10. You need me

Encostei-me à parede com um suspiro pesado, a garrafa de cerveja meio esquecida na minha mão enquanto a música alta ressoava pela casa. A festa estava animada, Moon realmente sabia organizar esse tipo de evento. O pessoal estava espalhado pelos cômodos, dançando, jogando conversa fora ou simplesmente aproveitando as bebidas. Eu não tinha grandes expectativas para a noite, apenas aceitei vir porque Moon insistiu, e, no fundo, porque eu precisava de uma distração.

Mas então, no meio do barulho, ouvi um nome que fez meu corpo se retesar no mesmo instante.

— E agora, nossa próxima cantora, Yelena, com Carried Away!

Meu olhar se ergueu na hora, buscando automaticamente pela garota em questão.

Sério? Ela cantaria?

Eu quase ri de pura incredulidade.

Se havia uma coisa que eu nunca, nunca imaginaria sobre Yelena, era que ela aceitaria subir em um palco no meio de uma festa e cantar. Ela era séria, reservada e direta ao ponto, do tipo que olhava para qualquer demonstração pública de talento artístico com uma expressão de tédio ou impaciência. Eu esperava que ela fosse revirar os olhos, cruzar os braços e se recusar a participar, mas, para minha completa surpresa, ela realmente caminhou até lá.

O microfone parecia pequeno nas mãos dela enquanto ajustava sua altura. O rosto dela era uma máscara de impassividade, mas o jeito como passou a mão no próprio cabelo, um movimento quase involuntário, denunciava um mínimo de nervosismo.

Interessante.

Fiquei ali, observando-a com curiosidade genuína, esperando para ver se isso era real ou apenas alguma pegadinha que ela resolveria sabotar no último segundo. Mas então a música começou. E quando Yelena cantou a primeira nota, eu quase engasguei com minha própria cerveja.

A voz dela era suave, mas firme. Clara, mas cheia de um peso emocional inesperado. Não era o tipo de canto inseguro e vacilante de quem está apenas brincando com os amigos, não. Ela sabia o que estava fazendo.

A melodia preenchia o ambiente de uma forma quase surreal. Eu esperava que a galera continuasse conversando e ignorasse, mas algo curioso aconteceu: aos poucos, as vozes foram diminuindo, os olhares foram se voltando para ela. Não porque ela fosse escandalosa ou exagerada, mas pelo contrário, havia algo natural nela enquanto cantava, algo que prendia a atenção sem esforço algum.

E, droga, eu mesmo estava preso ali. Ela parecia diferente.

Não era a Yelena do dojô Fierce Dragons, aquela que me olhava com desdém e mal disfarçava a irritação sempre que eu abria a boca. Não era a Yelena que exalava competição e firmeza, que encarava qualquer um como um possível oponente.

No palco, sob a luz amarelada do ambiente, ela parecia... Serena. Como se, por alguns minutos, pudesse abaixar a guarda. E isso me pegou completamente desprevenido.

Meus olhos se moveram pelo rosto dela, captando cada detalhe. A forma como os lábios se moviam de maneira precisa sobre cada sílaba, como se conhecesse a música de cor. O jeito como o cabelo, ainda um pouco úmido, caía sobre os ombros de maneira displicente. O brilho sutil nos olhos quando ela se entregava à melodia.

Ela estava bonita. E não era apenas no sentido óbvio da palavra. Era o tipo de beleza que surge quando alguém está completamente absorto em algo que ama fazer, o tipo de brilho que vem de dentro e ilumina tudo ao redor. E isso me atingiu de uma maneira que não deveria.

Afinal, era a Yelena.

A mesma Yelena que passava por mim nos corredores da escola sem sequer me lançar um olhar. A mesma Yelena que mal disfarçava o desgosto quando precisava trocar palavras comigo. A mesma Yelena que, se pudesse, provavelmente me socaria só para se livrar da minha existência.

Então por que diabos eu estava sentindo essa pressão estranha no peito enquanto a observava?

Desviei o olhar por um instante, tentando dissipar esse pensamento absurdo, mas foi inútil. Meus olhos foram atraídos de volta para ela como um ímã, como se houvesse alguma força invisível ali.

Droga. Isso estava me irritando. Porque eu sabia que bastaria passar cinco minutos com ela em um espaço confinado para que toda essa ilusão de suavidade desaparecesse.

