09. Carried Away
O silêncio dentro do carro era quase palpável. O motor roncava suavemente enquanto Mikan dirigia, e Lauren, no banco de trás, tamborilava os dedos contra o vidro, mas ninguém falava nada. Era um silêncio de respeito, um reconhecimento mútuo de que aquela noite tinha sido um desastre e que, naquele momento, palavras não eram necessárias. Eu sabia que eles estavam comigo, que sentiam minha raiva, minha frustração e, acima de tudo, minha confusão. Mas nem isso fazia minha mente parar de trabalhar.
Porque, no fundo, eu não sabia o que pensar.
Meus olhos estavam fixos na estrada escura, os postes passando em um borrão de luz amarelada conforme Mikan acelerava. Eu queria acreditar que Keene era um mentiroso desgraçado tentando se safar, tentando limpar seu nome depois de ser pego fazendo algo nojento. Mas algo não se encaixava.
As palavras naquele Twitter falso eram absurdas demais, até mesmo para ele. Por mais que eu odiasse admitir, Keene nunca foi o tipo de cara que perde tempo com esse tipo de coisa. Se ele quisesse me atingir, ele faria isso no tatame, no campo de batalha, não se escondendo atrás de uma tela. Eu sabia disso. Ele não precisava desse tipo de golpe baixo para me provocar ou me machucar.
Mas se não foi ele... Então quem?
A primeira pessoa que veio à minha mente foi Tory. Ela me odiava. Isso era um fato. E, sinceramente? Eu entendia. Se eu estivesse no lugar dela, provavelmente sentiria a mesma coisa. Mas isso... Isso parecia longe do que Tory faria. Eu não conseguia imaginar ela inventando mentiras sobre outra garota, espalhando coisas nojentas na internet só para me humilhar. Ela preferia resolver as coisas com os punhos, e nisso, eu respeitava.
Então, quem? Kyler?
O babaca do Cobra Kai que já tinha deixado claro, mais de uma vez, que queria me ver no chão? Talvez. Mas a verdade era que eu e ele nunca trocamos palavras o suficiente para ele se importar tanto assim. A gente só trocava chutes e socos, e era isso. Ele poderia me odiar, mas não ao ponto de criar uma conta falsa e armar tudo isso.
E se não era Keene, se não era Tory e se não era Kyler... Então quem?
Minha cabeça latejava. Eu estava exausta. E essa situação toda só me deixava mais exausta ainda.
Respirei fundo e apertei o tecido da minha calça com os dedos, tentando ignorar a tensão nos meus ombros. Eu odiava não ter respostas, odiava essa sensação de impotência, de não saber em quem confiar.
Mas o pior de tudo? Era a dúvida.
Porque, mesmo depois de tudo, mesmo com o ódio que eu sentia por Keene, uma parte de mim queria acreditar que ele não era culpado. Que ele não faria isso.
E isso me desgastava pra caramba.
A estrada continuava passando diante dos meus olhos, e o silêncio ainda pesava entre nós quando, finalmente, nos aproximamos da nossa rua.
Chegamos ao prédio, e a atmosfera de tensão parecia seguir a gente como uma sombra. Lauren e Mikan entraram na frente, os passos apressados ecoando pelos corredores. Assim que a porta do apartamento se fechou atrás de nós, Mikan finalmente explodiu.
— Isso é um absurdo! — Ele começou, os braços se movendo com indignação, como se ele quisesse socar o ar. — Quem quer que tenha feito isso vai pagar. E eu juro, vou quebrar a cara do maldito que ousou postar essas coisas nojentas sobre você, Yelena!
Lauren deu uma risadinha curta, jogando a bolsa no sofá enquanto se encostava na parede.
— Eu apostei com a Yelena que você não ia aguentar cinco minutos em silêncio no carro. Fiquei surpresa que durou dez.
— Ah, muito engraçado, Lauren — Ele rebateu, os olhos faiscando de raiva. —, mas eu tô falando sério. Não vou deixar isso passar.
Enquanto eles discutiam, eu respirei fundo, tentando manter minha própria raiva sob controle. Passei por eles, indo em direção à porta do meu quarto, mas parei e olhei por cima do ombro.
— Provavelmente foi alguém bem amargurado... — Murmurei, colocando a mão na maçaneta. — Mas Keene vai descobrir quem fez isso.
Houve um silêncio curto, como se minhas palavras tivessem caído como uma pedra entre nós.
