🏁𝟎𝟒
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𝐋𝐀𝐋𝐈𝐒𝐀 𝐌𝐀𝐍𝐎𝐁𝐀𝐍
Há três anos eu estava vivendo o pior e melhor momento da minha vida, quando tive Celine.
Eu tinha vinte e três e trabalhava na Williams quando me envolvi com Do Hwan, que era piloto dessa automobilística. Foi um caso de uma noite que resultou em uma gravidez. Quando contei para ele que estava grávida, o ouvi dizer que não iria assumir a paternidade, pois tinha acabado de começar em uma grande equipe automobilística e aquilo iria acabar com a carreira dele, ainda me ameaçou dizendo que se eu soltasse na mídia que ele era o pai, iria acabar comigo.
Eu tinha profissão e família, não precisava ser humilhada por um cara que não tinha nada a me oferecer. Fiquei na Williams por mais três meses e pedi demissão antes que descobrissem. Fiquei tempos sem trabalhar, até Celine nascer e um ano e meio depois entrei para a Ferrari.
Foi então que começou o pior momento da minha vida, que é viver longe da minha menina. Sou muito grata aos meus pais que criam ela para que eu possa trabalhar, sem eles seria tudo muito difícil. Eu não poderia exercer minha profissão em Londres mais pois lá o único lugar que conseguiria trabalhar seria na Williams e pra lá não poderia e nem queria voltar. Então minha melhor opção foi a Ferrari, ainda que a dezesseis horas de distância. Não são todas as folgas que consigo ir para casa por ser muito longe, mas vou sempre que posso, ligo para minha mãe para falar com Celine sempre que tenho um tempo livre.
Por isso trabalho tanto, envio uma porcentagem do salário para meus pais acrescentarem nas despesas da casa e comprarem coisas para Celine, além de pagar o balé. Me mata por dentro ter ela tão longe e não estar acompanhando seu crescimento. Mas estou trabalhando para trazer ela para morar comigo agora que estou conseguindo me estabilizar, ainda que seja muito difícil sozinha. É por momentos como esse que eu desejava muito que minha filha tivesse um pai.
Respirei fundo e me peguei chorando dentro do elevador, com o celular na orelha.
ㅡ Vovó disse que está quase na hora do balé, mamãe ㅡ Falou sutilmente do outro lado.
ㅡ Está sim, Line ㅡ Funguei ㅡ Seja obediente a vovó, tudo bem?
ㅡ Está bem...
ㅡ Amanhã a mamãe te liga de novo. Amo você, filhinha.
ㅡ Amo você, mamãe. Tchaau!
ㅡ Tchau, meu amor.
A linha ficou barulhenta por alguns segundos antes de ouvir a voz da minha mãe do outro lado.
ㅡ Não chore, minha menina. Logo logo vocês estarão juntas para sempre, vai dar certo! Se mantenha positiva.
Funguei novamente.
ㅡ Me dói tanto, mãe. Eu sinto como se tivesse abrido mão dela.
ㅡ Mas nós sabemos que isso não é verdade! Você está dando o melhor exemplo de mãe, trabalhando feito louca para dar o melhor para sua filha e buscando que em um futuro próximo possam estar juntas. Tenho muito orgulho de você, Lisa. Você não faz ideia o quanto.
Suas palavras tocaram profundamente meu coração. Enxuguei os olhos no momento que a porta do elevador abriu e três pessoas entraram.
ㅡ Obrigada mãe, por tudo ㅡ Respirei fundo ㅡ Vou desligar. Amanhã ligo para vocês, está bem?
ㅡ Estaremos te aguardando. Amo você, filha.
ㅡ Amo você, mãe.
Desliguei a ligação e o elevador parou no próximo andar para mim sair. Eu estava finalizando meu expediente, só precisava bater meu ponto antes de ir embora.
Parei no primeiro banheiro que vi para lavar o rosto e tirar os resquícios de lágrimas, agradecendo mentalmente por não ter passado nada além de um gloss ao sair de casa. Me sequei e segui meu caminho, mas parei novamente ao passar pela recepção e ouvir me chamarem.
ㅡ Sim?
