02. She looks just like a dream
Acordei antes mesmo do despertador tocar, o que era raro para mim. O céu lá fora ainda estava tingido de um azul profundo, mas minha cabeça já estava a mil. Eu mal conseguia acreditar que estávamos no segundo dia de gravação. Até agora, tudo parecia um sonho, daqueles que você não quer acordar, mesmo sabendo que pode.
Enquanto me arrumava, uma euforia difícil de explicar tomou conta de mim. Não era só pela oportunidade de estar em Cobra Kai, mas pelo peso que esse trabalho trazia. Pela primeira vez, eu sentia que fazia parte de algo muito maior do que qualquer coisa que já tinha feito antes.
No caminho para o set, encontrei Daniel Kim, que interpretava um dos membros do Cobra Kai Coreia e era, sem dúvida, o cara com quem mais me conectei no elenco. Nós passamos bastante tempo juntos nos treinos e nas preparações para as cenas, então ele era meu ponto de apoio naquela loucura toda.
— Pronto pra brilhar hoje, estrela? — Daniel brincou, jogando o braço sobre meu ombro enquanto caminhávamos.
— Pronto? Eu nasci pronto. — Respondi, rindo, tentando disfarçar a ansiedade que borbulhava por baixo da minha fachada descontraída.
Daniel era uma daquelas pessoas que iluminavam qualquer ambiente, e isso fazia com que estar por perto dele fosse sempre mais leve. Ele começou a animar o pessoal da equipe assim que chegamos, cumprimentando cada um com piadas ou comentários rápidos. Acabei entrando na onda, e logo estávamos todos no set rindo de algo bobo que ele disse.
Mas, por mais que eu tentasse parecer relaxado, havia uma tensão em mim que não ia embora. Não era pelas cenas de luta, ou pelos diálogos, era por algo muito mais específico. Romance. Eu nunca tinha feito nada do tipo. E, honestamente, não sabia o que esperar. Já fiz outros projetos, já lutei em campeonatos mundiais, mas nada parecia igual isso. Eu sequer vivi um romance nas telas, muito menos fora dela. E essa inexperiência estava me deixando mais ansioso do que deveria.
Minha mente voltou involuntariamente para a noite anterior, na pizzaria. A forma como Kiana lidava com tudo, com tanta facilidade, como se fosse algo natural para ela, me deixava impressionado. Ela era experiente, profissional e, bem, intimidadora, no melhor sentido possível. Não só pela forma como parecia dominar cada conversa, mas pela presença dela. A forma como ela falava, se movia, sorria... Era impossível não notar.
E aí tinha a piada que ela fez. Eu ainda podia ouvi-la na minha cabeça, como se estivesse sendo repetida em um loop. "Espero que a gente consiga manter a compostura enquanto tenta entregar toda essa química."
Eu quase me engasguei na hora, e ainda sentia meu rosto queimar só de lembrar. Ela parecia achar graça disso, o que tornava a situação ainda mais embaraçosa para mim. Como eu ia manter a compostura perto de alguém tão bonita e imponente?
— Tá aí pensando no quê? — Daniel perguntou, me puxando de volta para o presente.
— Na gravação. — Menti, sem encará-lo.
— Ah, claro. — Ele disse, claramente desconfiado. — Ou será que tá pensando naquela garota nova? Kiana, certo?
Minha reação deve ter me entregado, porque ele começou a rir antes mesmo que eu pudesse negar. Eu odiava como ele me conhecia melhor do que ninguém.
— Relaxa, cara. Vocês vão mandar bem. — Ele disse, dando um tapinha nas minhas costas. — É só seguir o roteiro e deixar a química acontecer.
— É fácil pra você dizer isso — Murmurei, mas ele apenas riu de novo antes de se afastar para falar com alguém da produção.
Enquanto esperava minha vez de ir para a maquiagem, observei o set começar a tomar vida. As câmeras sendo posicionadas, os refletores ajustados, o som dos figurantes entrando em posição. O cenário de hoje era ainda mais impressionante que o de ontem.
Por mais nervoso que eu estivesse, sabia que esse era o momento que sempre esperei. Minha chance de mostrar do que eu era capaz. Só precisava lembrar de respirar e focar no personagem, e, talvez, parar de me preocupar tanto com Kiana.
