I. O PRIMEIRO DIA
ANASTÁCIA DORMIA PROFUNDAMENTE com o rosto encostado na vidraça fria manchada por vestígios da chuva, após passar o final da tarde fazendo seus deveres escolares, sentada no acolchoado da janela com uma caneca de chocolate quente. Sua respiração surgia como pequenos círculos brancos no viro que sumiam logo em seguida e a luz tênue da lua minguante absorvia todo o colorido de seu rosto. Seus cabelos dourados eram tão claros que criavam um contorno espectral a sua volta, tornando-a fantasmagórica.
Em meio à escuridão do quarto, uma sombra miou em uma tentativa de atrair atenção para si sem sucesso. Com um impulso gracioso, o felino subiu no banco em que ela estava e afundou despreocupadamente as unhas finas em uma almofada de cetim, fazendo com que os fios se soltassem; depois se sentou no batente da janela, observando a noite do lado de fora enquanto ronronava.
O vento soprava como música entre as árvores, fazendo seus galhos dançarem em sincronia e as folhas molhadas refletiam os relâmpagos que piscavam de tempos em tempos. As nuvens vermelhas começaram a se fechar novamente e uma névoa fria surgiu pela floresta, rastejando como uma serpente de fumaça pela rua iluminada por um único poste de luz. O gato preto semicerrou os olhos e seus pelos se eriçaram.
Um trovão retumbou alto o suficiente para despertá-la, assombrada pelos fantasmas de seus sonhos, os quais nunca conseguia se recordar. Esfregou os olhos em uma tentativa de afugentar o sono e olhou ao redor em busca de algo que estava faltando; como sempre, pensou um tanto irritada. Por mais que tentasse, não conseguia escapar da constante sensação de que algo em sua vida estava fora do lugar, uma peça solta que se perdeu em meio ao tempo. Como se seu interior ansiasse por algo que ela não saberia nomear.
Suspirou frustrada.
O semblante melancólico surgiu em seu rosto ao afastar a cortina de renda rosada e espiar pela janela. A chuva recomeçou a cair aos poucos, mas logo engrossou o suficiente para que o estalar das gotas se transformasse em um som contínuo. Odiava tempos chuvosos e aquele foi o primeiro final de semana desde que voltaram que não parou de chover, precisou desmarcar planos e passou os dias em meio as cobertas desejando que o sol surgisse na manhã seguinte.
O despertador tocou pontualmente às seis horas da manhã e ela ficou mais alguns minutos deitada, acariciando a barriga molinha do gato que estava deitado ao seu lado, antes de se levantar e banhar-se na água quente. Passou mais algum tempo decidindo o que iria usar naquela manhã que não parecia ser um grande dia, então optou pelo básico: um top rosa bebê justo com mangas curtas e um jeans claro. Sentou no banquinho da penteadeira de cerejeira que tinha desde criança e se olhou no espelho.
Era uma garota bonita e sabia muito bem disso.
Seus traços eram finos, delicados e harmoniosos, dignos de uma pintura; o corpo alto e esguio se movimentava com a elegância de um felino. Os cabelos loiros escorriam até a cintura fina como uma cascata de ouro branco. Mas seus olhos eram o detalhe mais peculiar em sua face; intensos e violetas, como duas pedras frias de ametista.
Pegou uma escova e passou pelos cabelos, deixando-os mais brilhosos e macios. Um pouco de gloss incolor para dar brilho aos lábios rosados e ela sorriu meigamente para seu reflexo, como vinha treinando desde que soube que voltariam para a cidade.
O rosto de uma rainha, pensou confiante.
O gato a observava, deitado em cima das cobertas, bocejou, exibindo as fileiras de dentes afiados e a língua áspera. A menina o pegou no colo como se fosse um bebê, provocando um pequeno miado de reclamação e o embalou de um lado para o outro.
― Muito bom dia para você, Sir Erwin. ― Segurou uma das patas dele, cumprimentando-o como se fosse uma pessoa. ― Está deveras charmoso nessa adorável manhã.
Ele miou novamente, ronronando ao ter o queixo afagado.
Já estava terminando o café da manhã quando ouviu passos apressados descendo as escadas. Bárbara surgiu com um elástico entre os lábios, enquanto tentava domar os cabelos dourados e desalinhados em um rabo de cavalo. Ela era uma cabeça mais baixa que a menina, com o rosto marcado por bochechas redondas e olhos castanhos brilhantes.
― Bom dia! ― Ana cumprimentou, surpresa. ― Achei que ia dormir até mais tarde hoje.