Mikan franziu o cenho, o tom irritado na voz deixando claro o que ele pensava da minha ideia.
— Robby Keene? Por que ele? Não vai me dizer que você é amiguinha dele agora...
Revirei os olhos, soltando um suspiro frustrado.
— Não é nada disso, Mikan. — Interrompi, virando-me completamente para encará-lo. — Eu só ordenei que ele encontrasse o culpado. Porque a conta estava no nome dele, afinal. E se alguém de fato fez isso, com certeza tem uma rixa pessoal não só comigo, mas com ele também.
Lauren, que até então estava apenas observando, assentiu lentamente, como se estivesse processando minhas palavras.
— Sabe, até que faz sentido. — Disse ela, cruzando os braços. — Robby parece o tipo de cara irritadinho, mas... Eu não vejo ele falando aquelas merdas. Aqueles tweets eram... Baixos demais, até pra ele.
Mikan esfregou a nuca, como se estivesse tentando aliviar a tensão.
— É... Talvez você tenha razão. Mas eu ainda vou quebrar a cara de quem fez isso, só pra garantir.
Eu dei um leve sorriso, um reflexo automático que não alcançou meus olhos. Mesmo no meio desse caos, era bom saber que eles estavam ao meu lado.
Entramos no apartamento, o silêncio agora pontuado apenas pelo som distante do tráfego lá fora e pela respiração pesada de Mikan. A familiaridade do lugar me trouxe um pouco de conforto, mas a inquietação ainda estava ali, rastejando sob a minha pele.
Enquanto Lauren foi para a cozinha pegar um copo d'água, Mikan se jogou no sofá, os olhos fixos no teto como se tentasse encontrar respostas nas rachaduras da pintura.
Fui até a janela, cruzando os braços enquanto observava a cidade lá embaixo. As luzes dos postes brilhavam como estrelas, e os carros passavam sem rumo, alheios ao turbilhão que acontecia dentro de mim.
Eu não sabia quem tinha feito aquilo, mas a verdade é que, de certa forma, eu estava colocando minha confiança nas mãos de Robby Keene. Isso era algo que eu nunca imaginei fazer.
Talvez isso dissesse mais sobre a situação do que eu estava disposta a admitir.
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O calor estava sufocante. O sol parecia um castigo divino pairando sobre nossas cabeças, e o tecido grosso do quimono grudava na minha pele, encharcado de suor. Minhas mãos afundavam no tatame, queimando com o esforço, mas eu me recusava a ceder.
Cada flexão era uma batalha. Meus músculos tremiam sob o peso do meu próprio corpo, e minha respiração estava pesada, quase rasgando minha garganta. Mas eu continuava. Um movimento de cada vez.
Eu podia ouvir os grunhidos exaustos dos outros ao meu redor, o som de corpos atingindo o chão quando alguém finalmente desistia. Mas eu não olhava. Não desviava o foco.
O motivo de todo esse castigo? Um único idiota que decidiu encher a cara num bar na noite passada e hoje não conseguiu executar uma sequência básica de movimentos por estar de ressaca. Claro que Yama não acreditou quando ele disse que estava sozinho. Agora, todos nós pagávamos o preço.
A voz do sensei ecoava pelo dojô como um trovão.
— Mais rápido! Postura reta! Se eu ver alguém afrouxando, vão se arrepender!
O som cortante da vareta atingindo as costas de alguém me fez estremecer, mas eu mantive a posição. Se minha coluna não estivesse reta o suficiente, eu teria um lembrete bem doloroso disso.
Meu queixo já estava quase tocando o chão quando senti a sombra de Yama se aproximando. Meu coração bateu mais forte.
Firme. Firme. Não caia.
Ele passou ao meu lado, observando como um predador. Senti a ponta da vareta roçar minhas costas, mas sem pressão. Ele estava apenas testando. Vendo se eu iria fraquejar.
Minha respiração estava acelerada, meu corpo queimando, mas eu me forcei a manter o ritmo.
O garoto ao meu lado não teve a mesma sorte.
— Hngh! — Ele gemeu de dor quando a vareta desceu sobre suas costas.
— Coluna reta! — Yama rosnou. — Ou prefere se juntar aos fracos que já caíram?
O garoto voltou à posição, rangendo os dentes. Mas eu sabia que ele não aguentaria muito mais tempo.