Mas, claro, isso era mais fácil de dizer do que fazer.
Hillary apareceu no set, chamando meu nome com uma energia que cortou o som de todo o ambiente. Eu sabia o que aquilo significava, era finalmente minha vez. Daniel me deu um soco leve no ombro e um sorriso encorajador.
— Boa sorte, cara. Vai lá e arrasa os corações do público... — Ele disse, com a confiança que eu mesmo desejava ter naquele momento.
Assenti, dando uma risadinha baixa e respirando fundo antes de seguir Hillary até o local da gravação. A cena que faríamos agora era no elevador. Eu tinha lido o roteiro várias vezes, e, apesar da tensão entre os personagens, a cena era repleta de provocações e pontadas sutis. Honestamente? Estava ansioso para ver como aquilo se desenrolaria. A dinâmica entre Kwon e Calista prometia ser intensa, e eu sabia que essa seria uma oportunidade de ouro para construir aquela química que o diretor tanto esperava.
O elevador era pequeno, projetado apenas para as filmagens. As câmeras estavam posicionadas estrategicamente para capturar cada ângulo, cada expressão. Os refletores lançavam uma luz neutra que imitava o brilho estéril de um elevador real, mas com um toque mais dramático. Entrei no espaço apertado, ajustando minha postura enquanto esperava.
Poucos minutos depois, ouvi passos. Olhei na direção do som e a vi, Kiana. Ela caminhava com uma segurança tranquila, segurando o roteiro em uma das mãos e ajustando o quimono cinza dos Iron Dragons com a outra. Assim que me viu, levantou a mão em um aceno amigável, o sorriso largo iluminando seu rosto.
— Iniciando cedo, hein? — Ela brincou, de longe — Isso tudo é ansiedade?
Senti meu rosto aquecer, mas consegui retribuir o sorriso e acenar de volta.
— Apenas me prontifiquei para a batalha. — Respondi, tentando parecer mais confiante do que me sentia.
Ela riu levemente, guardando o roteiro em uma mesa próxima antes de caminhar até sua posição. Quando se posicionou ao meu lado, senti a energia mudar. Era fascinante como ela conseguia alternar entre ser descontraída e assumir a presença imponente de Calista em questão de segundos.
O diretor nos deu algumas instruções finais, ajustando o tom da cena. Era um momento crucial, Calista e Kwon, adversários no tatame, forçados a compartilhar um espaço fechado. Nenhum deles cede, ambos calculam cada palavra e expressão. As provocações eram afiados como golpes, mas havia uma tensão subjacente que a câmera precisava capturar, uma tensão que plantaria a semente da relação que se desenrolaria ao longo da temporada.
— Ok, pessoal — A voz do diretor ecoou pelo set. — Ação!
Respirei fundo e entrei no personagem.
O elevador começou a "subir", o movimento era simulado pela equipe técnica, enquanto nós fingíamos sentir os leves solavancos. Meu olhar estava fixo no painel de botões, as sobrancelhas franzidas, como se estivesse tentando ignorar a presença dela ao meu lado.
— Não está com medo de entrar, está? — Mantive um tom de sarcasmo, dando enfim início a cena — Relaxa, gatinha, não vou te atacar fora dos tatames, a menos que peça por isso.
— Gatinha é uma ova. — Kiana, ou melhor, Calista, revirou os olhos, um tom nitidamente irritado — Você é sempre tão falante assim?
Meu personagem, Kwon, a olhou de lado, o semblante rígido.
— Prefiro economizar palavras com pessoas que não sabem o que dizem.
Ela arqueou uma sobrancelha, a expressão claramente provocativa.
— Interessante. Então o líder do Cobra Kai Coreia acha que me conhece? Isso é novo.
O tom dela era cortante, mas havia uma faísca divertida escondida ali. O tipo de faísca que fazia os diálogos saltarem do papel e ganharem vida.
— Não preciso conhecer alguém para saber quando estão fora de seu alcance. — Eu respondi, mantendo a voz baixa, quase desdenhosa.
Ela deu uma risada curta, balançando a cabeça.
— Engraçado. Porque do lado de fora, você parece exatamente como alguém que está prestes a perder.
