𝐓rês 𝐃a 𝐌anhã
𝙲𝙷𝙰𝙿𝚃𝙴𝚁 𝟶𝟷. ✿' Dɪsɴᴇʏ﹠.Mᴀʀᴠᴇʟ
﹨ ❀. Ain't No Grave
❀. 𝚃𝚑𝚛𝚎𝚎 𝒾𝓃 𝓉𝒽ℯ 𝙼𝚘𝚛𝚗𝚒𝚗𝚐
𖦹𖦹𖦹
𝔉rank Castle estava sonhando novamente. Seus filhos pulavam ao seu redor na cama, acordando-o com risadas. Alguém chamou por ele da porta. Frank piscou, coçando os olhos com lentidão preguiçosa, um sorriso cansado se abrindo em seu rosto ao perceber que estava em casa. Ele tinha que ajudar os filhos com a tarefa da escola, limpar o jardim e dar um jeito e afastar os gambas que reviram o lixo em busca de qualquer resto de comida, lembrou-se enquanto esfregava as mãos calejadas sobre o rosto. Uma sensação boa tomava conta do seu coração naquele instante. Uma centelha pequena e fraca de felicidade ao se lembrar de algumas penas tarefas daquele dia. Sentiu-se feliz por ter que revirar a garagem para aparar a grama do quintal. Ficou ansioso, até. Tudo porque estava em casa.
Não precisaria sentir o peso da arma carregada em suas mãos ou então o cheiro de pólvora no ar ao explodir uma granada. No lugar de uma submetralhadora ele carregaria uma sacola de lixo. Aquilo já era o suficiente para faze-lo feliz. Mas assim que olhou para a porta, seu sorriso se alargou. Uma mulher de cabelos castanhos segurava uma caneca fumegante de café, que com certeza, estava escondido sobre exatas cinco colheres de açúcar. Sua esposa tinha o péssimo hábito de adoçar o café com número ímpares, ela dizia que os pares davam azar. “Azar vai ser quando você ficar doente de tanto açúcar no sangue.” Tinha rebatido ele, mas como sempre, Elizabeth apenas tinha dado de ombros e resmungando algo como “Eu pari duas crianças, acho que mereço meu café doce da maneira que eu gosto”.
— Já são dez horas. — Seus lábios, levemente avermelhados da noite anterior, se abriram em um sorriso aconchegante conforme ela apoiava a cabeça no batente da porta, alguns fios de cabelo escorregando pelo seu rosto. — Deixei que dormisse um pouco mais… você estava cansado.
Frank sorriu ao sentir os pulos ao seu lado cessarem e as crianças — suas crianças — começaram a tagarelarem sobre o bolo de maçã que o esperava no andar de baixo e o dia ensolarado que fazia do lado de fora. “Deveríamos ir para a piscina.” Sugeriu David, a irmã mais nova apenas negou com a cabeça “Eu odeio aquele lugar, fica cheio de criança, o parque é mais legal”.
— Dando uma de adolescente, Lisa? — Perguntou o homem, sentando-se na cama, os filhos pulando para mais perto. — Então acho que você já pode começar a colocar o lixo pra fora.
— A Bethany, da minha sala, tem empregados que fazem isso pata ela. — Resmungou a garota sentando-se ao lado de Frank, os joelhos colados no peito.
Ele ergueu uma sobrancelha em um misto de incredulidade e nervosismo. Odiava os filhos mimados que estudavam com Lisa, não porque eram crianças ruins ou algo do tipo, mas porque a filha era sempre obrigada ver todos os colegas com uma família unida e que poderia atender todos os seus desejos, enquanto Castle ficava meses fora e voltada com nada além de novas cicatrizes e pesadelos. Até agora, lembrou-se o ex -fuzileiro. Não seria recrutado por muito tempo. Ele teria sua família ao seu lado, unida a ele. Ele teria pessoas para amar, pessoas que se importavam com ele da mesma forma, que o amavam. Frank Castle se sentiu seguro.