Yelena era afiada como uma lâmina. Ela era sarcástica, impaciente e direta ao ponto. Ela podia ser assustadora. E eu sabia que, se estivesse perto dela tempo o suficiente, a sensação inevitável seria a de querer sair correndo. Mas agora, vendo-a ali, com a voz preenchendo a sala e o olhar focado na tela à sua frente, parecia difícil lembrar disso.

O último verso se desenrolou, a música chegando ao fim com uma última nota que se sustentou no ar antes de se dissipar. O silêncio durou apenas um segundo antes de as palmas explodirem ao redor da sala. A expressão de Yelena permaneceu neutra, mas eu captei o brilho rápido em seus olhos, talvez um lampejo de satisfação, mesmo que tentasse esconder.

Ela largou o microfone no pedestal e desceu do pequeno palco, pegando de volta sua garrafa de cerveja na mesa ao lado antes de caminhar na direção de Lauren.

E eu?

Eu fiquei ali, parado, observando-a desaparecer no meio da multidão, tentando entender por que diabos aquela apresentação mexeu tanto comigo.

Eu não pretendia ir até ela para parabenizá-la.

Mesmo depois daquela apresentação, que, para ser sincero, me pegou completamente desprevenido, eu ainda não sentia que éramos próximos o suficiente para esse tipo de interação. Mas eu tinha algo a dizer. Algo importante.

E se eu soubesse alguma coisa sobre Yelena Ivanov, era que ela não gostava de rodeios.

Então, assim que a vi seguindo na direção de Lauren, antes que ela pudesse chegar na garota, tomei um gole rápido da minha cerveja e comecei a atravessar a sala em sua direção. O ambiente estava ainda mais lotado agora, os murmúrios animados e risadas altas ecoando entre as paredes da casa de Moon. Algumas pessoas tentavam se aventurar no karaokê depois da apresentação de Yelena, mas ninguém parecia disposto a tentar superar o que quer que ela tivesse acabado de fazer.

No entanto, quando finalmente alcancei a área onde ela estava, pronto para falar, ela simplesmente passou reto.

Sem sequer olhar para mim.

Droga.

Fiquei parado por um segundo, franzindo a testa, enquanto a assistia se afastar em direção à cozinha. Ela parecia... Aérea. Não exatamente chateada, mas também não exatamente satisfeita. Apenas com a cabeça em outro lugar.

Aquilo me irritou um pouco, não porque eu esperava um tratamento especial, mas porque era frustrante ver alguém que claramente tinha algo na mente e simplesmente ignorava qualquer um ao redor.

Me virei para o lado, procurando a outra presença constante na vida dela, Lauren. A garota estava encostada em uma parede próxima, conversando com um cara que parecia determinado a convencê-la a dançar. E, bem, ela não parecia nem um pouco interessada no que Yelena estava fazendo, provavelmente por isso que ela desviou o caminho, talvez não querendo atrapalhar a chance da amiga.

Suspirei, passando a mão pelos cabelos antes de tomar uma decisão. Se ela não ia me ouvir quando eu tentava ser direto, então eu ia atrás dela.

Atravessei a multidão até a cozinha e, assim que entrei no cômodo, precisei piscar algumas vezes para ter certeza de que estava vendo aquilo certo. Yelena estava segurando uma garrafa de vidro, e, merda, não era cerveja ou um daqueles drinks fracos que a galera misturava com suco para disfarçar o gosto.

Era vodka. Vodka pura. E ela estava virando a garrafa como se fosse água.

Foi um reflexo. Um instinto. Antes que eu pudesse me conter, avancei e puxei a garrafa da mão dela, afastando-a para longe. Ela se virou na mesma hora, os olhos brilhando em frustração.

— Que merda é essa? — Ela perguntou, a irritação estampada na voz.

Eu ri, incrédulo.

— Eu que te pergunto. Tá tentando entrar em coma alcoólico, Ivanov?

Ela me encarou por um segundo, então inclinou a cabeça levemente, cruzando os braços. Um pequeno sorriso sem humor surgiu nos lábios dela, como se estivesse prestes a me zombar.

— Por um acaso eu sou alguma coisa relevante pra você, Keene? A ponto de se importar se eu cair bêbada ou não?

A pergunta dela foi cortante, afiada como uma lâmina, e eu senti algo estranho no peito, uma irritação misturada com um vago desconforto.