Meu corpo inteiro gritava por alívio, mas a dor era um combustível. Um lembrete de que eu não podia ser fraca. De que se eu quisesse superar tudo isso, Keene, os tweets, a competição, eu precisava ser mais forte.
E então, Yama parou bem na minha frente. Eu sabia que ele estava esperando que eu errasse.
Meu peito subia e descia, minha visão começava a embaçar com o suor escorrendo da minha testa. Mas eu continuei.
Uma flexão. Outra. Mais uma.
Quando ele finalmente se afastou, eu quase senti que podia respirar de novo. Mas o treinamento estava longe de acabar. Ele só deu uma pausa.
O cansaço pesava sobre mim como uma âncora. Minhas mãos ainda tremiam, e cada músculo do meu corpo gritava em protesto. O treino de hoje foi um dos mais pesados que já enfrentamos, e, sinceramente, eu mal sentia minhas pernas quando me deixei cair no gramado, a respiração ainda irregular.
Levantei o olhar e vi Mikan parado ali, segurando uma garrafa d'água para mim. Peguei-a com alguma dificuldade, meus dedos quase falhando em fechar-se ao redor do plástico suado.
— Obrigada — Murmurei, minha garganta seca e áspera.
Ele apenas assentiu e se sentou ao meu lado, jogando os braços para trás para se apoiar no gramado.
— Lauren foi embora mais cedo. — Ele jogou a informação no ar, casual, mas eu percebi que ele estava testando minha reação. — Aparentemente, resolver problemas com o Falcão... Ou arranjar mais deles.
Franzi o cenho. Lauren estava ficando obcecada, e não de um jeito muito saudável. Eu já tinha percebido isso há algum tempo, mas ver que ela estava disposta a sair mais cedo de um treino tão intenso só reforçava a ideia de que isso estava indo longe demais.
Sabia que, de um jeito ou de outro, aquilo só significava uma coisa, ela estava começando a gostar do garoto e não queria admitir.
Suspirei.
— Só espero que isso não tire o foco dela do regional.
Mikan bufou, cruzando os braços.
— E eu espero que o tal do Keene não tire o seu foco, Lena.
A risada indignada escapou antes que eu pudesse conter.
— Por que raios ele tiraria o meu foco? — Virei o rosto para encará-lo, estreitando os olhos. — Ele é um dos maiores motivos para eu querer destruir a concorrência no campeonato.
Mikan parecia insatisfeito com a minha resposta.
— Mas você também sente empatia por ele, não sente? — Sua voz saiu mais irritada agora, os olhos escuros me avaliando. — Não consegue machucá-lo de verdade porque acha que ele é uma boa pessoa.
Fiquei em silêncio por um instante, o sangue fervendo de raiva, e me levantei bruscamente, o cansaço sendo substituído por irritação.
— Eu luto com justiça. — Minha voz saiu firme, cortante. — Robby nunca fez nada além de me irritar. Não vejo motivos para machucá-lo fisicamente, apenas dentro das regras.
Mikan cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— E emocionalmente?
Eu pisquei, surpresa.
— O quê?
Ele continuou, o olhar afiado, como se tentasse me desmascarar.
— Você disse que não o machucaria fisicamente... Mas e emocionalmente, Yelena? Pretende fazer o quê? Quebrar o coração dele?
Uma onda estranha de desconforto me atingiu. Minha respiração ficou presa por um segundo, e senti um aperto no peito que não queria admitir.
Endireitei os ombros, ergui o queixo e dei de ombros, fingindo indiferença.
— Talvez, se for preciso. — Respondi firmemente.
E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, virei nos calcanhares e segui direto para o vestiário. Eu precisava de um banho. E de afastar aquelas palavras da minha mente.
Assim que entrei debaixo do chuveiro, senti a água quente que escorria pelo meu corpo, levando embora o suor e a poeira do treino, mas não o peso que sentia nos ombros. As palavras de Mikan ecoavam na minha mente como um tambor batendo num ritmo insistente, algo que eu não conseguia ignorar por mais que tentasse. Emocionalmente? Ele realmente acreditava que eu poderia me importar com Robby Keene a ponto de hesitar em machucá-lo? A ponto de me preocupar com o que ele sentia?
