontos envoltos da transferência em questão. Irá começar a graduação no Hurtwood College, na Inglaterra. 

Meu sorriso lentamente escorreu do meu rosto.

— Hurtwood, sério? Não entra nem no top 10 de melhores do Reino Unido, qual a vantagem de me tirar daqui e me mandar pra essa faculdade meia boca? Estou planejando me mudar para New York no final do ano, para me graduar em Yale! – Arregalei os olhos, gesticulando que nem louca.

— Você pode tentar uma pós em Yale, a graduação será em Hurtwood. Conheço a diretora. É uma mulher disciplinada e sabe muito bem o que faz. Além do mais, isto é um castigo pela sua falta de escrúpulos, não um presente.

— Está fazendo uma tempestade gigante em um mísero copo d'agua. – Minha garganta pareceu seca.

— Quem sabe, com o sistema rígido de lá, consiga desenvolver algum tipo de disciplina.

— Isso é ridículo. — interceptei, com os punhos cerrados.

— Ache o que quiser, não me importo se quer entender ou não. Próxima segunda-feira, esteja pronta na hora certa. – Ele se virou para sair da sala.

— Só acho engraçado que tempo para se livrar de mim você consegue arranjar, não é? – Gritei, amarga.

Ele parou no meio do caminho, virando-se para mim novamente.

— Fiz isso porque me preocupo com você, Sakura.

— Não, papai, você só se preocupa consigo mesmo. Caso contrário, eu não estaria sendo mandada para outro continente só porque me quer longe para ficar sozinho com essa puxa saco interesseira! – Apontei para Amanda, tentando manter o que restava de minha paciência.

— Isso não é verdade. – Sua voz saiu baixa.

  — É sim! Você quer apagar tudo o que restou da mamãe... sei que não se dá o trabalho de olhar para mim porque se  lembra dela, não gosta quando toco violão porque ela também tocava e no final ainda enfiou uma louca dentro da nossa casa! – Disparei, levantando-me do sofá o qual estava sentada e subindo para meu quarto, batendo a porta o mais forte possível.

Hurtwood House. Me poupe. 

O resto do dia passou rapidamente. Passei a tarde toda pensando em como seria a minha nova vida no Reino Unido. Não estava preparada para sofrer mudanças tão bruscas.

No fundo, eu gostava dessa cidade! Era altamente bajulada por minhas inúmeras amigas  e tida como fonte de inspiração entres as mesmas, muitas pessoas dariam tudo para terem tal vida... então por Deus, por que raios eu sentia um vazio tão doloroso em meu peito?

Todo o meu reinado e popularidade estava nos USA, as únicas coisas 'boas' em minha vida vinham dalí, então como seria agora que deixaria de ter aquilo que ainda me fazia sorrir?

Já era de manhã quando sentei na cadeira branca de minha escrivaninha e abri a tela do Macbook ali presente. 

Precisava ligar para Tenten, minha melhor amiga, antes de ser isolada em Hurtwood House. 

Aquele lugar tinha uma reputação deplorável de abrigar jovens com famílias felizes e vidas perfeitas. Realmente, tudo o que eu estava precisando agora. 

Reviro os olhos, involuntariamente.

Abro o Skype e observo o loading da ligação, com a foto da garota centralizada na tela.

— Finalmente, Tenten! Quase envelheci de tanto esperar. – Falei, enquanto ela acenava para mim na tela.

— Eu ainda estou sem acreditar. – Dispara. — Como vai competir agora? Você é uma das melhores daquele lugar, vai ser tão entediante sem você. – Tenten apoiou o queixo em suas mãos.

— Eu volto logo. – Assegurei, mordendo o canto interno de minha boca. — Pelo amor de Deus, Ten, aquele lugar é de tijolos e foi feito na época da segunda guerra mundial, quem não ficaria preocupado? Simplesmente medieval!

— Boa sorte para fazer amigos lá. Com esse seu humor agradável, você vai precisar. – Ela me lançou um olhar irônico.

— E o que te faz pensar que quero fazer amizade com aquele bando de mimados?

— Mimados tipo você? — Ela ergueu uma sobrancelha.

— Se me chamar de mimada outra vez, eu... bato em você. — Dei de ombros.

Ela riu alto.

— Nós duas sabemos que você não faz mal nem a uma mosca. Quem sabe devesse acrescentar 'força' na sua lista de pedidos divinos.

— Idiota. – Murmurei, com um sorriso de lado.

Ouvi batidas na porta, acompanhadas de um "Sakura, desce logo, já está na hora".

Suspirei e me despedi de minha amiga.

Realmente, que os Deuses me forneçam paciência, bastante paciência. Porque se me derem força, é capaz de eu cometer algum assassinato naquele lugar.

𝐂𝐇𝐄𝐑𝐑𝐘 𝐆𝐈𝐑𝐋 🍒
@cerejarocket | 2022.

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