III. A LOJA DOS MISTÉRIOS
PARA ANASTÁSIA, o resto do dia teria sido um total desastre se não fosse pelos boatos que corriam pelos corredores a respeito do novo aluno. Nenhum deles soava verdadeiro, até que Laura Herbert, a filha mais nova do corretor de imóveis da cidade, deixou escapar que seu pai o recebeu em um horário improvável. Todos sabiam que o Sr. Herbert odiava trabalhar após o horário, mas quando um estranho bateu em sua porta interessado em na casa mais impossível de ser vendida, um sorriso foi aberto de orelha-a-orelha.
Alec chegou em meio à chuva na madrugada de sábado e ofereceu o valor integral da mansão em dinheiro vivo, fazendo o Sr. Herbert quase ter um infarto. Laura disse que o espiou pela porta da cozinha quando passava e que trocaram olhares por breves momentos, depois ela ligou para Luna Smith que ligou para Kate Bennett que ligou para Mia Harper que ligou para Ginny Anderson que ligou para Isabella.
Aquela informação fez com que todos ficassem ainda mais curiosas sobre o status financeiro do recém-chegado: "Ouvir dizer que ele faz trabalhos como modelo fora do país", "Ele é herdeiro de uma multinacional se escondendo nesse fim de mundo", "Acho que ele deve ser a traficante", foram algumas das suposições inventadas.
O fato de não estar interessada naquilo não impedia que Anastásia fizesse anotações mentais sobre tudo o que ouvia e elaborasse um plano para se aproximar do rapaz. Para sua infelicidade, a única pessoa que havia conversado com ele o suficiente para ter alguma informação verdadeira foi Jessica, que por sua vez, parecia decidida a manter o mistério e atiçar a curiosidade alheia, desviando a atenção para si mesma mais uma vez.
Patético, pensou.
Despediu-se das amigas no estacionamento após combinarem uma noite de filmes para o final de semana, e seguiu sozinha em direção ao centro da cidade com a mesma desculpa que deu para Barbara naquela manhã. A cidade não havia mudado durante os anos que passou fora, mas as memórias de infância sempre pareciam mais ensolaradas, como um sonho distante.
Ao passar pela praça principal, pode se ver sentada nos bancos de madeira rústica ao lado de suas amigas e Jessica, todas gritando e cantando ao brincar de animadoras de torcida enquanto os garotos da turma jogavam bola no gramado, reclamando quando elas atrapalhavam. Um sorriso nostálgico surgiu ao lembrar de Martyn a empurrando no chão quando ela se recusou a devolver a bola. Lembrou-se do asfalto áspero contra a pele, do braço e da bochecha ralados e, com olhos cheios de lágrimas, viu Eric, furioso, batendo no irmão e correndo para ver se ela estava bem. Minutos depois, Eric estava com um olho roxo após ter apanhado de Victória e Jessica no lugar do irmão.
Eram tempos simples que deixavam saudade, porém Anastásia sentia que tempos ainda melhores estavam por vir. Criando em si a sensação de que algo grandioso a esperava, algo que faria sua volta valer a pena.
Uma loja chamou sua atenção, trazendo memórias sombrias. Anastásia se lembrava bem da Mystical Artefacts e de como nenhuma das crianças de sua idade tinham coragem de chegar perto ou pronunciar o nome da loja em voz alta, porque as crianças mais velhas espalhavam boatos que isso atraia a bruxa que cuidava do estabelecimento.
Anastásia nunca se atreveu a entrar, sentia arrepios ao olhar para a construção envolta em sombras, com vitrines empoeiradas cheias de teias de aranhas e foi embora muito antes de criar coragem. Mas se lembra quando Jacob Hall se arriscou por toda turma do segundo ano do primário, e decidiu entrar escondido. Minutos depois ele voltou, pálido e assustado, descrevendo como o local mais pavoroso que já havia visto. Atualmente, Victória trabalhava meio período na loja, as terças e quintas-feiras.
A porta de vidro exibia uma placa de fundo negro com um grande "ABERTO" escrito em giz florescente. Ao empurrá-la um sininho baixo tocou em algum canto no fundo do estabelecimento.
