04. Only you

O ar noturno estava fresco, mas meu coração parecia estar a mil enquanto eu acompanhava Kiana até a entrada do restaurante. Quando nossos braços se entrelaçaram, senti um leve arrepio que subiu pela espinha, um daqueles que você não consegue explicar e que te pega desprevenido. Tentei ignorar, repetindo mentalmente que isso era apenas um jantar entre parceiros de cena, uma forma de comemorar o bom trabalho e relaxar antes da sequência final de gravações. Nada além disso.

Mesmo assim, a ideia do que estava por vir no dia seguinte parecia pesar em minha mente. Beijar Kiana, não uma, mas várias vezes, com câmeras ao redor e uma equipe inteira observando... A simples antecipação já causava um frio na barriga, algo que eu não sentia desde minhas primeiras cenas românticas como ator, que começaram com ela, nessas gravações. A questão era que, desta vez, parecia diferente. Eram cenas de beijo... Com Kiana.

Fui tirado dos meus pensamentos quando ela apontou uma mesa próxima à janela, decorada com luzes suaves que pendiam do teto.

— É ali. — Disse ela, animada, indicando o local com um sorriso.

Segui seu olhar e não consegui evitar o sorriso que surgiu no meu rosto. O restaurante era chique, especializado em comida japonesa, com uma decoração minimalista, mas sofisticada. Havia toques de madeira clara e lanternas de papel que criavam uma atmosfera aconchegante. Ela claramente havia planejado isso, e a ideia de que ela tivesse se esforçado para tornar essa noite especial deixou meu peito um pouco mais apertado.

— Escolhi esse lugar porque é meu restaurante favorito. — Ela continuou, a voz carregada de entusiasmo. Seus olhos brilhavam sob as luzes, como se a simples ideia de compartilhar algo que amava comigo a deixasse genuinamente feliz.

Assenti, ainda com aquele sorriso bobo no rosto.

— Boa escolha. Eu adoro comida japonesa.

Os olhos dela se arregalaram de leve, e o sorriso que ela me lançou foi tão brilhante que me fez sentir algo estranho no peito, algo caloroso, como se eu tivesse acertado a resposta de uma pergunta importante.

— Sério? Isso é perfeito! — Ela exclamou, claramente satisfeita consigo mesma.

Enquanto seguíamos até a mesa, não consegui evitar observá-la. Kiana parecia radiante naquela noite. O vestido amarelo claro complementava sua pele e brilhava suavemente sob as luzes, e o penteado trançado que ela usava dava a ela uma aura de elegância natural. Eu sabia que ela estava deslumbrante, mas me forcei a desviar o olhar, lembrando-me de que isso era apenas um jantar.

Sentamos à mesa, e a garçonete veio rapidamente com o cardápio. Enquanto Kiana analisava as opções, comentando animadamente sobre os pratos que já havia experimentado, eu me peguei sorrindo mais uma vez. Era impossível não ser contagiado pela energia dela.

— Eu juro, você precisa experimentar o sashimi daqui. É simplesmente incrível! — Ela disse, apontando para uma das opções no menu.

Assenti novamente, rindo baixo.

— Confio em você. Parece que você conhece bem o lugar.

— Conheço! — Ela respondeu, cheia de convicção. — Sempre venho aqui quando quero comemorar algo especial.

"Algo especial". Aquelas palavras ecoaram na minha mente, e por um momento, me perguntei se ela considerava a nossa noite especial. Era estranho pensar assim, mas ao mesmo tempo, reconfortante.

— Acho que fez a escolha certa, então. — Acrescentei, tentando parecer casual, mas minha voz saiu um pouco mais suave do que eu esperava.

Ela levantou os olhos do menu, seus lábios curvados em um sorriso de canto, como se tivesse percebido algo em meu tom, mas não disse nada. Apenas continuou explicando os pratos enquanto eu tentava, desesperadamente, manter meus pensamentos no cardápio e não na pessoa incrível sentada à minha frente.

Kiana parecia distraída por um momento, brincando com a borda do menu em suas mãos, antes de me encarar com aquele olhar determinado que ela tinha quando estava prestes a dizer algo importante.

