01. The nightmare of war
A escuridão da noite era rompida por clarões intermitentes, acompanhados do som ensurdecedor de explosões. Cada detonação parecia sacudir a terra debaixo de mim, como se o chão estivesse tentando me engolir. Me abaixei rapidamente, mergulhando entre os arbustos cobertos de neve, enquanto meu corpo reagia instintivamente. Minha arma estava apertada contra o peito, quase como se pudesse me proteger daquilo que estava por vir. Sentia o metal frio contra os dedos, uma sensação que já se tornara familiar, mas não menos aterrorizante.
Minha respiração vinha em arfadas curtas e desesperadas, formando pequenas nuvens no ar congelante. O frio era implacável. Cazã, com sua neve eterna e ventos cortantes, não perdoava nem os mais preparados. O ar parecia morder minha pele exposta, queimando meu rosto e meus lábios rachados. Sentia como se o frio tivesse penetrado até meus ossos, transformando meu corpo em gelo vivo. Não era apenas o ambiente que me congelava, era o medo, apertando meu peito, esmagando cada fôlego que eu tentava desesperadamente tomar.
Gritos ecoavam à distância. Não conseguia distinguir palavras, mas o tom carregava pânico, dor e desespero. Aquelas vozes eram de aliados, talvez até de amigos, embora o caos tornasse impossível saber ao certo. Fechei os olhos por um momento, tentando afastar o som, mas ele parecia mais alto dentro da minha cabeça. A lembrança de rostos conhecidos, rostos que eu sabia que nunca mais veria, invadia minha mente como uma avalanche. Viktor, com seu sorriso fácil, sempre prometendo que sairíamos vivos daquela maldita guerra. Anya, que nunca deixava de cantarolar, mesmo nos momentos mais sombrios. Agora, só o silêncio eterno os acompanhava.
Meu coração martelava contra o peito, como se quisesse escapar daquele pesadelo, enquanto meu corpo permanecia imóvel, paralisado pela necessidade de sobreviver. O som das explosões se aproximava. Eles estavam chegando. Podia ouvir os passos sobre a neve, o som abafado mas inconfundível de botas esmagando o gelo. Cada passo parecia um aviso, cada movimento, uma sentença. Segurei a arma com mais força, embora minhas mãos estivessem trêmulas. Não sabia se era pelo frio ou pelo medo, talvez ambos.
Minhas pernas doíam por estar abaixada há tanto tempo, mas não me atrevia a me mover. Um único som fora do lugar e seria o fim. O vento carregava consigo o cheiro de pólvora e sangue. Era um cheiro que nunca desaparecia, impregnando tudo, como uma marca invisível da morte que rondava. Pisquei, tentando manter a visão clara, mas meus olhos ardiam. Estava cansada, exausta de lutar, exausta de correr, exausta de perder. Não havia mais esperança. Tudo o que restava era sobreviver mais um dia, mais uma hora, mais um minuto.
De repente, um som agudo cortou o ar, e o mundo explodiu em luz e caos. Me abaixei ainda mais, pressionando o corpo contra o chão gelado, enquanto a adrenalina tomava conta. Meu coração parecia estar prestes a explodir. Sentia como se cada célula do meu corpo gritasse para fugir, mas não havia para onde correr. Tudo o que podia fazer era esperar. Esperar e torcer para que não fosse eu a próxima a cair.
Então, tudo mudou. O som das explosões, os gritos, o frio insuportável, desapareceram. Abri os olhos, ofegante, e percebi que não estava mais em Cazã. O teto familiar do meu quarto me encarava de volta. As sombras das árvores do lado de fora dançavam suavemente na parede, movidas pelo vento. Minha respiração ainda estava irregular, e meu peito subia e descia rapidamente, como se eu tivesse corrido uma maratona. Meu coração batia tão forte que pensei que poderia pular para fora do meu corpo a qualquer momento.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o suor frio na testa, apesar do calor relativo do ambiente. Estava quente demais para o frio que meu corpo parecia acreditar que sentia. A sensação de alívio veio lentamente, mas não completamente. O medo persistia, como um fantasma teimoso, assombrando cada recanto da minha mente. Era apenas um sonho. Apenas mais um pesadelo. Mas parecia tão real. Tão terrivelmente real.