Porque, honestamente? Ela não deveria ser alguém relevante para mim. Mas ali estava eu, tirando uma garrafa de vodka da mão dela, preocupado se ela ia ou não desmaiar no meio da cozinha.

E isso me incomodou.

Porque Yelena era... Yelena.

Ela não precisava de mim. Nunca precisou. Então, por que eu ainda estava aqui?

Ela aproveitou o meu silêncio momentâneo para pegar a garrafa de volta, e, antes que eu pudesse impedi-la de novo, deu mais um gole grande. Eu revirei os olhos, passando uma mão pelo rosto em exasperação.

Talvez ela estivesse constrangida pela apresentação. Talvez estivesse tentando apagar da memória o fato de que cantou na frente de uma casa cheia de gente. Eu sabia que, no lugar dela, provavelmente me sentiria exposto também.

Suspirei.

— Eu descobri quem está por trás do post.

Ela parou no mesmo instante. Os lábios dela ainda estavam ligeiramente encostados no gargalo da garrafa, mas a expressão se transformou completamente. O olhar dela finalmente encontrou o meu.

— Quem? — A voz saiu cortante, imediata.

Levantei a garrafa na minha mão, apontando-a de leve para ela.

— Eu tenho o endereço, mas ainda não fui atrás porque queria esperar você pra isso.

Ela permaneceu em silêncio por um instante. Um segundo. Dois. Três. Então, lentamente, colocou a garrafa no balcão ao lado e se afastou, cambaleando levemente no processo.

Minha reação foi instintiva, dei um passo à frente, pronto para segurá-la caso fosse preciso. Mas ela se apoiou no balcão antes que eu precisasse fazer qualquer coisa. Pisquei algumas vezes, hesitando.

Ela estava... Bem?

Quero dizer, parecia bem. Só que aparentemente ela era do tipo bem fraca para bebidas.

Ela respirou fundo, os olhos ainda fixos em mim. E, naquele momento, algo passou por mim. Uma sensação estranha, inquietante. Porque, até agora, eu sempre enxerguei Yelena de um jeito muito específico, como a garota durona, afiada, que não abaixa a guarda para ninguém.

Mas agora, ali, encostada no balcão da cozinha de uma festa qualquer, com os olhos escuros brilhando sob a luz fraca do cômodo, os lábios ligeiramente vermelhos pelo álcool, a respiração um pouco mais lenta... Ela parecia diferente.

E, por um segundo — um maldito segundo —, eu senti que precisava fazer algo.

Dizer algo.

Mas o que eu poderia dizer? Eu não sabia. E isso me deixou ainda mais inquieto.

A boca de Yelena se abriu, os olhos dela ainda fixos em mim, como se estivesse prestes a dizer algo. Mas, antes que qualquer palavra pudesse escapar, um grito atravessou o ar.

— A polícia está chegando! Saiam logo, rápido!

Foi Moon.

O caos se instalou em questão de segundos.

As conversas antes descontraídas se transformaram em murmúrios alarmados, as risadas deram lugar a sons de garrafas batendo contra mesas e passos apressados ecoando pela casa. Algumas pessoas correram para as portas dos fundos, outras tentavam sair pela frente, algumas simplesmente entraram em pânico e ficaram paradas no lugar.

E eu simplesmente não pensei. Minha mão se fechou em torno do pulso de Yelena, e eu a puxei.

— Ei! — Ela se virou para mim, surpresa e irritada. — O que você tá fazendo?! Eu preciso encontrar a Lauren!

— Ela sabe se virar. — Minha voz saiu firme, definitiva. — A gente precisa sair daqui. Agora.

Não dei tempo para ela contestar. Apenas continuei puxando-a comigo, ignorando os protestos resmungados enquanto atravessávamos a sala lotada. A adrenalina estava começando a correr pelo meu corpo. O som das sirenes já podia ser ouvido do lado de fora.

Merda.

Passei pelo último grupo de pessoas que bloqueavam a entrada e empurrei a porta para fora, sentindo o ar da noite bater contra meu rosto. Minhas pernas se moveram automaticamente, conduzindo Yelena comigo. Ela ainda tentava se soltar, os passos um pouco descoordenados, claramente incomodada com o fato de estar sendo arrastada.

Mas eu não me importei. Não agora.