A tensão estava quase palpável no pequeno espaço. Os olhares, os movimentos calculados, cada palavra dita com intenção. Mas por dentro? Eu estava tentando não tropeçar na minha própria respiração.
Era impossível ignorar como Kiana conseguia preencher o ambiente com a energia de Calista. Ela era completamente absorvente, e eu estava determinado a igualar sua intensidade. Quando ela se inclinou levemente para frente, como se me desafiasse sem palavras, senti a pressão aumentar.
A cena continuou, as provocações se intensificando, até que o elevador "parou" com um tranco simulado. Ambos os personagens recuaram um pouco, como se a tensão física finalmente tivesse atingido o ápice, porque agora seria um momento crucial da história.
— Aaaaaa... E corta! — Gritou o diretor.
Por um momento, o silêncio pairou no ar. Então, a equipe começou a se movimentar, ajustando câmeras e equipamentos para a próxima tomada.
— Isso foi ótimo — Kiana disse, virando-se para mim com um sorriso sincero. — Você segurou muito bem o tom. Dá pra sentir a faísca entre eles.
— Obrigado. — Respondi, ainda recuperando o fôlego. — Você facilita as coisas, honestamente. Dá pra ver porque Calista é tão... Intensa.
Ela deu uma risadinha, me dando um tapinha de leve no ombro antes de se afastar para revisar o roteiro. Fiquei ali por um momento, processando o que acabara de acontecer. Era apenas o início, mas eu já podia sentir o peso da história ganhando forma.
Se o resto da temporada fosse assim, sabia que seria desafiador, mas de um jeito que me fazia querer dar tudo de mim.
Depois da cena, enquanto a equipe ajustava o set para a próxima tomada, fui chamado pelo roteirista. Não era algo incomum, mas a ideia de ter que ajustar o tom da cena, e ainda mais de improvisar algo diferente, sempre me deixava em alerta. Quando cheguei ao ponto de encontro, vi Kiana já lá, com o roteiro na mão e uma expressão atenta.
— Ok, vocês dois — Começou um dos roteiristas, ajustando os óculos enquanto revisava algumas anotações em seu bloco. — Estava pensando... A cena está ótima, mas acho que podemos aprofundar a dinâmica entre Kwon e Calista desde agora.
Ele fez uma pausa, esperando nossa reação. Assenti, embora uma pontada de nervosismo me percorresse.
— Pensei o seguinte, ainda quero as provocações, mas quero que o Kwon mostre um lado irritantemente confiante, quase... Sedutor. Nada direto, só aquele tipo de flerte que incomoda mais do que agrada. E, do outro lado, Calista deve responder com deboche, claramente não impressionada, mas ao mesmo tempo mantendo a tensão no ar. O elevador ainda vai parar no meio, como sugerido antes, mas quero que o público já sinta essa faísca elétrica entre vocês.
Kiana cruzou os braços, ouvindo atentamente, enquanto eu tentava processar tudo. Flerte? Irritante e sedutor? Esse era um território completamente novo pra mim.
— Então, vou revisar algumas linhas do roteiro e mandar pra vocês daqui a pouco — Continuou o roteirista. — Mas, enquanto isso, sugiro que ensaiem a cena juntos. O timing precisa estar perfeito. A tensão tem que ser quase palpável.
Kiana assentiu com facilidade, sempre segura.
— Claro, sem problemas. Vamos trabalhar nisso.
Eu, por outro lado, só consegui murmurar um "Entendido."
Enquanto nos afastávamos do roteirista, ela me lançou um olhar curioso.
— Parece que as coisas vão ficar interessantes, hein?
— Interessante é uma forma bem simples de dizer. — Respondi com um sorriso nervoso.
Ela riu baixinho, mexendo no quimono enquanto andávamos em direção a um canto mais tranquilo do set.
— Relaxa, Brandon. — Disse ela, com um tom que era tanto encorajador quanto levemente provocativo. — É só a gente ajustar o ritmo. Vai dar tudo certo.
Encontramos um espaço relativamente silencioso nos bastidores, perto de algumas cadeiras de produção. Ela se sentou, folheando o roteiro enquanto eu tentava me concentrar, respirando fundo para dissipar o nervosismo.