O cheiro forte de incenso pairava no ar, denso e enjoativo, criando uma atmosfera sufocante no interior minúsculo; repleto de pilhas de livros e objetos estranhos, difíceis de identificar o real uso. Em uma mesa, um gato empalhado sem olhos fez seu coração apertar – a semelhança entre ele e Edwin era assustadora. Nas prateleiras, potes de vários tamanhos e formatos se alinhavam, alguns com etiquetas desgastadas e outros com os vidros tão escurecidos que era impossível dizer se estavam cheios ou vazios.
— Anastásia.
Ouvir seu nome ser chamado em meio ao silêncio fez com que ela se engasgasse com um grito, derrubando alguns livros ao se virar bruscamente.
Uma velha baixa e magricela estava parada as suas costas, usando muitos colares que tintilavam quando ela se mexia e anéis de diferentes tamanhos cobriam seus dedos ossudos. Suas roupas pareciam ser pedaços de cortinas, misturando estampas que não combinavam e os cabelos arrepiados e volumosos davam um ar de desleixo.
Seus olhos azuis penetrantes eram ampliados pelas lentes dos óculos redondos.
Anastásia se viu diante do temor de sua infância: a bruxa terrível da loja que, olhando agora, não parecia tão assustadora quanto suas memórias a enganavam.
— Alô! — Ana cumprimentou sem jeito.
— Finalmente você apareceu.
Antes que Ana pudesse reagir, a Sra. Flowers agarrou sua mão e a virou para cima, correndo a ponta dos dedos enrugados por toda extensão da palma. A velha fechou os olhos por um minuto e a garota olhou ao redor, sentindo-se desconfortável, como se estivesse sendo vítima de alguma pegadinha; esperou que a qualquer momento iria ouvir risadinhas abafadas e descobriria as câmeras ocultas.
— As runas me disseram que você viria hoje. — murmurou a velha, abrindo os olhos grandes e afastando uma mecha dourada do rosto jovem com um sorrisinho. — Ah, sua mãe ficaria tão orgulhosa da bela garota que você se tornou! Ela era uma mulher maravilhosa... vocês não mereciam o destino que tiveram.
Anastásia sentiu o estômago revirar e engoliu seco, sem saber ao certo como reagir aquelas palavras. Sua mãe era como um fantasma em seu passado, uma presença etérea e distante, que ela conhecia apenas por fotos e histórias breves. Todos a conheciam em Haven Heights e tinham muito carinho por ela, e todos lamentavam profundamente a tragédia que a acompanhou.
Ninguém sabe ao certo o que levou Magnólia a entrar na floresta após sentir os primeiros sinais de que sua filha estava prestes a nascer. Alguns acreditam que o medo e a culpa de gerar uma vida fora de um casamento a levaram para à loucura. Outros afirmam que aquela menina já não era mais ela mesma. Barbara preferia não tocar nesse assunto.
Foi na noite mais fria daquele ano, longe dos olhares curiosos, que Magnólia partiu, deixando para trás apenas um rastro escarlate na neve que cobria a floresta – rastro que só se tornou visível ao amanhecer. Horas depois, seu corpo foi localizado já sem vida, nu e submerso no lado gelado. Anastásia, recém-nascida, estava enrolada em uma manta vermelha, deixada às margens do lago onde a equipe de buscas comandada pelo xerife a encontrou.
— Ah, desculpe. — A Sra. Flowers apertou sua mão como se pudesse ler seus pensamentos. — Venha aqui.
Sem soltá-la, a guiou pelos corredores até chegarem no balcão. Pediu que esperasse um pouco enquanto vasculhava uma gaveta barulhenta, cheia de objetos antigos, espalhando papéis e plantas secas, até puxar um pequeno saquinho de veludo negro. Os olhos azuis brilharam com uma animação infantil quando ela ergueu diante delas e o entregou para Anastásia.
— Um presente de boas-vindas, querida — disse com a voz meiga e fez um gesto para que a garota abrisse logo.