Meu carro estava estacionado a poucos metros de distância, na calçada de uma rua lateral. Ou melhor, o carro da minha mãe. Não era realmente meu. Mas, com ela na clínica de reabilitação, era eu quem dirigia agora. Eu que precisava me virar sozinho. Eu que precisava descobrir como me locomover sem depender de táxis ou Ubers toda hora.

E, naquele momento, eu estava muito feliz por ter esse carro. Porque não havia tempo para pensar em outra saída.

Cheguei até o veículo, soltei Yelena apenas o suficiente para destravar a porta do passageiro e olhei para ela.

— Entra. Agora.

Meus olhos rapidamente focaram nas luzes vermelhas e azuis refletindo no asfalto. Os policiais já estavam se aproximando.

E, por mais que não estivéssemos fazendo nada ilegal naquele momento, eu não estava exatamente com vontade de responder perguntas ou lidar com mais problemas na minha ficha.

Yelena bufou audivelmente ao meu lado. Ela olhou para o carro. Olhou para mim. E então, muito a contragosto, entrou.

Eu dei a volta rápido e me joguei no banco do motorista, ligando o motor e arrancando dali o mais rápido que pude sem chamar atenção.

O silêncio dentro do carro era quase opressor. Eu podia ouvir minha própria respiração, sentir os músculos dos meus ombros tensos, a pressão dos meus dedos contra o volante.

Por que eu estava tão tenso?

Tentei soltar um pouco os ombros, ajeitando minha postura enquanto dirigia. Yelena, ao meu lado, respirou fundo e se encostou no vidro da janela. Por um instante, apenas a observei de relance. Os olhos dela estavam meio semicerrados, e a expressão que antes era sempre afiada, quase desafiadora, agora parecia... Relaxada.

Ou melhor, sonolenta.

— Você tá bem? — Minha voz quebrou o silêncio.

Ela murmurou algo em resposta. Mas foi baixo demais para que eu entendesse.

— O quê?

Foi então que ela esbravejou alto:

— Eu tô com fome!

Eu pisquei, surpreso. E, antes que pudesse me segurar, um riso baixo escapou da minha garganta. Ela já estava claramente bêbada. O tom da voz dela estava mais mole, menos calculado.

Era engraçado vê-la assim. Tão diferente da Yelena que eu conhecia.

— Tudo bem. — Sacudi a cabeça, ainda segurando um sorriso. — Vou passar num fast-food. Você gosta de lanche?

Foi então que ela riu. Não um riso zombeteiro. Não um riso cínico. Foi um riso genuíno, algo que eu nunca tinha ouvido dela antes. E, com um sorriso preguiçoso, ela respondeu:

— Meu querido... Eu poderia devorar você agora.

Eu paralisei, por um segundo. O calor subiu instantaneamente para meu rosto. O volante escorregou um pouco entre meus dedos enquanto tentava me concentrar na estrada.

— Eu como qualquer coisa. — Ela continuou, ainda rindo. — Só me dá comida.

Meu maxilar travou. O jeito despreocupado que ela disse aquilo, a forma casual como as palavras saíram, o tom... Aquilo não tinha um duplo sentido. Não era nem perto de uma insinuação.

Mas, por algum motivo, ainda assim foi... Desconcertante.

Soltei um suspiro baixo, voltando a apertar o volante com um pouco mais de força do que o necessário. Ignorei qualquer coisa estranha que estivesse tentando se formar na minha mente e apenas me concentrei em dirigir. Eu precisava encontrar um McDonald's o mais rápido possível. Porque, se eu tivesse que passar mais tempo ouvindo Yelena Ivanov falando desse jeito, eu não sabia como meu cérebro iria reagir.

Dirigi por mais alguns minutos, atento às placas iluminadas na estrada. O brilho amarelo de um McDonald's finalmente apareceu no horizonte, e eu soltei um suspiro de alívio antes de virar para o drive-thru.

Estacionei o carro ao lado da fila de pedidos e me virei para Yelena.

— O que você quer?

Ela ficou em silêncio por um instante, os olhos semicerrados enquanto olhava a tela brilhante mostrando o menu. Então, com a voz mais baixa, quase infantil, respondeu:

— Um McLanche Feliz.

Eu pisquei.

— O quê?

Ela fez uma careta.