— Tá tudo bem? — Perguntou Kiana, me observando com atenção.
— Sim, só... — Eu hesitei, rindo sem graça. — Nunca fiz nada assim antes.
Ela inclinou a cabeça, um sorriso compreensivo no rosto.
— É normal. Mas, olha, você é bom. Só confia no personagem. Kwon é confiante, lembra? Ele não tem dúvidas. Finge que é ele.
— Falando assim até parece fácil — Brinquei, arrancando uma risadinha dela.
— Ok, vamos começar. — Ela disse, endireitando-se na cadeira. — Eu vou entrar como Calista, e você tenta ajustar o tom. Nada forçado, só... Deixa fluir. A gente vê como encaixa.
Começamos a ensaiar, recriando o clima do elevador. Cada fala, cada pausa, cada troca de olhares, tudo precisava ser medido. No começo, eu ainda me sentia engessado, mas, com o tempo, fui entrando no ritmo.
— Você sempre anda tão tensa assim? — Arrisquei, colocando um toque provocador na voz.
Ela me lançou um olhar de deboche perfeito, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— E você sempre tenta tanto chamar atenção?
Era um jogo de gato e rato, e, a cada linha, comecei a me soltar mais. Ela era como um espelho, refletindo exatamente o que o roteirista queria, resistência, charme, uma tensão que não podia ser ignorada.
Em um momento, improvisando, dei um passo mais próximo, diminuindo a distância entre nós.
— Você sabe que não precisa se esforçar tanto pra parecer durona, certo? Não funciona comigo.
Ela inclinou a cabeça, um sorriso cínico nos lábios.
— E você sabe que essa sua tentativa de charme é patética, certo? Não funciona com ninguém.
Parei por um instante, rindo junto com ela, e percebi que estávamos finalmente acertando o tom.
— Isso foi bom, muito bom — Disse Kiana, voltando ao normal. — Tá vendo? Você tá pegando o jeito.
— Graças a você. — Respondi, genuíno.
Ela deu de ombros, abrindo um sorriso divertido e fazendo um falso gesto de orgulho.
— Então, vamos ensaiar de novo. Quem sabe a gente não surpreende o roteirista?
Passei o resto do ensaio pensando no que ela disse. Talvez ela tivesse razão. Talvez eu só precisasse confiar no processo, e, claro, no fato de que, com alguém como Kiana ao meu lado, tínhamos tudo para entregar algo incrível.
Kiana estava empolgada com a ideia de improvisar. Enquanto ajustava o roteiro nas mãos, olhou para mim com aquele brilho típico nos olhos, o mesmo que já percebi desde o primeiro dia. Era contagiante, mas também intimidante. Ela era boa no que fazia, e eu sabia que me puxaria para fora da minha zona de conforto.
— Vamos tentar algo completamente improvisado? — Ela sugeriu, ajeitando o quimono e jogando os cabelos para trás.
— Improvisado? — Perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Sim! Mas baseado na cena da praia. Você lembra qual é, né?
Parei por um momento, tentando lembrar de todas as anotações e do roteiro que li repetidamente nos últimos dias.
— A cena do soco? — Arrisquei.
Ela riu, um som leve que fez minha insegurança diminuir um pouco.
— Não, pelo amor de Deus. Essa não é a melhor cena de química, convenhamos — Ela gesticulou com as mãos, desenhando o ar como se quisesse deixar mais claro. — É a cena que eles se beijam.
Eu senti meu rosto esquentar. Ótimo, só o que faltava era corar como um adolescente na frente dela. Sou um homem adulto, pelos céus. Tentei disfarçar, passando a mão na nuca e rindo sem graça.
— Ah... Essa cena.
Ela percebeu, claro. Percebia tudo. Kiana era afiada e parecia se divertir mais ainda com minha hesitação.
— Não precisa se preocupar... — Disse ela, balançando a cabeça com um sorriso. — Isso a gente deixa para o momento certo. Por agora, só quero testar algo parecido com aquela discussão deles.
— Ah, sim, só a briga então. — Forcei uma confiança que eu definitivamente não sentia, tentando entrar no papel. — Moleza.