— Colocar o lixo para fora molda o caráter das pessoas. — Interveio Maria, colocando a caneca rosa, com a imagem de uma princesa qualquer sobre a cômoda de carvalho americano.
Ela se aproximou, o vestido amarelo ondulado ao seu redor, o corte chegando perto do pescoço, onde Frank tinha feito questão de deixar marcas. Ele sorriu malicioso para a esposa.
— Deveria ouvir sua mãe, ela é a mulher mais…
BANG
BANG
BANG
BANG
Silêncio.
Eram sempre assim. O som oco, quando disparado reclamava tudo a sua volta, abafando tudo ao redor, até mesmo os gritos, os choros de dor e a respiração entrecortada de um corpo despedaçado. A explosão da pólvora foi ensurdecedora. Por um momento Frank achou que os tímpanos fossem estourar, ele teria tapado os ouvidos se seu corpo não se retesasse a cada suspiro. O coração pareceu estourar no peito e ele soube que morreria naquele dia. Sabia que, mesmo que vivesse uma parte dele estava perdida.
Tudo o que viu foi uma nuvem de sangue se formar no ar e o corpo da sua esposa despencar no chão com a metade da cabeça aberta, uma massa roxa escorrendo pelo seu olho. A boca entreaberta em uma forma estranha, uma linha fina de baba escorrendo pelos lábios e o olho, o que ainda estava inteiro , aberto como uma peixe fora d' água. Frank permaneceu imóvel na cama, sua mãos sentindo um líquido quente envolvê-lo, ele engoliu em seco com os olhos fechados. Se recusou a ver mais. Talvez seus pensamentos tivessem paralisado pela sensação de vazio que vinha depois dos tiros, depois da morte. Ele apertou a mao no peito aberto, o sangue brotando como uma flor. E quando abriu os olhos ele gritou.
Sua mão correu para debaixo do travesseiro, pegando a Glock que deixava escondida em caso de problema e pulou para fora da cama áspera. Em um movimento ágil ergueu a arma com o braço direito, dobrou o esquerdo e colocou embaixo do direito, usando como apoio. Ele mirou para a porta suja de terra e tinta bege do cubículo em que vivia desde que sua família tinha sido assassinada.
— PORRA! — Vociferou o ex-soldado abaixando o cano da arma e passando a mãos calejada pelos cabelos compridos, sentindo que estava suado. Tinha dormido menos de quatro horas, percebeu ao olhar para o relógio, e ainda assim, tinha conseguido ressuscitar todos os fantasmas que o assombravam. — MERDA!
Sentando-se na cama, Frank sentiu uma sensação nauseante, como se pudesse vomitar todo o feijão enlatado que tinha comido a apenas cinco horas atrás, suas pernas parecerem fracas e a cabeça rodopiou. A quanto tempo ele não comia algo que não fosse oitenta porcento de conservante? Provavelmente mais de seis meses. Ele não ligava, não realmente. Não se importava se iria continuar vivo ou morrer dentro daquele quarto que fedia a merda e mofo. Nunca lhe ocorreu de se matar, entretanto, mesmo após tendo se vingado de todos envolvidos no assassinato de sua família. É claro, faltava apenas uma pessoa, ele se lembrou. Ele mesmo.
Frank colocou a pistola travada no cós da calça jeans e olhou para o relógio — ao lado da cama, apoiado na pia — mais uma vez. Eram três da manhã. O horário em que os demônios saem para caçar sua próxima presa. Castle secou a testa com o braço, seu olhar se recaindo para o chão, onde uma barata se encolhia no canto, perto das suas botas. Houve uma época em que ele teria esmagado o inseto, e se preocupado com a sujeira, ele teria se preocupado com sua esposa que teria ficado desesperada. Mas não mais, agora ele não tinha mais alguém a proteger, a cuidar, a amar. Castle nunca foi o tipo de cara romântico que se expressava por palavras, presentes ou até mesmo beijos. Mas ele sabia que a família era a coisa mais importante e que ele tinha falhado com a sua.