— Preciso confessar uma coisa. — Ela começou, com um tom ligeiramente travesso, mas que não deixou de me fazer franzir o cenho.

Deixei o menu de lado, sentindo uma pontada de preocupação.

— O que foi? — Perguntei, tentando soar casual, mas minha curiosidade transparecia.

Ela me olhou por mais um instante antes de soltar um sorrisinho.

— Antes de decidir onde viríamos jantar, perguntei ao Daniel que tipo de comida você mais gosta.

Pisquei, processando as palavras, enquanto ela continuava com aquele brilho travesso no olhar.

— E, por sorte, ele disse que era comida japonesa, que é minha favorita também. — Ela deu uma risadinha, inclinando-se levemente para frente, como se compartilhasse um segredo.

Minhas bochechas começaram a esquentar involuntariamente, e eu sabia que provavelmente estava corando. Ela tinha se esforçado tanto para tornar essa noite especial, até mesmo pesquisando o que eu gostava. A ideia de que ela tinha ido além para garantir que tudo fosse perfeito me deixou mais grato do que eu sabia expressar.

— Uau. — Foi tudo o que consegui dizer no momento, sentindo um sorriso tímido se formar no meu rosto. — Você não precisava ter feito isso.

Ela deu de ombros, os olhos brilhando de leve sob a luz suave do restaurante.

— Mas eu quis. — Respondeu, com simplicidade.

Houve um momento de silêncio entre nós, não desconfortável, mas carregado de algo que eu não conseguia identificar. Decidi quebrá-lo, fazendo a pergunta que já estava martelando em minha mente desde que ela me convidou para jantar.

— Posso perguntar uma coisa?

Ela assentiu, me incentivando a continuar.

— Por que você me chamou especificamente? Digo, poderia ter ido jantar com o Patrick, ou com a Mary, ou com qualquer outro colega da equipe...

Kiana suspirou suavemente, um som que parecia carregar um pouco de peso antes de responder.

— Bom... Você é o que mais passa tempo comigo no set. Nossos personagens têm muitas cenas juntos, e eu sinto que criamos uma conexão diferente. — Ela parou por um momento, como se escolhesse as palavras com cuidado. Então, seus olhos encontraram os meus, um brilho brincalhão surgindo ali enquanto ela sorria. — E também, claro, porque eu gosto muito de você, Brandon.

Foi como se o tempo tivesse parado por um segundo. Meu coração deu um salto tão forte que achei que ela poderia ouvir. O jeito como ela disse isso, com aquela leveza e confiança, deixou minha mente momentaneamente em branco.

Eu abri a boca, tentando formar uma resposta, mas antes que qualquer coisa coerente saísse, o garçom apareceu ao lado da mesa, interrompendo o momento como um balde de água fria.

— Boa noite, estão prontos para fazer o pedido? — Ele perguntou educadamente, com um sorriso profissional.

Kiana imediatamente se voltou para ele, pegando o menu novamente e começando a discutir suas escolhas com animação. Eu, por outro lado, ainda estava tentando recuperar o fôlego e processar o que ela tinha acabado de dizer.

Enquanto ela falava sobre sashimi e nigiris, eu a observava, tentando disfarçar o sorriso que insistia em surgir. Ela gostava muito de mim. Isso ecoava em minha mente, uma verdade simples, mas que carregava mais peso do que eu estava preparado para admitir.

Quando terminamos de comer, o ar entre nós estava leve, preenchido por conversas que flutuavam entre assuntos aleatórios, evitando propositalmente o trabalho. Kiana, com sua energia inegavelmente contagiante, sempre conseguia transformar até os silêncios em algo confortável. Ela tinha uma maneira de puxar qualquer tema, desde séries de TV até curiosidades sobre o lugar, sempre acompanhada de alguma piada que me fazia rir sem esforço.

— E aí, Brandon, você sabia que sushi foi originalmente criado para conservar o peixe com arroz fermentado? — Disse ela, num tom meio professoral, mas com aquele brilho divertido nos olhos.

— Ah, então você é historiadora gastronômica agora? — Retruquei, levantando uma sobrancelha.

— Claro, sou uma mulher de muitos talentos. — Ela piscou, rindo de si mesma.