Ela estreitou os olhos para mim, claramente percebendo que eu estava mentindo, mas não comentou. Apenas deu um passo para trás, preparando-se para o improviso.
— Ok, Kwon. Você tem que me convencer de que está realmente perdendo a cabeça. Diga que Calista te enlouquece, e eu vou tentar manter a compostura. Vamos criar tensão. Nada forçado, só... Deixe fluir.
Assenti, engolindo em seco enquanto ajustava minha postura.
— Tudo bem. Vamos lá.
Nos posicionamos um de frente para o outro, e Kiana foi a primeira a falar. Sua expressão mudou instantaneamente, transformando-se em pura frieza, como se Calista tivesse assumido o controle.
— Você está delirando. — Ela disse, a voz cortante, como se a discussão já estivesse em andamento.
aa Eu? Delirando?! — Rebati, fingindo indignação enquanto dava um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. — Você é impossível! Não dá para falar com você, não dá para fazer nada com você! Você me enlouquece, sabia?
Ela arqueou uma sobrancelha, mantendo o tom impassível.
— A culpa não é minha se você não consegue lidar com os próprios sentimentos.
Aquilo me pegou de surpresa, mas eu me recuperei rápido. Dei um passo ainda mais próximo, sentindo o ar tenso entre nós.
— Sentimentos? Você tá falando como se fosse alguma coisa especial. Como se isso aqui fosse mais do que só... Só competição, droga!
Kiana inclinou a cabeça levemente, o olhar penetrante, e eu juro que quase esqueci que era só um ensaio.
— Competição? — Ela repetiu, sua voz baixa, quase um sussurro, mas carregada de sarcasmo. — Você acha que é isso que importa pra mim? Que você importa pra mim?
Houve um momento de silêncio, e eu podia ouvir meu coração batendo forte. Cada palavra dela era carregada de emoção controlada, quase reprimida, como se Calista estivesse lutando para manter a fachada.
Eu dei mais um passo, agora tão perto que só faltava encostar nela.
— Você pode fingir o quanto quiser, Calista — Disse, abaixando a voz para um tom firme, quase desafiador. — Mas eu sei que você sente alguma coisa. Eu vejo nos seus olhos. Eu posso sentir isso, e você não consegue sequer negar.
Ela piscou lentamente, como se absorvesse minhas palavras, e então deu um meio sorriso, não de alegria, mas de puro deboche.
— Se enxerga, gênio — Respondeu, finalmente cedendo um passo para trás, mas mantendo o olhar fixo no meu. — Você nunca vai ser mais do que uma distração.
Por dentro, eu estava explodindo. Pela intensidade, pela proximidade, pela força com que ela conduzia a cena. Parecia tudo tão real que meu nervosismo quase me traiu.
Ela deu um passo para o lado, saindo da tensão, e relaxou a postura, voltando ao normal.
— Ok, isso foi bom. — Disse, claramente satisfeita.
— Bom? — Eu ainda estava tentando desacelerar meu coração. — Você tava incrível.
Ela sorriu, cruzando os braços.
— Você também não foi mal, Kwon.
Tentei disfarçar o rubor novamente, rindo enquanto me afastei um pouco.
— Agora pode só me chamar Brandon, mas obrigado.
Ela riu.
— Eu acho que Kwon combina mais. Sabe? Com esse ar atraente... — Ela brincou, dando uma risadinha, e eu quase senti meu coração pular para fora. Como ela conseguia dizer essas coisas de maneira tão simples? — Anda, vamos ensaiar de novo. Quero ver se conseguimos melhorar essa troca antes da cena real.
E lá fomos nós, mergulhando mais uma vez na tensão e na química, cada vez mais imersos nos personagens e na dinâmica que estava começando a florescer. Ainda que suas palavras tão simples ecoassem em minha mente, como se fosse algo extremamente difícil de decifrar, e que me dava um frio na barriga sempre que vinha à memória.
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As gravações finalmente terminaram, e eu estava parado no cenário das tubulações, ainda suando da cena final do dia. Aquela sequência havia sido um desafio físico, com o espaço apertado e os movimentos precisos que precisávamos fazer, mas também havia sido incrivelmente divertida. O diálogo entre Kwon e Calista era afiado, cheio de provocações que pareciam quase naturais depois de tanto ensaio. Durante as pausas, Kiana e eu não conseguíamos segurar o riso, especialmente quando um de nós errava uma linha ou esbarrava em algo.