Meu olhar vagou pelo quarto, em busca de algo que me ancorasse à realidade. O cobertor emaranhado aos meus pés. A luz fraca que entrava pela janela. O som distante da cidade que começava a despertar. Tudo parecia tão normal, tão comum. E, no entanto, dentro de mim, tudo ainda era guerra. O frio de Cazã ainda queimava minha pele. O cheiro de pólvora ainda enchia meu nariz. O som dos gritos ainda ecoava nos meus ouvidos.
Me sentei na cama, esfregando os braços para afastar o arrepio que não era apenas de frio. Passei a mão pelos cabelos, tentando acalmar a mente, mas os pensamentos vinham em turbilhão. Não era a primeira vez que isso acontecia. Sabia que não seria a última também. Esses pesadelos eram como uma sombra constante, me seguindo para onde quer que eu fosse, me lembrando de tudo o que perdi, de tudo o que vivi.
Respirei fundo, tentando acalmar o coração. Um, dois, três. Expirei lentamente, como os médicos haviam ensinado. Mas mesmo com as técnicas, mesmo com o tempo, a dor e o medo nunca desapareciam completamente. Eles apenas ficavam à espreita, esperando o momento certo para atacar. Era isso que a guerra fazia. Mesmo quando acabava, ela continuava dentro de você, uma batalha interminável, travada em silêncio.
Olhei para minhas mãos, que ainda tremiam levemente. Não seguravam mais uma arma, mas o peso continuava lá, invisível, mas inescapável. Fechei os olhos, tentando afastar as memórias, tentando lembrar que agora estava em segurança. Que não havia mais explosões, nem gritos, nem frio cortante. Mas parte de mim sabia que nunca estaria completamente segura. Não enquanto aquelas memórias continuassem me assombrando.
Finalmente, me deitei novamente, puxando o cobertor para cima. O calor ajudava um pouco, mas o alívio era temporário. Fiquei olhando para o teto, ouvindo o som da minha própria respiração, agora mais calma. Era apenas um pesadelo. Repetia isso para mim mesma como um mantra. Mas sabia que, para algumas partes de mim, o pesadelo nunca realmente terminaria.
Ainda ofegante e tentando controlar o tremor nas mãos, estiquei o braço para pegar o celular na mesinha ao lado da cama. A tela iluminou o quarto escuro, e o nome "Sargento" apareceu no topo das notificações. Meu estômago revirou automaticamente. Não era apenas um apelido ou um título, era meu pai, o único parente de sangue que ainda restava. Mas ele nunca fora realmente um pai. Desde que consigo me lembrar, ele sempre foi mais um comandante do que qualquer outra coisa.
Deslizei o dedo pela tela, abrindo as mensagens. Havia várias, todas curtas e diretas, como sempre.
"Treino às 06h30. Não se atrase."
"Fique focada."
"Você tem responsabilidades agora, Yelena."
Suspirei profundamente, sentindo um peso familiar pressionar meu peito. Ele era assim desde sempre. Quando eu era criança, ele não lia histórias ou perguntava sobre meu dia. Em vez disso, ele me colocava para fazer flexões ou para correr no quintal, mesmo que eu chorasse de exaustão. Aos 10 anos, eu já sabia montar e desmontar uma arma mais rápido do que muitos soldados. Aos 12, ele me matriculou em um colégio militar, cortando qualquer chance de uma adolescência normal. E aos 18, não houve escolha, ele me fez alistar no exército, como se fosse a única opção possível.
E agora? Agora eu estava aqui, aos 19 anos, lidando com as cicatrizes de uma guerra que mal vivi e presa no que parecia ser apenas uma extensão de sua vontade. Quando o exército não foi mais uma opção, ele encontrou um novo passatempo para mim, o karatê. Não que eu tivesse algo contra a arte em si, mas com ele, tudo era sempre sobre disciplina, poder e controle. Ele transformava tudo em um campo de batalha.
Olhei para o relógio na tela do celular. 06h07. As mensagens dele agora faziam sentido. O treino começaria em menos de meia hora, e eu precisava estar lá. Não que eu tivesse escolha. Coloquei o celular de volta na mesa e me sentei na cama, esfregando o rosto com as mãos.