― A Ângela me ligou ontem a noite pedindo para cobrir o turno dela e eu quase esqueci. ― A falta de fôlego em sua voz demonstrava a correria ― Preciso aprender a dizer não para as pessoas.
Anastásia riu.
― Vai querer carona? ― Barbara indagou, servindo uma xícara de café puro e fez uma careta ao tomá-lo. ― Faltou açúcar. Se quiser, vamos agora.
― Não precisa. ― Ana rodeou a mesa e deu um beijo na bochecha da mulher. ― Quero esticar as pernas depois de tanta chuva.
― Certo. ― A mulher pegou a bolsa em cima do balcão e foi em direção a porta. ― Qualquer coisa, me liga.
― Tenha um bom trabalho! ― Ana gritou em resposta, mas não teve certeza de que foi ouvida.
A mudança para a cidade grande foi motivada pelo desejo de Barbara de cursar enfermagem, e após anos no meio da correria urbana, noites sem dormir por conta de estudos e uma sobrinha para criar, ela se formou e logo em seguida terminou seu doutorado. Mas Barbara detestava a cidade grande assim como Anastásia odiava a chuva. Foi preciso mais alguns anos acumulando experiência até que a tão esperada oportunidade apareceu e assim ela conseguiu uma transferência para o hospital da cidade vizinha, cerca de meia hora de Haven Heights.
O céu estava em um tom pastoso que fazia parecer que o dia ainda não havia começado de fato. Quando saiu, foi recebida pela brisa fresca soprando por seus cabelos como um sussurro, trazendo o cheiro úmido da terra. Ao entrar na rua principal, seus olhos se fixaram nas altas casas vitorianas que se estendiam ao longo da via, com suas fachadas imponentes e sombrias. O lugar parecia envolto em um véu de melancolia, as janelas de vidro refletindo o céu acinzentado.
De vez em quando, uma criança corria apressada para fora de casa, um adolescente de cara emburrada levava o lixo até a calçada, e um casal de idosos passeava com seu dachshund. Anastásia, como uma boa vizinha, cumprimentava cada um com acenos e sorrisos resplandecentes, que eram retribuídos com a mesma intensidade. Tudo estava bem, no entanto, algo parecia fora do lugar naquela manhã.
Apesar da familiaridade, a cidade parecia envolta em uma aura estranha que a deixava deslocada, e ela não conseguia entender o que era. Foram dez anos longe, e muitas coisas podem mudar em uma década, mas Haven Heights não era assim; a cidade parecia imune ao tempo com suas ruas, casas e árvores iguais a do dia que ela e sua tia partiram. Não é a cidade, sou eu, concluiu com um suspiro pesado. Adorava as memórias de infância, mas começava a sentir que estava tentando se encaixar em um cenário que não a pertencia mais.
Você está pensando mesmo nisso, Ana? Quanta bobagem!, repreendeu-se mentalmente e revirou os olhos. Ela não era deslocada; era Anastásia Sinclair, futura rainha do baile da escola. Pessoas que tentavam se encaixar em seus padrões para serem aceitas, e não ao contrário. Então se havia algo fora do lugar, era simplesmente uma questão ajustá-lo ao que ela desejava.
Ao chegar no estacionamento do Robert W. High School, Anastásia rapidamente localizou o Jeep verde musgo entre os outros carros e acelerou o passo em direção ao veículo, onde as amigas estavam encostadas. As três se conheciam desde o primeiro dia do ensino infantil e se tornaram inseparáveis. Nem mesmo a distância conseguiu afastá-las, já que Anastásia sempre pedia para que a tia telefonasse para às amigas e elas passavam horas conversando.
— Bom dia! — Isabella cumprimentou com entusiasmo.
Desde que Anastásia se lembrava, Isabella sempre foi assim. Era como se não houvesse um dia ruim para ela, com um sorriso sempre radiante e um brilho infantil nos grandes olhos mel-esverdeados.
― Bom dia, Bells ― cumprimentou-a de volta e virou-se para Victória.
― Me conta, por favor!
A expressão marcada no rosto de coração mostrava que o assunto só seria devidamente comentado quando todas estivessem reunidas. O que era uma visível tortura para Isabella. Victória, a mais alta das três, com seus cabelos negros ondulados geralmente presos em um rabo de cavalo alto e óculos de grau que a davam um ar sério demais, analisava as unhas pintadas de bege com um suspiro frustrado, o que não era um bom sinal.
— Ele tentou apertar meu peito — Victória revelou, fazendo com que os rostos das meninas corassem e risadinhas abafadas escapassem. Isabella cobriu a boca com as mãos, tentando controlar o riso. ― Tyler é um verdadeiro babaca sem modos!