Soltei um suspiro pesado, pressionando a testa contra o azulejo frio do vestiário, deixando a água deslizar pelos meus cabelos e descer em fios pelo meu rosto. Sentimentos eram fraqueza. Meu pai me ensinou isso. Meus senseis reforçaram isso. Eu cresci ouvindo que qualquer tipo de laço, qualquer tipo de conexão, era uma corrente amarrada aos meus tornozelos, me impedindo de correr, de voar, de ser mais forte. E eu acreditei nisso. Eu vivi por isso.
Então por que as palavras de Mikan me incomodavam tanto?
Fechei os olhos, deixando a água ensurdecer meus pensamentos por um momento. Robby Keene. Ele era meu inimigo, um obstáculo entre mim e a vitória. Eu não tinha motivo nenhum para vê-lo como algo além disso. Ele não era diferente de Miguel Diaz, de Falcão, ou de qualquer outro lutador que tentasse se colocar no meu caminho. E ainda assim... Ainda assim, havia algo nele que me fazia hesitar. Algo nos olhos dele, na maneira como ele se portava, na forma como ele parecia carregar um fardo invisível nos ombros, tão pesado quanto o meu.
Mas nada disso importava. Eu não sentia nada. Eu não podia sentir nada.
Abaixei o rosto, deixando a água cair sobre mim como uma cascata. Se Mikan achava que eu tinha algum tipo de empatia por Keene, ele estava enganado. Se ele achava que eu me importava o suficiente para hesitar quando chegasse a hora de esmagar a concorrência, ele estava enganado. Robby Keene era só mais um peão no tabuleiro.
E eu nunca hesitei em derrubar peões.
O ar fresco da noite encontrou minha pele ainda quente do banho assim que saí do vestiário, meus cabelos úmidos caindo sobre os ombros e grudando levemente na nuca. A sensação era boa, refrescante, um contraste bem-vindo depois do calor sufocante do treino. Mas minha tranquilidade foi interrompida no instante em que vi Mikan encostado do lado de fora, me esperando com aquele sorriso de canto que eu já conhecia bem demais.
Ele se aproximou sem pressa, olhos faiscando com uma diversão maliciosa.
— Você sempre fica linda assim quando sai do banho, Lena?
Revirei os olhos instantaneamente, minha expressão de puro desgosto deixando claro o que eu achava daquela tentativa barata de flerte. Sem pensar duas vezes, joguei minha mochila no peito dele com força. Mikan pegou no reflexo, rindo, sem parecer nem um pouco abalado.
— Você tentando me cantar me enoja. — Murmurei, passando por ele.
Ele colocou uma das mãos no peito, fingindo estar ofendido, e soltou um suspiro dramático.
— Nossa, como você é cruel.
Uma risada baixa escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conter, mas logo balancei a cabeça, empurrando o ombro dele de leve antes de entrar no carro. Mikan deu a volta e assumiu o volante, ligando o motor com um movimento casual, já puxando assunto como se não tivesse acabado de soltar uma cantada horrorosa.
— Então, vamos beber alguma coisa. Nem que seja um suco de maracujá — Anunciou, como se aquilo fosse um plano irrecusável.
Soltei um suspiro longo, recostando-me no banco. Meus músculos ainda estavam doloridos do treino, minha mente um caos de pensamentos indesejados. Tudo o que eu queria era deitar na minha cama e apagar até o dia seguinte.
— Mikan, eu tô exausta.
Ele bufou, balançando a cabeça como se eu tivesse acabado de ofender a honra dele.
— Ah, qual é, vamos lá! O lugar tem sofás confortáveis e música ruim. Tudo o que você precisa.
Minha cabeça girou lentamente em direção a ele, um olhar desconfiado se formando no meu rosto.
— Você não tá insinuando o que eu acho que tá, né?
Mikan sorriu largo, sem um pingo de vergonha.
— Sim, nós vamos a um karaokê.
Fechei os olhos, pressionando os dedos contra as têmporas, sentindo um súbito desespero me consumir.
— Pelo amor de Deus, sério?
Ele revirou os olhos enquanto dirigia, claramente irritado com a minha reação exagerada.
— Cala a boca, você canta super bem e sempre acaba dando uma surra de pontuação na gente.
Ajeitei minha postura no banco, cruzando os braços com um ar convencido.
— Por isso mesmo eu deveria ficar em casa. Pra dar uma chance pra vocês conseguirem vencer pelo menos uma vez.
Mikan soltou uma risada sarcástica, sacudindo a cabeça.
— Vai sonhando. Você vai com a gente.