Fierce Dragons, pensei com um toque de amargura. Esse era o novo projeto dele, um dojô que ele fundou e comandava com a mesma rigidez militar de sempre. Como se isso não fosse suficiente, havia mais. Hoje seria o último treino aqui em Cazã antes de partirmos para a Califórnia. A filial americana estava prestes a abrir, e meu pai decidiu que eu, como líder dos alunos, deveria acompanhar os senseis nessa nova empreitada.
Eu seria uma das poucas a ir. Não porque eu queria, mas porque ele decidira que isso seria bom para mim. Assim como ele decidira tudo o que aconteceu na minha vida. Ele ficaria na Rússia, comandando a filial principal do dojô, enquanto eu seria enviada para ajudar a treinar os novos alunos e estabelecer a liderança da filial na Califórnia.
Levantei-me devagar, sentindo as pernas ainda trêmulas do sonho. Ou pesadelo. Porque era disso que se tratava, reviver a guerra. Mesmo longe do front, minha mente ainda estava lá. E agora, meu pai queria me lançar em uma nova "missão", como ele dizia. Desta vez, não havia armas ou batalhas literais, mas a sensação de sufocamento era a mesma.
Olhei pela janela enquanto me vestia. O céu ainda estava escuro, mas as primeiras luzes da manhã começavam a aparecer. Cazã estava silenciosa, quase pacífica, mas o frio continuava cortante. Sentiria falta disso, de alguma forma. O frio, as ruas cobertas de neve, até o cheiro de pão fresco que vinha das padarias locais. Mesmo com tudo que vivi aqui, era minha casa. E agora, eu seria arrancada dela. Mais uma vez.
Vesti meu uniforme de treino e amarrei o cabelo em um rabo de cavalo apertado. Peguei minha mochila no canto do quarto, que já estava arrumada para a viagem. Apenas o essencial, como sempre. Era o que meu pai me ensinara, viajar leve, estar sempre preparada. Fui até a porta, mas hesitei antes de sair. Meu olhar voltou para o quarto, pequeno, simples, porém meu. Suspirei e fechei a porta atrás de mim.
O dojô ficava a alguns minutos de caminhada, e o vento congelante logo me fez apertar os braços contra o corpo. O chão rangia sob meus pés, coberto por uma fina camada de neve fresca. Caminhei em silêncio, tentando não pensar demais. Sobre o sonho, sobre meu pai, sobre a Califórnia. Mas era impossível. Tudo se misturava na minha mente, criando um turbilhão de emoções que eu não sabia como controlar.
Cheguei ao dojô e fui recebida pelo som de golpes ressoando no tatame. O cheiro de madeira polida e suor era familiar. Alguns alunos já estavam lá, aquecendo e ajustando seus quimonos. Meus senseis, Yama e Kumiko, estavam no centro da sala, conversando em voz baixa. Eles me olharam e acenaram quando entrei.
— Pontual, como sempre — Disse Yama, com um leve sorriso. Ele era o oposto do meu pai, calmo, paciente, quase paternal, se não fosse tão insensível e frio. Kumiko era mais dura, mais justa, mas com um coração mais aberto a ouvir os sentimentos de seus alunos. Ambos me ensinaram muito nos últimos meses, e eu confiava neles de uma forma que não confiava em quase ninguém.
O treino começou logo em seguida. Movimentos básicos, seguidos de combinações mais avançadas. Meu corpo se movia automaticamente, como se tivesse sido programado para aquilo. Não era ruim, na verdade. Havia algo de terapêutico em cada golpe, cada bloqueio. Por um momento, eu podia me esquecer de tudo. Da guerra, dos pesadelos, do meu pai. Mas então vinha a voz dele, em algum canto da minha mente, me lembrando que isso não era para mim. Era para ele.
"Lembre-se, Yelena," ele costumava dizer. "Você não treina por diversão. Treina para vencer."
Depois do treino, Yama anunciou oficialmente a mudança.
—Hoje é nosso último dia aqui, alunos. Amanhã partimos para a Califórnia. Um novo começo para todos nós. Não percam o foco e a disciplina, isso é só o começo de algo muito maior.
Os outros alunos murmuraram em concordância, mas eu permaneci em silêncio. Para eles, talvez fosse emocionante. Para mim, era apenas mais uma missão. Mais um lugar onde eu precisava provar algo, não para mim mesma, mas para o meu pai.