ㅡ O Sr. Vasseur quer falar com você, disse que é para aparecer na sala dele antes das cinco e meia ㅡ Umas das secretárias me disse e assenti.
ㅡ Estou indo, obrigada.
Olhei meu relógio e já são cinco e dez. Bati o ponto antes de caminhar até a sala dele, até porque se não estou trabalhando mais, não há motivos para esperar. Não sei oque ele quer comigo, Frédéric Vasseur é o chefe de equipe da empresa e se quer falar pessoalmente comigo, a coisa deve ser séria.
Minha mente automaticamente começou a repensar todas as coisas que posso ter feito de errado, mas acontece que não aconteceram. Não tão graves a ponto dele querer falar comigo.
Dei duas batidinhas na sua porta, ouvindo sua permissão para entrar.
ㅡ Com licença, Sr. Vasseur ㅡ Fechei a porta atrás de mim e mantive as mãos atrás do corpo meio sem jeito ㅡ Precisa falar comigo?
ㅡ Sim, Manoban ㅡ Apontou para a poltrona do outro lado da sua mesa ㅡ Sente-se por favor.
Assenti, fazendo conforme ele mandou.
ㅡ O que tenho para tratar com você, é a respeito da situação que te envolve juntamente com Do Hwan.
Minha coluna ficou rígida ao ouvir tais palavras. Cruzei as pernas, apoiando as mãos nos joelhos sentindo o coração palpitar de ansiedade. Hoje não estou em um bom dia, não estou preparada para oque ele tem pra dizer.
ㅡ E oque seria?
ㅡ Irei direto ao ponto ㅡ Se jogou contra o encosto da cadeira ㅡ A empresa mantém sigilo absoluto sobre você ter uma filha com Do Hwan, já que foi oque você pediu quando foi contratada, que houvesse sigilo. Me lembro bem que você disse ter sido ameaçada por ele mas não tomou nenhuma atitude judicial, oque foi decisão sua, não temos nenhuma relação com isso. Acontece que Do Hwan tem tido destaque na Fórmula 1 e afirmou publicamente que quer crescer no campo automobilístico, já que ele ainda está na Williams. Nós da Scuderia mandamos para ele uma proposta milionária de contratá-lo e ele está analisando.
Fez uma pausa e prendi a respiração, contando mentalmente até dez para não chorar. Além dos meus chefes e Jennie, ninguém nessa empresa sabe de Celine. Primeiramente que evito julgamentos sobre ter uma filha que é criada pelos avós e de ser mãe solteira. Não quero ninguém especulando sobre minha vida. Não consigo me imaginar no mesmo ambiente que Do Hwan, ter que trabalhar com ele. Só de pensar sinto ânsia.
ㅡ Então ㅡ voltou a dizer ㅡ Se ele aceitar, oque com certeza vai acontecer, teremos que te demitir. Sinto muito, mas não podemos escolher entre uma fotógrafa e um piloto. Não podemos perder uma chance de elevar nosso nome de modo que nos renda mais lucros, por conta de seus problemas pessoais. Contratamos outra fotógrafa facilmente, mas outro piloto não.
Senti a bile subindo e soltei as pernas trêmulas. Eu me recuso a chorar agora. Não!
ㅡ Se... Senhor ㅡ Suspirei, puxando o ar lentamente ㅡ Por favor, eu preciso muito desse emprego. Por favor, não me demita. Eu... Eu posso trabalhar com ele aqui, a empresa é grande e sei separar vida pessoal da profissional.
Soei um pouco desesperada, mas não me importo, estou desesperada mesmo!
ㅡ Manoban, sinto muito mas não podemos arriscar ter problemas. Então nessa ocasião, oque nos resta é isso, demiti-la. Estou te falando antes porque caso ele aceite fechar contrato, você não seja pega de surpresa. Não se preocupe, você sairá com todos seus direitos e te farei uma carta de recomendação, você é uma ótima funcionária. Posso pedir as meninas do RH para olharem se acham alguma empresa para que possamos fazer uma transferência, seria até melhor.
ㅡ Obrigada, mas...