Enquanto eu tirava o microfone preso na roupa, Kiana se aproximou com aquele sorriso característico que parecia iluminar qualquer ambiente. Ela levantou a mão, pedindo um toque.
— Mandamos bem, cara. Ficou impecável — Diase ela, os olhos brilhando de satisfação.
Ri, batendo minha mão contra a dela.
— Foi convincente pra caramba, parecia muito... Real. — Minha voz vacilou um pouco, e eu sequer sabia o motivo.
— Ah, então missão cumprida. — Ela riu também, ajustando o cabelo que estava preso de qualquer jeito depois da cena. Antes que pudesse responder, Jacob Bertrand passou por mim, dando um tapa amigável no meu ombro.
— Isso é só o começo, cara. Você vai se acostumar. — Disse ele com um sorriso encorajador antes de seguir para fora do set.
Eu e Kiana trocamos um olhar divertido, e então fomos juntos até o local de descanso, onde grande parte do elenco já estava reunida. Era um espaço amplo, com sofás espalhados e mesas cheias de garrafas de água e lanches. Todos pareciam exaustos, mas ainda animados com o ritmo do dia.
Peguei uma garrafa de água e me joguei em uma das cadeiras, enquanto Kiana se sentava próxima, conversando com Peyton e Mary sobre os detalhes de outra cena. Estava quase desligando a mente, apenas absorvendo o ambiente, quando Xolo veio e se sentou ao meu lado, cruzando os braços.
— Então, Brandon — Começou ele, com aquele tom brincalhão que eu já reconhecia. — O que achou de contracenar com a Kiana?
Olhei para ele, surpreso, mas dei uma risadinha, balançando a cabeça.
— Ela é incrível. Muito talentosa. Faz tudo parecer mais fácil.
Xolo sorriu de canto, claramente achando graça na minha resposta.
— É, ela tem esse jeito. Mas, vou te falar, as cenas de beijo com alguém assim são as mais engraçadas de gravar.
Arqueei uma sobrancelha, curioso.
— É mesmo?
— Sim. Todo mundo acha que é super desconfortável, mas, na real, elas são meio... Técnicas, sabe? Você só faz o que o diretor pede e tenta não rir. — Ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Ah, não sei, cara. — Confessei, dando um gole na minha água. — Eu tô um pouco nervoso com isso.
— Normal — Disse ele, me tranquilizando. — Mas, olha, você vai tirar de letra. Parece pior do que realmente é. E, honestamente, se você já tá se conectando com a Kiana assim, vai ser moleza. As cenas acabam fluindo quando tem química.
Assenti, sentindo um pouco do peso sair dos meus ombros. Apesar da palavra "química" ainda parecer me trazer um estranho formigamento.
— É, acho que sim. Quero dizer, tudo com ela parece... Fácil, mas ao mesmo tempo desafiador, entende? Tipo, ela te puxa pra dar o melhor de si.
— Essa é a ideia, parceiro — Disse Xolo, rindo e me dando um leve empurrão. — E você ainda tem sorte, porque as cenas de luta dela são insanas, assim como as suas. E as de vocês dois juntos? Vão ser épicas.
— É disso que eu tô mais ansioso, na verdade — Admiti, ajustando minha postura. — As cenas de luta vão ser incríveis, mas as cenas... A sós com ela? Eu não sei, cara. Parece uma aventura bem interessante.
Xolo riu, balançando a cabeça.
— Só relaxa e se diverte. Você tá em boas mãos. Acho que ela foi uma das atrizes no elenco que mais fez trabalhos conhecidos, ela é bastante experiente, vai ser moleza.
Olhei ao redor, vendo o elenco todo conversando e rindo. Kiana agora estava falando algo para Mary e gesticulando com entusiasmo, como sempre fazia. Mesmo do outro lado do espaço, sua energia era impossível de ignorar.
Xolo deu um tapinha no meu ombro antes de se levantar.
— Você vai ficar bem, cara. Agora aproveita o momento.