― O capitão do time de futebol! ― Isabella secou uma lágrima imaginária de tanto rir.
― Número um na lista da perdição! ― Anastásia completou.
— Não, não mais! — Victória disse, colocando a mão sobre o peito como se estivesse fazendo um juramento. — Eu, Victória Simons, oficialmente retiro Tyler Anderson da LDP.
— Retirar é um pouco pesado, não acha? — Anastásia observou. — Não tem tantos garotos bonitos aqui. Vamos colocá-lo em décimo, ok?
Victória fez uma careta e concordou com um revirar de olhos.
― Agora que o primeiro tópico foi encerrado, vamos ao próximo? — Isabella disse, batendo palmas e começando a caminhar em direção ao prédio. — Vocês já ouviram falar do novato?
Ana balançou a cabeça negativamente, um brilho curioso transpareceu em seu olhar atento.
― Pois você saberia se tivesse me atendido! ― Exclamou dando um soquinho na cabeça da amiga. ― Ainda estou magoada.
― Quem é ele? ― Ana indagou, passando a mão pelos cabelos.
― É um tal de Alex, algo assim. Fiquei sabendo que ele é incrível.
Enquanto caminhavam pelos amplos corredores, alguns alunos cumprimentavam-nas com um casual "Oi, como estão?", enquanto outros apenas acenavam de longe. Também havia as garotas do primeiro ano, que tentavam manter conversas mais longas na esperança de se aproveitar da popularidade de Anastásia e, quem sabe, se tornar parte da realeza. Isabella, sempre amigável, prolongava essas conversas até que Ana a puxasse pelo braço, rindo e dizendo um "Te vejo mais tarde!" que todas sabiam ser apenas palavras educadas, mas falsas.
Em um momento de distração, alguém se esbarrou com Anastásia que por pouco não derrubou seus livros no chão. A garota se virou para desculpar-se e falar que estava tudo bem, mas se deparou com Jessica se afastando em passos rápidos. As três se entreolharam e balançaram a cabeça em concordância. No passado, as quatro eram inseparáveis, dividindo bonecas e partilhando segredos infantis. No entanto, Jessica subiu ao status de rainha do colégio e se afastou das meninas, mantendo a coroa oficial do baile por quatro anos consecutivos; com o retorno de Ana, ela sabia que seu reinado estava ameaçado e a antiga amizade se transformou em uma competição não declarada.
O sinal tocou e elas seguiram juntas para a primeira aula.
― Ana, os Palmer estão olhando para cá. ― Isabella sussurrou no meio de um monologo em espanhol.
Anastásia lançou um olhar na direção dos rapazes e sorriu ao vê-los piscar em sincronia antes de voltarem a se concentrar na professora. Os gêmeos idênticos, Martyn e Eric, depois das férias passaram a ser diferenciados apenas pelo corte de cabelo: um optou por um corte militar e o outro permaneceu com os fios mais longos, arrumados em um topete. Eram simpáticos, altos e encorpados, e jogavam no time de futebol do colégio.
Juntos com o pai, o Xerife Palmer, foram os primeiros a dar boas-vindas às Paige e ajudaram na mudança. Passaram a tarde inteira na casa, tentando espiar dentro do quarto de Ana toda vez que passavam carregando móveis para o andar de cima, fazendo-a rir. Naquele dia, Ana olhou pela janela na hora em que tiravam as camisas e jogavam água sobre a cabeça, pois estavam cansados e suados demais; rapidamente, ela ligou para Isabella e descreveu com detalhes o que estava vendo. Ao final do dia, se reuniram na sala de jantar para comer e contar as novidades.
― Martyn falou que o Eric tá muito na sua ― Isabella disse. ― Mas isso não é segredo, ele nunca te superou.
Victória bateu o lápis na frente de Isabella, tentando chamar sua atenção de volta para a aula, mas não teve sucesso. A garota se assustou ao ouvir o pigarro rouco da Sra, Rengis às suas costas. O caderno caiu no chão provocando uma onda de risadinhas abafadas pela sala.
― Meu deus, aquela bruxa acha que somos obrigadas a saber falar espanhol? ― Isabella bufou após apresentar um trecho do livro de estudos em espanhol, na frente de toda turma.
― Relaje. ― Victória disse. ― Além do mais, o objetivo da aula é exatamente esse, Bella. Aprender!
A menina semicerrou os olhos grandes ameaçadoramente antes de virar a cara e entrar na próxima sala, puxando a loira pelo braço quando Vic se despediu com um hasta luego entre risadas.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top