ㅡ Sinto interrompê-la, mas já deu meu horário ㅡ ficou de pé ㅡ E infelizmente esse assunto não está em discussão. Futuramente te atualizarei a respeito.
Estendeu a mão em direção a porta da sua sala, com um sorriso que era para ser gentil. Mas no momento estou enxergando-o com dentes pontiagudos, chifres e rabo, porque esse homem acabou de se tornar o demônio para mim.
Fiquei de pé e assenti lentamente, caminhando no mesmo ritmo até a porta, com a bolsa na mão. Atravessei a recepção, apresentando meu crachá na catraca antes de sair. Desci os seis degraus em frente a grande entrada da Scuderia e ainda atônita, parei levando a mão aos lábios e sendo tomada por lágrimas que não consegui mais segurar.
Ciente de que poderiam me ver, andei até o estacionamento onde poderia chorar em paz dentro do meu carro e ir embora para casa. Acontece que a cada passo que eu dava, mais eu chorava. Procurei a chave do carro dentro da bolsa, mas ela parecia ter se enfiado em um buraco negro.
Parei em frente ao meu carro e quando achei a chave, apertei veementemente o controle para abri-lo, mas simplesmente não funcionava, então tentei abrir a porta com a chave, mas minhas mãos tremiam tanto que não conseguia encaixar, deixando cair no chão. Em todo o estacionamento vazio só se ouvia meus soluços. Tomada pelo desespero e pelo medo, me joguei de bunda no chão, abraçando meus joelhos junto ao peito.
Fechei os olhos e tentei controlar minha respiração. Não posso voltar a ter ataques de ansiedade. Preciso ficar bem pela Celine, preciso estar bem quando trazê-la para morar comigo.
ㅡ Ei, está tudo bem ㅡ Ouvi uma voz baixa perto do meu ouvido, enquanto uma mão acariciava minhas costas.
Abri os olhos, me afastando para o lado assustada pela voz repentina, me surpreendendo ao ver Jungkook agachado ao meu lado.
ㅡ Fica calma. Sou eu, Jungkook ㅡ Sorriu sutilmente e um soluço escapou de meus lábios ㅡ Está tudo bem.
Abracei meus joelhos mais fortemente, escondendo meu rosto e sentindo o choro me tomar mais forte. Jungkook se sentou e me abraçou, me envolvendo em seus braços e sussurrando coisas positivas no meu ouvido, acariciando meus cabelos.
Não sei quanto tempo levou até que eu começasse a acalmar, mesmo que chorasse ainda, não tão desesperadamente.
Jungkook me soltou lentamente e ficou de pé. Ergui a cabeça olhando para ele que pegou a chave do carro no chão e me estendeu ambas as mãos.
ㅡ Vem, entre no carro.
Pegando suas mãos fiquei de pé e ele destravou o carro com o controle e me guiou até o lado do carona, onde abriu a porta para que eu entrasse. Assim que me sentei, Jungkook fechou a porta e sentou no banco do motorista.
Enxuguei meus olhos, me sentindo mais calma.
ㅡ Obrigada ㅡ funguei ㅡ Você me ajudou muito.
Sorriu se virando de frente para mim com a chave na mão.
ㅡ Eu te vi saindo do Paddock meio desnorteada e fiquei te olhando de longe, achei estranho. Mas quando você caiu no chão eu vim correndo.
Sorri minimamente e envergonhada por ele ter presenciado um momento de tamanha vulnerabilidade. Agora deve estar pensando que sou uma louca desequilibrada.
ㅡ Obrigada mesmo...
ㅡ Não precisa me agradecer ㅡ Passou a mão pelo cabelo, jogando para trás ㅡ Desculpa se eu estiver sendo muito evasivo, mas oque aconteceu?
ㅡ O senhor Vasseur me chamou para conversar e me disse que estão analisando uma contratação de Do Hwan, trazer ele da Williams. Acontece que... ㅡ Fiz uma pausa, pensando na melhor forma de dizer isso, sem falar que ele me engravidou ㅡ Nós dois não tivemos uma boa relação anos atrás e meus chefes sabem disso, então ele me disse que se contratassem Hwan, eu seria demitida, porque antes perder uma fotógrafa do que um piloto ㅡ funguei ㅡ Não posso perder esse emprego, Jeon. Minha família está toda em Londres, eu mando dinheiro pros meus pais e...
