𝟬𝟱 𖧹 Um Erro Fɑtɑl

❝Eu sangro, e eu respiro
Eu não respiro mais❞

Evanescence ━━ Breathe No More

MIRANDA ENCONTROU um refúgio temporário em um hotel cuja fachada desgastada se misturava com o cinza urbano de Nova York. As paredes, marcadas pelo tempo, pareciam ser
guardiãs silenciosas dos segredos incontáveis da metrópole. Em seu quarto, com vista para o emaranhado de luzes e vidas da cidade, ela traçava planos para uma viagem surpresa de volta às suas raízes. 

Ansiava pelo conforto familiar, pela cura que somente o lar pode oferecer, ao lado de
tios acolhedores e de uma prima que compartilhava laços tão profundos quanto os de irmãs. Era um anseio por renovação, por respirar o ar puro de sua terra natal, distante da sombra opressiva que Miles Bennet lançara sobre sua vida.

Miranda alimentava a esperança de que a distância física pudesse ser o remédio para a dependência emocional que a consumia, um bálsamo para as feridas invisíveis que marcavam sua alma. No entanto, ao cruzar o limiar de sua antiga vida, uma sensação de vazio a invadiu, tão vasta e profunda quanto o céu noturno sem estrelas. Com a partida, veio a realização de que ela havia deixado tudo para trás, exceto as roupas que vestia e alguns dólares amassados escondidos no bolso da jaqueta ━━ Um montante ínfimo que mal cobria o custo de uma noite em um motel modesto.

Essa constatação a fez confrontar a realidade de sua situação: Estava sozinha, sem os confortos de casa ou a segurança de um futuro planejado. Mas dentro dela, uma chama de determinação começou a arder. Miranda sabia que, embora seu caminho à frente fosse incerto, cada passo a afastava da sombra de Miles e a aproximava da possibilidade de redescobrir sua própria força e independência.

Vom o coração batendo em um ritmo frenético, buscava desesperadamente por um refúgio. Seus dedos, trêmulos e incertos, percorriam o teclado do telefone, discando os números de amigos na esperança de encontrar um porto seguro. Ela ansiava por retornar à mansão que uma vez compartilhara com Miles, onde estavam guardados não apenas seus documentos, mas também o dinheiro que havia economizado meticulosamente para a viagem ao México ━━ Uma viagem que simbolizava um novo começo, uma fuga das sombras do passado.

A cada chamada que caía no vazio, ignorada ou desviada para a caixa postal, uma pontada de desespero a atingia. Era como se cada toque de silêncio fosse uma lâmina afiada, cortando as frágeis cordas de esperança que ainda a sustentavam. Mas em meio ao pânico e à incerteza, uma centelha de determinação ainda ardia dentro dela. Miranda sabia que, apesar dos obstáculos, ela precisava continuar lutando por sua liberdade e por sua vida. Era um momento de prova, um teste de sua resiliência e coragem.

Sem outras opções, a garota recorreu a seu ex-namorado,  o homem cuja lembranças era tanto um conforto quanto um tormento. Para sua surpresa, ele atendeu prontamente, sua voz uma mistura de preocupação e alívio, oferecendo ajuda. prometeu reunir seus pertences e o dinheiro escondido, respeitando sua decisão de visitar sua família. Apesar de separados, ele expressou um desejo genuíno pelo seu bem-estar. Quando ele indagou sobre sua localização, a mexicana, embalada por uma confiança vacilante, revelou seu esconderijo.

Não tardou para Miles alcançar o quarto de hotel, modesto e acanhado, cujas paredes finas lutavam para silenciar os ecos urbanos. Em seus braços, carregava não apenas os pertences de Miranda, mas também um pedido de desculpas pelos erros que o tempo não apagou. Sua postura, antes curvada pelo peso da culpa, agora erguida em uma sinceridade inesperada, refletia um pedido mudo por redenção

Interrogada sobre o medicamento para a ansiedade, ela sentiu o coração apertar ao recordar que o havia deixado no banheiro, onde os azulejos rachados eram testemunhas de esquecimentos. Ao girar a torneira em busca de água para engolir a pílula, deparou-se com o vazio, um eco de sua própria ânsia por liberdade.

Miles, atento à sua angústia, prontificou-se a buscar água no frigobar. Com um movimento suave, ele abriu a porta e entregou-lhe a garrafa, cujo gelo parecia aliviar não só a sede física, mas também a emocional. Ela bebeu metade em um longo gole, tentando saciar mais do que a simples sede.

Enquanto expressava sua gratidão a Miles pela gentileza, Miranda foi subitamente tomada por uma vertigem intensa, como se o chão sob seus pés começasse a vacilar. Sentiu o mundo girar ao seu redor em um compasso lento e distorcido, cada movimento se tornando uma luta ingênua contra a gravidade. Sua visão se turvou, e as luzes da cidade do lado de fora se transformaram em manchas brilhantes, se fundindo em um vórtice de cores que girava em torno dela.

O ar parecia se tornar mais pesado em seus pulmões, e um formigamento familiar começou a se espalhar por seus membros, como se um pano quente estivesse cobrindo seu corpo. Os sons ao seu redor tornaram-se abafados, uma mistura indistinta de vozes e ruídos urbanos que ecoavam como um sonho distante. A realidade esmaecia, deslizando por entre seus dedos, enquanto sua consciência se tornava cada vez mais nebulosa.

Dentro dessa espiral descendente, uma sensação de calma estranha emergiu, misturada a um pânico crescente. Era como se ela estivesse flutuando em um mar de algodão, onde as preocupações e dores que a atormentavam se dissipavam lentamente. Mas essa sensação de alívio era ilusória — uma armadilha insidiosa que a atraía para o fundo, muito longe da superfície da sua vida.

Por entre o véu escurecente que se adensava, ela captou o sorriso sádico de Miles, um lampejo de memórias passadas, onde o amor havia se transformado em dor. Sua expressão não era aquela de um amigo preocupado, mas de alguém que se alimentava da sua fragilidade. A imagem de Miles se distorceu, suas características se tornando grotescas e ameaçadoras, um reflexo da submissão que ela havia tentado deixar para trás.

Sua mente flutuava entre a consciência e a escuridão, ela sentiu como se estivesse caindo, não apenas em um abismo físico, mas numa profunda caverna de desespero e solidão. O chão parecia desaparecer sob seus pés, e, em um último lampejo de lucidez, Miranda percebeu que, apesar de seus esforços para escapar, as sombras do passado estavam sempre a espreitar, prontas para puxá-la de volta.

E então, como se a própria luz do mundo tivesse se apagado, ela sucumbiu ao abismo que se abria sob ela, deixando para trás a luta desesperada por um futuro que agora parecia tão distante.

Naquele instante de fragilidade, Miranda cedeu ao erro de renovar sua confiança em Miles, uma falha que, tristemente, é compartilhada por muitas. Ao concordar em vê-lo, ela inadvertidamente se inseriu em uma estatística perturbadora, tornando-se parte de um cenário onde, dia após dia, mulheres enfrentam uma violência silenciosa e invisível.

𝓘mperdoάvel
• Capítulo com 1161 Palavras
• Escrita por Maíra Lima
• Sem Revisão Ortográfica
• Publicado 03 de Maio de 2024
• Todos os Direitos Reservados © 𝟮𝟬𝟮𝟰

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