Então, sem dizer nada, ergueu o dedo e apontou diretamente para a tela que mostrava os brinquedos disponíveis naquele mês. Eu segui seu olhar. Era uma coleção da Hello Kitty.

Lentamente, voltei meu olhar para ela, uma sobrancelha arqueada.

— Sério?

— Sim. — Ela bufou, cruzando os braços. — Quero um brinquedo da Hello Kitty. Eu costumava colecionar quando era criança...

Eu não soube como reagir de imediato. Yelena... Queria um brinquedo. Yelena Ivanov, a garota que normalmente agia como se o mundo inteiro fosse uma batalha constante, queria um brinquedo da Hello Kitty.

Isso era... Inesperado.

E, caramba, isso me irritava tanto. Não de um jeito ruim. Mas de um jeito frustrante. Quer dizer, como alguém podia mudar tanto? Como ela podia ser uma pessoa completamente diferente dependendo do momento?

Será que era assim que ela agia quando estava apenas com os amigos? Será que isso era um vislumbre da verdadeira Yelena? Aquela que ficava escondida atrás das respostas afiadas, do sarcasmo afiado, da barreira que ela criava entre si e o mundo?

Apertei o volante por um momento, soltando um suspiro curto. Sem dizer nada, virei para o atendente e fiz o pedido. Mas, em vez de pedir um McLanche Feliz... Eu pedi dois.

— Cheeseburger? — O atendente perguntou.

— Sim, os dois.

Yelena me lançou um olhar confuso, mas não disse nada. Após alguns minutos, pegamos nossos pedidos e seguimos para o estacionamento. Estacionei em uma vaga mais afastada, onde não havia muitos carros, e desliguei o motor. Yelena pegou a sacola e imediatamente começou a procurar o brinquedo, os olhos brilhando de antecipação quando encontrou a pequena caixa.

Ela abriu a embalagem com a mesma intensidade de uma criança no Natal e tirou a pelúcia. Era um coelho branco com uma touca rosa.

Ela sorriu.

O tipo de sorriso que eu não via ela dar com frequência. E, de alguma forma, ver aquilo fez meu peito apertar. Sem dizer nada, eu peguei meu próprio brinquedo.

Um coelho idêntico ao dela, mas com uma touca preta.

Olhei para ele por um instante, sem realmente saber o que fazer. Não era como se eu tivesse muita utilidade para um brinquedo assim.

Então, sem pensar muito, estendi a pelúcia para Yelena.

— Toma.

Ela ergueu o olhar, surpresa.

— O quê?

— Você parece gostar bastante dessas coisas. — Dei de ombros. — Pode ficar com ele.

Por um momento, ela ficou apenas olhando para mim. O olhar dela era intenso, penetrante. Mas... Não parecia ameaçador.

Não era o olhar afiado que ela costumava lançar quando estava irritada, nem o olhar frio e calculista que ela dava quando queria parecer inabalável.

Era diferente. Era como se ela estivesse me analisando, tentando entender o porquê de eu estar fazendo isso. E, por alguma razão, eu senti como se o ar dentro do carro tivesse ficado um pouco mais pesado.

Meu coração bateu mais forte no peito, sem motivo aparente. O silêncio entre nós durou apenas alguns segundos. Mas, para mim, pareceu muito mais do que isso.

Então, finalmente, ela estendeu a mão e pegou a pelúcia.

Um sorriso largo se formou em seus lábios. Era um sorriso genuíno. Daqueles que fazem o rosto de alguém se iluminar completamente. E, de repente, foi como se todo o cansaço da noite tivesse desaparecido por um instante.

Ela segurou o brinquedo entre as mãos e estreitou os olhos para mim.

— Vou colocar o nome dele de Keene, uma pequena homenagem.

Eu ri, colocando uma mão no peito de forma dramática.

— Nossa, obrigado por essa honra.

Ela deu uma risadinha antes de finalmente pegar o lanche da sacola e abrir a embalagem.

Eu a observei por um momento. A forma como ela mordia o cheeseburger, satisfeita. A forma como ela segurava as pelúcias no colo, como se fossem realmente importantes para ela.

E, naquele momento, me peguei pensando... Talvez a Yelena que todos conheciam... Não fosse exatamente a Yelena real.

O caminho até o prédio dela foi silencioso. Dessa vez, não havia piadas, não havia risadas abafadas entre mordidas de cheeseburger, nem conversas sobre brinquedos da Hello Kitty.