Enquanto me aproximava do tatame, meus passos ecoavam suavemente no ambiente silencioso do dojô. O ar era carregado de um odor que misturava madeira encerada, suor e o leve perfume de incenso queimado, um toque que Kumiko insistia em manter, dizendo que ajudava a "conectar espírito e corpo". Não sabia se acreditava nisso, mas o ambiente sempre me colocava em estado de alerta. Era como entrar em campo de batalha, mas sem armas. Apenas o som das nossas respirações e o eco de cada golpe preenchiam o espaço.
O uniforme que usávamos, o kimono azul-escuro com detalhes em dourado, era mais do que apenas uma roupa de treino. Ele tinha um peso simbólico. As letras em dourado vívido no lado esquerdo do peito formavam as palavras "Fierce Dragons" em caracteres que lembravam um toque tradicional, mas ainda carregavam uma modernidade imponente. Nas costas, o dragão era a verdadeira obra-prima. Cada linha dourada que desenhava o corpo da criatura parecia viva, serpenteando por toda a extensão do tecido. Era inspirado nos dragões de Okinawa, como Kumiko gostava de lembrar, esculpidos em madeira com detalhes que evocavam força, sabedoria e um toque de misticismo. Ela dizia que usar o uniforme era uma honra, mas, para mim, era mais um lembrete do fardo que carregava.
Começamos o treino com os exercícios básicos de aquecimento. Movimentos simples que, com o passar do tempo, tornaram-se um ritual doloroso. Flexões sobre os punhos no tatame duro. O impacto da pele contra a madeira era um choque inicial, mas, ao fim da série, a dor era constante, como se cada parte de mim gritasse por descanso. Depois vinham os saltos e deslocamentos, exigindo equilíbrio e velocidade, enquanto nossas pernas já queimavam de esforço. Meu coração martelava no peito, e o suor começava a se acumular na base do meu pescoço, escorrendo pelas costas, mas ninguém ousava parar.
Os senseis observavam atentamente, corrigindo posturas, gritando palavras de incentivo, ou, no caso de Yama, de correção severa. Ele não era do tipo que aceitava menos do que o perfeito.
— Yelena, mais firme! — Sua voz cortou o ambiente como uma lâmina. — Seus pés estão desalinhados. De novo!
Repeti o movimento, rangendo os dentes para não demonstrar o incômodo. Cada músculo parecia estar prestes a se romper, mas essa era a essência do treinamento ali. A perfeição era o objetivo, e a dor era apenas uma consequência inevitável.
A parte central do treino envolvia sequências de golpes e defesas, feitas em pares. Meu parceiro era Ivan, um dos alunos mais experientes. Ele não aliviava. Seus golpes eram rápidos, precisos, e, embora estivéssemos apenas treinando, cada impacto parecia carregar a força de um ataque real. Meus antebraços começavam a latejar após bloquear vários socos consecutivos, mas mantive a postura.
— Mais rápido, Yelena — Ele disse entre os golpes, a voz carregada de esforço.
11 Eu estou tentando — Respondi, ofegante, girando para evitar o chute que ele desferiu logo em seguida.
Depois de meia hora, minha respiração já era um desafio. As pernas tremiam, os braços estavam pesados, e cada movimento parecia exigir mais do que eu podia oferecer. Mas não havia descanso. Yama e Kumiko insistiam em nos empurrar além dos limites, e eu sabia que qualquer demonstração de fraqueza seria percebida como um fracasso, especialmente pelo meu pai.
A última parte do treino foi a mais intensa, e talvez mais brutal, o combate livre. O tatame tornou-se um campo de guerra onde ninguém segurava os golpes. Minha primeira adversária foi uma garota chamada Irina, menor do que eu, mas incrivelmente ágil. Ela atacava sem hesitar, e, em questão de minutos, eu já estava no chão após um chute certeiro na lateral do corpo.
11 Levante-se, Yelena — Gritou Yama — Você é líder aqui. Mostre isso.
Ignorando a dor que irradiava pelo meu lado, forcei-me a levantar, o kimono agora úmido de suor e pesando ainda mais contra o corpo. As palavras dele ressoavam como uma ordem, mas também como um desafio. Não era apenas sobre o combate, era sobre o que eu representava ali.
Quando o treino finalmente terminou, meu corpo estava exausto, mas minha mente permanecia em alerta. O dragão dourado nas costas do meu uniforme parecia pulsar, como se também estivesse testando minha determinação. Enquanto os outros alunos se despediam e deixavam o dojô, permaneci no tatame, sentada, tentando recuperar o fôlego.