Soltei um resmungo baixo, mas não insisti na discussão. Era inútil tentar argumentar com Mikan quando ele colocava uma ideia na cabeça. Ele já tinha ligado pra Lauren e, pelo visto, ela já estava se arrumando, o que significava que eu não tinha escapatória.
Então era isso. Depois de um dia infernal de treino, eu ia acabar num karaokê com meus amigos. E, por mais que eu reclamasse, uma parte de mim sabia que talvez isso fosse exatamente o que eu precisava.
Chegamos ao apartamento sem muita pressa, meus passos arrastados denunciando meu cansaço, enquanto Mikan, ao meu lado, já chutava os sapatos para longe assim que passamos pela porta. Ele esticou os braços preguiçosamente, soltando um bocejo antes de declarar com toda a naturalidade do mundo:
— Vou tomar um banho rápido e me trocar.
Revirei os olhos, jogando minha mochila no sofá enquanto ele desaparecia pelo corredor. Como se aquele cara soubesse o significado da palavra "rápido" quando se tratava de banho.
Já no meio da sala, Lauren estava pronta, encostada na parede com os braços cruzados e um sorrisinho satisfeito nos lábios. Meu olhar percorreu sua figura de cima a baixo, registrando a blusa rosa de manga comprida que abraçava bem seu corpo, combinada com jeans que destacavam suas pernas longas. Mas o que realmente chamava atenção era o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, ela usava o cabelo solto, caindo em ondas suaves ao redor do rosto.
Arqueei uma sobrancelha, me apoiando no balcão da cozinha enquanto soltava, quase sem perceber:
— Uau...
Lauren riu baixo, sabendo exatamente que aquilo era um elogio disfarçado. Mas, claro, eu não ia deixar barato. Inclinei ligeiramente a cabeça, observando-a com teatral curiosidade.
— Quem é o homem que você deseja matar hoje, Lauzinha?
Ela revirou os olhos, pegando uma mecha do próprio cabelo e girando entre os dedos, como se considerasse a resposta. Então, com um tom firme e casual, disse:
— Eli Moskowitz. Talvez.
Deixei escapar uma risada genuína, balançando a cabeça. Lauren logo pegou o secador de cabelo e o ergueu no ar, como se fosse uma oferta de paz.
— Quer uma mãozinha? Sei que deve estar tão morta quanto eu.
Assenti sem hesitar e me sentei na banqueta alta da cozinha, deixando que ela assumisse o comando. O calor do secador começou a espalhar-se por meus fios úmidos, enquanto o barulho preenchia o espaço entre nós.
Foi só quando Lauren mencionou casualmente a localização da tal "festa karaokê" que minha tranquilidade se desfez em uma questão de segundos.
— Espera aí... — Falei alto por cima do barulho do secador, franzindo o cenho. — Casa da Moon? Eu achei que a gente ia pra um tipo de bar com karaokê ou algo assim!
Lauren não parou de secar meu cabelo, apenas sorriu, como se estivesse se divertindo com a minha surpresa.
— Eu disse pro Mikan que tinha karaokê, apenas. — Ela respondeu, levantando um pouco mais a voz para competir com o som do aparelho — Porque se eu dissesse que seria uma festa karaokê com a galera do Cobra Kai e do Miyagi-Do, ele surtaria.
Meu corpo enrijeceu na mesma hora. Sem nem pensar, segurei o secador e o desliguei, me virando para encará-la com olhos arregalados.
— O Cobra Kai vai estar lá?
Lauren não demonstrou qualquer sinal de preocupação, apenas deu de ombros.
— Só o Robby. Ele é amigo da Moon.
Antes que eu pudesse processar essa informação completamente, ouvimos a porta do banheiro se abrir, seguida de passos pelo corredor.
E então...
— AI, CREDO, ESSE TANQUINHO!
Eu e Lauren gritamos ao mesmo tempo, nossas vozes transbordando puro deboche.
Mikan estava parado ali, ainda com o cabelo molhado, uma toalha enrolada na cintura e uma expressão exasperada no rosto. Ele suspirou pesadamente, nos lançando um olhar de puro tédio enquanto voltava para o quarto.
— Vocês são insuportáveis.
Ainda rindo, Lauren se jogou no sofá, mas seu humor se dissipou ligeiramente quando Mikan, agora já puxando uma camiseta pelo pescoço, finalmente processou a conversa anterior.