Terminamos o jantar entre risos e mais histórias, e, quando fomos para o lado de fora, o ar fresco da noite parecia complementar o fim perfeito para a nossa pequena comemoração. Entramos no carro, e a rádio estava tocando algo baixo, mas Kiana, como sempre, não podia deixar o ambiente quieto por muito tempo.

Ela girou o botão do som e uma melodia familiar começou a preencher o carro. Poker Face, da Lady Gaga.

— Ah, essa música! — Disse ela, rindo enquanto batia levemente o ritmo com os dedos no painel. — É uma das músicas da trilha sonora de Calista e Kwon.

Minha mente buscou rapidamente a referência, e então me lembrei.

— É da cena do fliperama! — Exclamei, estalando os dedos. — Quando Kwon percebe que está se apaixonando por ela... De novo e de novo. Cada vez mais intenso.

Ela soltou uma risadinha, inclinando-se no banco e olhando para frente com um ar quase sonhador.

— Bem... É fácil se apaixonar por Calista, convenhamos. — Disse ela, num tom brincalhão e deliberadamente convencido.

O comentário me fez sorrir, mas antes que eu pudesse me conter, as palavras simplesmente escaparam da minha boca.

— Isso é culpa sua.

Ela franziu o cenho e me lançou um olhar fingidamente ofendido, os olhos brilhando de diversão.

— Como é? — Perguntou, a voz carregada de falsa incredulidade.

Eu sabia que deveria ter parado ali, mas minha boca estava claramente operando mais rápido que meu cérebro.

— Quero dizer... É por você ser assim. — As palavras saíram antes que eu pudesse puxá-las de volta. — Tão apaixonante.

Assim que as disse, o arrependimento bateu como um soco no estômago. Quase me engasguei com o ar, percebendo a magnitude do que acabara de soltar.

Kiana ficou em silêncio por um segundo que pareceu uma eternidade, mas logo um sorriso surgiu no canto de seus lábios, e ela soltou uma risadinha baixa, algo que parecia mais para si mesma do que para mim.

No entanto, mesmo na luz suave do carro, eu podia notar o rubor que se espalhava pelas bochechas dela. Ela inclinou a cabeça levemente para o lado, como se não tivesse certeza se deveria quebrar o silêncio ou deixá-lo ali, carregado daquele novo peso.

Eu, por outro lado, estava completamente imóvel, mantendo os olhos fixos na estrada à frente, mesmo que estivéssemos ainda estacionados. O silêncio que se instaurou era diferente de antes, não desconfortável, mas cheio de algo novo, algo que eu não tinha certeza de como interpretar.

Quando ela finalmente falou, sua voz saiu suave, quase despretensiosa.

— Acho que vou aceitar isso como um elogio.

Eu ri, ainda tentando parecer despreocupado, mas sentindo que meu rosto estava quente.

— Foi isso que eu quis dizer. — Murmurei, mais para mim mesmo do que para ela.

Ela não respondeu imediatamente, mas o som baixo da música preenchia o espaço entre nós. Aquele momento parecia mais íntimo do que qualquer cena que tínhamos gravado juntos, e pela primeira vez, percebi que talvez aquela noite estivesse tomando um rumo que eu não esperava... E que eu não sabia se queria evitar.

Quando finalmente nós estacionamos na pousada, um silêncio pairava no carro, preenchido apenas pelo som baixo da música que ainda tocava no rádio. Eu estava tentando não olhar diretamente para Kiana, mas minha visão periférica era suficiente para perceber que ela parecia distraída, talvez até um pouco desajeitada, mexendo nas alças da bolsa sem necessidade.

Saímos do carro quase ao mesmo tempo, e enquanto ela caminhava para a entrada principal, indicou que iria para o quarto dela.

— Bom... Boa noite, Brandon. — Disse ela, sua voz soando um pouco mais contida do que o habitual.

Eu acenei de volta de forma desajeitada, levantando uma das mãos e soltando um murmúrio qualquer que eu esperava soar como uma despedida coerente. Mas, quando me virei para seguir para o meu quarto, ouvi minha própria respiração parar por um instante ao som da voz dela me chamando.

— Brandon.