Frank se levantou. Deu dois passos e abriu a torneira, uma fino fio de água escorrendo para fora, ele afundou as mãos em concha em baixo e esperou alguns segundos até mergulhar o rosto e quando o ergueu novamente não reconheceu o homem do outro lado do espelho corroído pelo tempo. A barba estava comprida, assim como os cabelos que quase alcançavam os ombros. Será que algum dia ele realmente tinha sido aquele Frank Castle que tinha uma esposa e dois filhos? O ex-soldado fechou a torneira e se apoiou na pia, as mãos se apertando ao redor conforme as lembranças voltavam a sua mente como uma praga. Frank se questionou se aquele dia tinha sido mesmo daquela forma — com seus filhos alegres pelo seu aniversário e a esposa pelo retorno do marido — ou se ele apenas tinha decidido gravar na memória uma cena mais fácil de digerir. Uma onde sua família era feliz com ele.
Não quis pensar a respeito, então deu as costas para o espelho e pegou uma das camisas que deixava pendurada na janela e vestiu, sem se preocupar com o cheiro de suor na roupa ou com as manchas de cimento. Vestiu o casaco preto furado no bolso esquerdo, colocou as botas, a touca escura e saiu sem se dar ao trabalho de olhar para o homem desesperado e assustado do outro lado do espelho.
Nova York nunca foi uma cidade bonita, principalmente de madrugada, quando ela se tornava a cidade da culpa. Frank Castle pisou para fora do edifício, tomando cuidado para vestir o capuz do casaco. Varreu a rua frente discretamente, da mesma forma como tinha aprendido durante os vários anos de guerra, sua mão esquerda ajeitando o capuz quando ele seguiu pela direita, onde uma câmera estava instalada a quatro metros de altura. Aquele era o tipo de comportamento que não era ensinado no treinamento, mas que era aprendido na rua entre o pior tipo de gente, onde todos tentavam sobreviver e atrasar a morte mais um dia.
O homem ajeitou as mãos dentro do casaco fino, sentindo o frio úmido da cidade penetrar pelo seu corpo conforme ele atravessa o quarteirão, vez outra desviando de um bêbado que colocava as tripas para fora. Ele poderia ter se escondido do frio em algum bar, na verdade, ele tinha cogitado a ideia, mas, em vez disso, tentou algo diferente daquela vez. Ele aproveitou o tempo gelado, observando a respiração formar uma fina camada de fumaça conforme ele inspirava pelo nariz, agora avermelhado, e expirava pela boca. Sem perceber Frank tinha chegado à estação, seus pés tinham sido ágeis em levá-lo pelas escadas em direção ao metrô.
Era engraçado como seu corpo estava acostumado a certos hábitos, e este era um costume que nem mesmo os anos em campo de batalha foram suficientes para fazer com que se perdesse, aparentemente. Aquele era o melhor lugar para se esconder, passar o tempo, lembrou-se com pesar, conforme atravessa a catraca para entrar na estação mal iluminada. Estava relativamente vazia, o que era curioso, considerando que aquela era uma cidade que não costumava dormir. Haviam apenas alguns drogados encolhidos no chão enquanto alguns mendigos andavam com os olhos grudados no teto, tão loucos quando ele próprio, supôs Frank sentando-se em um dos bancos e apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto esfregava o rosto. Ele se agarrou ao breve período de silêncio.
Castle sentiu como se tivesse doze anos novamente e estivesse fugindo novamente do pai, as cenas da mãe sendo agredida como um animal passando pela sua mente de forma conturbada. Ele costumava roubar livros, quando ainda estava na Itália, entrava em uma ônibus ou metrô e ali ficava, o dia inteiro, lendo ou apenas estudando. Ele era um covarde por dentro e sabia muito bem disso. Não passava de um mentiroso de merda. Um desgraçado que deveria estar morto. Frank suspirou pesadamente, tirando o gorro preto e voltando a fitar o lugar e assim que o fez, percebeu uma figura nova.
