𝟎𝟑
A grande graça em assistir filmes como Zorro, não está no final. Sejamos sinceros, sabemos que, no fim, o bem vence o mal, alguns choram, alguns aplaudem, todos recolhem seus baldes de pipoca vazios, seguram seus acompanhantes pela mão e saem do cinema, rumo à vida real.
Com algumas exceções, o que nos encanta no gênero é a trajetória, a odisséia, o desenvolvimento do herói. Há sempre o momento característico de autoreflexão, em que o herói questiona ser merecedor das dádivas que possui, quando ele salva a mocinha, e eles têm um momento romântico desnecessário, ou quando eles - o herói e a mocinha - olham para a cidade destruída no processo de salvamento, com um semblante visionário e sério, como alguém que acaba de salvar a humanidade - principalmente a mocinha - geralmente se parece.
As pessoas gostam de ver o lado humano, gostam de saber que os heróis erram, sentem-se fracos, e têm momentos de dúvida, tristeza, raiva, etc. Gostam que os heróis tenham defeitos. Porque isso faz com que elas se sintam mais próximas e conectadas com os heróis. Bem, essa era a minha teoria. A teoria de Jesse era:
- Cara, o Antônio Banderas é tipo, muito da hora. - Eu tinha que concordar.
Imaginava se cada dificuldade que passava se tornaria parte da minha humanidade, uma extensão positiva no meu currículo de herói ou uma vergonha para meu mentor.
Sim, continuava me perguntando, como um jargão de pulseira vendida em um show gospel, mas com "o que o Batman faria?" ao invés de "o que Jesus faria?". Esse deve ser o defeito de número 187, e eu sei que devia fazer disso uma razão para mudar, dar a volta por cima.
Mas isso infelizmente não é um filme de herói. Se fosse, talvez eu teria uma namorada ruiva, um apartamento bacana, e minha vida financeira em decadência nunca seria abordada como um problema grave.
Como a Senhora Menezes, dona do Hotel Menezes, já tinha deixando implícito que a não ser que eu lhe pagasse o aluguel ou concordasse em tomar um banho com ela, seria despejado, já era hora de tratar aquilo como um problema grave. Em outras palavras, eu precisava de um emprego.
E enquanto passava pela porta do Distrito Policial de Gotham, esperava que o desespero não estivesse tão visível em meu rosto. Seria uma péssima primeira impressão. Eu tinha uma pasta debaixo do braço. Tinha feito algumas pesquisas e sabia quais documentos tinha que levar para ser pelo menos considerado para uma entrevista. Tinha pesquisado também o salário de um policial. Nada mal.
Senti uma pontada de alívio quando vi Jim Gordon. Eu o conhecia bem, talvez ele fosse o meu primeiro apoio no distrito. Mas logo lembrei que eu o conhecia mas ele não me conhecia. Ele conhecia o Asa Noturna, "parceiro do Batman".
- Richard, certo? - ele se dirigiu à mim com a ajuda de uma muleta.
Tinha se machucado no trabalho. E esse provavelmente era o motivo de ele estar cuidando de entrevistas e não resolvendo algum crime. Eu sabia que ele estava mais violento desde o que aconteceu com Barbara. Percebi que estava encarando, e limpei a garganta.
- Sim, sou eu.
- Acho que já te vi antes. É o filho adotivo de Bruce Wayne?
Travei o maxilar ao ser mais uma vez associado a Bruce. Como Asa Noturna e como Richard, eu estava sempre vivendo à sobra dele. Acenei com a cabeça e ele indicou uma sala. Eu o segui.
- Você não é um herdeiro multimilionário? - ele perguntou, se sentando e gesticulando para eu me sentar também.
- Tecnicamente. - disse, me acomodando na cadeira e deixando a pasta em cima da mesa.
- Certo. Eu não vou perguntar o que você faz aqui, se é rico o suficiente para comprar o Distrito. Mas acho muito louvável a sua atitude de procurar um emprego e construir sua independência. Apesar do dinheiro.
Ele riu, folheando minha pasta, passando pelo meu histórico escolar impecável, meu diploma, minha identidade. Havia um quê de desinteresse no seu olhar.
Jim Gordon não gostava de papeladas, burocracia e derivados. Ele gostava de ação, e embora todos os documentos à sua frente afirmassem que eu era apto, ele não se deixaria convencer tão facilmente. Ele tinha que saber se eu estava pronto para a ação.
- Richard, você sabe o que significa ser um policial em Gotham?
- Sim, senhor.
- Não, não sabe. Eu sei, e só porque eu estou aqui há quase duas décadas, e eu demorei para entender, mas distintivos, uniformes e armas não tem nada a ver com isso.
Eu esperei que ele me dissesse. Queria saber. O fios brancos na cabeça de Jim, fruto do trabalho; as rugas talhavam seu rosto; um olhar frio e sábio pairou sobre mim, quase me desafiando a dizer alguma coisa.
- Tem a ver com o quê?
Sua expressão marmorizada se desfez e ele riu levemente.
- Não vou estragar o mistério tão rapidamente, Richard. - ele fechou a pasta. - Não posso contratá-lo.
- O quê? Por que?
- Primeiro, não é tão simples. O departamento está sem vagas para novos policiais, mal conseguimos pagar os velhos.
- Então por que me entrevistou?
- Porque eu preciso de um favor.
"Tá certo, e eu preciso de dinheiro", pensei em dizer. Mas Jim parecia estar mais ferrado do que eu, então eu o deixei terminar de falar.
- creio que sabe o que aconteceu com a minha filha... Barbara, há seis meses.
Todos sabiam. A preciosa filha de Jim Gordon tinha sido alvejada pelo Joker, foi atingida na coluna e ficou paralisada da cintura para baixo, fadada à uma cadeira de rodas.
- Sim, eu sei.
- Ela terminou a terapia, está bem melhor, e insiste que está pronta para voltar a trabalhar. Um tipo de estágio na Wayne Enterprises. Eu não acho que é a decisão certa, pelo menos não agora, eu não sei se você entende, mas eu pensei que fosse perder...
- Eu entendo.
- Claro que sim, desculpe.
- Não tem problema, Sr. Gordon, mas eu não entendo como posso ajudá-lo.
- Quero que fique de olho na minha filha.
- O que?
- Eu pensei em pedir proteção policial, mas só tenho razões circunstanciais e fraternais. E ela nunca aceitaria. Está tentando reconstruir a vida e quer fazer isso sozinha. Eu acredito nela, mas quero ter certeza de que não haverá nenhum problema.
- Senhor Gordon, eu não posso...
- Eu te pago.
- Será um prazer ajudar.
Seu bigode se curvou de um jeito engraçado, ele estava sorrindo. Apertamos as mãos.
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