Apenas meu nome. Simples, direto, mas o suficiente para me fazer congelar no lugar. Virei-me e, para minha surpresa, ela estava muito mais perto do que eu esperava. Seu rosto iluminado pelas luzes quentes da entrada da pousada, e a proximidade fez meu coração dar um salto que eu estava certo de que ela poderia ouvir.

Eu mal tive tempo de formular uma palavra antes que ela falasse, sua voz mais baixa, mais suave.

— Vai dar tudo certo amanhã no set, tá? — Ela disse, os olhos fixos nos meus por um breve momento antes de desviarem ligeiramente. — É só você tentar não ficar envergonhado com as cenas.

Antes que eu pudesse reagir ou mesmo processar o que ela estava dizendo, senti um toque quente e macio em minha bochecha. Ela me deu um beijo rápido, mas o gesto foi o suficiente para me fazer congelar. Meu rosto imediatamente esquentou como se eu tivesse acabado de sair debaixo de um sol escaldante, e eu sabia que estava vermelho até a raiz do cabelo.

— Tá vendo? — Disse ela, rindo enquanto recuava um passo. — Desse jeito, você precisa tentar manter a calma. Somos atores, é isso que fazemos...

Ela terminou com aquele sorriso característico que parecia iluminar qualquer ambiente, acenou levemente e virou-se para caminhar em direção ao quarto dela. Fiquei parado ali, completamente sem palavras, assistindo enquanto ela se afastava, o riso dela ainda ecoando em meus ouvidos como se tivesse sido capturado por um microfone direto.

Assim que ela desapareceu pelo corredor, passei uma mão pelo rosto, tentando processar tudo o que havia acabado de acontecer. A sensação do beijo na bochecha ainda queimava, e minha mente estava um caos.

— Isso foi... Atuação? — Murmurei para mim mesmo, andando lentamente na direção do meu quarto.

Queria acreditar que tinha sido apenas um gesto profissional, algo para nos ajudar a quebrar o gelo antes do que nos esperava no dia seguinte no set. Mas uma parte de mim... Uma parte que eu não estava preparado para encarar ainda, queria pensar que havia algo mais ali.

Quando cheguei à porta do meu quarto, encostei-me por um momento, respirando fundo. Amanhã, eu precisava ser profissional. Precisava manter a compostura, seguir as falas, fazer as cenas de beijo sem vacilar.

Mas, mesmo enquanto pensava nisso, sabia que não seria tão simples assim. Não quando Kiana era, bem... Ela. E não quando aquela noite continuava rondando meus pensamentos de um jeito que eu não sabia como controlar.

⋆౨˚˖

O sol mal tinha nascido quando cheguei ao set, mas a movimentação já estava a todo vapor. Equipamentos sendo ajustados, iluminação posicionada, microfones testados. Era mais um dia normal de gravação, exceto que, para mim, estava longe de ser um dia qualquer. Hoje era o dia das cenas que tinham me deixado revirando na cama a noite toda, incapaz de encontrar um momento de paz.

Eu ainda estava no camarim ajustando o figurino, uma jaqueta de couro desgastada do Cobra lai e calças jeans preta, perfeitas para o estilo rebelde e problemático de Kwon, quando Daniel apareceu. Ele deu dois tapinhas amigáveis no meu ombro, um sorriso travesso nos lábios.

— Boa sorte, parceiro. — Ele disse, com um tom que soava mais como um desafio do que como um incentivo. — Vai precisar.

Ele ergueu um punho no ar, fazendo um gesto de "força". Eu ri, mais para disfarçar meu nervosismo do que por achar graça.

— Valeu. — Respondi, tentando soar descontraído enquanto arrumava a gola da jaqueta. — Espero que eu não estrague tudo.

Daniel saiu, e eu respirei fundo antes de me levantar e caminhar em direção ao set de filmagem. Cada passo parecia pesar mais que o anterior, mas não havia volta. Chegando ao local, percebi que a equipe já estava finalizando os ajustes. O cenário era um beco estreito e sombrio, com latas de lixo amassadas e grafites cobrindo as paredes de tijolos. O ambiente perfeito para a tensão caótica que a cena exigia.