Meu pai sempre dizia que era na dor que encontrávamos nossa força. Talvez houvesse alguma verdade nisso, mas, no fundo, eu me perguntava, força para quê? Para lutar por algo que eu nunca quis? Para carregar um legado que não pedi? Olhei para o dragão bordado em meu uniforme e, por um instante, desejei que ele ganhasse vida e me levasse para longe dali.
Eu me arrastei até o banco ao lado do tatame, com as pernas tão pesadas que mal conseguia manter o equilíbrio. O suor escorria pelo meu rosto, meus músculos estavam em um estado de cansaço extremo, mas não havia espaço para fraqueza ali. O treino tinha sido um campo de batalha, e, embora o corpo estivesse grato pelo intervalo, a mente continuava em guerra. A cada respiração, o dragão em meu uniforme parecia me desafiar a continuar.
Lauren Toguchi estava sentada no banco, os ombros levemente curvados, seus longos cabelos negros amarrados em um rabo de cavalo. Mesmo depois de horas de treino, ela não parecia tão exausta quanto eu. Lauren era diferente de todos os outros no dojô. Embora compartilhasse o mesmo sangue de combate, sua presença era quase etérea, mais calma, mais calculada, como uma rocha firme no meio da tempestade. Ela estava ali por um motivo, assim como eu. O legado.
Lauren e eu éramos mais do que amigas, éramos quase irmãs. Nossa história tinha raízes profundas, assim como o nosso treinamento no Fierce Dragons. O pai de Lauren, Chozen Toguchi, um nome respeitado no mundo das artes marciais, havia confiado sua filha aos cuidados de Sensei Kumiko, uma das fundadoras do dojô e, na época, melhor amiga do meu pai. Sensei Kumiko sempre foi uma mentora severa e inflexível, mas havia uma leveza em seu olhar quando ela treinava Lauren, algo que eu nunca vi no olhar do meu pai.
Eu me sentei ao lado dela no banco, a sensação do peso do kimono apertando meus ombros. Sem dizer uma palavra, Lauren me olhou, sua expressão tranquila, quase como se soubesse o que eu estava sentindo antes mesmo de eu dizer algo. Ela sempre teve essa capacidade, ler as pessoas de maneira tão precisa, como se conseguisse ver dentro de nós, em lugares onde nós mesmos ainda não tínhamos coragem de olhar.
— O treino foi mais intenso hoje, não foi? — Ela perguntou, a voz baixa e calma. Ela não precisou perguntar se eu estava be, sabia que não estava. — Eu vi você e Ivan se enfrentando... Você parecia estar no limite.
Eu ri, mas era uma risada sem humor, uma tentativa de aliviar a tensão que se acumulava em meu peito.
— Eu sempre estou no limite, Ren. — A chamei pelo apelido que usávamos desde a infância. Assim como ela costuma me chamar de Len — Acho que meu corpo já aprendeu a ignorar a dor.
Olhei para minhas mãos, ainda trêmulas, e passei o dedo pela palma da mão esquerda, sentindo a textura áspera da pele queimada pelo atrito contra o tatame. O choque do treino nunca parecia diminuir.
Lauren não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela simplesmente olhou para frente, os olhos voltados para o tatame vazio, onde os outros alunos já estavam começando a se retirar. Havia algo no jeito dela, como se ela estivesse absorvendo a cena ao redor, refletindo sobre cada movimento.
— Você já pensou no que vem depois? — Perguntou ela novamente, mas agora a pergunta parecia mais profunda, mais carregada de significados não ditos.
Eu sabia do que ela estava falando. A mudança para a Califórnia. As palavras soavam simples, mas o impacto de deixar tudo o que conhecíamos para trás era avassalador. Eu, que nunca tinha pedido para estar aqui, agora seria forçada a deixar minha casa, minha terra, meus amigos e seguir para um lugar desconhecido. Um novo dojô, novas regras, novas expectativas. E, para mim, isso era mais um peso nas costas.
— Não sei... — Resmunguei, sentindo a respiração sair mais pesada. — Eu não queria isso, Ren. Nem esse treino, nem essa mudança. Não foi minha escolha. Você sabe disso. E agora, vamos ter que ir para a Califórnia, onde nem ao menos conhecemos o chão que vamos pisar. Eu mal consigo lidar com o que está acontecendo aqui, quem dirá lá.