Com um sorriso amarelo, Ana abriu o saquinho e dentro havia um anel que ela retirou com cuidado, girando-o diante de seus olhos. Feito de um metal prateado, quase negro, uma serpente esculpida finamente em prata envelhecida se enrolava ao redor do aro com detalhes tão cuidadosos que davam a impressão que ela se mexeria a qualquer momento. Entre as presas afiadas, ela carregava uma pedra vermelha, de um tom tão profundo que se assemelhava a sangue, brilhando como se tivesse luz própria.
Com certeza não é meu estilo, pensou.
Antes mesmo que pudesse perguntar se poderia trocá-lo ou até mesmo agradecer, a senhorinha já estava empurrando-a delicadamente para fora da loja enquanto falava em quanto trabalho tinha para fazer. A porta se fechou rapidamente às suas costas e o som da chave sendo girada fez com que ela olhasse para trás, em tempo de ver a placa balançando e girando sozinha para o outro lado: "Fechado".
Por um momento, Anastásia ficou parada em frente à loja, tentando processar o que acabara de acontecer. Na mão fechada, o metal frio parecia pulsar, como se tivesse vida própria. Balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento, e guardou o anel de volta no saquinho de veludo antes de colocá-lo na mochila. Os pavores da infância tornaram a aflorar e, mesmo que tivessem sido provados ridículos, Anastásia nunca mais voltaria àquela loja.
Seguiu o caminho, decidida a deixar aquele acontecimento no mínimo bizarro para trás. Passou pela floricultura, cumprimentando o Sr. Albert e elogiando as flores radiantes que eram expostas em jarros de diversos tipos. O café que costumava frequentar com Barbara também continuava lá, os copos gigantes de milk-shake que um dia pareceram enormes, já não eram mais tão impressionantes assim. Por fim, rumou ao porto.
A área era extensa, e todos os final de semana uma pequena feira ocupava o lugar com barraquinhas coloridas, vendendo os mais diversos tipos de mercadorias. Lembrou-se das vezes que corria por ali com um cata-vento de papel na mão, enquanto se afastava de sua tia e os gritos de cuidado da mulher se misturavam com o vento. Tudo era uma diversão sem fim.
Dali de cima, podia ver o mar se estendendo até o horizonte, o vento balançando seus cabelos e trazendo o cheiro familiar da maresia. Desceu pelas pedras um pouco escorregadias até a barreira de pedra, sentindo os respingos de água salgada em seu rosto e ficou admirando o ponto em que o céu se misturava com o mar. De longe, ouviu um assovio.
Um homem alto se aproximava, andando despreocupadamente. Seus cabelos escuros estavam presos em um pequeno rabo de cavalo, alguns fios soltos dançavam na brisa. Vestia uma regata preta tão desbotada que era quase cinza e uma blusa xadrez vermelha amarrada na cintura, por cima da calça jeans azul. Ele era esquio, mas os músculos torneados mostravam que era acostumado com o trabalho braçal, e sua pele de quem passa horas sob o sol.
— Finalmente resolveu sair de casa. — disse ao chegar mais perto, puxando-a para um abraço paternal que encheu as narinas da garota com o cheiro forte de peixe e suor. — Quando passei por lá, você não estava.
— A primeira coisa que fiz quando cheguei foi me entupir de sorvete e pizza com as meninas, e assistir filmes de terror.
— Foi o que sua tia falou. Como está se sentindo com a volta?
— Eu senti muita falta daqui — Os olhos violetas encararam o horizonte por um tempo demorado e tornaram a encará-lo. — Mas ainda estou me sentindo meio perdida, sabe? É uma mudança e tanto.
— Você vai se acostumar, assim como se acostumou lá. — Ele passou a mão calejada pelo cavanhaque que cobria seu queixo largo. — Estava fora da cidade, não pude ajudar na mudança.
— Os Palmers nos ajudaram, e depois todo mundo começou a bater na nossa porta para ajudar, mas só queriam nos ouvir falar. Me senti uma estrela.
— Você é uma. — Ele respondeu com um sorriso e olhou para o céu com as sobrancelhas unidas antes de começarem a caminhar lado a lado de volta para o porto. — Vai escurecer logo.
— Ainda é cedo — retorquiu, saltitando sobre as pedras. — Poderíamos marcar um jantar essa semana, o que acha?