Kiana já estava lá, conversando com Patrick, que interpretava Axel. Ela parecia tão tranquila quanto sempre, rindo de algo que ele disse enquanto segurava um copo de café. Quando me viu se aproximando, ela ergueu a mão em um pequeno aceno, seu sorriso fácil iluminando momentaneamente a atmosfera tensa do set.

— E aí, pronto para arrasar? — Ela brincou, inclinando a cabeça de leve, como se não tivesse notado o quão rígido eu estava.

— Mais ou menos. — Respondi com um meio sorriso, tentando não soar tão nervoso quanto me sentia.

Logo, Daniel apareceu também, ajustando o casaco de seu personagem. Ele teria uma participação breve nesta cena, entrando durante uma briga que escalaria rapidamente entre Kwon e Axel. A tensão já estava planejada para explodir antes de Kwon e Calista ficarem sozinhos no beco, culminando no fatídico momento que eu estava tentando evitar pensar.

O diretor chamou todos para suas marcas, e a preparação começou. Patrick e eu trocamos olhares, e ele me deu um sorrisinho desafiador.

— Não vai me machucar de verdade, hein, cara? — Ele brincou, ajustando o colarinho da jaqueta de Axel.

— Sem promessas. — Retruquei, entrando no espírito para me distrair.

Depois de algumas rápidas orientações do diretor, o ensaio começou. O início da cena correu como o esperado, Axel provocava Kwon com comentários sobre Calista, insinuando que ela estava melhor com ele. Meu personagem, já visivelmente bêbado, perdia a paciência e partia para cima de Axel. Patrick e eu coreografamos a briga com precisão, socos sendo desviados e empurrões calculados. Daniel apareceu para apartar, e a troca de farpas verbais entre os três personagens foi intensa e convincente.

Quando finalmente Axel e o personagem de Daniel, Yoon, saíram do beco, deixando Kwon e Calista sozinhos, meu coração disparou.

Agora era o momento.

Olhei para Kiana, que já estava em posição. Ela parecia perfeitamente tranquila, sua expressão no ponto exato entre preocupação e desconfiança, encarnando Calista com uma naturalidade que me deixava admirado. O diretor chamou "ação", e eu me forcei a entrar completamente no personagem.

A tensão aumentava enquanto Kwon dava passos instáveis em direção a Calista, os olhos cheios de mágoa e ciúme.

— Por que você beijou ele? — Minha voz saiu rouca, quase um sussurro, enquanto eu segurava o braço dela. — Você me deixa... Louco.

Calista tentou se afastar, mas Kwon não permitiu. Minha mão alcançou seu rosto, um gesto desesperado, confuso. As emoções do meu personagem estavam à beira do colapso, e eu me forcei a manter o controle enquanto avançava para o beijo.

Foi um momento breve, mas carregado de intensidade. A cena não era romântica, e isso exigia ainda mais de nós como atores. Quando o diretor gritou "corta!", o ar parecia ter sido sugado do beco.

Eu soltei Kiana imediatamente, recuando um passo enquanto ela ajeitava a postura e balançava a cabeça levemente, como se saísse de um transe.

— Foi bom? — Perguntei, mais para mim mesmo do que para ela, minha voz mais baixa do que pretendia.

Kiana olhou para mim, e seu sorriso encorajador foi como um alívio.

— Foi ótimo. Você mandou muito bem. — Disse ela, tocando meu braço brevemente antes de se virar para o diretor.

Eu respirei fundo, sentindo o peso da tensão se dissipar um pouco. Pelo menos, uma parte das cenas mais difíceis já estava feita. Agora era questão de seguir em frente, mas o impacto emocional da atuação ainda reverberava em mim.

E, no fundo, eu sabia que não era apenas por causa do personagem.

Ainda estava tentando me recompor da última cena quando o diretor anunciou a próxima. Não havia muito tempo para respirar, muito menos para processar o que acabara de acontecer. O roteiro seguia em ritmo frenético, e eu precisava manter o foco. Essa próxima sequência seria crucial para a relação entre Kwon e Calista, e talvez a mais intensa do dia.