— Espera... Cobra Kai? Robby Keene?
A cada palavra, sua expressão ficava mais carrancuda.
— Não contem comigo. Não quero ir mais.
Revirei os olhos tão forte que quase pude enxergar a minha alma saindo do corpo.
— Ele é só um garoto, Mikan. Você tava todo animado pra sair, e agora vai desistir?
Ele cruzou os braços, teimoso.
— Sim. Vou ficar aqui e maratonar Brooklyn 99. Bem melhor do que olhar pra cara daquele desgraçado.
Lauren deu de ombros, completamente despreocupada.
— Que seja. A gente vai de qualquer jeito. Quem sabe eu não arranjo uma briga? Já faz uma semana desde a última, preciso me aquecer.
Soltei um suspiro divertido, balançando a cabeça.
— Seca logo meu cabelo, sua barraqueira.
Ela riu, ligando o secador novamente.
Por mais que eu não fosse do tipo que frequentava festas, eu não deixaria Lauren sozinha naquela. Se alguém a irritasse o suficiente, ela provavelmente mataria um, e alguém precisava estar lá para evitar um homicídio.
E, no fundo, uma parte de mim estava curiosa. Sobre a festa. Sobre Moon. Sobre Robby. Sobre o que diabos aquela noite reservava pra mim.
Coloquei porfim, os brincos nas orelhas e me encarei rapidamente no espelho. O jeans de cintura baixa abraçava minhas pernas perfeitamente, e a blusa colada dos Ramones, de um bege envelhecido, moldava meu torso de um jeito que realçava meus ombros e braços tonificados pelo treino constante. Meus cabelos já estavam secos e caíam naturalmente pelos ombros, um pouco desalinhados, mas de uma forma intencional.
Assim que me virei, Lauren me olhou de cima a baixo com um sorrisinho zombeteiro nos lábios, a mesma expressão que eu tinha feito para ela mais cedo.
— Uau... — Ela provocou, cruzando os braços e inclinando a cabeça levemente. — Quem é o homem que você vai matar hoje, Leninha? Robby Keene?
Revirei os olhos, pegando meu celular da cama e o enfiando no bolso traseiro da calça.
— Adoraria evitar ele pra variar.'— Murmurei, soltando um suspiro teatral.
Ela riu, e eu a acompanhei logo depois, porque, no fundo, a ironia da situação era ridícula. A última coisa que eu queria era esbarrar em Robby naquela noite, mas o universo parecia ter uma estranha obsessão por colocar nossos caminhos no mesmo trajeto.
Sem mais enrolação, pegamos nossas bolsas e saímos do apartamento. O ar da noite estava fresco, um contraste agradável depois do calor sufocante do dojô mais cedo. As ruas estavam iluminadas pelo brilho amarelado dos postes, e o movimento ainda era constante, com carros passando e algumas pessoas andando pela calçada.
Lauren puxou o celular do bolso e olhou a tela.
— O Uber já tá esperando na esquina. Vamos.
Seguimos juntas pelo asfalto, nossos passos sincronizados no silêncio confortável que só duas pessoas que se conhecem há muito tempo conseguem compartilhar.
Assim que chegamos ao carro, Lauren abriu a porta primeiro e deslizou para dentro com a naturalidade de quem já fazia aquilo há anos. Eu entrei logo atrás, me acomodando no assento ao lado dela. O motorista, um homem loiro de meia-idade com uma jaqueta de couro surrada, nos cumprimentou com um aceno de cabeça antes de começar a dirigir.
As luzes da cidade piscavam pela janela, refletindo-se nos vidros enquanto passávamos pelas ruas. Cruzei os braços e apoiei a cabeça no encosto do banco, sentindo a vibração suave do carro percorrer minha coluna.
Sinceramente? Eu não sabia o que esperar desse evento.
O conceito de "festa" nunca tinha sido algo que me interessava. Muita gente reunida, música alta, conversas triviais, bebidas... Nada daquilo parecia atrativo para mim. Mas por algum motivo, naquela noite, eu decidi simplesmente... Deixar as coisas acontecerem.
Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o fato de que, depois de um treino insano como o de hoje, eu merecia uma pausa. Ou talvez fosse apenas um desejo inconsciente de, por pelo menos uma vez na vida, agir como uma adolescente normal.
Apenas uma vez.