E, com isso, me deixei levar pelo ambiente. Estávamos só no começo, mas algo me dizia que essa experiência seria muito mais do que apenas trabalho.
Pouco tempo depois, enfim todas as cenas tinham chego ao fim. Estava escuro e o estacionamento estava praticamente vazio. A maior parte do elenco já tinha ido embora, e eu estava parado ao lado de uma das colunas, olhando para o meu celular com um misto de frustração e resignação. Meu motorista havia acabado de mandar uma mensagem, um acidente na pista tinha bloqueado o caminho, e ele estava preso em um congestionamento que levaria pelo menos duas horas para liberar. Suspirei fundo, tentando decidir se deveria chamar um táxi ou pedir carona para algum dos poucos colegas que ainda estavam ali. Mas a quem? Quase todo mundo já tinha ido embora.
Foi então que ouvi passos leves ecoando pelo espaço vazio, seguidos de uma voz familiar que parecia iluminar o ambiente.
— Ei, Brandon! Você ainda está aqui? — Kiana perguntou, vindo em minha direção com uma expressão curiosa.
Olhei para ela e sorri automaticamente, como se meu corpo respondesse à presença dela antes mesmo que eu processasse o que estava acontecendo.
— Ah, sim. Meu motorista ficou preso em um engarrafamento enorme. Parece que vou ficar por aqui um bom tempo.
Ela parou a alguns passos de mim, inclinando a cabeça levemente enquanto me analisava.
— Quer uma carona? Estou saindo agora. Meu carro está ali. — Ela apontou para o outro lado do estacionamento com a cabeça, o cabelo castanho balançando suavemente.
A expressão aliviada que tomou conta de mim deve ter sido óbvia, porque ela sorriu de canto, brincando.
— Parece que vou ser sua salvadora hoje à noite.
Soltei uma risada baixa, um pouco mais tímida do que eu queria.
— Definitivamente. Apareceu na hora certa. Obrigado mesmo.
— Sem problema — Respondeu ela, casual, enquanto começava a caminhar em direção ao carro. — Não podia te deixar aqui, no escuro, esperando duas horas. Vamos lá.
Eu a segui, tentando ignorar o fato de que meus olhos involuntariamente gravitavam para o sorriso dela. Havia algo incrivelmente genuíno e bonito na forma como ela parecia sempre tão confortável, tão segura de si. Quando chegamos ao carro — um modelo simples, mas elegante — ela destravou as portas e fez um gesto para eu entrar.
— Entra aí. Não deve demorar muito pra gente chegar. — Disse ela, dando um pequeno sorriso antes de se acomodar no banco do motorista.
— Obrigado de novo, de verdade. — Eu disse enquanto colocava o cinto de segurança. — Eu realmente achei que ia ficar preso aqui a noite toda.
Ela ligou o carro e deu uma risadinha.
— Bom, sorte sua que eu ainda estava por aqui. E então, onde você está hospedado?
— Naquela pousada a uns quinze minutos daqui — Respondi, ajustando meu cinto. — Algumas outras pessoas do elenco estão lá também.
Ela ergueu as sobrancelhas enquanto manobrava para sair do estacionamento.
— Sério? Eu também estou lá. O outro hotel onde a maioria do elenco está hospedada estava lotado quando fiz minha reserva.
Eu ri com a coincidência.
— Você tá brincando. Que sorte a nossa, hein?
— Sorte mesmo. — Disse ela, com um sorriso brincalhão. — Não é todo dia que você descobre que tem um vizinho do set.
O carro ganhou velocidade enquanto ela pegava a estrada que levava à pousada. No silêncio inicial, o som baixo do rádio preenchia o espaço. Ela estava tocando uma playlist de indie pop, que criava um clima suave e relaxante. Era difícil não me sentir um pouco menos tenso com o ambiente tranquilo.
— Então, como você está se sentindo depois de hoje? — Ela perguntou, quebrando o silêncio. — As gravações, as cenas... Foi um dia cheio.
Pensei por um momento antes de responder.
— Pra ser honesto, foi intenso, mas no bom sentido. As cenas de luta foram incríveis, e aquele diálogo no elevador... Achei que ficou muito bom. Você é incrível nisso, sabia? Parece que você se transforma completamente em outra pessoa.