Pegamos nossos pertences e nos dirigimos ao local de filmagem, um quarto de hotel montado dentro do estúdio. A equipe já estava ajustando os últimos detalhes, verificando ângulos de câmera e iluminação. Kiana estava ao meu lado, revisando suas falas mentalmente enquanto tamborilava os dedos no script. Mesmo parecendo tranquila, percebi o leve movimento de seu pé batendo no chão, uma indicação sutil de que ela também sentia a tensão.

O diretor chamou para as marcas, e tomamos nossas posições. A cena começaria com Calista invadindo o quarto de Kwon, furiosa, e culminaria em um beijo carregado de sentimentos reprimidos. Olhei para Kiana antes de começarmos, e ela me lançou um olhar confiante, seguido por um breve sorriso que parecia dizer: "Vamos arrasar".

Quando o diretor gritou "ação!", tudo começou.

Calista entrou no quarto com um estrondo, a porta batendo contra a parede. Seu rosto estava marcado pela fúria, os olhos brilhando com emoção.

— Por que você não me contou? — Ela gritou, sua voz cortando o silêncio do set. — Por que você não explicou o que aconteceu?

Kwon, sentado na beirada da cama, ergueu os olhos para ela, a expressão cansada e cheia de culpa.

— Eu... Não sabia como... — Ele começou, mas sua voz falhou.

— Não sabia como? — Calista o interrompeu, avançando para mais perto. — Você me deixou acreditar que você era um monstro! Que você tinha batido nele por motivos tão... Triviais, e não porque estava me defendendo!

— Eu não queria que você me visse como alguém fraco! — Eu enfim respondi, a voz finalmente ganhando força.

Calista ergueu uma mão, o rosto transbordando emoção.

— Cala a boca, Kwon! — Ela gritou, e o tom imperativo me fez congelar.

Kwon tinha que tentar continuar, mas ela não permitiu.

— Eu disse pra calar a boca, Kwon!

Antes que eu pudesse responder, Kiana, ou melhor, Calista, correu na minha direção. Senti suas mãos em meu rosto antes mesmo de processar o que estava acontecendo, e, de repente, seus lábios estavam nos meus. O impacto foi tanto que, por um breve momento, meu corpo inteiro ficou tenso. Era como se o ar tivesse sido sugado do ambiente, e tudo o que restava fosse o toque quente e suave dela.

Lembrei-me rapidamente de que Kwon deveria reagir com surpresa no início, e me forcei a incorporar isso. Mas, conforme o beijo avançava, as instruções no script exigiam que Kwon tomasse o controle da situação. Com as mãos trêmulas, segurei a cintura de Kiana e a ergui em meu colo, sentindo o peso leve dela enquanto caminhava alguns passos até a cama.

Sem quebrar o beijo, Kwon empurrou a porta com o pé, fechando-a. O beijo, agora mais intenso, foi carregado de paixão, e eu podia ouvir as batidas do meu coração ecoando nos ouvidos.

Quando o diretor gritou "corta!", tudo parou de repente.

Afastei-me de Kiana, tentando regular a respiração. Meus lábios ainda formigavam, como se o toque dela tivesse deixado uma marca física. Olhei para ela, esperando alguma reação, mas ela parecia tão desconcertada quanto eu.

Ela deu um pequeno sorriso nervoso, os lábios ainda um pouco vermelhos do beijo.

— Foi muito bom. — Disse ela, de maneira casual, antes de se virar e caminhar em direção à sua garrafinha de água.

Eu fiquei parado por um momento, tentando entender o que exatamente ela quis dizer. Ela estava falando da cena? Do beijo? Ou de ambos? A dúvida ficou cravada na minha mente, como uma farpa que eu não conseguia ignorar.

Enquanto ela tomava um gole de água, percebi que minha mão estava tremendo levemente. Não era comum para mim me sentir assim depois de uma cena, mas com Kiana era diferente. Sempre tinha sido. E, naquele momento, eu soube que havia gostado mais do que deveria.

Engoli em seco, tentando recuperar alguma compostura enquanto o diretor chamava para um pequeno intervalo antes da próxima cena. Mas, mesmo quando me sentei no canto do set, com as luzes diminuídas e o burburinho da equipe ao fundo, minha mente não parava de repetir aquele beijo.

E, o mais complicado de tudo, era que parte de mim não queria esquecer.

Obra autoral ©

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