Assim que o carro parou em frente à casa, a música abafada escapou pelas paredes, como se os graves estivessem vibrando direto do concreto. As janelas brilhavam com luzes coloridas, e havia um fluxo constante de adolescentes entrando e saindo da porta principal.
Lauren segurou minha mão, apertando-a levemente, e eu senti a tensão sutil na forma como seus dedos se enrolaram nos meus. Ela respirou fundo, hesitando por um segundo.
— Estou considerando seriamente a ideia de voltar. — Ela murmurou, olhando para a porta como se fosse um portal para o inferno.
Revirei os olhos, apertando sua mão de volta.
— Nem vem — Retruquei, puxando-a para frente. — Você insistiu em vir e me arrastou pra cá. Agora não tem escolha senão beber pelo menos duas garrafas e beijar um garoto.
Lauren arregalou os olhos em um fingido horror, afastando-se como se minhas palavras fossem uma maldição.
— Cruz credo!
Eu ri, e ela me acompanhou, relaxando um pouco enquanto subíamos os degraus da entrada. Assim que a porta se abriu, fomos recebidas pelo sorriso caloroso de Moon.
Moon era uma das poucas pessoas na escola com quem tínhamos amizade, talvez porque ela não estivesse envolvida no mundo do karatê. Não havia rivalidade, não havia ressentimentos passados ou alianças forçadas. Ela simplesmente existia como uma energia positiva, e de certa forma, isso era aliviador.
— Vocês vieram! — Ela exclamou, abraçando Lauren rapidamente antes de me lançar um sorriso amigável. — Entrem, fiquem à vontade. As bebidas estão na cozinha, e o karaokê começa já, já!
Atravessamos a entrada e fomos engolidas pela atmosfera caótica. A sala de estar estava lotada, com gente dançando, conversando, alguns já visivelmente bêbados. Casais se agarravam em cantos escuros, e a música pulsava forte o suficiente para ser sentida no peito.
Definitivamente, o último tipo de ambiente onde eu imaginaria estar em uma terça-feira à noite.
Lauren me cutucou com o cotovelo e lançou um olhar zombeteiro.
— Você procura as bebidas e eu os problemas, hm?
Revirei os olhos, já me afastando.
— Desde que não mate ninguém...
Ela riu alto antes de sumir na multidão, e eu segui diretamente para onde presumi que ficaria a cozinha. Se havia uma coisa certa nessa vida, era que as bebidas sempre estavam na cozinha.
E eu estava certa.
O espaço era um pouco mais silencioso, um refúgio temporário do caos da sala. Abri a geladeira sem demora, focada apenas em pegar duas garrafas de cerveja e sair logo dali. Mas assim que puxei a porta, percebi uma presença próxima.
Minha espinha ficou tensa.
Fechei os olhos por um breve instante antes de me virar, já sabendo exatamente quem estaria ali.
Encostado despreocupadamente contra o balcão, segurando uma cerveja, estava Robby Keene.
Ele me observava, e mesmo sem fazer nada de específico, sua presença parecia densa. Como se estivesse esperando alguma coisa.
Respirei fundo e puxei duas garrafas de dentro da geladeira, ignorando-o completamente. Mas, claro, ele não parecia disposto a ficar em silêncio.
— Ei... — Sua voz soou hesitante, mas firme o bastante para me fazer parar por um segundo. — Eu... Já conversei com um amigo. Ele é meio nerd e entende dessas coisas. Vai descobrir o endereço de IP da conta. Então você vai saber da verdade.
Dei uma olhada rápida para ele, só o suficiente para ver a seriedade em sua expressão antes de voltar a atenção para as garrafas em minhas mãos.
— Ótimo. — Respondi simplesmente, sem qualquer emoção.
Virei nos calcanhares, já me preparando para sair da cozinha, mas sua voz me parou novamente.
— Espera.
Fechei os olhos por um segundo, contendo um suspiro exasperado antes de me virar para encará-lo.
— O quê?
Ele hesitou por um instante, como se estivesse tentando escolher as palavras certas.
— Você vai cantar no karaokê?
Franzi a testa, analisando sua expressão em busca de qualquer traço de sarcasmo ou provocação. Mas não havia nada disso. Só uma pergunta genuína.
Pressionei os lábios, estreitando os olhos levemente.
— Não sei. Você vai?
Ele deu um meio sorriso, mas antes que pudesse responder, eu já tinha saído da cozinha, indo em busca de Lauren.