— Só sei preparar peixe.
— Ninguém é perfeito, Dil — gargalhou.
— Tenta convencer sua tia de fazer aquele rosbife com charlota. Se eu pedir, ela não faz.
Ana riu e assentiu, se despedindo.
Dilan Hill sempre foi um cara bacana. Desde que Anastásia se lembra, ele sempre foi muito presente em suas vidas, com um sorriso constante e disposição para ajudar Barbara sempre que necessário. Às vezes, a garota se perguntava se houve algo entre eles durante seus primeiros anos, onde ela era muito nova para entender. Se não fosse pelo cheiro de peixe e o fato de morar em um barco, eles poderiam formar um belo casal como nos romances que a mulher gostava de ler.
Imersa em seus pensamentos, Ana quase não percebeu o choro baixo de um animal que vinha de longe, atraindo sua atenção na direção à uma rua escurecida por fileiras de arvores; parecia ferido pela forma que grunhia na beira da floresta. Preocupada, seguiu em direção ao som do choro, mas logo percebeu que, a cada passo que dava em direção à floresta, o som parecia se afastar ainda mais.
Anastásia parou hesitante por um momento, sentindo uma leve inquietação no peito, e balançou a cabeça negativamente. Aquilo não fazia sentindo algum, mas não conseguia se livrar da sensação de que algo estava errado. Olhou ao redor e percebeu com um arrepio que já não conseguia ver o porto as suas costas, e as águas do mar tremulavam como uma miragem no deserto. O choro do animal estava mais alto agora, vindo de algum lugar em meio as árvores que pareciam dançar ao seu redor, se fechando em torno dela lentamente.
Lutando contra o nervosismo e tentando se garantir de que estava tudo bem, porém, por mais que quisesse ajudar, decidiu que seria melhor ignorar o lamento do animal. Com um aperto no coração, Anastásia deu meia-volta para refazer seu caminho até o começo da pequena rua, mas parecia que a cada passo que dava, ela recuava três.
A estrada se estendia infinitamente à sua frente e, ao olhar para trás, viu a mesma imagem refletida, tornando impossível distinguir qual direção era a certa. O desespero tomou conta dela e a respiração acelerada ecoava alta demais em seus ouvidos. Isso não pode estar acontecendo, pensou ao procurar uma explicação lógica para aquilo, mas sem sucesso
De repente, sentiu um peso em seus pés e, ao olhar para baixo, já não estava mais no asfalto e as pequenas raízes se enrolavam por seus tornozelos como serpentes em sua presa. Soltou uma exclamação assustada e se desvencilhou em movimentos bruscos, pisoteando as raízes várias vezes para garantir que não a segurariam novamente e percebeu que era melhor não ficar parada por muito tempo.
Um gralhar cortou o ar sem aviso, fazendo um arrepio gelado correr por sua espinha; uma sombra desceu sobre ela em uma velocidade assustadora, tomando a forma de um enorme corvo. As asas eram tão grandes que pareciam abraçar tudo ao seu redor, trazendo consigo a escuridão. Anastásia precisou erguer os braços para evitar que o rosto fosse chicoteado pelas penas negras
— Saia daqui — gritou tentando empurrá-lo para longe.
O corvo continuou a circular ao redor dela, girando cada vez mais próximo de seu corpo, fazendo-a se encolher em uma tentativa se se proteger. Os gritos do animal ecoavam em seus ouvidos misturando-se com os seus próprios. Angustiada, a garota tentava sair do caminho do pássaro sem sucesso e choramingava ao sentir as garras contra sua pele exposta.
Sem conseguir ver por onde andava, Anastásia perdeu o equilíbrio em um passo em falso e o corpo caiu pesadamente, deixando uma sensação gelada em seu estômago. Ela rolou alguns metros pela terra enlameada de descida, as folhas secas grudando em seus cabelos e os gravetos riscando seus braços. Ainda ouvia o gralhar do corvo vindos de algum lugar distante, quase como se estivessem em outra realidade.
Uma dor aguda e lancinante irrompeu por sua testa, espalhando-se por toda sua cabeça, e tudo foi absorvido pela escuridão.
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