Escondida entre as vigas vermelhas que ficavam ao lado do trilho, uma jovem loira se encolhia, os olhos tremendo de medo e o rosto pálido como a morte. Frank ajeitou a touca de tricô na cabeça novamente e se endireitou no banco. Ela já estava ali quando ele chegou ou tinha acabado de descer as escadas? A garota tinha passado despercebida pelos sentidos do ex-soldado, talvez porque ele estava aéreo, distraído com as próprias emoções. Mas ainda assim, ele não podia se dar ao luxo de baixar a guarda. Assim como ela, ele percebeu, quando as luzes começaram a piscar — indicando que o metrô estava chegando — e os dedos da garota ficaram brancos ao se agarrarem à pilastra. Engolindo em seco, a menina fechou os olhos, encostando a cabeça contra o metal gelado, seu corpo encolhido no chão.
Castle fitou a jovem garota com inquietação, ele tentou voltar a atenção em outro lugar, mas a forma como ela, fitava as escadas, quase o fazia acreditar que um dragão desceria por elas e atearia fogo naquele lugar. Ela parecia uma lunática. Usava um vestido azul claro, os cabelos loiros, quase platinados, estavam soltos e com nós ao redor de flores, galhos e folhas. Frank Castle se levantou, pronto para dar meia volta e encontrar outro lugar em que pudesse esfriar a cabeça quando a ouviu soluçar. Seu corpo estremeceu inconscientemente em resposta, ele se forçou a dar um passo para longe dela — sabia que aquela menina apenas lhe traria problemas se ficasse —, mas suas pernas se negaram a mexer. As luzes se apagaram e se acenderam de novo, e Castle vacilou ao ter um vislumbre de Lisa naquela garota. Elas não se pareciam em nada. Lisa costumava ser mais baixinha e tinha os cabelos castanhos na altura dos ombros. Ainda assim, algo se moveu dentro de Castle, gritando que aquela poderia ser sua Lisa ou seu David na mesma situação.
— Ei, garota! — Ele gritou com a voz apertada, sem perceber que as palavras saíram espontaneamente dos lábios. A menina ficou lívida, a boca aberta em um perfeito “oh” enquanto seus dedos se agarraram com mais força à pilastra, como se aquela coisa realmente pudesse a proteger de algo. Frank esfregou o rosto arrependido, mas já era tarde para dar meia volta e ir embora, então ele continuou. — Tá tudo bem? Quer que eu ligue para alguém?
Para uma ambulância talvez? As palavras pairaram no ar. Ao menos para ele, porque a garota se encolhia cada vez mais, fazendo com que ela escorregasse pelo piso sujo. Foi quando Frank notou que os pés descalços da garota estavam sujos, o sangue espesso formando uma poça pelo chão enquanto ela tentava se manter encolhida atrás da grande pilastra.
— O que fizeram com você, garota? — Ele suspirou, mas assim que as palavras escaparam pelos seus lábios, sons de passos pesados ecoaram das escadas.
“Quero formação tripla.” Uma voz abafada, pelo o que Castle supôs ser uma máscara, ordenou do alto das instalações. Qualquer resquício de suspeita de que o som vinha de apenas bêbados sumiu naquele exato instante. Frank tinha conhecimento o suficiente para conhecer aquela tática militar, então não foi difícil para ele deduzir que deveriam ter no mínimo nove pessoas, bem armadas, atrás daquela menina.
— Me ajuda. — Ela disse finalmente, os olhos marejados e a boca tremendo assim que o ruído aumentou. — Por favor.
O corpo dele se retesou ao pedido. O ex-soldado ergueu o olhar para a entrada novamente, com o rosto franzido. Frank Castle sacou a arma das costas e com a mão livre acenou para que a garota saísse dali.
Os olhos azuis da jovem brilharam em um agradecimento silencioso antes dela se levantar cambaleante.
BANG!