Ela riu suavemente, o olhar ainda fixo na estrada.
— Bom, esse é o trabalho, né? Mas obrigada. Você também mandou muito bem. Eu sei que não é fácil lidar com aquelas provocações e manter a composição.
— Ah, eu finjo que é moleza, mas... — Ri, coçando a nuca. — Não é tão simples quanto parece.
Ela desviou o olhar rapidamente para mim, um sorriso divertido dançando nos lábios.
— Você se saiu muito bem pra quem diz que estava nervoso. Mas aí vai um segredo, essas cenas só funcionam quando há reciprocidade. Você tem que confiar na pessoa com quem está contracenando.
Assenti, absorvendo suas palavras.
— Faz sentido. Acho que isso é o que mais gostei de hoje. Foi fácil confiar em você.
Ela não respondeu imediatamente, mas notei o leve rubor que subiu em suas bochechas antes que ela desviasse o olhar novamente para a estrada. As palavras escaparam tão facilmente da minha boca que eu sequer me notei do tom delas. Depois de um momento, ela disse com um tom leve.
— Bom, ainda temos muita coisa pra gravar juntos. Espero que continue assim.
— Com certeza. — Respondi, tentando ignorar o calor que subiu ao meu rosto.
A conversa fluiu naturalmente depois disso. Falamos sobre cenas futuras, sobre como ambos estávamos ansiosos pelas sequências de luta mais intensas e, eventualmente, a conversa desviou para coisas mais pessoais, hobbies, músicas favoritas, experiências anteriores em outros trabalhos. Descobri que ela era incrivelmente fã de cinema clássico, e ela riu quando eu confessei que nunca tinha assistido a alguns dos filmes que ela considerava obrigatórios.
— Ok, isso é inaceitável. — Disse ela, balançando a cabeça em fingida descrença. — Quando essa temporada acabar, vou te obrigar a assistir a todos eles. Sem desculpas.
— Fechado. — Concordei, rindo. — Mas só se você topar maratonar minhas séries de suspense favoritas.
Ela revirou os olhos de forma exagerada, mas sorriu.
— Fechado.
O tempo passou rápido enquanto conversávamos, e logo o carro entrou na pequena estrada que levava à pousada. As luzes do local estavam acesas, iluminando o espaço aconchegante que parecia quase escondido entre as árvores. Ela estacionou perto da entrada e desligou o motor, virando-se para mim com um sorriso satisfeito.
— Chegamos. São e salvo. — Disse ela, usando um tom divertido.
— Obrigado mesmo, Kiana. — Disse, soltando o cinto de segurança. — Você realmente salvou a noite.
— Que isso, Brandon. Só retribuir o favor algum dia — Respondeu ela, dando de ombros, ainda mantendo seu tom brincalhão.
Saímos do carro e caminhamos juntos até a entrada da pousada. A noite estava calma, e o som suave das folhas sendo movidas pelo vento era quase relaxante. Ao chegarmos à porta, ela se virou para mim, com aquele sorriso que parecia iluminar tudo ao redor.
— Boa noite, Brandon. Vejo você amanhã no set?
— Com certeza. Boa noite, Kiana. E... Obrigado mais uma vez. — Respondi, sentindo uma ponta de ansiedade enquanto ela se afastava em direção ao corredor que levava ao seu quarto.
No entanto, ela parou no caminho, se virando lentamente em minha direção. Havia um pequeno sorriso em seus lábios que eu não conseguia ao certo decifrar, então ela inclinou a cabeça.
— Kie.
— Hm? — Eu franzi o cenho, dando um passo à frente.
— Pode me chamar de Kie — Ela riu — Sem formalidades.
— Tudo bem, Kie.
Dei um sorriso, e finalmente caminhamos em direções opostas. Enquanto entrava no meu quarto, fechei a porta e me joguei na cama, ainda processando os eventos do dia. Meu coração ainda batia acelerado, mas dessa vez não era por causa de nervosismo com o trabalho. Era algo diferente, algo que eu não sabia exatamente como nomear, mas que me deixava animado para o que viria a seguir, tanto nas gravações quanto fora delas.
Obra autoral ©
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