A cidade estava quieta, exceto pelo ronco do motor do carro e o som distante de sirenes em algum lugar ao longe. Eu não sabia dizer se o silêncio entre nós era confortável ou não. A única coisa que eu sabia era que, de alguma forma, aquela noite havia tomado um rumo completamente inesperado.

Quando finalmente parei em frente ao prédio que ela indicou ser o seu, desliguei o motor e olhei para ela de soslaio.

— Precisa de ajuda para subir? — Perguntei, mesmo sabendo que Yelena provavelmente recusaria.

Ela virou o rosto para mim, os olhos ligeiramente semicerrados, e balançou a cabeça de leve.

— Eu não sou uma icriança, Keene. — Murmurou.

Mesmo assim, saí do carro e fui até o outro lado, abrindo a porta para ela. Ela bufou, irritada, e bateu de leve na minha mão quando tentei ajudá-la a sair.

— Eu consigo sozinha, obrigada.

Revirei os olhos, enfiando as mãos nos bolsos.

— Tá bom, mas se cair de cara no asfalto, a culpa não é minha.

Ela apenas bufou de novo, cambaleando um pouco ao sair do carro, mas conseguindo se firmar depois de alguns segundos. Fechei a porta atrás dela e encostei no veículo, observando enquanto ela ajeitava os cabelos e respirava fundo.

— A gente pode ir até a casa do tal hater amanhã. — Comentei.

Ela assentiu, parecendo momentaneamente distraída.

Então, começou a andar na minha direção. A princípio, não me movi. Mas, conforme ela continuou se aproximando, seu olhar afiado preso em mim, senti um arrepio percorrer minha espinha.

Dei um passo para trás. Ela continuou avançando.

Dei mais um. Até que minhas costas tocaram o carro novamente.

Meu coração deu um leve solavanco quando percebi que ela não iria parar. Por um instante, achei que ela fosse me dar um soco, uma cotovelada, um chute no estômago, algo que combinasse mais com a Yelena que eu conhecia.

Mas, em vez disso, ela apenas segurou meu colarinho, puxando-me para perto.

O silêncio era ensurdecedor. Sua respiração estava quente contra meu rosto, e eu podia sentir o cheiro fraco de vodka misturado ao doce do milkshake que ela tomou no McDonald's.

Engoli em seco.

— O que tá acontecendo? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

Ela não respondeu. Seu olhar permaneceu firme no meu, mas suas mãos relaxaram, deslizando do meu colarinho até pousarem contra meu peito. Se eu já não estivesse com os batimentos acelerados antes, agora meu coração estava disparado.

E ela podia sentir isso. Com certeza podia sentir. Porque seus olhos vagaram lentamente para onde suas mãos repousavam, como se estivesse analisando a forma como meu peito subia e descia de maneira irregular.

O que diabos estava acontecendo?

Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa para dizer, ela finalmente falou.

— Você até que é um cara legal, Keene...

Havia algo estranho na maneira como ela disse isso. Algo hesitante. Como se estivesse avaliando as próprias palavras enquanto falava.

Ela piscou algumas vezes, parecendo ligeiramente confusa, talvez pelo álcool em seu sistema, e continuou:

— Mas o que você fez com o moicano daquele cara foi péssimo.

Meu estômago afundou um pouco. O assunto me atingiu como um soco invisível. Antes que eu pudesse reagir, ela prosseguiu:

— Essa tal filosofia que seus senseis ensinam... É baboseira.

Fiquei em silêncio, apenas ouvindo.

— Meus senseis também me ensinaram a não ter piedade. — Ela continuou. — Mas também me ensinaram a ser justa.

Ela apertou os olhos, como se quisesse ter certeza de que suas palavras estavam penetrando na minha mente.

— Eram vários contra um, Robby. Isso mais parecia covardia demais, não acha?

Minha garganta secou. Porque, no fundo, eu sabia que ela estava certa. Eu já sabia disso.

Desde o momento em que segurei o cabelo daquele garoto e passei a navalha, uma parte de mim sabia que aquilo não estava certo. Mas eu não queria pensar sobre isso.

Não queria admitir. Porque admitir significava encarar a verdade. E a verdade era que eu estava sendo um covarde.

Eu sabia. Mas ouvir isso dela...Doía.