O tiro veio de um dos soldados de uniforme preto e máscaras coloridas, e acertou a barra de ferro, a menina gritou, escondendo-se novamente, com as costas à pilastra, que agora tinha uma bala cravada em sua estrutura metálica. Frank ergueu a Glock na altura dos degraus e atirou. O primeiro tiro não acertou nenhum dos homens que, agora, já estavam no pé da escada, escondidos atrás das paredes, mas foi o suficiente para desviar a atenção do esquadrão para longe da menina. Sem nenhum aviso, o homem à esquerda da formação atirou em Frank, mas ele foi rápido ao se abaixar, já havia antecipado aquele tiro. A primeira linha era a mais ágil, mas a que se cansava mais fácil. Ele se ajoelhou atrás de um dos bancos esperando a segunda onda de tiros.
A menina grudou as costas na pilastra. Os tiros ecoando como uma sinfonia contra Frank. As luzes piscaram e o ex-soldado aproveitou aquele breve instante para contra atacar, as faíscas da arma criando pontinhos avermelhados contra aquele breve segundo de escuridão. Alguém gritou como um animal enfurecido antes que as luzes se reacendessem a tempo suficiente para que Frank testemunhasse um dos homens, o que usava uma balaclava de caveira azul, daquele pelotão atirando contra o soldado que agonizava, caído no chão. Foi quando Castle percebeu que não eram soldados, mas assassinos muito bem treinados e com equipamento de primeira linha. O ex-soldado se ergueu sobre o banco e atirou a queima roupa, o vento forte batendo contra suas costas. O trem parou atrás dele que investia contra os soldados, criando uma brecha de tempo.
— ENTRA! — Ele gritou por cima dos tiros, dando um passo cuidadoso para trás.
Ele não soube dizer se garota tinha o escutado, mas esperou que sim porque os dois tinham apenas trinta segundos e a arma de Frank já estava leve em suas mãos.
Um dos assassinos, o que tinha caveira vermelha pintada na máscara, investiu contra Castle, saindo de trás da parede com uma submetralhadora. Frank pulou para trás, os braços cobrindo a cabeça segundos antes da explosão de balas. Os tiros se aproximaram rapidamente e ele ouviu passos pesados saindo de trás das paredes. Frank rastejou até uma das pilastras pesando a Glock na sua mão. Provavelmente tinha mais cinco tiros para oito assassinos bem armados. Castle se levantou, com as costas grudadas contra o ferro. Ele inspirou profundamente, buscando com o olhar vago a garota dentro do vagão e encontrando um rastro de sangue. Ele não teria que se preocupar com ela naquele instante ao menos.
O som da metralhadora cessou, indicando que já tinham chegado até ele. Frank saiu de trás da pilastra e atirou entre os olhos do primeiro soldado, o capacete fazendo um som engraçado ao se chocar contra o chão. O segundo investiu pela direita e Frank dobrou o braço, dando uma cotovelada no nariz dele. O terceiro — provavelmente da segunda fila — se aproximou atirando contra ele. A dor lancinante do tiro fez com que ele soltasse a Glock, mas com o outro braço agarrou o colarinho do segundo e o empurrou a sua frente, usando-o como escudo conforme o terceiro atirava.
Dar dois passos para trás exigiu todo seu autocontrole e força enquanto carregava o cadáver do homem. As portas do motor ameaçaram se fechar e com o braço ruim, Frank puxou a CZ 75 do coldre do assassino e atirou contra os seis que restavam conforme caminhava para trás. Ele abaixou a arma quando as portas estavam a apenas alguns segundos de se fecharem, e foi quando ele notou que a terceira fileira — que tinha como objetivo se infiltrar — tinha entrado pelas portas dos dois outros lados, cercando-o. Ele tinha deixado passar e agora estava preso. Os três soldados restantes se afastaram, os olhos pareciam sorrir presunçosamente enquanto as caveiras coloridas da máscara se erguiam para ler o nome da linha. Seguiriam por fora e esperariam por ele e a garota mortos até a próxima estação.
O vagão vibrou sobre seus pés e o metrô começou se mover. Frank segurou o braço ferido, sentindo a formigação escalar o corte, ao menos, o tiro tinha sido de raspão. Ele não teria que se preocupar em tirar uma bala do braço direito. O homem deu um passo para trás, fitando o chão sujo de sangue, não só dele, mas da menina que, agora, estava sentada sobre um dos assentos, com os olhos mortos, fitando-o. Os braços estavam cruzados e os dedos finos apertavam a pele exposta do braço, como se tentasse acordar de um sonho ruim.