Lauren manteve-se em silêncio por um momento, observando minha expressão, como se estivesse esperando que eu dissesse algo mais. Ela sempre soubera como esperar o tempo certo para falar, e nesse instante, ela sabia que eu precisava processar o que estava acontecendo, e que suas palavras poderiam mudar tudo ou nada.
— Eu entendo... — Ela disse com uma suavidade que eu não esperava. — E eu sei que não é o que você escolheria se tivesse opção. Mas, Len, às vezes as coisas acontecem sem que a gente tenha controle. Isso é algo que aprendi com o meu pai. Você, mais do que ninguém, sabe o quanto ele foi rígido comigo. Mas o que Sensei Kumiko sempre me dizia era que, no fim, o dojô não é só um lugar, nem uma obrigação. É uma chance de se encontrar. De entender quem você é, independentemente do que os outros esperam de você.
Fiquei em silêncio, absorvendo suas palavras. Lauren sempre foi mais equilibrada que eu, mais serena e com uma visão que ia além da dor do momento. Mas, para mim, o "encontrar-se" nunca fora tão claro. A ideia de me perder em um dojô nos Estados Unidos, longe de tudo que eu conhecia, era desconcertante. Eu não sabia como lidar com isso. Não sabia o que esperavam de mim, e eu não estava disposta a ser uma marionete, como meu pai sempre tentou me fazer.
— Eu não sou como você, Lauren — Disse, com um tom mais baixo, quase sussurrando. — Eu nunca soube encontrar um propósito nesse lugar. Nunca entendi porque tudo o que ele queria para mim era ser uma arma. Um soldado. Agora, ele me empurra para algo que, para ele, é mais um campo de batalha. E eu... Não sei se estou pronta para isso.
Lauren olhou para mim com um olhar que, para ela, era uma mistura de compreensão e desafio.
— Você está mais pronta do que pensa, Len. E não precisa ser como ele. Não precisa seguir o que ele quer para você. Sei que ele te moldou para ser forte, mas isso não significa que você não possa ser mais do que isso. Não importa o que ele tenha planejado, você ainda pode decidir qual caminho quer seguir. Eu sei que você vai encontrar seu próprio sentido no dojo, mas precisa se permitir.
Eu respirei fundo, sentindo o peso de suas palavras, e, pela primeira vez naquela manhã, algo dentro de mim relaxou, mesmo que apenas um pouco. Eu sabia que o caminho seria árduo. Seria difícil. E, por mais que eu tivesse medo, havia algo dentro de mim que ainda ansiava por liberdade. Não a liberdade de escapar, mas a liberdade de ser quem eu realmente queria ser, sem as amarras do passado. Sem o peso do legado que meu pai tentou me forçar a carregar.
— Eu só não sei se consigo fazer isso sozinha. — Eu finalmente admiti, com a voz um pouco mais baixa.
Lauren sorriu levemente, a luz suave do fim da tarde iluminando seu rosto com um brilho tranquilo.
— Você não está sozinha, Yelena. Nunca estará. Eu estarei com você, seja aqui ou na Califórnia. O que quer que aconteça, você não vai enfrentar isso sozinha.
Senti uma onda de alívio passar por mim. Sabia que Lauren falava com sinceridade. Ela sempre esteve ao meu lado, como uma âncora, quando o mundo parecia desmoronar.
E, enquanto a noite começava a cair sobre o dojô, com as sombras se estendendo pelos tatames e o ar fresco de Cazã se infiltrando pela janela aberta, senti pela primeira vez que talvez houvesse algo além do que eu tinha sido obrigada a viver. Talvez, no fim, houvesse mais para mim do que apenas seguir as expectativas de outros. Eu só precisava acreditar.
— Obrigada, Ren. — Agradeci, a voz quase imperceptível, mas cheia de uma gratidão que estava além das palavras.
Ela apenas acenou com a cabeça, o sorriso suave permanecendo em seu rosto. Sabíamos que o futuro ainda era incerto, mas, naquele momento, com ela ao meu lado, eu sentia que, talvez, pudesse encarar qualquer desafio que viesse pela frente.
Obs: Não consegui fazer esse quimono azul. Segue o roteiro 😍😍😍.
Obra autoral ©
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