Yelena ficou em silêncio por um momento, apenas me encarando. Depois, sem qualquer aviso, ergueu as mãos e as colocou no meu rosto. Meu corpo ficou tenso no mesmo instante. Meus olhos se arregalaram ligeiramente, e tropecei em minhas próprias palavras, sem saber o que dizer.

Ela franziu a testa, como se estivesse me analisando de novo, e então sussurrou:

— Eu ainda vou destruir você.

Minha respiração travou, seu tom era ameaçadoramente calmo.

— Ainda vou me vingar pelas minhas plantas que sua equipe destruiu.

Meu estômago revirou.

— Vou me vingar por cada palavra que você disse.

Eu não conseguia desviar o olhar dela.

— E pela sua falta de senso.

Eu engoli em seco, outra vez.

— Então guarde isso como um aviso.

Ela inclinou a cabeça levemente para o lado, os olhos penetrantes.

— Isso... — Ela apontou para nós dois. — Essa empatia entre nós... Acaba aqui.

Minha mente estava rodando, tentando absorver cada palavra.

— Não vou ser injusta. — Ela murmurou. — Mas não vou ter piedade a partir de agora.

E, antes que eu pudesse responder qualquer coisa... Ela se aproximou. Lentamente. Os centímetros entre nós desapareceram, e os lábios dela roçaram os meus de maneira sutil.

Eu não me mexi. Não respirei. Meu corpo inteiro ficou tenso, congelado pelo choque. Mas então, sem pensar, sem sequer me dar conta do que estava fazendo, eu cedi.

Minhas mãos encontraram a nuca dela, puxando-a um pouco mais para perto, e o beijo se aprofundou.

Foi intenso. Confuso. Caótico. Nada fazia sentido, mas, ao mesmo tempo, fazia todo o sentido do mundo.

Eu deveria parar. Eu sabia que deveria. Mas eu não conseguia.

Eu estava entorpecido. Sem controle algum sobre meus próprios movimentos. Sem entender nada do que estava acontecendo. E então, do mesmo jeito que começou... Acabou.

Ela se afastou. Deu alguns passos para trás. E começou a caminhar até a porta do prédio. E eu fiquei ali, ainda encostado no carro, tentando recuperar o fôlego, tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer.

Antes de entrar, ela se virou uma última vez.

— Isso não foi uma ameaça, Keene. — Minha respiração estava instável. — Foi um aviso.

Ela estreitou os olhos.

Sem compaixão, não é?

E então, sem mais nada, desapareceu dentro do prédio. Me deixando ali.

Atônito. Confuso. Irritado. E... Querendo mais.

Eu entrei no carro e fechei a porta com força, talvez mais do que pretendia. O barulho ecoou no silêncio da noite, abafando, por um instante, a cacofonia de pensamentos que martelavam dentro da minha cabeça. Meu peito subia e descia em um ritmo descompassado, como se eu tivesse acabado de correr uma maratona, mas a verdade era que eu estava parado, imóvel no banco do motorista, os dedos cravados no volante como se aquilo pudesse de alguma forma me ancorar à realidade.

Mas que diabos acabou de acontecer?

Meu olhar estava fixo no painel do carro, mas eu não enxergava nada. A rua estava vazia, as luzes amareladas dos postes jogavam sombras distorcidas pelo asfalto, e o vidro do carro refletia meu próprio rosto, confuso, tenso, completamente perdido.

Fechei os olhos e tentei reconstruir os eventos daquela noite.

A festa. O momento em que ouvi o nome dela ser chamado para cantar e quase engasguei com a minha bebida.

A voz dela. Suave, intensa, completamente diferente de qualquer coisa que eu imaginava que poderia sair da boca de Yelena Ivanov.

A forma como ela parecia tão serena no palco, como se fosse outra pessoa.

A bebida. A garrafa de vodka pura, esvaziando rápido demais.

O jeito como ela me olhou quando eu tirei a garrafa de suas mãos, desafiador, irritado, como se eu tivesse cometido um crime ao impedi-la de se afogar na própria embriaguez.

A correria quando a polícia apareceu. O som das sirenes ao fundo, o jeito como segurei a mão dela sem pensar e corri.

A resistência dela. A forma como ela quis voltar, procurar Lauren, e como eu simplesmente disse que a amiga dela sabia se virar.