Frank se ajoelhou em frente a garota, de modo que precisava olhar um pouco para cima para encontrar os olhos dela.
— Você vai ficar bem. — Ele garantiu, um tom de promessa escondido entre as palavras enquanto ele apertava o braço machucado, o sangue formando uma poça no chão. — Sabe porque não vão te machucar?
Ela balançou a cabeça e o justiceiro sorriu.
— Porque eu vou machucar eles antes. Agora se esconde embaixo das cadeiras e tampa os ouvidos.
E a menina obedeceu, seu corpo era pequeno, então não foi difícil para ela se apertar entre os assentos e o chão.
A porta da frente se abriu e o primeiro entrou, era baixinho e a caveira da máscara era branca. Frank ergeu a pistola para atirar mas o assassino foi ágil e pulou para a direita, correndo com o corpo abaixado. Os tiros ecoaram como explosões sobre os trilhos, até que as balas acabaram e Frank se viu sendo empurrado para trás, o chão cedeu sob seus pés e ele caiu. O assassino estava acima dele agora, com uma arma engatilhada e apontanda para sua cabeça, mas Frank ergeu as perdas e chutou os joelhos do homem. Um grito de dor escapou por detrás da caveira branca e o justiceiro aproveitou aquele instante para se levantar e jogar todo seu peso contra o assassino. O homem caiu, a cabeça batendo com força contra o banco, mais sangue se acumulou pelo chão.
Desta vez, Frank não esperou ouvir o som metálico da porta sendo arrastada e se levantou, caminhando a passos pesados pelo vagão quando a imagem de uma caveira verde surgiu do outro lado, pelo espaço do vidro. O justiceiro se escondeu ao lado da porta e assim que ela foi aberta, ele se lançou contra o de máscara esverdeada, agarrando o braço estendido que carregava a 44 Magnum.
BANG
BANG
BANG
O da caveira verde se contorceu, atirando inutilmente para os lado, enquanto o de trás — um de máscara vermelha — surgiu, e levantou a submetralhadora até a altura dos olhos. Frank jogou a cabeça para trás, batendo a cabeça com força o suficiente para ouvir o som do nariz do mascarado se partindo. O balaclava rugiu mas já era tarde, Frank já tinha tirado a arma de sua mão e atirou contra o ombro do vermelho. A submetralhadora caiu ao chão.
Foi questão de alguns segundos para o de verde tirar uma faca do coldre e avançar contra Frank, fazendo com que ele soltasse a arma. Ele se esquivou para trás, enquanto a lâmina cortava o ar a centímetros dos seus olhos. Ele estendeu os braços e prendeu uma o pulso do homem, enquanto o outro golpeou o rosto do mascarado. O justiceiro não parou quando ouviu o som do osso do homem sendo esmagado, muito menos o assassino caiu de joelhos. Quando o segundo homem atacou, foi em vão. Frank soltou o colarinho do esverdeado e apertou a mão ao redor do pescoço coberto pelos trajes pretos do vermelho. Ele grunhiu em sofrimento, mas Frank apertou os dedos ao redor do pescoço dele. O som do seu suspiro cessando lentamente até que corpo do assassino parasse de se contorcer e seus olhos se fechassem como se ele estivesse caindo em um sono profundo. O corpo caiu no chão com um baque quando Frank o soltou.
O trem diminuiu a velocidade, indicando que já tinham chegado à próxima estação. Ele se moveu com passos lentos até parar em frente a porta, tendo um vislumbre dos três assassinos — restavam os de caveira azul, amarelo e roxa —, ajoelhou-se e pegou a submetralhadora e assim que a voz metálica surgiu dizendo “Linha 15, por favor, desembarque do lado direito do trem” Frank ergeu a arma e um segundo depois as portas foram abertas e os três assassinos foram recepcionados com tiros à queima roupa.