Caminhei pela casa, sentindo a energia vibrante do ambiente ao meu redor, mas minha mente ainda estava presa na cozinha.
O que ele estava tentando fazer? Puxar conversa? Ser simpático?
Isso foi... Estranho.
Caminhei pela sala cheia de gente até avistar Lauren afundada no sofá, as pernas cruzadas e um meio sorriso satisfeito nos lábios enquanto observava a movimentação ao redor. Sem cerimônia, estendi a garrafa de cerveja para ela, que pegou com um aceno leve de agradecimento.
Ela suspirou antes de levar a garrafa aos lábios e tomar um gole.
— Até que não é tão ruim...
Mal tive tempo de concordar antes de ouvir Moon pegar o microfone no outro cômodo e anunciar em alto e bom som:
— E agora, nossa próxima cantora: Yelena, com Carried Away!
Meus ombros travaram no mesmo instante.
Virei-me para Lauren, que agora ria descaradamente, e empurrei seu ombro com força.
— Que diabos foi isso?! — Perguntei, semicerrando os olhos para ela.
Ela apenas ergueu os ombros, segurando a risada.
— Vai lá, garota! Canta como você sempre faz no carro. Você ama essa música!
Atrás de mim, palmas começaram a soar em encorajamento, e alguns já gritavam meu nome, como se realmente esperassem que eu subisse ali e fizesse alguma coisa.
Passei a mão no rosto, sentindo uma onda de exasperação misturada com um leve nervosismo. Não era exatamente medo de cantar. Perdi a conta de quantas vezes já tinha cantado essa música antes, mas sempre dentro de um carro, no meio de uma estrada, cercada apenas por Lauren e Mikan. Eles eram suspeitos demais para julgar, então eu nunca soube se cantava bem de verdade ou se eles só puxavam meu saco.
Agora, cantar na frente de um monte de desconhecidos — e pior, conhecidos que eram meus rivais diretos no tatame — parecia uma ideia muito estúpida.
Mas então meus olhos encontraram os de Lauren novamente, aquele brilho zombeteiro nela me desafiando silenciosamente.
Nunca fujo de um desafio.
Apontei um dedo para ela.
— Você é a próxima.
Ela ergueu as mãos em rendição, ainda rindo.
Bufei e deixei minha garrafa sobre a mesa mais próxima antes de respirar fundo e me virar para o palco improvisado. Era só um pequeno espaço aberto perto da televisão, com um microfone no pedestal e uma tela mostrando a letra da música. Algumas pessoas estavam jogadas em almofadas no chão, bebendo e rindo, enquanto outros ficaram de pé para assistir melhor.
Odiei cada segundo de caminhar até ali, sentindo os olhares sobre mim.
Subi no pequeno palco, ajustando o microfone para minha altura. O DJ do karaokê mexeu rapidamente no tablet, e os primeiros acordes de Carried Away começaram a tocar.
Respirei fundo. Se era para fazer aquilo, que fosse direito.
Meus dedos deslizaram pelo microfone enquanto eu me concentrava no ritmo. Então, quando a letra apareceu na tela, eu comecei a cantar.
A primeira nota saiu hesitante, porque meu peito ainda estava tenso pelo nervosismo. Mas conforme a melodia avançava, deixei que minha voz fluísse naturalmente, me conectando com a música como sempre fazia.
A plateia foi silenciando aos poucos.
Meus olhos se moveram discretamente entre os rostos à minha frente. Algumas pessoas estavam paradas, apenas ouvindo, enquanto outras balançavam a cabeça no ritmo da canção.
Lauren, com um enorme sorriso convencido no rosto. Moon, visivelmente impressionada, segurando as mãos perto do peito. E então meus olhos encontraram um par de íris verdes fixadas em mim.
Robby Keene estava ali, encostado na parede perto da cozinha, com a cerveja esquecida na mão. Ele me olhava com uma expressão indecifrável, algo entre surpreso e... Intrigado. Eu não sabia exatamente ler o que ele estava pensando, mas parecia uma reação positiva, no entanto, não importava.
Virei o rosto de volta para a tela, fingindo que não vi e simplesmente continuei cantando.
Eu podia não estar bêbada o suficiente para fazer aquilo com naturalidade, mas agora que já tinha começado, não daria para trás. E, para minha surpresa, uma parte de mim estava gostando, porque apesar de tudo, aquilo era um desafio.
Obra autoral ©
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