Tapei a boca antes que começasse a falar demais. Aquela vontade de chorar estava retornando, mas não vou chorar daquela forma novamente.
ㅡ Se eles te demitirem, eu te contrato e você vai trabalhar para mim ㅡ O olhei surpresa, com os olhos arregalados ㅡ Nós podemos ter gente trabalhando para nós particularmente. Você só fotografaria a mim e eu te pagaria o mesmo que recebe aqui, ou até mais.
ㅡ Você não precisa fazer isso, Jeon.
ㅡ Não preciso, mas quero ㅡ Estendeu a mão, enxugando uma gota do meu queixo ㅡ Não acho justo você ter que pagar com o emprego, por coisas que aquele idiota te fez no passado.
ㅡ Mas o Sr. Vasseur disse que me fará uma carta de recomendação e que pedirá as meninas do RH para olharem alguma transferência de empresa.
ㅡ Para você receber menos?
Dei de ombros, sem ter oque dizer.
ㅡ Lisa é sério, você pode trabalhar para mim. A Sana trabalha para mim, se eu for para outra empresa ela vai junto. Ela só tem um subcontrato com a Scuderia por trabalhar aqui dentro.
Eu confesso que sou muito cabeça dura, já precisei de ajuda de pessoas que depois jogaram na minha cara, então aprendi a ser independente o máximo possível. Mas isso não é por mim, é pela Celine. Por mim eu arrumava qualquer outro emprego e conseguiria me manter aqui, mas minha filha precisa. Por ela eu passo por cima de todo orgulho.
ㅡ Tudo bem, se acontecer eu falo com você. Obrigada.
Jungkook sorriu minimamente, olhando para fora.
ㅡ Eles não vão trazer Woo Do Hwan pra cá, não é possível. Odeio o cara.
ㅡ Por quê? ㅡ Questionei, sinceramente.
ㅡ Ele já perdeu para mim três vezes em campeonatos importantes. Mas o Woo não sabe separar as coisas, é tão covarde que na última vez quis arranjar briga comigo dentro do banheiro para ninguém ver.
ㅡ Ele não presta, é sempre assim, faz coisas na espreita enquanto todo mundo fica achando que ele é um príncipe.
ㅡ Vocês namoraram?
ㅡ Não... ㅡ Fiz uma pausa ㅡ A gente se envolveu mas foi coisa de uma noite, depois ficamos juntos um tempinho, até ele me deixar na mão e ainda me ameaçou caso eu contasse pra alguém que ficamos.
ㅡ Ele te ameaçou? ㅡ Me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
ㅡ É, mas não importa mais, já faz mais de três anos.
ㅡ Ele é um babaca ㅡ Olhou para o relógio no pulso ㅡ Você vai pra casa?
ㅡ Vou.
ㅡ Quer que eu te leve?
ㅡ Não precisa, obrigada. Você já me ajudou bastante hoje.
Jungkook ficou me olhando por alguns segundos em silêncio, percorrendo os olhos por todo meu rosto, então abriu um sorrisinho gentil. Tal atitude que me deixou um pouco envergonhada.
ㅡ Preciso ir, tenho compromisso agora a pouco ㅡ Me estendeu a chave do carro que estava em sua coxa ㅡ Se precisar de alguma coisa pode me ligar e não esquece do que te falei.
Assenti. Relutantemente me aproximei, passando um dos braços pelo seu pescoço e trazendo-o para um abraço. Jungkook retribuiu, passando os braços pelas minhas costas. Foi um ato simples, até porque na posição que estamos nem tem como ter muito contato.
Me afastei, dando um sorriso simplista, para que ele percebesse que não tinha maldade nenhuma na minha atitude.
ㅡ Até amanhã, Lisa.
ㅡ Até, Jeon.
Ele me deu um último sorrisinho antes de sair do carro e fechar a porta. Através da janela, vi ele ir correndo até sua BMW do outro lado do estacionamento e logo logo desaparecer, deixando apenas o ronco do seu motor de lembrança enquanto se afastava.
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