Nenhum deles restou em pé, sangue fluía até mesmo atrás do colete a prova de balas e Frank se sentiu mais calmo durante aqueles segundos seguintes à morte, como se finalmente um zumbido de inquietação tivesse desaparecido de sua mente. Inspirou profundamente o cheiro de pólvora e sangue que se misturava ao cheiro característico de Nova York, e aproveitou aquele curto instante misericordioso de silêncio que só vinha acompanhado da morte. Até que os tiros recomeçaram.
BANG
BANG
BANG
BANG
CLICK. CLICK. CLICK. A garota puxou o gatilho da CZ 75 inutilmente, atrás dele e o corpo de um dos assassinos, o de máscara verde, tombou para frente, a um passo de matar Frank. Um corpo caído ao chão com os braços em um ângulo estranho, uma faca presa entre os dedos e a cabeça emoldurada pelo sangue. Castle correu até ela, tomando a arma de suas mãos de forma abrupta e a jogou para longe. No que ela estava pensando? Por que ela tinha saído do vagão? Como ela tinha aprendido a usar aquela arma? Por que ela tinha o salvado? Mas ele não deu voz a aquelas perguntas. Ele apenas deu as costas para ela e caminhou até a o corpo caído no chão, tomando o cuidado para virar o homem de barriga para cima antes de puxar a faca entre os dedos enluvados e degolar o homem.
O som da pele se partindo e o sangue borbulhando pelo corte foi prazeroso para ele conforme suas mãos tomavam uma cor mais quente. Assim que Frank sentiu a cartilagem sobre a lâmina da faca ele a soltou com um suspiro quente de quem acaba de correr uma maratona.
— Agora ele está morto. — Declarou o ex soldado passando as costas da mão sobre a testa suada. Por mais que odiasse admitir, ele sabia o que estava fazendo. Estava tentando diminuir o peso de culpa da garota por ser uma assassina e ele desejou que desse certo.
A garota trocou o peso dos pés, seu rosto se franzindo em uma careta enquanto só braços tremia, talvez de frio ou então de dor. Ele acenou para ela, como se tentasse dizer que estava tudo bem. Ficaria tudo bem, por mais que ele duvidasse disso.
Ainda ajoelhado ao lado do corpo, Frank se inclinou para frente, seus dedos vermelho puxando para trás a máscara verde, revelando o rosto de um homem moreno de cerca de vinte e cinco anos com uma cicatriz que descia do lado direito da testa até a bochecha esquerda. Virando a cabeça do rapaz para o lado Frank notou apenas uma palavra, “Filho” segundo por um código. Ele empurrou o corpo do rapaz novamente de barriga para baixo e com a faca descartada rasgou uma parte do casaco, revelando uma parte de uma tatuagem em suas costas, mas era o suficiente para saber o todo. Uma águia devorando o fígado de um homem, um Titã.
Quando Frank Castle se ergueu do chão, com os olhos arregalados e esfregando o queixo — o que lhe permitiu uma macha de sangue no rosto — ele não disse nada até erguer os olhos do corpo até a menina. Por algum motivo, o maior grupo de crime organizado da cidade de Nova York queria ver ela morta e parecia estar disposto a usar artilharia pesada para isso. Ainda que isso pudesse acabar revelando a posição deles dentro da cadeia alimentar. Uma movimentação muito abrupta por apenas uma garota não representava ameaça aparente.
Ela deu um passo para trás, as pernas falhado antes que ela se apoiasse sobre a viga, como se ela soubesse exatamente no que ele pensava. Talvez porque ela soubesse, afinal, não era todo dia que um esquadrão de assassinos era enviado para eliminar apenas uma pessoa. Não, geralmente as operações eram silenciosas. Um assassino que fazia uma morte parecer acidental, quase como trabalho divino.
Frank Castle deu passo para mais perto dela. O metrô se agitou, prestes a partir para a próxima plataforma que com sorte, estaria vazia também, dando mais tempo para que eles fugissem.
— Acho que você me deve uma boa história do porquê os Filhos de Prometeu estão atrás de você, garota.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top