O carro. O McDonald's. O brinquedo da Hello Kitty. O sorriso que ela deu ao segurar a pelúcia de coelho, um sorriso verdadeiro, largo, um daqueles que eu raramente via. O nome que ela deu ao brinquedo, Keene.

E então... O prédio dela. A aproximação. O olhar intenso, afiado, carregado de algo que eu não conseguia decifrar. O jeito como ela me encurralou contra o carro, os dedos segurando minha camisa pelo colarinho.

As palavras afiadas que saíram de sua boca como lâminas:

"Você até que é um cara legal, Keene..."

Mas então ela continuou, e cada frase que saiu da boca dela foi como um soco no estômago.

"O que você fez com o moicano daquele cara foi péssimo."

"Seus senseis ensinam baboseira."

"Vários contra um? Isso foi covardia, cara."

Ela estava certa. E eu sabia disso. Eu sabia desde o momento em que vi Falcão caído no chão, com apenas alguns fios restantes em sua cabeça, os olhos arregalados, vulneráveis.

Eu sabia desde o instante em que percebi que tínhamos ido longe demais. Mas ouvir isso dela... Ouvir isso dela, de alguém que também foi criada dentro de uma mentalidade de luta sem piedade, alguém que conhecia o peso dessas palavras porque, de certa forma, carregava as mesmas cicatrizes que eu...

Isso doeu. E então, de repente, ela suavizou. Suas mãos deslizaram para meu peito, os dedos roçando levemente o tecido da minha jaqueta, e foi nesse instante que percebi que meu coração estava disparado.

Ela notou. Eu vi nos olhos dela que notou. Ela apertou os olhos, me encarando como se estivesse tentando me enxergar de verdade, além da fachada, além do garoto que lutava como se não tivesse mais nada a perder.

E então, sem aviso, ela fez algo que eu não esperava.

Ela me beijou.

Primeiro devagar, os lábios pairando sobre os meus, como se me desse a chance de recuar. Eu não recuei. Não tive nem tempo de pensar em fazer isso. Porque a verdade era que, naquele momento, eu queria aquilo.

Eu queria sentir a boca dela contra a minha. Queria sentir o gosto do álcool que ainda impregnava seus lábios. Queria sentir a intensidade dela de um jeito diferente, sem palavras afiadas, sem golpes trocados, sem rivalidade.

Então fui eu quem aprofundou o beijo. Minhas mãos se moveram automaticamente, deslizando até sua nuca, os dedos se embrenhando entre os fios do cabelo dela, puxando-a mais para perto.

Ela correspondeu. E por um instante, só um maldito instante, parecia que nada mais existia. Nenhum dojô. Nenhuma rivalidade. Nenhuma ameaça de destruição.

Mas então... Ela se afastou. Ela deu um passo para trás, os olhos fixos nos meus, e disse, com a voz carregada de uma certeza cortante:

"Isso não foi uma ameaça, Keene. Foi um aviso. Sem compaixão, não é?"

E então ela entrou no prédio. Me deixando ali.

Atônito.

Sem reação.

Completamente ferrado e confuso.

Meus dedos se fecharam ao redor do volante, a mente ainda girando em círculos, repetindo cada detalhe daquele momento como um disco arranhado.

Eu queria entender. Ela fez isso por piedade? Ela achou que eu precisava daquilo? Que eu merecia um último gesto de compaixão antes dela seguir com a vingança? Ou foi um último ato de trégua?

Ou... Ela queria isso tanto quanto eu?

O pior de tudo era essa dúvida. O pior de tudo era a incerteza. E o pior de tudo era a possibilidade de que, quando amanhecesse, ela nem sequer se lembrasse desse momento.

Será que ela se lembraria? Ou tudo aquilo foi apenas um lapso causado pela bebida?

A ideia de que esse beijo não significou nada para ela me atingiu como um soco. Meu peito apertou, e minha mandíbula travou. Eu soltei um xingamento baixo e bati as mãos contra o volante com força.

— Droga!

Eu precisava esquecer isso. Precisava deixar essa noite para trás. Mas, enquanto eu finalmente dava a partida no carro e começava a dirigir, algo dentro de mim dizia que isso não ia ser tão fácil. Porque, independente do que Yelena estava pensando naquele momento...

Eu sabia exatamente o que eu estava pensando. E isso me irritava mais do que qualquer coisa.

Obra autoral ©

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